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#37

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Hoje, ao chegar em casa e abrir o meu armário, felizmente, reencontrei o meu guarda-chuva. Achei que tinha perdido. E já estava supondo que, a esta hora, ele estaria esquecido debaixo de alguma mesa de bar, seguindo sozinho num taxi ou sendo gentilmente oferecido por um manobrista para o dono errado. Por sorte, ele estava bem aqui, entre os livros da última prateleira. E, como disse, foi mesmo bom encontrá-lo de novo.

Esse guarda-chuva foi comprado numa viagem, na última que fiz, para a Turquia. Uma odisseia meio improvisada, com direito à mochila, estrada, graus negativos e gente inusitada. Não faltaram pratos exóticos pegando fogo, jipes atolados, dromedários em fuga e aviões perdidos. E noites dormidas no chão. Molhado. De uma caverna. Um passeio com aventura o suficiente para me fazer questionar a veracidade dos filmes de aventura – onde, necessariamente, tudo sempre dá certo e, no intervalo, ainda se pode levantar do sofá para buscar mais pipoca.

Logo no início da viagem, quando ainda estávamos decidindo entre enfrentar um nevoeiro em Éfesos ou a ressaca do Bósforo ou um levante armado em Akcakale, começou a chover. Era uma tromba d’água. Todos os outros casais correram para debaixo das marquises e nós entramos numa loja de guarda-chuvas. Havia dezenas na vitrine. De todos os tipos. Agarrei um de plástico incolor, sem estampa, só por que me pareceu familiar. Talvez por causa daqueles versos infantis sobre “uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada” ou dos provérbios antigos em que “só não joga pedra quem tem telhado de vidro”. Talvez estivéssemos protegidos sob aquela coisa transparente, como se protege um objeto frágil com plástico bolha. Enfim, deu-se a compra do guarda-chuva e fomos embora.

Nos dias seguintes, o roteiro foi dividido entre escaladas sobre-humanas, cidades subterrâneas claustrofóbicas, deslizamentos de terra e balões aterrissando desgovernados, derrapando na grama e arremessando os passageiros no chão. Quer transformar a sua viagem romântica numa saga de suspense selvagem? Pergunte-me como. Já no meio da peregrinação, houve uma noite em que nos perdemos. Plena madrugada, alto da montanha, nenhuma comida e aí começou a chover. Um frio de encolher catedrais. E, talvez por que não houvesse mesmo mais nada a fazer naquela hora dramática – céu fechado, nuvens de chumbo, trombetas anunciando o Apocalipse – eu desisti de procurar o caminho certo e abri o guarda-chuva. Mas aquilo não era chuva. Era neve branca.

Foi uma surpresa bonita. Nunca tínhamos visto neve. E seria impossível perceber se a cobertura não fosse transparente. Sentamos ali mesmo, no alto daquela pedra, pra ver o plástico ir ficando alvo. Em silêncio. Encostados um no outro. Com aquela paisagem lunar brilhando lá embaixo.

Isso já faz algum tempo e, mesmo assim, tantos meses e quilômetros depois, eu gostava de reencontrar o velho guarda-chuva no armário. Ele me fazia lembrar daquela noite, da neve, daquele instante em que eu percebi que tinha feito a escolha certa. Foi bom saber que o meu guarda-chuva não estava rodando sozinho num banco de taxi, que não se perdeu, que sempre esteve ali. No fundo, é estranho pensar que a maioria das nossas coisas – pedacinhos nossos, partes da nossa vida – podem simplesmente se dissipar no meio do caminho. Que quase tudo está de passagem. Mas o que tem que ficar, fica.

#36

#36

Dom Casmurro Blog

“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do Céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do Céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no Céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, — para dizer alguma coisa, — que era capaz de os pentear, se quisesse.”

(Machado de Assis / Dom Casmurro, cap. XXXII)

Fun

“Os anjos nunca chegaram
Mas eu posso ouvir o coro…”

#37

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#35

voces vao ser arrepender de nao terem flertado comigo antes

Ouso dizer que não é um grande livro (se você abandonar este blog a partir daqui, eu vou compreender), mas que vale dois ou três grifos e uma consideração sobre os protagonistas idosos de García Márquez: sempre sinuosos, sarcásticos, não valem naaaaada.

“Nunca fiz nada diferente de escrever, mas não tenho vocação nem virtude de narrador, ignoro por completo as leis da composição dramática e se embarquei nessa missão é por que confio na luz do muito que li pela vida afora. Dito às claras e às secas, sou da raça sem méritos nem brilhos, que não teria nada a legar aos seus sobreviventes se não fossem os fatos que me proponho a narrar do jeito que conseguir nesta memória do meu grande amor.” (pág. 11)

“É um triunfo da vida que a memória dos velhos se perca para as coisas que não são essenciais, mas raras vezes falhe para as que de verdade lhe interessam. Cícero ilustrou isso de uma penada: não há ancião que esqueça onde escondeu o seu tesouro.” (pág. 14)

“Passei uma semana inteira sem tirar o macacão de mecânico nem de dia em de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, por que o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma para alguém, se veste e se perfuma para alguém, e eu nunca tinha tido para quem. (…) Então compreendi até que ponto o sofrimento tinha me corrompido. Não me reconhecia na minha dor de adolescente. Não tornei a sair de casa para não descuidar do telefone. Escrevia sem desligá-lo e, no primeiro toque, pulava em cima dele pensando que poderia ser Rosa Cabarcas. Interrompia a cada tanto o que estivesse fazendo para ligar para ela, e insisti até compreender que aquele telefone não tinha coração.” (pág. 93-94)

(Memória de Minhas Putas Tristes / Gabriel García Márquez)

Infância

“A infância é um lugar de exílio. Se não tivermos, em qualquer sítio do coração, uma infância, onde nos refugiaremos quando os ladrões vierem para nos roubar a inocência e os sonhos e quando os assassinos baterem à porta? Se não tivermos uma pequena infância que seja (um jardim longínquo, um vago quarto de dormir perdido), onde guardaremos os segredos mais secretos e onde brincaremos ainda? E quem nos responderá quando, diante do nosso rosto no espelho, nos virmos e não nos reconhecermos? Ou quando, nos dias de infelicidade, chamarmos pelo nosso nome?”

(Manuel António Pina / O Anacronista)

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#34

tirinha do snoop