Por questões de organização administrativa (ou não) só foi decidido na sexta à noite que eu iria mesmo cobrir o evento de segunda-feira na Boa Morte, na cidade de Cachoeira. E eu fui. Chegando lá às 12h, os hotéis estavam lotados e eu fui encaminhada ao único pedaço de chão batido disponível na cidade. Era uma grande casa colonial com cômodos para alugar – banheiro coletivo, decoração de filme de terror e quartos divididos entre si por TAPUMES DE CONSTRUÇÃO CIVIL – cenário que eu achei fino, achei classudo, achei muita idiotice minha não ter ido embora imediatamente. Mas a pauta era boa, não havia outra opção, despachei as malas e fui para a rua.
A procissão já havia começado e acredito que existiam, em média, 538 fotógrafos para cada nativo que desfilava. Suponho que a verdadeira tradição exótica de Cachoeira seja assistir a imprensa baiana acotovelelando-se aos gritos pelas ruas do evento todos os anos. Fazia um lindo dia de sol e posso afirmar, sem o privilégio da metáfora, que era possível fritar um ovo na minha testa. Calooor. Então, neste ambiente de hospitalidade, sou cutucada por um ilustre e caloroso desconhecido:
– Oláááá! Você lembra de mim?
– Não.
– …
Gentileza, teu nome é Mariana.
Dois segundos depois, um lampejo: ele era um dos veteranos dos meus remotos anos de faculdade que me fazia rodar o campus inteiro atrás de papel de carbono pautado, chave de fechar balanço, ENVELOPE REDONDO para correspondência circular, entre outras babaquices.
– Ahh…
– Lembrou de mim?
– Sim, lembrei.
– Mesmo? Como lembrou?
– Ah… você era muito característico.
Eu ia responder o quê? Por que eu te detestava? Por que eu não gostava de você, por que eu queria te matar? Escapei pedindo licença, abandonei o cortejo e aproveitei o fluxo para ir ao prédio da prefeitura.
– Bom dia. Eu sou jornalista e gostaria de entrevistar o secretário responsável pela coordenação da festa.
– Aquele fuleiro? Escafedeu-se, binha. Esse nigrinho resolveu sumir, é brincadeira? Mas já ele aparece.
– Obrigada.
Em seguida, entra na sala um rapaz vestido de baiana com um torso e flores na cabeça. Era o secretário.
– Bom dia, secretário. Meu nome é Mariana e eu gostaria de entrevistá-lo para falar sobre a festa da…
– A FESTAAAA!
– Isso, a festa da Irmandade da Boa Morte. O senhor teria uma previsão de quantos turistas a cidade recebeu este ano durante…
– Quer casar comigo?
Ele. estava. bêbado.
– Seria um prazer, mas antes eu gostaria de ter um depoimento sobre a festa da…
– A FESTAAAA!
– Ok, eu volto amanhã.
Na mesma rua, havia a casa de samba de roda da Dona Dalva, uma matriaca de Cachoeira. Muito simpática, ela me recebeu para a entrevista que, como de costume, foi muito objetiva – começamos falando sobre samba de roda e, duas horas depois, estávamos tendo uma discussão acalourada sobre a existência de discos voadores no Recôncavo baiano – e retornei para o hotel no fim da tarde. Antes de entrar no quarto, tive que voltar para informar à recepção sobre um pequeno problema de ordem prática (o forro de madeira do meu quarto DESABOU EM CIMA DA CAMA E DESTRUIU A LAJE, tipo assim, dava pra ver o CÉU) e descubro que Envelope Redondo está hospedado na mesma birosca que eu:
– Eu cheguei no sábado, peguei um quarto com varanda.
– Eu cheguei hoje, peguei um quarto com teto solar.
– É mesmo??
Só então a recepcionista me transferiu para uma nova acomodação. Uma espécie de calabouço sem janelas, oxigênio ou luz natural – provavelmente uma instalação negreira do século XVIII, afinal, hospedagem também é cultura – onde eu entrei resignada e nem reclamei já que, né, se a coisa continuasse naquele ritmo, eu ia terminar o dia algemada na senzala.
Quando saí novamente, já era noite. Jantei sozinha num bar próximo e depois, bem, não havia muito o que fazer. Era hora de buscar entretenimento noturno realizando o roteiro de turismo típico das cidades do interior baiano – visitar a praça, o coreto, a prefeitura, a delegacia, o Banco do Brasil, a praça, o coreto, a prefeitura, a delegacia – e, em meia hora, eu já estava de volta ao hotel assistindo novela. Envelope Redondo reaparece:
– E aí? Já deu tempo de visitar todas as atrações da cidade?
Fui dormir. De madrugada, em algum lugar do corredor, havia uma torneira aberta gotejando.
Gotejando.
Gotejando.
Gotejando.
Gotejando.
Gotejando.
De forma que eu concluo que não se tratava de um acaso, mas de uma ferramenta de tortura tomabada pelo hotel. Insone, sigo oito da manhã para a porta da prefeitura:
– O secretário já chegou?
– Aquele fuleiro?
– Alguém do gabinete vem hoje?
– Vá pra casa, minha filha.
– …
– Que foi?
– Pra que lado fica a rodoviária?
– No fim desta rua.
O ônibus só saía ao meio-dia, mas eu fui seguindo para lá. Daria para matar o tempo e, sei lá, afogar as mágoas numa empada de frango com Fanta. Se tivesse sorte, até podia me apoiar num balcão de um desses bares com ventilador de teto e cadeiras plásticas – ou seja, curtir a cidade. Chegando ao fim da rua, não havia nada. N.a.d.a. Só um pátio coberto, um ferro velho, tudo deserto. Vários carros desmontados. E eu tinha que aguardar ali.
Aí, né, tive um devaneio.
É um golpe. Só pode ser um golpe. Pior, é uma dessas reportagens de denúncia. Me mandaram para cá, eu entrei num esquema de desmontagem, contrabando e lavagem de dinheiro, vou ser presa a qualquer momento e, domingo, vou aparecer no Fantástico com quadradinhos na cara e voz de pato falando “eu não sei o que aconteceu, eu fui envolvida no esquema. Eu sou inocente, eu só queria uma empada de frango”.
Mas não era um esquema. Para surpresa de toda a nação, o ônibus chegou, parou no meio do nada e eu subi pronta para voltar à civilização. Por fim, o coletivo segue e tudo parece terminar bem – sossego, música de fundo, as letrinhas subindo na tela – a odisséia havia acabado. Eram 11:58 quando, na última esquina da cidade, havia um ponto de ônibus. Quem sobe? Hein?? ENVELOPE REDONDO. E senta ao meu lado dizendo: olááá. O relógio marca 12h. Fim.
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Sabe o que me desespera? Hoje ainda é terça-feira.
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