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Posts Tagged ‘albert camus’

“Sentia-me à vontade em tudo, isso é verdade, mas ao mesmo tempo nada me satisfazia. Cada alegria fazia-me desejar outra. Ia de festa em festa. Acontecia-me dançar noites a fio, cada vez mais louco com os seres e com a vida. Por vezes, já bastante tarde, nessas noites em que a dança, o álcool leve, o meu desenfrear, o violento abandono de cada qual, me lançavam para um arroubo ao mesmo tempo lasso e pleno, parecia-me, no extremo da fadiga e no lapso de um segundo, compreender, enfim, o segredo dos seres e do mundo. Mas a fadiga desaparecia no dia seguinte e, com ela, o segredo. E eu atirava-me outra vez.”

(Albert Camus / A Queda)

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“Caro Monsieur Germain, deixei que passasse um pouco o movimento que me envolveu todos esses dias antes de vir-lhe falar de coração aberto. Acaba de me ser feita uma grande honra que não busquei, nem solicitei. Mas, quando eu soube da novidade, meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para você. Sem você, sem essa mão afetuosa que você estendeu ao menino pobre que eu era, sem seu ensino, sem seu exemplo, nada disso teria acontecido. Eu não faço questão dessa espécie de honra. Mas essa é ao menos uma ocasião para dizer-lhe o que você foi e é sempre para mim, e para assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que você coloca em tudo que faz, sempre de maneira viva com relação a um de seus pequenos discípulos que, não obstante a idade, não cessou jamais de ser seu aluno. Eu o abraço com todas as minhas forças.”

(Albert Camus, romancista nascido na Argélia, em carta ao seu antigo professor após ser nomeado ao prêmio Nobel, em 1957)

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“Pois o que dá valor à viagem é o medo. Ele quebra em nós uma espécie de cenário interior. Não é mais possível trapacear – ocultar-se por trás do horário do escritório e do canteiro de obras (esses horários contra os quais protestamos tão alto e que nos defendem com tanta segurança do sentimento de estar só). Assim é que sempre tive vontade de escrever romances em que meus personagens diriam: “Que seria de mim sem meu horário do escritório?” ou, ainda: “Minha mulher morreu, mas, por sorte, tenho um monte de expedientes para redigir amanhã.” A viagem nos tira este refúgio. Longe dos nossos, da nossa língua, arrancados de todos os nossos apoios, privados de nossas máscaras (pois não se conhece o preço da passagem de bonde e tudo é assim), estamos totalmente na superfície de nós mesmos.”

(Albert Camus / O Avesso e o Direito)

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