(Celebração do Dia do Motociclista, Salvador, 27 de julho de 2012)
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Eu estou esperando pela minha irmã mais velha. Olho a rua pela janela e resisto ao impulso de ligar para alguém no meio da noite só por que estou sozinha em casa. Em dias assim, sou capaz de desorganizar um apartamento como se ele abrigasse mais 38 pessoas: acendo luzes, abro armários, aumento o volume, disfarço solidão com baderna. Me encontrar sozinha em casa é sempre chegar a uma grande festa um minuto depois dela acabar. Faz um tempo que estou só no apartamento – sozinha na cidade, no país, no planeta – minha irmã caçula está morando fora, o outro irmão estudando em Madrid, meu pai no Rio, minha mãe em Istambul – minha casa é um parque de diversões desativado e vazio. E eu não sei lidar com isso. Manejo sem habilidade esse deserto mobiliado.
Talvez por isso, hoje, eu decidi esperar por ela na janela. E, na verdade, eu nem tenho uma irmã mais velha. Sem nenhum motivo aparente (maluco não precisa de motivo), escrevo uma carta para ela avisando que a casa está um bagunça e que eu estou dormindo no tapete desde segunda-feira. Que ela vai se irritar com isso, mas que eu comi todos os biscoitos da dispensa. E que joguei fora papéis, extratos, tanta coisa guardada.
Escrevo, escrevo, escrevo. Carta, bilhete, diário. Tudo por que, talvez, um dia, as minhas memórias venham a simplesmente desaparecer. Aquelas miúdas, que pai e mãe desconhecem. Eu sou a filha mais velha e lembro de cada brinquedo de meus irmãos, do medo de palhaços, das coisas engraçadas que eles fizeram no recreio da escola, mas, sobre a minha primeira infância, como eles iriam saber? Eu preciso contar para que alguém saiba. Do meu amiguinho da creche, do desenho animado, da lancheira que se abriu e derramou tudo no meio da rua. Eu preciso registrar, guardar, documentar – e eu me conto, me escrevo, me narro, me repito. É isso mesmo, meus caros. Se minha irmã mais velha estivesse aqui, eu estaria ocupada em viver e não em escrever essas bobagens.
Eu queria ter alguém que contasse para mim todas as maravilhas e desgraças de ser quem eu sou desde o começo. Alguém que teve tudo o que eu tive, só que um pouco antes – seria tão mais fácil repetir do que abrir caminho. Eu tenho muitos amigos, eu tenho tios e primos, mas a primeira criança de uma casa sempre chega sozinha ao mundo. E, não adianta, eu sou ridiculamente sozinha nessa vida. Minha memória não tem backup. Eu só queria ter essa infância segura em outro coração.
Obviamente, minha irmã mais velha seria mais forte e mais esperta do que eu. Contaria mentiras mirabolantes, histórias de terror com uma lanterna na cara, faria troça dos meus medos. Talvez seja essa a dor de todo primogênito, sem ninguém que lhe proteja, sem ninguém que lhe faça justiça no recreio dos moleques, aos bofetes e pontapés. Quem vai defender o irmão mais velho? Quem vai consolar o irmão mais velho? Eu, que aprendi a brigar e arrancar com os dentes tudo o que me fosse de direito, hoje penso na irmã que não tive e me inclino indefesa como se me faltasse um braço, uma perna, um colo, um ombro. Alguém que me salvasse do mundo cão. Que me pegasse pela mão e me levasse de volta pra casa.
Se ela estivesse aqui agora, eu iria lhe contar como foi o meu dia. Ia dizer que eu ando com o coração apertado, com um pouco de medo da vida adulta, ia perguntar a ela como é a vida adulta. Talvez eu confessasse que, no fundo, meu sangue ainda ferve de amor e ódio pelos mesmos motivos, mas que eu cresci e me tornei uma mulher bacana, que já não resolve os desafetos na porrada. Que aprendi a jogar outros jogos, mas que algumas coisas nunca mudam. E que já sei administrar quase tudo – o dinheiro, a raiva, o tempo, a dúvida. Quase tudo nessa vida. Só não sei mesmo como lidar com essa casa desabitada.
Eu diria isso a ela, se ela estivesse aqui. Se eu tivesse uma irmã mais velha. Sobrou pra você, caro leitor.
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Eu tenho uma amiga enfermeira. Sempre nos encontramos – eu, ela e o resto da humanidade comentada. E já que somos figuras públicas facilmente identificáveis na multidão, ela costuma evitar a fadiga substituindo o nome dos nossos conhecidos por nomes de remédios ou doenças. (Maledicência é para iniciados, não tentem isso em casa!)
Amigo fake é “Minancora”, colega de trabalho inútil é “Chá de Boldo”, ex-namorado problemático é “Esquizofrenia Tripolar com Aterramento” e assim por diante. A garota é um primor na arte da figura de linguagem. Analogia pura. De emocionar qualquer literato.
– Sabe Limonada Bezerra?
– Sei.
– Chamou para o aniversário de Esquitossomose. Uma reuniãozinha com Buscopan, Cleptomania e Escabin na casa de Vick Vaporub.
– Você foi?
– Fui. Nem queria, mas fui. Lá estavam Diazepam, Xanax, Enfisema, Soro Caseiro e eu, coitada, a única não-fumante do recinto. Tava divertido, tava animado, tava insalubre. Sério. Me senti respirando com uns 30% da capacidade pulmonar, a caminho da fermentação. A qualquer momento ia começar a produzir meu próprio etanol. O que, convenhamos, seria merecidíssimo.
– E aí?
– Aí chegaram os visitantes insólitos. Primeiro chegou Gripe Suína, não entendi nada. Depois Placebo. E, pra finalizar, quando mais nada de estranho poderia acontecer, quem aparece? Quem? Quem??
– Quem???
– E-BO-LA!
Ontem, não nos encontramos pessoalmente e eu fui me atualizar da resenha do dia por telefone mesmo. Contrita, num banco de shopping, com a ligação péssima, fiquei tentando ouvir o relato do outro lado da linha e comentando:
– O que? Hum? Enfisema? Mentira. E Esquistossomose? Disse isso? Meu Deus do céu, o que você vai fazer? (pausa) Sei. Melhor mesmo. Mas que chato, né? Enfisema é terrível mesmo, nem consigo imaginar. (pausa) Transtorno Suicida também? Fala sério. Eu não acredito, não dá pra acreditar numa coisa dessas. (pausa) Ok, a gente se fala. Beijos.
Quando termino a ligação, se aproxima uma freirinha com olhos rasos d’água e segura minha mão:
– Oh, minha filha, tudo isso vai passar. Acredite em Deus e ore muito. Vou rezar por você e por toda a sua família. Fé em Deus, viu, querida?
E vai embora.
Sim. Minha vida é um roteiro de comédia barata. Baratíssima.
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“O pior é que ela está inteiramente adaptada a esta sociedade. É impossível tentar libertar uma mulher que nem percebe que é prisioneira!”
(Martin Scorsese/A Época da Inocência)
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Adoro quando as pessoas usam vocábulos excessivamente educados para sublinhar instintos assassinos implícitos. “O senhor pode sair da frente, POR GENTILEZA?”. Em 100% dos casos, expressões como “por gentileza” poderiam ser facilmente substituídas por palavras de baixo calão sem nenhum prejuízo para o entendimento das frases. “O senhor poderia abaixar o som, SEU MERDA?”. “É possível servir um café com menos açúcar, CARALEO?”. Aliás, não conheço ninguém que use uma expressão tão formal com naturalidade. Se um ser humano te cumprimenta e introduz o diálogo com “por gentileza”, alerta máximo: tire os fones, gire a cadeira e preste muita atenção, por que o cara vai te falar sobre algo querendo dizer uma outra coisa. É cilada. Não vacile.
Pior de tudo: eu não consigo ouvir essa palavra sem me lembrar daquele lunático que pintava os viadutos do Rio de Janeiro com mensagens proféticas e assinava como “Gentileza”. Barbudo, esfarrapado, revoltadíssimo, andando pelas filas da Tiradentes bradando que os descrentes iam ser espetados pelos córneos do capeta, que todo mundo ali era puta-viado-maconheiro e que, se não se convertessem, iam morrer todos com a espada da justiça divina atravessando os miolos. Esse era o Gentileza, sempre gentil. Pregando o amooooor na base da ofensa. Pedagogia válida, ganhou até museu.
Pois bem, esse cara morreu faz uns anos. Na adolescência, sempre passei as férias de verão no Rio de Janeiro e era presença certa nestes circuitos da cidade, mas, infelizmente, nunca tive a oportunidade de cruzar com tal cavalheiro para assombrar a minha juventude. Não sei por quê. Talvez, nas circunstâncias da época, ter um louco bradando que eu era pecadora e iria queimar no fogo do inferno fosse uma sentença meio redundante. Sei lá.
Dois mil séculos se passaram e o Gentileza continuou sendo, pra mim, a personificação da comunicação truncada. A evidência desta capacidade que as pessoas têm de expressar uma coisa desejando exatamente o contrário. O cara fala de amor, esperança, fraternidade e te manda para o inferno no mesmo parágrafo – o que pode ser mais esquizofrênico? Só essa galera que te aborda com o brilho da insanidade no olhar e te pede, com um sorriso doentio e uma voz metálica, pra você não pisar com o pé sujo no tapete, POR GENTILEZA.
Sempre fico tentada a também bancar a esquizofrênica e fazer exatamente o contrário. Só pra poder dizer “Opa, caro senhor, ME DESCULPE” com o mesmo sorriso metálico, insano e educadíssimo. Pagar maluquice com maluquice. Gentileza gera gentileza.
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