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De cama desde sábado.
#spraypimentadosinfernos

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A verdade é que é difícil se sentir útil num movimento com um milhão de manifestantes. Concorda? Você sempre fica na dúvida se a sua participação é mesmo relevante quando pensa naquela multidão e olha pra si mesmo – metamorfoseado num monstruoso inseto. É possível que a galera que não foi às ruas tenha se perguntado a mesma coisa – eu sou mesmo necessário? – e que os outros se perguntem o mesmo nos próximos dias, quando as manifestações tiverem cumprido o seu papel e voltarem todos pra casa. Como saber se o movimento teve êxito? Você foi útil?

Sabe, nos três últimos confrontos, meu papel era ficar agachada no chão criando cartazes. Já havia fotógrafos o suficiente, jornalistas o suficiente, enfim. Bombas explodindo, apedrejamentos, o pessoal da área de Saúde atendendo às vítimas, o pessoal do Direito conseguindo as fianças e eu lá, debaixo de um carro com os malditos cartazes. Quando tudo à sua volta está explodindo e pegando fogo, é inevitável que você se pergunte que raios está fazendo ali. Eu corria naquele inferno ridiculamente abraçada a um maço de cartolinas. Quase morri fazendo isso, mas, né?

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Peça decorativa.

Que seja. Pois querem saber o que os manifestantes mais pediam quando solicitavam cartazes?

Eles não pediam slogans de guerra, não queriam heróis. Alguns temas nem eram destinados ao Governo. As pessoas me pediam pra criar frases sobre respeito, igualdade, comportamento, eram mensagens destinadas à você, caro leitor.

Por isso, essa é uma mensagem pra quem, neste importante momento histórico, quer colaborar. Quer saber o que os manifestantes exigem de você? Que seja uma pessoa melhor. Que não fure a fila no trânsito, por que você não é mais especial do que ninguém. Que não ria das piadas homofóbicas que seus amigos contam, elas não têm graça e possuem um efeito mais destrutivo que o de mil skinheads juntos. Não perca o senso crítico diante das técnicas cosméticas para alisar cabelo “duro”. Não faça gato de eletricidade nem se aproveite do dinheiro público. Se não gosta de política, abstenha seu voto, não eleja ninguém de forma irresponsável. Valorize a opinião do seu fisioterapeuta, enfermeiro e nutricionista tanto quanto a do seu médico, todos eles são diplomados. Se você tem uma queixa sobre um produto ou serviço, pare de dar faniquito no balcão e utilize os órgãos formais de denúncia – os funcionários não merecem e seu chilique pode virar algo útil. Não permita que alguns religiosos manipulem a palavra de Deus. Não estacione nas vagas para idosos. Não estacione na vaga para deficientes. Não deixe que nossos jovens gastem tanto tempo em academias de ginástica, eles estão virando uns idiotas. Saiba mais sobre os partidos políticos. Não beba antes de dirigir. Valorize os professores da sua infância. Não aplauda o jornalismo de William Bonner, você não é burro. Não apoie empresas que solicitam currículos com foto. Não cante músicas preconceituosas. Abra espaço no trânsito para as ambulâncias. Não permita que os garçons ignorem todas as damas da mesa para entregar a conta a um homem. Não compre um cachorro se não pode cuidar dele. Proteste contra o Estatuto do Nascituro. Seja respeitoso com quem vier lhe pedir dinheiro, oferecer um panfleto ou fazer telemarketing. Não fraude a carteirinha de estudante. Não fraude o Imposto de Renda. Seja ético quando ninguém estiver olhando. Mude de atitude. Chega de descaso por educação.

Mesmo que você, olhando para aquela multidão, tenha se sentido meio desnecessário, eles estavam falando com você. Por que a verdade é que alguma coisa mudou mas, no final, vai todo mundo voltar mesmo para o Facebook. Ainda insatisfeitos com a corrupção, com a violência, com o preconceito, com a homofobia, com a manipulação, mas vai voltar todo mundo pra casa. No fim das contas, é isso: milhares de manifestantes brasileiros vão retornar mais politizados para suas vidas e para a rede mundial de computadores. E estarão conectados. Todo santo dia.

E eu não consigo imaginar nada mais necessário.

Passe livre

Viu? A gente virou até meme, rs.

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(Salvador, 20 de junho de 2013)

Numa beira de estrada, debaixo de uma árvore, dois homens estão esperando por Godot. Parados por dias, meio perdidos, sem nem saber exatamente quem é Godot ou o que ele fará, eles discutem, brigam, ficam exaustos e esperam. Esperam, esperam, esperam. E Godot não chega nunca. E a história acaba.

Esse é o roteiro resumido de uma peça famosa de Samuel Beckett: Esperando Godot, de 1952. Não é um roteiro fácil. Quando ele começou a ser encenado, era normal ver as plateias revoltadas: achavam o texto cansativo, sem sentido, alguns saiam do meio da apresentação, outros queriam o ingresso de volta. A maioria não entendia nada.

Aí um grupo de atores resolveu encenar a mesma peça num presídio. E foi aclamado. Durante os aplausos, perguntaram aos detentos se eles haviam mesmo compreendido aquela história tão difícil. E eles disseram: “É claro que a gente entendeu. A gente está o tempo inteiro esperando Godot”.

É isso. Suponho que não haja nada mais frustrante neste mundo do que apresentar uma obra prima para a plateia errada.

Se você tem tv em casa, caro leitor, você viu a confusão. Cada manifestante com um cartaz pedindo uma coisa diferente. A multidão do Rio se desencontrando em direções opostas, o pessoal de Brasília subindo no Planalto e, depois de chegar lá em cima, acenando sem saber o que fazer. Uma desorganização que só deixa claro que, de fato, não existe um mandante ou uma agenda pré-definida para este movimento. Que a coisa toda é espontânea. E desorganizada, graças a Deus.

Outra hipótese para esta falta de unidade pode ser o excesso de opções. Tente decidir entre protestar contra os gastos com a Copa ou o caos nos transportes ou a PEC 37. O preconceito, a pobreza ou a violência policial? Sarney, Lula ou Feliciano? Fica difícil. E ainda mais difícil ouvir Jabor mudando de ideia, pedindo desculpas por criticar os “revoltosos que não valem nem 20 centavos”. Ele costuma mudar de ideia, né? Deve ser duro ser de direita e reacionário num país onde existe memória – ao menos, eletrônica. Nossos jornais já não vão mais enrolar peixe na feira no dia seguinte. Depois de 30 anos chamando manifestante de baderneiro? Democrata de criminoso? E agora?

Em sua coluna na Rede Globo, nós somos os “revolucionários sem causa relevante”. Iguais àqueles da Revolução Francesa, que começaram aquela algazarra toda por causa do preço do pão. Ou da Revolução Russa, que apedrejaram as janelas de uma fábrica por nada. Vândalos. Na Primavera Árabe, tanto barulho por causa de um imposto sobre a venda de frutas na feira, ah, só causas irrelevantes. Numa reportagem da Folha, perguntaram a uma manifestante por que ela fazia parte do protesto. E ela respondeu: “Olha, eu não consigo imaginar uma razão para não estar aqui, na verdade”.

Mas você demorou de compreender o nosso movimento. É que ele era meio desorganizado, sem manipulação – depois de duas décadas dentro dos escritórios da Globo, deve ser mesmo difícil entender algo assim. Milagrosamente, ele fez sentido para uns cem mil “desocupados”, “rancorosos”, “caricaturas da caricatura”, “revoltosos que não valem nem 20 centavos”. Gente que trabalha, que é honesta, gente que já passou mais de 500 anos do outro lado do muro, esperando por um Godot que não chega nunca. Gente que não aguenta mais esta elite corrompida nos vendendo mentiras no horário nobre. Gente digna, sabe?

Não, você não sabe. Você não tinha mesmo como entender nada disso. Você era só a plateia errada, Jabor.

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Arnaldo-Jabor

#45

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Resistência

Todo esse clima de resistência repentino – que andava meio fora de moda aqui no Brasil – voltando às ruas agora, no meio do expediente, me parece a reprise de um filme bonito que a gente não lembra muito bem como termina.

Chamo de clima “repentino” por que toda gota d’água é meio inesperada mesmo. Mês passado eu escrevia um artigo sobre o uso de mídias sociais na revolução política do Egito e tudo me parecia absolutamente distante. Talvez ainda seja. Agora estou em Salvador, a metros de uma praça lotada, faltam 20 minutos para a manifestação, um barulho ensurdecedor.

Vou deixar vocês com a reprise de um filme sobre isso: resistência e beleza. Uma história sobre outra luta de classes que, até hoje, a gente também não sabe muito bem como termina.

(A Cor Púrpura, 1985, Steven Spielberg)

O desaparecido

“Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo (…) e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.”

(Rubens Braga / O Desaparecido)

Vou dedicar o post de hoje aos excluídos. Vem cá, a tia Mari te entende, senta aqui no banquinho, dá a mão.

Opção 01
chiquinha solteira

Opção 02
tirinha solteiro

Opção 03
festa solteiros

Opção 04
madona solteira

Opção 05
namorados solteiros

Opção 06
solteiros 2

Opção 07
cupido burro

Opção 08
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Opção 09
crianca solteira

Opção 10
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Pode copiar e colocar no Facebook. Brinde da tia. Um beijo.

Gregory Colbert é um canadense que iniciou a carreira em Paris e hoje é dono da exposição fotográfica mais visitada do mundo. Ele foi à África e à Ásia registrar crianças e animais em silêncio. Para ele, “é impossível traçar o rumo de uma baleia, dirigir os gestos de uma águia, ensinar expressões a um bebê. Você não pensa como um elefante. É outra relação. Ou sente ou não sente”.

Acho que deu tão certo.

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(Gregory Colbert / Ashes and Snow)

Pauta do dia

A preocupação relevante do dia é com o microondas que, depois de um mês de trabalho duro e honesto, apitou, apitou, explodiu e cuspiu tudo fora. Depois voltou ao normal com o semblante mais plácido e garboso. Quem nunca, não é mesmo? Mas o miserável manchou o fogão. Já comentei que o meu fogão é bonito e cheio de botões? Continua com as instruções no forno e certamente acredita que os humanos se alimentam de papel, mas quem dirá que não é belo e digno? Combina com a geladeira. A geladeira sobreviveu. Toda vez que abro a geladeira eu lembro que preciso comprar água. Faz umas duas semanas que eu preciso comprar água. Ou um filtro. Por hora, fico com a opção mais simples, comprar garrafas d’água no mercado, dezenas de garrafas, ainda que a atividade quase nunca me apeteça. Essa semana a água acabou. Comecei a tomar suco. E o suco acabou. Leite de caixa. Acabou. Iogurte. Espumante. Neste momento, posso dizer sem o privilégio da metáfora que só me restam os vidros de perfume.

Preocupadíssima, apenas.