E tudo aquilo que eu entendia como saudade, exílio, a falta da minha terra, das minhas ruas, da minha gente, esta dor quase física de membro arrancado que ardia a cada esquina daquela cidade estranha, tudo isso na fala daquela moça era uma certeza mansa, uma sina, um destino simples, duro, pródigo, uma aceitação plena de caber-se inteira em seu lugar a qualquer tempo, hoje, amanhã ou depois, sendo ela mesma o pedaço prometido da terra que a aguardava – não hei de morrer sem voltar aos meus, gaja, ao chão dos meus pais, ao pó do chão natal. E ia tirando do bolso uns papéis, mostrou-me num mapa uma ilhota no Atlântico, São Tomé de Príncipe, perto da Nigéria – é longe daqui, muito longe. Também abri minha bolsa, mostrei-lhe fotos, postais, registros, fósseis de uma civilização inteira que agora vive sem mim, tudo sobre a mesa, a alma exposta. Com a mão negra escolheu um objeto, trouxe a mim e apontou para perguntar:
– Mas, diz-me, e essas chaves? São do teu alojamento?
– Não. São da minha casa.
– Acaso levas em punho as chaves de tua morada no Brasil?
– Pois é, esqueci de guardar.
– Ah, sei. Entendo que leve-as assim, rapariga. A nós, estrangeiros, nunca sabe-se quando há o ponto de regressar. Tens sorte, gaja. Ainda tens as chaves de tua casa.
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Pródiga
Posted in raspas e restos (crônicas), vasto mundo (viagens) on março 8, 2009| 5 Comments »
Chegada
Posted in vasto mundo (viagens) on março 6, 2009| 3 Comments »
O primeiro problema não é a saudade, nem é o sotaque, nem é a Polícia Federal. O primeiro problema de quem chega aqui, sem dúvida, é o banho. Laguei a mala, peguei minha sacolinha e fui para o banheiro – coletivo. Depois de tirar o primeiro dos 6 casacos, comecei a me perguntar o que foi mesmo que eu vim fazer tão longe de casa. O frio congelando os meus músculos, nervos e ossos de uma vez só feito um x-man, último episódio – poderes do ártico, avançar! – acho que foi o banho mais demorado da minha vida. Aqui, não tirar a roupa é uma questão de sobrevivência. O que, aliás, me fez refletir: qual é mesmo a dificulade dos cientistas para explicar o decrescimento demográfico nos países europeus? Bom, mas isso já é um outro assunto.
No corredor, algumas estudantes conversavam numa linguagem que eu acredito que jamais, em toda a minha vida, vou conseguir compreender. Volto para o meu quarto onde há um guarda-roupas de mogno, um chão de carpete e um bidê – não, eu não me hospedei num museu – e reforço a armadura anti-poderes-do-ártico até me sentir, mais ou menos, como os astronaltas devem se sentir dentro de suas roupas. E desço para o almoço.
– A que horas sai o almoço?
– Opa, nós não servimos almoço. Só um pequeno almoço e um jantar.
– Tudo bem, pode ser um pequeno almoço mesmo, não tem problema. Estou com pouca fome – menti.
– Este é servido às 7h, pá.
– Vocês almoçam às 7h? E a que horas sai o café, às 3 da madrugada?
– Hum? Que disses?
– Nada, eu vou comprar um sanduíche. Obrigada.
Decido escovar os dentes, volto para o meu quarto – esqueci que o quarto não tem banheiro. Volto para o corredor, vou para o banheiro, todas as pias ocupadas. Volto para o quarto. Resolvo entrar na internet, mas no quarto não há tomadas, vou pra sala de informática, acho um computador vago, conecto, o que é pequeno almoço? Significa café-da-manhã. As pessoas continuam conversando naquele dialeto estranho. Hora de outro estudante conectar, deixo o computador, volto para o quarto. E concluo: num albergue, a questão não é a coletividade. O problema são as pessoas, entende? A coletividade é linda: é politicamente correta, exercita a fraternidade e facilita o surgimento de novas amizades. O que atrapalha tudo isso são os seres humanos. Eles ocupam muito espaço.
Coloco o mochilão nas costas e saio pelo portão. Com uma curiosidade enorme. E uma fome absurda.
Vôo 745
Posted in vasto mundo (viagens) on março 5, 2009| 7 Comments »
– O passaporte, por favor.
– Pois não.
– Senhorita, essa é a sua carteira de trabalho.
Tudo bem, tudo bem, sem desespero, a Polícia Federal não é o juízo final. Entrego o passaporte, ele sorri, deseja boa viagem e lá vou eu. Nove horas de vôo na classe econômica, o passageiro da frente praticamente sentado no meu colo, 007 passando na tv, James Bond no avião dele, eu no meu. Vamos subindo, as luzes ficando pequenininhas lá em baixo, eu na janela – curiosidade: Salvador é dividida em duas partes, as primeiras luzes são ordenadas, formam retângulos, tipo planilha de excel. O resto é um emaranhado só. Do meu lado, uma cadeira vazia – oh – deitei e dormi. Só acordei com a chegada do jantar, o comissário me perguntando coisas em inglês – hã? – até que, trac, tudo pulou. Turbulência, eu acho. A nave tremendo, as luzes ocilando e aquela ligeira sensação de queda livre, que virou uma grave sensação de queda livre, o comandante no auto-falante: senhores passageiros, apertem os cintos. Não era para ele dizer algo apaziguador, tipo, mantenham a calma, está tudo sob controle? Algumas malas caindo no chão, as crianças chorando e eu tentando comer mas o prato não parava quieto na mesinha. O avião do James Bond pegando fogo e caindo até a hora em que a tv desligou, junto com a luz. E o pior: o meu jantar sumiu! Durou uns cinco minutos, muita gente passou mal. Depois os comissários trouxeram remédios, cobertores, travesseiros e nenhuma comida. – I need comer food. I have fome. I don’t jantei. – What? – Deixa pra lá.
Depois aterrizamos na terra mais fria que meus pés já experimentaram. E eu lá, arrastando aquela mala de 30 quilos pelo aeroporto no melhor estilo Penélope Cruz, em Volver, na cena em que ela passava pela rua com um cadáver inteiro escondido na sacola, de salto, indefectível, meu nome é elegância. Pego a fila para a Polícia Federal novamente, respiro fundo, muito natural, cara de quem faz isso todos os dias:
– Passaporte, por favor.
– Pois não.
– Senhorita…
– Sim???
– Boa estada.
– Obrigado, obrigado.
Nunca tinha chegado sozinha a um lugar onde ninguém me esperava. Ninguém. No saguão, famílias se espalhavam com cartazes, gritinhos, presentes. Faziam festa aos parentes regressos. Nada daquilo era pra mim, eu sei. Mas era como se fosse.
Lisboa
Posted in moleskine, raspas e restos (crônicas), vasto mundo (viagens), tagged Lisboa, mariana miranda on janeiro 21, 2008| 7 Comments »
Ele tinha momentos eventuais de silêncio que tornavam sua conversa um prazer. Não que sua atenção se perdesse num ponto qualquer ou ensimesmasse em introspecção – não era um homem de fugas. Quando falava sobre determinado assunto, desmanchava-se em adjetivos até não lhe sobrar nenhum, para, então, deixar-se estar reticente, como se o discurso continuasse em cavalgada própria, sem as suas palavras.
– As casas de Lisboa são sabiamente firmes, de uma engenharia robusta, altiva, arrojada… – silenciava fixo nela, libertando o subtexto para prosseguir mudo, paralelo, infinito. Como se seus olhos, então, pudessem guiá-la pelas muralhas seculares da cidade, pelas escadarias sinuosas esmaltadas com óleo de baleia, pelas ruas místicas e ruidosas ou por tantos outros pormenores que não seriam compreendidos pela cognição. Até onde iriam? Não há centímetro no mundo que não seja interessante – concluía.
Ele que, por ironia, nunca havia saído da terra onde nasceu, oferecia a ela o que não possuía: as lembranças de suas viagens futuras que, de fato, talvez nunca chegassem a atravessar a rua. Sem saber, entregava o mapa de um tesouro difícil, uma beleza que ela não reconheceria em lugar nenhum. Mas o roteiro já estava traçado. E ela cruzaria trópicos, continentes e oceanos, percorreria ilhas, campos e metrópoles, mas lugar nenhum lhe bastaria e ela sabia disso. Por que ouvi-lo falar de Lisboa era melhor do que Lisboa. Por que o mundo era ainda mais belo pelos olhos dele.