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Archive for the ‘vasto mundo (viagens)’ Category

Pausa de 10 minutos numa lan house para reclamar da vida: o problema que aflige o meu espírito nesse momento é como lavar a minha roupa.

O incrível de qualquer viagem tosca é que todos os seus problemas existenciais perdem espaço para as questões básicas da vida – comer, dormir, vestir – e não deve haver nada mais motivador para o ser humano do que tentar resolver problemas que podem ser resolvidos. Se eu estivesse num hotel estaria focando minhas atenções em quê? Em de onde vim e para aonde vou? E se o mundo acabar? E, se Deus não existe, co-mo-faz? Enfim, nas questões de sempre.

E o meu problema do dia é esse. Quando você passa cada noite numa espelunca diferente sob uma primavera de 12 graus, lavar roupas é um problema. Se eu estivesse habitando uma pensão razoável, ela teria máquina de lavar, secadora, essas coisas. Se houvesse a pretensão de passar 48 horas no mesmo lugar, um varal resolvia. Se houvesse sol, um varal também resolvia. Se eu andasse de taxi, teria uma mala com muitas roupas e seria feliz. Se…

Tempo esgotado.

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Lost in translation

Eu não perdi outro avião. Aleluia, Senhor! Acreditem: uma viagem inteira onde todas as passagens compradas foram utilizadas, onde não houve nenhum carimbo errado no passaporte, nenhuma mala autónoma que decidisse seguir seu rumo sozinha para além do horizonte, nenhum roubo que nos obrigasse a seguir sem lenço nem documento sobre o calçadão dos exilados para sempre! Sério, eu acredito em milagres. Vale acrescentar um detalhe: quem sempre fica responsável pelas compras de viagem sou eu. Eu sei, as pessoas são loucas, eu também não entregaria uma responsabilidade dessas a mim mesma, mas as pessoas entregam, o que eu posso fazer? Da última vez tive que  administrar 12 passagens de avião em destinos diferentes, 2 de trem, 8 hospedagens em locais distintos, ingressos para as atrações de cada cidade e a documentação de todos. Numa situação dessas você até imagina que alguma coisa dê errado, mas você não imagina que TUDO dê errado. Mas não vamos ficar aqui resgatando essas manifestações de Murphy em nossas vidas.
 
Dessa vez eu nem precisei dormir no aeroporto e imagino que deixei saudades. Interrompo um longo histórico de estadias por aeroportos em geral e, depois de algumas noites ao relento, você desenvolve certa fraternidade mútua e todos os habitantes dos corredores de check-in do mundo viram seus amigos de infância. Você está lá, sujo, cansado, desacreditado da vida e fica inevitável rolar certa comoção: todo mundo junto, trocando experiências, dando tapinha na omoplata, senta aqui, me conta o seu problema, eu vou te ajudar, dá a mão. A capacidade de coesão das minorias subestima as leis da física. E esta fiel assistente social in translation não vai abandonar as raízes – seja você quem for, pode vir, senta aqui e conta a sua história que a tia mari vai dar algumas dicas para os irmãos de estrada, viajantes pobres deste mundão de meu Deus:

1 – Dormir no aeroporto não é vergonha. Vergonha é ficar em casa vendo tv. 
2 – A sua mala conhece mais países que você? Não fique inibido, bem-vindo ao time, pode sentar, compartilhar o seu trauma e que venham as dinâmicas de grupo.
3 – Depois da meia-noite, toda praça de alimentação de aeroporto se desfaz dos biscoitos e enlatados com prazos de validade vencidos. Nada grave, coisa de um mês. E o que é um mês nesta estrada longa da vida? Aproveite.
4 – Para facilitar a comunicação, o ideal é adotar um volcabulário globalizado. Por exemplo, se você está conversando com um grupo de etnias variadas e vai falar do preço de algo, não adianta dizer que custa 3 reais ou 1 euro ou 2 dólares. Melhor adotar medidas internacionais: o produto X custa o mesmo que uma lata de Coca-Cola ou que um lanche McDonald’s ou que uma diária no Ibis e por aí vai.
5 – A sua dignidade depende de um banho? Nos aeroportos há chuveiros! Ficam no bloco dos funcionários. Andei, andei, andei até encontrar.
6 – A limpeza do chão dos aeroportos não tem nenhum compromisso com a higiene: a faxina só acontece de hora em hora durante a madrugada inteira para obrigar a nós, desabrigados, a acordar o tempo todo e levantar. Ou você conhece algum metro quadrado do mundo que realmente precise ser varrido cem mil vezes no meio da madrugada?
7 – Se as pessoas te pedirem cigarros, dinheiro, drogas, pasta de dente emprestada, desconverse. Mentira, as pessoas não vão te pedir nada, as pessoas só pedem coisas loucas a mim, só a mim, que nasci com essa placa enorme de TOME OSADIA pendurada no pescoço.
8 – Alguns aeroportos são famosos por abrigar também moradores de rua. Não dispute espaço com eles e não interfira quando eles resolvem brigar entre si, por que voa de tudo: é mala, é roupa, é pau, é pedra, é o fim do caminho.
9 – Travesseiro de Ouro é um prêmio que escolhe, através de uma enquete internacional, o melhor aeroporto do mundo para se dormir. O último vencedor é o de Singapura: banheiros limpos, restaurantes 24 horas, Internet, chuveiros, sauna e serviços de massagem. Estava pensando em me mudar pra lá.

Se você vai viajar e não sabe se o aeroporto em questão está mais próximo do céu, do inferno ou de uma longa noite sobre o purgatório de um chão gelado, visite o www.sleepinginairports.net, onde os mochileiros já dão a ficha completa de todos. E, quando estiver por lá, faça amigos. E aproveite pra dizer que me conhece, mandar lembranças minhas ao povo, recomendações à família, votos de saúde, aquele abraço.

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A viagem foi longa. Teoricamente, meus cálculos garantiam que o jeito mais barato de chegar à Veneza era ir para Porto (Portugal), depois pra Girona (na Espanha, divisa com a França), de lá para a Itália e, já dentro do país, dar um jeito de chegar à Veneza. Teoricamente.

E foi só carimbarem um número errado no passaporte para a gente perder o avião pra Itália, gastar todo o dinheiro em novas passagens, ficar na estrada de Girona pedindo carona, ir parar em Barcelona, querer voltar pra o aeroporto Girona e tomar conhecimento de que o único meio de transporte para lá – ônibus – não estava disponível por que as empresas rodoviárias resolveram entrar em greve exatamente naquele dia. Por tempo indeterminado.

E, quando a criatura está presa em uma cidade estrangeira, sem dinheiro, sem ter aonde dormir, sem ter como voltar, ciente de que vai perder o segundo avião e sem acreditar que nada mais absurdo-louco-improvável possa acontecer, encontra este cartaz num muro. Em plena Barcelona, um movimento baiano feminista-anarquista-cangaceiro que busca “o equilíbrio orgânico e natural da vida” (???) é demais pra mim, minha gente!!!

Se a sua vida também anda caótica, se todas as coincidências improváveis acontecem com você, se tudo conspira para o inacreditável e, mesmo assim, você ainda duvida que a humanidade enlouqueceu, dá uma olhada no site do tal cartaz:

http://www.representacorisco.com

Pronto. Sobrou alguma dúvida?

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A mala de volta é sempre assim, cheia, por que a gente sempre volta com mais bagagem do que trouxe. Dessa vez, tô levando uma coisa pra você. Um conselho. Senta aí e escuta, por que este é de graça e porque conselhos, às vezes, podem beliscar a gente como certos toureiros beliscam o touro. E o touro reage.

Nada contra o cafezinho, nada contra o escritório, nada contra mergulhar neste concreto de secagem lenta. O problema é Barcelona. Você acorda de manhã, vai dormir de noite e, entre uma coisa e outra, do outro lado do planeta acontece Barcelona. Todos os dias. Mesmo que as pessoas não entendam o que é viver, o que é ir levando e nem por que deveriam marcar um xzinho na primeira opção. O problema é estar ocupado demais pra notar que o mundo tem porta de emergência – se tudo mais der errado, ainda há Barcelona.

Eu só aprendi depois cheguei. Nos labirintos de pedra do Gótico, nas casas de açúcar do Guel, bolo confeitado de cimento e cal. No povo descendo outro miradouro, outra noite quente, outra multidão, fontes luminosas, marcha caribenha, tinta e purpurina, fumaça e neon, me perco e me encontro pela Catalunya, centro da acrópole inpiradora, quadros de Dalí, torres de Gaudí, formas de Miró, cores de Almodóvar. Depois, toda noite, trazendo a mochila, dormindo pesado no chão do aeroporto, chorando no pé da Sagrada Família e rindo de novo da Novia del Mar. Desfilo nas Hamblas de chale e chapéu, saio com os amigos para conversar – em inglês com os espanhóis e em espanhol com os portugueses e em português com os indianos só pra complicar a Babel barulhenta, trinta e dois graus, hoje é quarta ou quinta? Eu também não sei, mas faz um sol de domingo, então tanto faz.

Eu subo a Ronda com as mãos no bolso, vejo tanta gente pelos calçadões, grupos marroquinos, ciclistas pelados, estátuas humanas, surfistas de trem, tudo acontecendo entre os prédios azuis, amarelos, vermelhos, estranhos, perfeitos, glace derretendo em doce de gesso, castelo de areia em tamanho real, a forma disforme dos arranha-céus na arquitetura dos loucos de pedra, eu olho pra cima de outro edifícil, vela derretida sobre o castiçal. À noite, o veludo dos anfiteatros, flamenco e ópera nos festivais, a dança inflamável dos casais ciganos, duelo de cores, briga de pavão. Alta madrugada na beira da praia, os pés ancorados na ponta do cais – o Mediterrâneo é um mar fechado, feito pra quem não quer mesmo embarcar.

Sair de Barcelona é sempre sair no melhor da festa: a gente nunca está pronto, a mala nunca fecha e a gente acaba indo embora tendo que deixar uma parte nossa. E já que eu não planto árvores, não uso embalagens bio-degradáveis e preciso fazer algo pela humanidade, vou te deixar um conselho: não esqueça de Barcelona. Se você vier pra cá, lembre que o tempo passa voando e a viagem é sempre curta. Curta. E se você nunca na vida vier pra cá? Também.

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Inspirado em A Cabeça de Calcário, de Fernando Monteiro.

Era 2009. Fim de tarde, um dia banal, quarta, quinta-feira. Já havia uma cidade definhando – uma Lisboa de casarões abandonados e estatuas cobertas de limo, num luxo saudosista onde as casas envelheciam numa decadência adiada de quem ainda preferia pisar os trapos de veludo do tapete do que experimentar a realidade de um chão completamente nú. As guerras coloniais estavam perdidas, os navios já haviam voltado com seus combatentes mutilados e alguns ainda esperavam pela volta do salazarismo. Tudo era ausência à beira do Tejo. E foi num destes dias que eu conheci um homem chamado Baltazar.

Era um desses senhores portugueses de formação clássica, extremamente educados, que me pediu informações sobre as prateleiras do segundo andar da Biblioteca Municipal. Depois de duas ou três perguntas objetivas, abriu um dos livros que trazia, lendo com muita calma: “Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje, nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta” e sorriu, fechando a página. Eu sorri de volta. Ele se apresentou, muito sério, e disse: “Eu lamento pelas coisas que não existem mais”.

Estava procurando por publicações antigas. Buscava uma informação sobre os folhetins da década de 50 e explicou: preciso de um daqueles jornais velhos que vocês arquivam, daqueles que não usaram pra enrolar peixe um dia depois de publicados. Fisicamente, lembrava o velho Afonso – talvez por que todos os homens e mulheres cultos da península ibérica se pareçam um pouco com os descendentes perdidos da família Maia – e tinha a expressão grave de uma geração que viveu esta mudança de século acompanhando a chegada da modernidade com alguma distância e terror. Na ocasião, contou-me uma história – que talvez não tenha acontecido exatamente da maneira como iria narrar, alertou ele, garantindo que já se sentia traído pelo terreno movediço da memória, capaz de embelezar ou empalidecer os fatos ao sabor do tempo e da quilometragem – mas que, se não estava enganado, aconteceu no outono do ano de 1755.

Numa espécie de Atlas ilustrado, mostrou-me a reprodução do Grande Sismo, feita em óleo. Um mar pintado de azul escuro recuando numa onda gigante. O quadro lembrava-lhe o destino de todo lusitano, nascido com uma espada sobre a cabeça: o antigo terremoto, que foi sucedido pelo maremoto, que foi sucedido pelo incêndio – num elencar impressionante de desgraças ocorridas numa mesma manhã de novembro que alertava a todas as gerações portuguesas que, diante da força do inexorável, pesar nenhum era demais.

Disse que, depois da tragédia, a geologia da época – ciência nova, filha do pânico – garantiu que o terremoto se repetiria. Previsão que a ciência moderna confirma até hoje – e eles esperam há mais de 200 anos. Um dado histórico que influenciou profundamente a formação da cultura lusitana: dura, resignada, carregando o peso secular que alguns chamam de sina. Eles chamam de fado.

“Não existe mais nada, quase tudo desapareceu”, disse ele, fechando o livro de história do império. Falava sobre os anos de reinado, do qual nem foi contemporâneo. Um passado a que também os jovens lusitanos, hoje, preservam e enaltecem de maneira obsessiva, como alguém que herdasse, nos dias atuais, uma fortuna em moedas de Escudo – um tesouro do passado que, graças a um tropeço do tempo, já não vale mais nada. A nova geração, possuidora de muitos títulos e nenhum vintém, foi feita de um material inquebrantável – gente austera, indignada, que parece ter vivido toda uma era de vitórias e opulência que terminou para todo o sempre uns cinco minutos antes de você adentrar as fronteiras do país. Já nascem com esta melancolia vaga nos olhos – Fernões e Cabrais de farol, aguardando, aguardando – “Tudo era ausência à beira do Tejo”, ele disse, “ainda hoje é assim”.

Mas não era dos jovens que Baltazar falava. Não. Era daquela tristeza toda. Talvez fosse um mal do continente, plantado no trigo, bebido na água. Uma nostalgia crônica que aprisiona pessoas e nações aos seus dias de glória, marcados por um orgulho tardio, meio caduco. Como a nova Roma, que não enterra seus Cézares. Ou a Grécia, ensimesmada nas ruínas de sua antiguidade helênica, ou a França, estagnada até hoje no intervalo dourado da Art Nouveau – o fato é que quase todo homem europeu tem sua alma cativa a algum período áureo do seu passado, avessos às novas modas, músicas, invenções. Baltazar estava cativo daquele livro.

Na biblioteca, sentado com o Atlas nas mãos, sentia uma inquietação silenciosa, a claridade da janela rondando o gramofone, a mesa de madeira escura, os pratos pintados na parede e, agora, empurrando-o para a porta da rua, onde a luz era demais para os olhos e não se podia ver mais nada. Quase todos os objetos do segundo andar redesenhavam as sombras de um planeta extinto, quando a Índia e o Paquistão ainda não tinham feito a guerra, não havia Revolução Islâmica, os russos não haviam invadido o Afeganistão e, sobre o Oriente, pairava a mesma aura soturna de hoje, só que em preto e branco. O mundo pouco mudou, pensou. Assim, olhando bem, quase nada mudou – ele diria, convencido, pragmático, se não trouxesse aquele relógio fatal consigo, ali dentro, batendo, batendo.

Abandonou o Atlas e abriu outro livro, um de história. Numa das páginas, a imagem de um homem de pé, fardado. Era D. Sebastião, tinha certeza. Não era a pintura de um outro soldado que, regresso da guerra de Marrocos, fosse recebido e condecorado em seus trajes de combate. Nem era de um artista de circo que, de passagem pelas estradas empoeiradas do Minho, interpretasse um capitão heróico nos folhetins encenados do teatro de rua itinerante. Não era. Os ombros muito largos, dividindo o Oriente do Ocidente, eram de D. Sebastião, o herdeiro assassinado, início da dinastia dourada de um futuro que nunca veio. Do que poderia ter sido. Era jovem. E, mesmo Baltazar, em suas próprias fotografias, não era o velho de agora. Nos seus álbuns, eram evidentes os arranhões feitos pelo passar galopante dos anos – os amigos mortos, as cidades deixadas para trás e as oportunidades intactas desperdiçadas quando todos a sua volta tinham força, vigor e tempo – e não sabiam o que fazer com nada disso.

Quem era o jovem na gravura do livro? Talvez fosse de D. Afonso VI de Leão e Castela, varrendo a sombra espanhola do Condado Portucalense ou de algum rei católico ou algum guerreiro mouro filho de Alá. E, mesmo as páginas que ele folheava, de que parte do reino viriam? De que cedro, eucalipto, carvalho nascido sobre o chão verde da planície de que cemitério, onde pastavam as ovelhas alvas cobertas de lã, de onde teceriam as bandeiras, as fardas e as capas flexíveis de livros como aquele? A verdade é que o homem ilustre retratado sem identificação lembrava aos mortais leitores que tudo sobre a terra seria engolido pela onda branca e larga do esquecimento – “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” – e pesava sobre Baltazar a promessa do anonimato sem memória, foto perdida no baú mais antigo da última casa fechada numa vila abandonada. Para ele, tudo era abandono. Não importa o que fizesse, que méritos ou crimes acumulasse em seus dias de existência, não poderia salvar a sua própria imagem de ser encontrada, um dia, num desses livros de história sem legenda, ou no lixo, ou num dos tabuleiros da feira da Ladra, exposta aos colecionadores, ao lado de antiguidades, velharias inúteis e outras fotografias de gente morta.

Baltazar era um homem inviável. Exasperado por quê, para a vida, não havia um fim, a justiça de um fim sobre a coroa do reconhecimento dos outros, mas apenas um desaparecer vulgar que não distingue o sepulcro digno da vala comum da existência ordinária – e seus anos não passariam de um intervalo ligeiro na história de uma cidade dentro de um país dentro de um planeta girando no espaço prestes a ser engolido pelo vácuo do nada. Morrer era desaparecer. Ele não estava preparado. Ocidental, racional, apalpava no escuro os caminhos para a transcendência, essa busca secular e tão humana de tentar ultrapassar os limites da mortalidade, não importa que nome lhe damos – Deus, Brahma, Nirvana – esta experiência que arrebata tanto os sentidos, como quando estamos diante de uma música extraordinária, de uma paisagem fabulosa ou da visão do sagrado. E caminhar para a biblioteca, guardar fotografias, falar sobre o império, tudo era uma busca ancestral pela perenidade roubada, o mito universal do paraíso perdido – ventre materno abandonado, terra prometida, alma gêmea, Éden, Meca – desde o princípio a humanidade tenta voltar. Mas, para aonde?

Do lado de fora da janela, a luz da tarde amarela fazia chegar-lhe à mente os dias em que ele era muito jovem e não existiam as marcas, essas marcas deixadas pelos que desistiram, fugiram, enlouqueceram, morreram – enquanto dentro da alma dele alguma coisa também ia desistindo, fugindo, enlouquecendo e morrendo. O futuro ainda tinha alguma importância. Ler os grandes autores era conversar com homens mortos, os vivos não lhe interessavam. As prateleiras, o silêncio das poltronas, a paz daquela sala sem pessoas enquanto a vida explodia em fomes, crimes e dores do outro lado do muro – viver não é preciso. Fechem um pouco mais as cortinas.

E ele baixou os olhos, voltou a ler. Eu continuei sentada na janela. Lá fora, a chuva começava a cair fina, cortante, alfinetando o asfalto. O centro da cidade, os carros, cimento, descargas, monóxido de carbono, o velho Palacete do Campo Pequeno, o telhado vermelho no meio do cinza. Ilhado. E foi, então, que eu entendi. Do segundo andar da biblioteca, olhando para o Palacete, para o Baltazar e até para mim mesma, ali, parada na janela: tudo aquilo era Portugal. Portugal de 2009: assustado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão e saudade. Guardando na estante mais alta a fragilidade da própria história, resistindo ao palpitar dos relógios que corrói os calcanhares dos monumentos e arrasta tudo de volta ao pó. E eu senti um amor imenso por tudo aquilo. Como num ritual de fé, fui fechando as cortinas, acendendo as luzes e entregando a ele os últimos livros.  Tudo vale a pena, se a alma… quanta bobagem. Não havia saída para Baltazar. O peso dos anos, aquela saudade, tudo nele queria voltar. E, ainda que não fosse ele, mas um outro, sem ancoras tão submersas naquele chão, ainda que conhecesse outros povos, nações maiores, mais ricas e cheias de vida e o mundo inteiro se abrisse numa explosão interminável de novidades, não importa onde estivesse, mesmo que o passar do tempo ganhasse sentidos diferentes e as lembranças do Tejo e do Campo Pequeno se tornassem cada vez mais vagas, haveria ainda nele – no ato banal de fechar cortinas, no gesto involuntário de suspirar fundo sem motivo ou de olhar para o mar como quem divaga – sempre nítida, como uma marca, como uma cicatriz na cara, a sentença irrevogável, o fado de todo lusitano – de estar sempre voltando pra casa.

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Semana passada fui fazer uma matéria na Praça de Santa Clara. Cheguei cedinho, sentei e esperei o movimento. Primeiro achei que a praça ia receber um circo: lonas e arquibancadas sendo montadas por uma multidão. Depois pressenti que estava diante do recomeço triunfal da Torre de Babel – cada grupo falando uma língua numa confusão só e a obra crescendo para cima. Por fim, me convenci de que aquilo era mesmo a Feira da Ladra: uma mistura de brechó e mercado que acontece semanalmente em Lisboa desde 1272. Velharias e artesanatos espalhados por quase 100 barracas aonde se encontra de tudo: castiçais dos tempos do império, um gramofone de manivela, o primeiro vinil de Roberto Carlos, postais de 1930, fitas cassetes de bolero, vestidos de noiva à moda renascentista e outras relíquias. Ou seja, todos os seus sonhos de consumo das três últimas encarnações num só lugar. Por preços irrisórios! Antes tarde do que nunca.

Na hora de escolher o meu primeiro entrevistado, o critério foi simples: alguém que falasse português. Quando me aproximei, o vendedor de ferragens explicou: “A feira tem esse nome por que se iniciou na região da Labra. E o trocadilho ficou. Não é por essa razão que todos imaginam”. Mas a dona da barraca ao lado entregou: “Não invente histórias, rapaz! A feira se chama assim por que era aqui que os ladrões vendiam seus roubos. Ora pois, gajo! O primeiro ladrão da feira foi você!”, todos riram. Menos eu. Como assim ladrões? Que medo.

Pois a feira havia sido reduto de piratas. Para falar mais sobre o assunto, levaram-me ao Manoel Monteiro, dono de um tabuleiro de livros, que possuía um exemplar da publicação: A História da Feira da Ladra. Não estava à venda. Argumentei, conversei, tentei negociar e, quando me dei conta, já estava sentada na calçada ouvindo uma história que, certamente, era melhor que a do livro.

Manoel Monteiro, 60 anos, vendendor de livros, português de Trás os Montes, um senhor que, quando fala, parece reunir em torno de si as atenções públicas – um jeito de quem está acostumado a microfones, câmeras e platéias. Mesmo enquanto vende os títulos, o faz com a propriedade de quem conhece cada página. Um fenômeno explicável: Manoel já foi líder revolucionário, deputado na Assembéia da República, autarca na Câmara, foi enviado à Angola durante a Gerra Colonial, viajou para a Albânia durante congressos marxistas, tornou-se referência na luta contra o fascismo e tem dois livros publicados. Desde que sua cooperativa pediu falência, ele passou a vender os exemplares de sua biblioteca pessoal na feira. Duas vezes por semana, lá está ele, acessível e bem-humorado. Sorte minha.

Como a pauta do dia era sobre a feira em si, tive que me dispersar e fazer outras entrevistas. Mas, na semana seguinte, com uma pauta de perfil na mão, não tive dúvidas: voltei ao tabuleiro de livros, onde sr. Manoel me recebeu com um cumprimento manso: “sabia que você voltaria”. Sentada na mesma calçada, copiei dezenas de páginas enquanto ele ia contando detalhes sobre as ditaduras ibéricas, os anos na África, as imigrações, os fuzilamentos, um passado sombrio que os portugueses  ainda narram com os verbos no tempo presente.

Quando nos despedimos, deixei meus contatos, um abraço agradecido e fui pensando em como trazer as lições deste passado próximo para mais perto. E também com uma sensação de ter chegado no fim da festa: às vezes penso que todas as mobilizações sociais relevantes da história se encerraram na década de 70. E que só sobrou um salão vazio para a gente varrer. Chego em casa e encontro na caixa de e-mails uma mensagem do sr. Manoel passando o link do blog dele. Uau! Uma página política atualizadíssima. Lendo um pouco e pensando melhor: ainda há muita cereja sobre o bolo.

Para quem gosta do tema, vai a bibliografia. E, para quem também acha que ainda estão rolando os dados, vai uma dica do autor: “somos tantos, porque não tomamos em nossas mãos o destino?”.
Livros Publicados:
Perder a Esperança Porquê? – Editora Centelha – Coimbra – 1982
Todas as Margens – Editora Hugin – 2003

Livros que aguardam publicação:
Os Deuses da Revolução são um tanto Obscuros – em apreciação no Círculo dos Leitores
Sei onde mora o Herberto Helder – em processo de finalização

Blog:
http://m-monteiro.blogspot.com/

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Uma moradora de rua, empurrando um carrinho de sucatas:
– Que estás a fazer aqui tão cedo?
– Esperando o ônibus.
– A passar, a passar. E acaso vais pegar o auto-carro para quê?
– Estou indo estudar.
– E estudas oquê?
– Jornalismo.
– Deixa-me ver se tenho algo para ti – falou remexendo o carrinho até achar dois jornais usados – Toma, para estudares. Para ficares esperta, gaja, e ao menos saberes que nesta rua não passa auto-carro!
– Ah… obrigada…

 

19.05.09 Feira da Ladra 2 007

19.05.09 Feira da Ladra 2 008

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Mas eles estão lá … e eu estou aqui!
(Bukowski)

Quando a gente está se preparando para uma viagem, pensa em tudo: nos lugares que vai visitar, nas pessoas que vai conhecer, no mundo novo que vai se descortinar para nós. E só. Você nem imagina que, enquanto você vai, uma cidade que ficou para trás não pára pra te esperar. Tudo continua. Sem você.

E o Orkut é o inferno de toda pessoa que não estava lá. Seja por que viajou, se mudou, adoeceu ou por que não quis ir mesmo, não importa, o fato é que você não estava lá. Entro na internet e vejo as fotos do encontro onde todos os meus amigos se divertiram – sem mim. O aniversário do meu primo, a família toda reunida – sem mim. Meus colegas de sala num passeio de barco pelo Forte – sem mim. Casamentos, formaturas, encontros onde todo mundo se viu dançou, brindou – sem mim. E nem adianta me olhar com essa cara por que eu sei que você também foi aquela festinha ótima onde todos estavam – menos eu.

Pois é, nada como um orkut na vida de um viajante para dar a ele uma dimensão exata de quão dispensável é a sua existência sobre a Terra.

Nada contra o programa em si, ou quase nada. Enquanto estrutura, considero o Orkut uma espécie de vitrine da alma, um currículo inteligente dividido em 4 campos: o que você diz sobre você, o que seus amigos dizem sobre você, sobre o que você se interessa e quem te interessa. Em alguns casos, há também vídeos caseiros, fotos em trajes de banho, diploma scaneado, exames de raio-x, tudo o que uma pessoa quiser mostrar sobre si mesma. Pensando sobre este curioso invento, uma primeira questão é que me ocorre: a profissão de escritor biógrafo está com seus dias contados. Segunda questão: por quê razão infame a gente precisa de um programa assim?

Por que ficou impossível fazer sem ele amigos. Por exemplo: você conheceu um zé mané qualquer, bateu um papo e simpatizou. Pronto, no dia seguinte é só procurar uma criatura no Orkut, adicionar, dar uma lida sobre a vida do indivíduo para ver se aquela primeira impressão estava de acordo com uma realidade, saber aonde mora, o que faz, do que gosta, copiar o endereço de e-mail da criança e escrever marcando para assistir um filme que curte ele, no horário que ele pode, no cimena perto da casa dele. E, se for o caso, aproveitar para convidar os amigos que vocês têm em comum para irem junto. Fácil, né?

Acontece que os europeus não tem Orkut. E, cada vez que conheço alguém por aqui, me vejo na obrigação de fazer perguntas, sondar gostos, descobrir passados, anotar telefones e tomar outras iniciativas intuitivas e ultrapassadas  que dependem inteiramente da minha sensibilidade e percepção para acontecer. Ou seja: um desastre. Estamos no século XXI, o homem já foi à Lua, criou uma tv de plasma e desintegrou o átomo em milhões de infinitas micropartículas, por que raios esse povo não faz Orkut e acaba com essa vida social pré-histórica? A tecnologia nunca está aonde se precisa dela.

Pois é, uma iluminação nunca vem para todos. E se você também não conhece o programa, vai uma dica: o melhor dele não é a descrição dos perfis, são as comunidades. Não há forma conhecer melhor as preferências de alguém. Hoje, se eu fosse criar uma comunidade, ela seria assim:

Nome: Orkuteiros Anti-Sociais
Descrição: Se você entra no Orkut, responde seus scraps, sai do Orkut e volta aos seus afazeres sem nenhuma curiosidade pelas páginas alheias, se você não quer saber da vida dos outros, se você ignora solenemente os álbuns que publicam seus amigos, aqui é o seu lugar!

Esta comunidade, é claro, estaria inaugurando o meu novo comportamento virtual e seria recomendada também a todos os viajantes que tenham o mínimo de amor próprio. Unidos, teríamos um acordo de solidariedade mútua. A comunidade poderia até marcar um encontro entre os viajantes solidários em algum lugar do mundo. Todos juntos! Seria divertido. E tiraríamos ótimas fotos para publicar no Orkut.

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“Yo adivino el parpadeo
De las luces que a lo lejos
Van marcando mi retorno.”
(Carlos Gardel / Volver)

Portugal, 26 de março de 2009,

Faz tanto tempo, mas eu me lembro. No início do ginásio, eu era a única aluna da minha classe que sabia andar de ônibus. Em parte por que eu gostava, em parte por força das diferenças econômicas mesmo: a maioria dos colegas tinha motorista, um luxo que eu, definitivamente, não dispunha. Mas dispunha daquela liberdade rara. Como esquecer o olhar dos colegas, nariz contra o vidro, cada um dentro do seu carro. Todos seguindo-me de longe pegar o meu próprio ônibus, com o meu próprio arbítrio, com as minhas próprias pernas. Se, aos 11 anos, eu tinha alguma vaidade na vida, era esta. Mochila nas costas, passe no bolso e um ar de quem sabe como, onde e de que jeito. Dona da rua e dona do mundo. Até que chegou o inverno.

Um dilúvio bíblico. Eu não esperava. As meias encharcadas dentro do tênis, o uniforme cheio de barro e eu escorregando sobre as poças enquanto veículos caros levantavam ondas de lama. Ensopada e suja, a dona da rua era agora um pavão molhado, uma criatura miúda com jeito de cachorro sem dono procurando abrigo sob qualquer marquise. Enquanto os colegas passavam mudos, nariz contra o vidro, cada um dentro do seu carro.

Lembro de entrar revoltada na cozinha do velho edifício Lisboa, casa de minha avó materna, preguejando contra tudo: a meteorologia louca do Nordeste, o transporte público lotado, as ruas sem calçamento, sem esgoto, sem guarida, e, principalmente, contra a minha infeliz condição de proletária andarilha naquela maldita cidade tropical onde eu precisava andar trezentos milhões de metros para chegar a qualquer lugar. E minha avó, serena, trazendo uma toalha e perguntando – mas, minha filha, me diga, isso não era tudo o que você queria?

E era. Eu havia passado as férias inteiras pedindo, suplicando, usando todo tipo de argumento emocional e financeiro para convencer minha mãe a me deixar andar sozinha de ônibus. Dizendo que era a ordem natural das coisas, um degrau, uma sina biológica e inevitável, uma casca de ovo quebrada. E lá estava agora, um semestre depois, tentando remendar os pedacinhos daquela cápsula onde eu, certamente, já não caberia mais.

Não sei se por isso ou por alguma outra razão – há tantas razões possíveis para o inexplicável – mas, desde então, a cada dia de chuva me invade um sentimento ancestral de desamparo. Uma certeza dura e corrosiva de ser a responsável por mim mesma, por cada degrau vencido, por cada queda na lama. Bicho adulto andando sozinho, mesmo que perdido, mesmo que ensopado. É quando chove que me vem essa vontade urgente de entrar pela mesma cozinha, de praguejar de novo, de pedir abrigo. De ouvir outra vez qualquer coisa que me acalme o peito ainda machucado. De não ter crescido. De voltar.

Agora chove. E eu acho que, no fundo, eu sempre soube que voltaria para Lisboa.

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Eu poderia dizer que o que houve foi um destes casos de afinidade à primeira vista, empatia recíproca, conspiração universal ou qualquer outra coisa que desse certa aura dourada a este primeiro encontro, seria bonito dizer, por exemplo, que nos ligamos instantaneamente por determinação cósmica. Mas não. Catando na memória cada gesto de aproximação, cada palavra de hospitalidade, de troca, esta arte delicada e cansativa de conhecer o outro e se fazer conhecido pelo outro, penso  que o laço denso que nos uniu tão imediatamente era outra coisa, não menos nobre que a empatia imediata, mas um outro laço, talvez mais primário e estreito, que é a capacidade de um ser humano identificar no próximo a sua maior lacuna, de reconhecer no outro exatamente o que mais lhe dói. No nosso caso, a solidão.

Por solidão ou por empatia, talvez nem importe, éramos estranhos uns aos outros e ao meio – e quem olhasse de fora saberia, por que os recém-chegados todos do mundo, desde os tempos de Adão, trazem nos olhos esta mesma mistura de encantamento e desamparo diante do comum, esta surpresa eufórica diante do banal – e o brilho dos nossos olhos era o mesmo. Também comuns e banais, falávamos sobre nossas vidas, tateando personalidades, gostos, passados, descobrindo aos poucos trilhas parecidas, histórias quase próximas narradas por sotaques longínquos entre si. Éramos quatro estrangeiros tentando mapear não só as ruas da cidade confusa, mas uma outra rede de caminhos entrecortados –  os nossos. E a esta conhecidência de destinos chamamos, apressadamente, de amizade.

Passávamos pela Baixa, próximos ao Elevador de Santa Justa, numa tarde gelada onde uma multidão dividia espaço: portugueses vendendo doces gigantes, árabes tocando alaúdes, nigerianos enormes em seus casacos de pele e, por fim, os indianos. Sempre em grupos, descendo as ladeiras com suas túnicas, batas e véus, como se não pisassem no chão, aquela revoada de tecidos coloridos e fios de ouro que dá a qualquer ser humano um ar sagrado de entidade mística e inatingível. Paramos para olhar, ofuscados. Depois que os indianos passam, todas as ruas do mundo parecem cinzas e sem graça.

Logo estávamos no Carmo. E, no meio de tanta gente, de tantas vozes, de tantas luzes, por que tudo parecia ter a perfeição do cinema ou por que aquele emaranhado de avenidas foi mesmo o cenário de alguns, surgiu a idéia:

– Um filme para cada rua, ok?
Era fácil. Na primeira rua um casarão anunciava quartos:
– Gand’Hotel!
Os homens conversando nos bancos da praça:
– Forrest Gump!
As ruas de calçamento amarelado:
– O mágico de Oz!

Entrávamos e saíamos por becos, esquinas, atalhos, distraídos em encontrar pistas, símbolos, vestígios de nossa única memória em comum: o cinema. Depois de citar títulos, descrever cenas e lembrar atores, já era noite quando chegamos a uma rua deserta:

– Lost.
– Não tem nada a ver. Ainda mais, esse é seriado, não é filme.
– É sério. Acho que estamos perdidos.

E estávamos. E, como ninguém havia lembrado de jogar pedaços de pão pelo caminho, o que era comédia foi virando suspense. Era inútil pedir informações, todos os pontos de referência nos eram desconhecidos. Uma hora depois já andávamos de metrô, achados e seguros, mas antes, um pouco antes, enquanto ainda estávamos ali, naquele momento, sentados na calçada, perdidos naquela noite fria, falando de nós e do nosso encontro tão casual, dessa sensação dura de sermos assim anônimos num continente estranho, num planeta ao acaso, repleto de tantas gentes, de tantos mares, de tantas terras, diminutos na imensidão, irrelevantes na paisagem, caminhando do pó ao pó absolutamente sozinhos, absolutamente primários, absolutamente humanos, foi que olhei para cima buscando por Deus no mais profundo daqueles céus e me perdi num escuro de mim que até hoje me procuro por lá.

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