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Archive for the ‘vasto mundo (viagens)’ Category

O Uruguai se localiza no extremo ocidente do planeta, mas o nome oficial do país é República Oriental do Uruguai. Aqui, há um rio que se chama “Seco” e um presídio que se chama “Liberdade”. Aonde estão os detentos? Estão em Liberdade. O maior cantor do Uruguai é o Carlos Gardel, famoso pelos tangos argentinos. O maior rio do país é o rio da Prata, que tem uma água salgada e incontestavelmente dourada.

Nas mesas do Mercado del Puerto, os jovens uruguaios brindam com a frase: “a tudo que não chegou a acontecer”. São todos tão doces e tão gentis e tão confusos. Identificação nervosa, gente.

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(Montevideo e Punta del Este, 19 de setembro de 2013, 12 graus)

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No cruzamento da avenida de Berna
Na calçada onde a gente trabalhava
Quando chovia granizo e era preciso correr
Nos abrigávamos debaixo do viaduto
Fardados, batendo os dentes de frio
E falávamos sobre coisas distantes

Na cidade onde eu nasci
O rio cortava os campos de trigo
Na cidade onde eu nasci
Havia figos no alto da serra
Na cidade onde eu nasci
Eu tinha carro, emprego, amigos
Eu tinha uma mãe, eu tinha um amor
Eu tinha um cachorro e uma canoa
Na cidade que eu abandonei
Para estar aqui, debaixo do viaduto

Às vezes, alguém cantava uma canção de longe
Às vezes, alguém chorava de cabeça baixa
Falando de Delhi, Praia, Luanda
E aquele inverno parecia que não ia terminar nunca

(Existe qualquer coisa de cimento concreto
Cansaço, fuligem, betume
Que grifa a pele de quem já trabalhou pelas ruas)

Anos depois, cada um voltou
Para a sua cidade de berço
E houve fogos e choro e festa
E silêncio
Às vezes, chega carta de alguém

E eu sempre tenho o pressentimento
(Mentira, uma certeza severa)
Que nenhum de nós conseguiu
Voltar para o que deixou
Nem aos figos, ao trigo, ao campo
Nem aos braços do amor perdido
Nem à terra que foi prometida
No cruzamento da avenida de Berna

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Este livro, do João Correia Filho, é um guia turístico-literário que conta a história de cada bairro de Lisboa através de poemas, músicas e trechos de romances. Há, por exemplo, fotos e mapas de como chegar às casas citadas por Eça de Queiroz. Ou onde fica o bar do livro do Baptista-Bastos, o miradouro do poema de Bocage ou a esplanada descrita por Inês Pedrosa. E aonde comer as sardinhas fritas da história do Saramago. E todos os cafés e esquinas e estradas de Fernando Pessoa.

Olha, os lusitanos que me perdoem, mas eu não quero mais ir à Lisboa.
Eu quero morar dentro desse livro.

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“Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me esforço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir
Se não parar, mas seguir?
Vou passar a noite em Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena
De não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito,
Sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre
Esta angústia excessiva do espírito
Por coisa nenhuma
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho,
Ou na estrada da vida…”

(Álvaro de Campos, Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra)

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“E o policial perguntou para a criança:
– De onde és?
– De Lisboa.
– Sim, mas de onde, de que sítio?
– De toda.”

(Baptista-Bastos, Lisboa Contada pelos Dedos)

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“Se, na manhã seguinte, Lisboa não estivesse mergulhada naquela luz deslumbrante, pensou Gregorius mais tarde, as coisas talvez tivessem tomado outro rumo. Talvez tivesse seguido diretamente para o aeroporto e tomado o primeiro avião para casa. Mas aquela luz impedia qualquer movimento de retorno. Seu brilho transformava tudo o que pertencesse ao passado em algo extremamente distante, quase irreal.”

(Pascal Mercier / Comboio Noturno para Lisboa)

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(Fotos feitas de janeiro de 2013)

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Hoje, ao chegar em casa e abrir o meu armário, felizmente, reencontrei o meu guarda-chuva. Achei que tinha perdido. E já estava supondo que, a esta hora, ele estaria esquecido debaixo de alguma mesa de bar, seguindo sozinho num taxi ou sendo gentilmente oferecido por um manobrista para o dono errado. Por sorte, ele estava bem aqui, entre os livros da última prateleira. E, como disse, foi mesmo bom encontrá-lo de novo.

Esse guarda-chuva foi comprado numa viagem, na última que fiz, para a Turquia. Uma odisseia meio improvisada, com direito à mochila, estrada, graus negativos e gente inusitada. Não faltaram pratos exóticos pegando fogo, jipes atolados, dromedários em fuga e aviões perdidos. E noites dormidas no chão. Molhado. De uma caverna. Um passeio com aventura o suficiente para me fazer questionar a veracidade dos filmes de aventura – onde, necessariamente, tudo sempre dá certo e, no intervalo, ainda se pode levantar do sofá para buscar mais pipoca.

Logo no início da viagem, quando ainda estávamos decidindo entre enfrentar um nevoeiro em Éfesos ou a ressaca do Bósforo ou um levante armado em Akcakale, começou a chover. Era uma tromba d’água. Todos os outros casais correram para debaixo das marquises e nós entramos numa loja de guarda-chuvas. Havia dezenas na vitrine. De todos os tipos. Agarrei um de plástico incolor, sem estampa, só por que me pareceu familiar. Talvez por causa daqueles versos infantis sobre “uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada” ou dos provérbios antigos em que “só não joga pedra quem tem telhado de vidro”. Talvez estivéssemos protegidos sob aquela coisa transparente, como se protege um objeto frágil com plástico bolha. Enfim, deu-se a compra do guarda-chuva e fomos embora.

Nos dias seguintes, o roteiro foi dividido entre escaladas sobre-humanas, cidades subterrâneas claustrofóbicas, deslizamentos de terra e balões aterrissando desgovernados, derrapando na grama e arremessando os passageiros no chão. Quer transformar a sua viagem romântica numa saga de suspense selvagem? Pergunte-me como. Já no meio da peregrinação, houve uma noite em que nos perdemos. Plena madrugada, alto da montanha, nenhuma comida e aí começou a chover. Um frio de encolher catedrais. E, talvez por que não houvesse mesmo mais nada a fazer naquela hora dramática – céu fechado, nuvens de chumbo, trombetas anunciando o Apocalipse – eu desisti de procurar o caminho certo e abri o guarda-chuva. Mas aquilo não era chuva. Era neve branca.

Foi uma surpresa bonita. Nunca tínhamos visto neve. E seria impossível perceber se a cobertura não fosse transparente. Sentamos ali mesmo, no alto daquela pedra, pra ver o plástico ir ficando alvo. Em silêncio. Encostados um no outro. Com aquela paisagem lunar brilhando lá embaixo.

Isso já faz algum tempo e, mesmo assim, tantos meses e quilômetros depois, eu gostava de reencontrar o velho guarda-chuva no armário. Ele me fazia lembrar daquela noite, da neve, daquele instante em que eu percebi que tinha feito a escolha certa. Foi bom saber que o meu guarda-chuva não estava rodando sozinho num banco de taxi, que não se perdeu, que sempre esteve ali. No fundo, é estranho pensar que a maioria das nossas coisas – pedacinhos nossos, partes da nossa vida – podem simplesmente se dissipar no meio do caminho. Que quase tudo está de passagem. Mas o que tem que ficar, fica.

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“Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.”

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(Lisboa, 3 de janeiro de 2013, 7 graus)

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“Por que o cinema não filma um rio? Um rio inteiro, um rio sem fim, um Amazonas que encontrasse o Tejo e se misturasse ao Nilo? Esse supergrande rio dos rios, fluindo em sua fuga, passando como um trem passa pela água escura dos túneis, esse rio não seria um sucesso de bilheteria?”

(Fernando Monteiro / Aspades)

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(Lisboa, 01 de janeiro de 2013, 7 graus)

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Chega um momento na vida em que você descobre que ficou velho demais para ser pobre. Um dia, você descobre – e esse momento chega pra todo mundo. Mas como ter certeza? Ou você amarga uma restrição orçamentária franciscana ou enfrenta os limites da senilidade. Ou velho ou pobre. Não se pode ter tudo nessa vida.

Esta escolha, este rito de passagem, pode acontecer com o auxílio de uma entidade turística conhecida como “albergue”. Albergue é uma espécie de estabelecimento hoteleiro tosco e de baixíssimo custo, você já deve ter ouvido falar. Sei de peregrinos que viajaram o mundo inteiro em busca desta resposta – e só a encontraram com a ajuda de um albergue. Ah, um albergue. Nunca duvide do poder revelador de um albergue.

Você se hospeda lá e descobre. Desvenda, de repente: meu Deus, meu Deus, como eu estou velho.

Um dia, no albergue, você acorda e descobre que ficou velho demais para subir os cinco andares de escada com sua mala, sua comida e seus pertences de viagem. E percebe que está cansado demais para carregar os baldes de água do seu próprio banho. Que está moído demais para lavar, no tanque, o seu próprio edredom. Idoso demais para, depois disso tudo, ainda ousar fazer turismo.

Mas as evidências do passar dos anos não se encerram apenas no esgotamento físico, envelhecer é uma experiência completa, é um estado de corpo e de espírito. Velho gosta é de RECLAMAR! Devemos citar, é claro, a nossa rabugice emergente que revela-se no interior destes estabelecimentos quando as portas não fecham, quando as janelas não abrem, quando nada funciona. E o nosso descontrole emocional frente aos banheiros compartilhados, os corredores lotados, os adolescentes bêbados, os rádios ligados todos ao mesmo tempo quando tudo o que você queria, depois de uma longa viagem, era o benefício, o luxo, a dádiva de uma noite de sono para que seu corpo descanse (em paz).

Ah, dormir! Na sua casa você era feliz e não sabia, certo? Errado. Na sua casa você apenas desconhecia a sua verdadeira idade. Acredite, houve um tempo em que nada disso te incomodaria. Hoje, essa verdade emerge como uma força vulcânica e você descobre que, sim, dormir no chão é ofício para os jovens! – essa raça longínqua, esse animal selvagem. Qualquer pessoa com mais de 12 anos de idade sabe que deitar naquele tatame é um ato bárbaro, uma transgressão, uma violência contra as vértebras da sua espécie – homo sapiens no topo da cadeia evolutiva, ereto, inteligente e reumático. Há séculos a sua permanência neste planeta precede a existência de um alfabeto, de uma constituição e, pasmem, de um colchão. De mola. Ortopédico! Não sei aonde está a Organização Mundial de Saúde que não vê isso.

Mas albergue não é só anatomia, é também geopolítica! É o pleno exercício da democracia: tem fila pra tudo. Fila tomar banho, fila para lavar a roupa, pra acessar a internet e pra escovar os dentes num balde. E democracia é liberdade de expressão: também tem briga, tem faxina rotativa, tem festa estranha, tem seringas no chão, tem corredor interrompido por que os muçulmanos estão de joelhos rezando para Alá. Vai ter indiano horrorizado se você tentar comer um hambúrguer e judeu horrorizado se você ousar comer um hot dog. Isso é cozinha comunitária: as pessoas fazem auditoria sobre a sua comida e ainda consomem o iogurte que você guardou na geladeira, consomem o queijo que você guardou na geladeira, consomem até o salmão que custou TRINTA E CINCO DINHEIROS e que você CAMUFLOU SOB FOLHAS DE ALFACE na maldita geladeira – sem o mais longínquo constrangimento, afinal, somos todos milionários.

Já falei que velho adora reclamar?

E ainda há os banheiros. Na maioria dos albergues, as instalações sanitárias são antigas. Mais exatamente da Roma Antiga. As rachaduras são do tempo de Nero, os vazamentos do tempo de Augusto, os vasos sanitários foram moldados ao gosto dos doze Cézares. Quanta honra. Melhor do que isso, só se o estabelecimento promovesse orgias públicas e leões engolindo cristãos – procedimentos que, devemos concordar, nos criariam problemas conjugais e de Direitos Humanos, contentemo-nos com menos. Vasos sanitários épicos já são o máximo e qualquer albergue é mesmo assim, é puro aprendizado. É arte, é história, é desapego. É o neo socialismo hippie compulsório. É a sociedade alternativa de baixo orçamento. É puro amoooooor.

Como não ansiar pela presença reveladora dos albergues na minha vida?

Então: se você também procura por essa resposta dentro do seu coração, experimente. Oportunize ao seu corpo descobrir a idade da sua alma, permita à sua alma descobrir a idade dos seus joelhos, das suas vértebras, da sua lombar. Viagem é pesquisa, é autoconhecimento: eu estou velho demais para ser pobre ou estou pobre demais para ser velho? Sem dúvidas, este é um momento de decisão. Ou velho ou pobre. Não se pode ter tudo nessa vida.

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Foi a primeira vez em que eu ouvi falar sobre o “dourado vago de Istambul”. Eu sabia que, depois daquele livro, iria procurar pela “Cabeça de Calcário”.

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“Apaixonara-se, na juventude, por uma pequena cabeça de pedra calcária branca. Tinha um nariz inteiro e uma coroa alta, intacta. / A cabeça parecia trazer, do muito remoto, o rumor de pequenos pés descalços em pisos decorados e noites de silêncio à margem de um rio esquecido. / Agora que comprara a cabeça, tinha algumas dúvidas dentro da sua, dormia menos e não sabia onde colocar aquela coisa que perturbava a mente com pensamentos novos. /

/ Era moço e tinha medo, recém-casado. A vida ia mudar e precisava enterrar o que não viria mais do lado oculto do acaso. Encerrar a cabeça numa caixa fora o modo de guardar as possibilidades intactas, e seria o modo de preservar os dias de volta de esperança do oásis da juventude: ali, o vazio com o objeto no meio da serragem seria a parte oculta daquele lado, escondida entre as dobras dos dois atos: encontrar e guardar, ou guardar e esperar pelo dia em que tudo lhe parecesse mais vazio que o tanque de peixes do parque abandonado. / Tudo era como aquilo: a ausência, numa caixa.”

(A Cabeça de Calcário / Fernando Monteiro)

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Refazendo, por terra, a rota das cidades de Noé, Abraão, Sansão, Dalila, Cleópatra, Virgem Maria, São João, São Paulo, Colossenses, Gálatas, Efésios e de um monte de gente fina, elegante e sincera que fez história por aqui.

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(Izmir, Turquia, 15/12/2012, -3 graus)

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E, por fim, ela me disse que achou a cidade feia. Feia? Feia. Eu não soube o que responder. Aquilo me surpreendeu como se fosse um tapa, como se tivessem ofendido à uma mãe ou a uma irmã – como assim feia? Quase comecei uma defesa contrariada, por que aquela opinião me parecia absurda, mas então olhei novamente para as fotos de viagem dela, que mostravam um cruzamento do centro antigo, aquelas ruas que eu amava e, como se o afeto fosse mesmo uma cegueira burra e passageira, pude reparar agora na imagem do lixo nas ruas e até mesmo em alguns pedintes mais ao fundo, como se a pobreza fosse um elemento novo na paisagem, encaixado discretamente entre uma casa e outra, entre uma praça e um parque – e, sim, aquilo podia ser considerado feio. A pobreza. Principalmente, se relacionada a tantas outras capitais ricas que tanta gente já conhece e fica difícil evitar comparações. Em nenhuma das fotos anteriores eu havia reparado nisso. A gente só vê com o coração.

E a conversa perdeu a graça e tudo o que eu queria agora era ir embora para casa, arranjei uma desculpa para me recolher ridiculamente ofendida – feio é o resto do mundo, ia pensando. Mas a verdade é que, nas fotos, a cidade brilhava menos que na lembrança e, de repente, me deu vontade de ir até lá e me deu medo de ir até lá. Lembrei de uma frase de Machado: “As coisas valem pelas ideias que nos sugerem”.

Que seja. Talvez se ame mais a um lugar pelo que se viveu nele do que por suas características e, às pessoas, mais pelo que nos fazem sentir e menos pelo que são, objetivamente. E a verdade é que Lisboa, antes de materializar-se num chão de aeroporto, já era um amontoado de símbolos dispersos no meu imaginário – era o último cais para as Américas, era a “praia ocidental” de Camões, era o solo selado com óleo de baleia das histórias de meu avô. E eu já a amava. O estrago já estava feito.

E, depois, os dias de juventude e intensidade vividos lá transformariam mesmo qualquer endereço num ponto dourado do meu mapa pessoal. Podia ser qualquer lugar. Mesmo hoje, quase dois anos depois, ainda me pego falando de determinada esquina, fazendo comentários sem motivo sobre algum edifício e me assombrando com o fato de já não lembrar o nome de uma rua secundária, de uma taberna ou de uma loja de bairro. Mas eu falo muito sobre Lisboa. E a verdade é que não faltam curiosos ocasionais dispostos a ouvir sobre as suas escadarias intermináveis, sobre os seus cafés subterrâneos, sobre suas casas mais velhas do que os mais velhos seres e elementos sobre a terra e sob as águas.

Lisboa é assunto meu. E é certo que, hoje, as minhas narrativas são verdadeiras. Tudo o que falo é constatável por qualquer um, mas algo me diz que, por força do tempo ou por uma predisposição natural ao eufemismo e à hipérbole, talvez, um dia, estas minhas histórias se modifiquem. Especialmente na velhice, quando falta-nos testemunhas e sobra-nos imaginação, o fato é que já me vejo numa grande cadeira de balanço contando longamente sobre a cidade fabulosa que marcou os dias da minha juventude.

Talvez os filhos perguntem pelas avenidas, talvez os netos perguntem pelos parques d’água e será um prazer acrescentar metros à muralha dos Mouros, quilômetros à estrada de Algés e torres gigantescas ao Castelo de São Jorge. Mentindo descaradamente, já me vejo derramando adjetivos sobre as águas profundíssimas do Tejo, sobre as cúpulas de mármore do Paço, sobre os labirintos encantados de Alfama. Falando de uma cidade linda. Linda. Por que essa foi a cidade que eu conheci.

Só me dói um pouco pensar que, fatalmente, ao visitarem Lisboa, eles ficarão decepcionados. E vão descobrir que nada disso é real. Talvez, então, eu atenue dizendo que, no meu tempo, era tudo diferente, que a cidade mudou. Ou, sorrindo, confesse que, nessa vida, as coisas só valem mesmo pelas ideias que nos sugerem.

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