Duas opções: ou eu estou me tornando uma miguxa retardada ou esse vídeo é mesmo a coisa mais singela do mundo. Cada vez que eu penso que não fui EU quem concebeu, produziu e editou cada frame dele, eu choro. Muito. Três vezes ao dia.
Na primeira vez em que a gente se viu, não faço idéia do que ele me perguntou, mas lembro de como perguntou. De maneira direta. Sim, por que a maioria das pessoas, antes de pedir um favor ou sugerir um comentário ou fazer um convite, tendem a preceder o assunto com meia dúzia de perguntas de introdução absolutamente tediosas, como alguém que quer te chamar pra sair e vem rodiando – tudo bem? o que tem feito? tá muito ocupada hoje? você gosta de música? – ao invés de dizer logo a que veio. No fundo, essa é só uma forma de sondar o interlocutor e, se as condições não forem favoráveis, simplesmente desconversar. Evitar um não explícito. Covardia cortez. Suponho que quem não está pronto pra receber um não, não deve estar pronto pra receber um sim. Sondou? Errou. Gaguejou? Perdeu.
Não me lembro qual foi a pergunta – me empresta cinco euros? vamos tomar um sorvete? – qualquer coisa assim, direta, que me fez adivinhar que seríamos amigos. Bingo.
Isso enorme no seu braço é um relógio, filha? E eu me acabo de rir. Dessa maneira despachada de falar, sempre irônica, me desconcertando desde que tudo aqui era novidade e eu era uma recém-chegada deslumbrada, ainda mais boba do que hoje, gargalhando, me pedurando nos monumentos, abraçando os turistas ao som de We are the world, saindo para a rua de pijama para ver quem aguentava mais tempo no frio. Bem mais despreocupada do que estava agora, ali, com o cardápio na mão, sem saber por onde começar. Ele sorri, espera o garçom sair e pergunta o por quê daquele encontro urgente: fala, garota, minha curiosidade é aspirina fervilhando em copo d’água.
Eu quero saber o que foi que me escapou. Assim, na minha vida. Que peça é essa que está faltando, o por quê dessa maldita sina de filme de Sessão da Tarde reprisando indefinidamente. Eu sei que a gente nem se conhece a tanto tempo – um ano? um ano e meio? – mas, meu Deus, há amigos de oito dias, há indiferentes de oito anos, você é a pessoa mais objetiva que eu conheço e eu já te contei tanta coisa da minha vida que, agora, nesse momento, não consigo pensar em ninguém melhor pra me dizer, enfim, quando foi que a coisa desandou pra mim? Quando?
Aí ele ficou sério. E respirou fundo. Desligou o celular com a mão direita enquanto a esqueda deslizou pela mesa até segurar a minha mão. Firme. E eu, que repeti tanto a pergunta, de repente, fiquei com medo de ouvir a resposta. Mas era necessário. Mas era a única forma. Enfim, alguém ia me dizer com todas as letras algo que ninguém mais tinha me dito, por que eu nunca perguntei, por que eu nunca permiti que alguém me dissesse. Eu não estava buscando um conselho, estava buscando a solução, a verdade, algo definitivo, só aquele cara podia me ajudar e ele sabia disso. Por que era mais esperto que eu, por que era mais sagaz do que eu e já me conhecia o suficiente pra saber de coisas que eu não disse. Vai, fala logo. Acaba de uma vez com isso. Essa é a minha chance, é o único caminho, vai, diz, eu passei a vida inteira esperando para saber.
Nesse momento ele se ajeitou na cadeira, calado, me olhando. E se aproximou muito sério e foi falando pausado, no meu ouvido, com muita, muita cerimônia:
– Não olhe agora, mas você não acha que esse garçom é a cara do Bob Esponja?
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Sei que eu estou me tornando a-chata-do-bairro-novo que não tem outro assunto, mas, céus, como alguém pode ter outro tema/interesse/aspiração na vida quando mora num lugar assim?
Apresentando: o hall de entrada.
A sala de estar.
A sala de visitas.
A varanda.
A cozinha.
A piscina.
O jardim.
E o povo querendo que eu me interesse por trabalho, estudo, sei lá, copa do mundo.
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Passar a semana dormindo num lençol estendido no chão e acordar com o Tim Maia cantando Não Quero Dinheiro é de uma ironia tão fina que eu fico até comovida.
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(Olivais, 30/06/10, 9:30)
Último dia bairro dos Olivais.
Só quando o pessoal entrou aqui em casa em prantos para se despedir é que me caiu a ficha de que, aqui, mudar de bairro é um pouco mudar de país: lágrimas, presentes, tudo como se eu estivesse indo pra muito, muito longe. De alguma forma é – esses são meus últimos dias no bairro indiano e, pra onde quer que a pessoa vá, vai sempre haver certo choque cultural. E a despedida da vizinhança teve aquela tônica festiva e fatalista de sorte irremédiável tão típica deles que me lembrou o trailler de Quem quer ser um milionário?, quando o narrador pergunta:
Jamal tem apenas uma questão para ganhar 20 milhões de rúpias. Como ele fez isso?
a) Ele trapaceou;
b) Ele é um sortudo;
c) Ele é um génio;
d) É o destino.
E a resposta é a letra D. É o destino.
Depois chegou o caminhão da mudança denunciando a minha Síndrome de Diógenes – o que era apenas uma mala agora recheia um caminhão-baú – e eu viajei no bagageiro, bem bonita, sentadinha no sofá até Alfama. Chegando lá, tinha um grupo de turistas japoneses fotografando a minha rua. Depois posando na porta da minha casa. Pensei em cobrar por excursões guiadas pela minha sala, quarto e cozinha.
Sabe, isso de ir morar no centro histórico está me subindo à cabeça. Já estou me sentindo uma daquelas gringas diletantes que, quando vai passar uma temporada em Salvador, faz questão absoluta de morar no Pelourinho, passear pelo Carmo, subir a ladeira da Sé. Claro. Se fosse pra perambular por ruas asfaltadas cheias de prédios espelhados a pessoa não precisava ter ido para a Bahia. A lógica é a mesma: se eu quisesse conforto eu não iria pra lá, se eu quisesse praticidade eu não iria pra lá, se eu quisesse paz e tranquilidade alugava um quarto de hospital, onde é tudo branquinho, silencioso e tem cama em sete posições.
Na esquina da rua da confusão com a rua da boemia, enfim, meu novo endereço. Uma casa vazia, sem geladeira, sem fogão, sem absolutamente nada, entro com as caixas e com o meu único sofá, sento nele e fico olhando para o teto. E só. Não sei como resolver o resto. Nem a instalação da luz, nem a do gás, nem como comprar móveis e eletros, como fazer o registro de água, do aquecedor, meu Deus, muita calma, filosofia indiana, não importa a pergunta, a resposta será sempre a letra D. É o destino. É o destino, está tudo escrito e as coisas vão se resolver. Você é a pessoa certa no momento certo.
Jai-ho, Mariana. Bem-vinda ao lugar certo.
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Durante a mudança de endereço para os Olivais, eu queria comprar uma rede. E um tapete. E uns castiçais coloridos. E meus cálculos diziam que eu não conseguiria decorar a casa nova do jeito que queria, que só daria para uma parte, o que equivaleria a um meio-termo. E eu odeio um meio-termo. Quando a gente não tem grana, tem que escolher: ou investe tudo o que tem e faz a coisa do jeito que imaginou ou muda os planos. Ou corre o risco da sua vida virar uma daquelas festas de gala de pobre que, ao invés de criarem algo completamente novo, ficam imitando os procedimentos dos ricos, só que com baixo orçamento, com direito a garfinho plástico e guardanapo de papel. Se não dava pra comprar tudo, era melhor ter uma mobília recolhida do lixo.
Decisão que, é claro, resultou em algumas das cenas mais inusitadas da minha vida, que incluíam sair de madrugada para revirar esquinas, depósitos, sair carregando mesas nas costas, encaixar um sofá de três lugares no elevador e, por fim, a noite em que a gente estava correndo cada um com uma poltrona na cabeça e sendo obrigados a parar a cada quarteirão para descansar – sentados nas poltronas, claro – e os motoristas passavam perguntando: por que raios vocês estão a fazer sala no meio da rua? E eu respondendo: eu moro aqui mesmo e o senhor tire o seu carro da minha casa!
Meses depois, nova mudança e é hora de decidir outra vez. Decorar ou não decorar? Aí eu comecei uma pesquisa despretenciosa na Internet sobre designer de interiores que terminou comigo passando o sábado. inteiro. dentro. do Ikea.
Sem comprar absolutamente nada, claro, mas não deixa de ser algo que eu confesso com certo constrangimento, por quê, bem, estamos falando de decoração. Nem sei de onde me veio esse interesse repentino pelo assunto, mas o fato me aproxima de um terreno perigoso: o do clichê. Céus, o que pode ser mais clichê do que uma mulher que curte objetos de decoração? (Decoradoras ofendidas, falem com a minha mão).
Sempre tomei o cuidado de não me interessar demais por determinados assuntos – moda, esoterismo, sei lá – da mesma forma que, se eu fosse um rapaz, não iria querer saber nada sobre carros. E nunca, jamais estudaria sobre eletrônicos, vinhos, F1, nem ia querer saber coisa nenhuma sobre futebol. Tem coisa mais desinteressante no mundo do que um homem que sabe nome de jogador, número de títulos, técnico do time e tudo que 95% dos outros homens já sabem? (Torcedores ofendidos, minha mão pra vocês também).
Se vocês não levarem em conta que já possuo o hobby mais lugar-comum do universo (alguém conhece um não-fotógrafo?), vou citar um almoço recente onde uma colega me apresentou os primos dela. Um gostava de surf, a caçula curtia games, a outra jogava vôlei e o mais velho, nas horas vagas, era adestrador de golfinhos. Quem tinha o passatempo mais adorável? Com quem você gostaria de conversar? Daí eu lembro de Moreno Veloso – “é charmoso não saber o que todo mundo sabe” – e me bate certa ressaca moral por estar dedicando meu tempo livre a papéis de parede, luminárias e revestimentos, mas, né, fazer o quê? Eu sou um clichê da minha geração.
E já que constrangimento sem platéia não faz o menor sentido, vou postar aqui os meus atuais objetivos de consumo. Um resumo só pra saber quantos pontos vou perder no conceito de vocês. Pensando bem, quero saber não.
Árvores, gaiolas e estrelas em cima da cama. Eu. que. ro.
Pombos + coelhos + flores. Quem achar um defeito, me avisa.
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Eu conheci muita gente que não gostava de mim. Por motivos diversos, enfim, eu devo ter fornecido muito material durante a vida para alimentar o desafeto alheio e já percebia quando alguém dava sinais de que me detestava ou me achava uma idiota. Odio é o avesso do sentimento, só te odeia quem sabe o seu nome e sobrenome, conhece alguma coisa de você e tem um motivo (real ou imaginário) pra te querer mal. Podemos aceitar paixões platônicas, mas inimizade platônica seria humilhação demais: só te odeia quem se sente próximo de você. Seus inimigos podem até te ignorar, mas não podem negar a sua existência. Ser odiado é privilégio. Dureza é ser desprezado.
E, agora que desprezo virou o meu sobrenome do meio, pronto, pode pegar um banquinho e sentar aí que eu quero contar o meu drama, por que eu estou arrasada, por que eu estou passada, por que eu estou com saudades de me lamuriar na Internet. Gente, é o seguinte: volto eu de viagem certa de que minha mudança já está resolvida, casa nova escolhida, tudo certo até que o proprietário me informa que não quer mais alugar o imóvel. Motivo? MISTÉÉÉRIO. Poucos dias antes da data de entrega da residência atual, estamos sem teto. Solução? Ligar para imobiliárias e tentar conseguir outro. Com urgência. Sempre evito imobiliárias por que sei que estrangeiros não são bem-vindos por lá, mas, agora que não tem jeito, sento ao lado do telefone e começo a pesquisa. Mas, inexplicavelmente, no meio de todas as ligações, o interlocutor desliga. Do nada. Por quê? MISTÉÉÉRIO.
Acontece assim: quando os funcionários de uma imobiliária percebem o seu sotaque, eles não se chateiam ou reclamam, eles simplesmente batem o telefone. Na sua cara. Não para te ofender, não é nada pessoal, mas para não perder tempo com aquela ligação que, simplesmente, não interessa. Enquanto um corretor fala com uma estrangeira, um outro cliente nacional pode estar tentando ligar, então, ora, pra que perder tempo me despachando? Desliga e pronto. Entendam: a minha ligação nem é um problema, é só um contratempo. Nesses momentos, antes de eu virar uma serial killer e canalizar todo o meu instinto assassino para o derramamento de sangue, só me restaria discar novamente para cada um perguntando por que eles desligaram, gritar palavrões, bradar por respeito e educação doméstica, mas toda vez que eu penso em fazer isso me vem à mente o Bogart levantando as sombrancelhas em Casablanca: “francamente, querida, eu não dou a mínima”.
Bem, isso aqui certamente não vai descambar num discurso sobre xenofobia, o que eu quero dizer é que, às vezes, o que você é não importa. Não importa se eu tenho a grana para pagar, não importa se eu tenho a documentação, não importa se eu sou a inquilina dos sonhos de qualquer proprietário, nada importa, o que eu sou não faz diferença. Quando alguém te despreza, não te despreza pelo que você é. O que você é não interessa!
Há ocasiões em que alguém diz que despreza certa pessoa conhecida, mas isso não é verdade. Desprezo é um dom dos anônimos. O alvo de todo desprezo do mundo é a moça do telemarketing que liga às sete da manhã, o cidadão que passa pela janela do carro entregando folhetos de propaganda, o vendedor que bate na porta de casa oferecendo enciclopédia, tv a cabo, filtro de água. Em resumo, aquele cara que a maioria das pessoas acha incômodo, mas irrelevante. Desprezo não tem rosto, não é nada pessoal. Só pra lembrar: este ano eu já fui telemarketing, vendedora e entreguei panfleto. Certamente, ninguém me queria mal.
Às vezes, eu tenho saudades do tempo em que as pessoas me detestavam, mas sabiam o meu sobrenome.
Publicado em havaiana de pau (day life) | 8 Comments »
Não tinha como não lembrar:
“Sempre acontecem coisas quando vou a Notre-Dame. (…) Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”, feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.
“(…) Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.
“Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. Tomei um Calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.
“(…) Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor.
Embora, em segredo, doa.”
(Caio Fernando Abreu /O Estado de S. Paulo, 3/4/1994)
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“Por que a vida nos livros é muito mais interessante que a vida real”, lembro de ter respondido ingenuamente para uma professora que me perguntou por quê eu gostava de ler. Essa frase certamente não era minha, eu devia ter visto em qualquer lugar e tirei prontamente do bolso na ocasião em que ganhei uma medalhinha de aluna que mais consumiu livros da biblioteca durante o ano letivo. Era um desses concursos que envolvia todas as turmas do colégio. Detalhe: eu estava na quinta série.
Em outras palavras, eu diria hoje que os livros nos prendem por que a nossa vida não nos prende. Ontem mesmo li na Internet um trecho da obra de Proust em que ele explica que é muito natural que os livros sejam mais instigantes que as experiências reais, mesmo que os romances narrem episódios semelhantes aos que vivenciamos em nossa rotina. A diferença está em 1) na vida cotidiana, não temos acesso aos pensamentos e anseios das pessoas à nossa volta. Somos obrigados a deduzi-los através de gestos, palavras, pistas inexatas que nos dão uma participação reduzida em suas emoções, enquanto, nos romances, essas tormentas interiores estão quase sempre explícitas para o leitor de dentro pra fora. Mesmo que o personagem do livro seja uma pessoa comum, possível de encontrar no seu dia-a-dia, seu contato com ela será mais visceral por que você pode ler os seus pensamentos. E pelo motivo 2) nos livros, mesmo que as histórias de vida sejam semelhantes às nossas, elas parecem mais intensas por que estão resumidas. Segundo o próprio Proust, a Literatura “desencadeia em nós, durante uma hora, todas as venturas e todas as desgraças possíveis, algumas das quais levaríamos anos para conhecer na vida, e outras, as mais intensas dentre elas, jamais nos seriam reveladas pois a lentidão com que se processam nos impede de as perceber (…) porque na realidade o coração se transforma do mesmo modo que se produzem certos fenômenos da natureza, isto é, com tamanho vagar que, embora possamos ver cada um de seus diferentes estados sucessivos, por outro lado escapa-nos a própria sensação da mudança”.
Ou seja: a nossa vida é superficial e lenta demais para ser emocionante. Fato que me lembrou também a ótima Susan Sarandon, no filme Dança Comigo? (2004), quando o detetive pergunta a ela por quê as pessoas se casam. E ela responde: “as pessoas não se casam por amor. Elas poderiam se amar e não necessariamente se casarem. As pessoas se casam por que precisam de uma testemunha para suas vidas, por que somos insignificantes no contexto da humanidade e, se o mundo não notar em você durante a sua existência, haverá uma pessoa que vai notar. Alguém para testemunhar todos os seus dias”.
Pode não ser a definição mais romântica e apaixonada sobre o casamento, mas não deixa de fazer sentido. Principalmente se você extender este princípio a todas as suas relações ou a todas as suas conversas banais. Como quando você está com alguém (esposa, parente, amigo) e a pessoa vai contar um episódio qualquer do passado em que você participou. Geralmente, para contextualizar melhor o interlocutor, a pessoa vai fazer um apanhado rápido do momento histórico que vocês viviam naquela época – narrar características, cenários, personagens – para contar o caso em si. Vai fazer uma enumeração distraída de fatos relevantes, acontecimentos tristes e alegres (que levaram anos pra acontecer) em poucas palavras. E, quem resume uma história, aumenta a sua densidade. Esse, provavelmente, vai ser o momento em que a sua vida mais se aproxima da Literatura. Quando ela é resumida e contada por um narrador íntimo envolvido.
Talvez por isso que eu acredite tanto que as pessoas precisem ter relações estáveis umas com as outras. Por que a rotatividade de contatos interpessoais é a forma mais fácil de dispersar capítulos inteiros da sua história, que nunca voltarão pra você em forma de depoimentos, casos, relatos de anos mais tarde. Preservar relações de amizade, estreitar laços de família, testemunhar e reunir testemunhas talvez seja a nossa única chance de fugir do anonimato e da trivialidade, de não mergulhar na sucessão morna dos dias, porque, cada dia nosso, se analisado de maneira isolada, é quase sempre banal. Dias são peças de um jogo que só fazem sentido em conjunto. Peças que estão dispersas entre parentes e amigos – se você os perder de vista, nunca vai ter uma história de vida que valha um romance.
Publicado em raspas e restos (crônicas) | 4 Comments »







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