Eu tenho uma amiga chamada Vânia. Ela é professora de dança em Dubai. Como dançarina profissional, ela viaja o mundo participando de eventos artísticos.
Às vezes, quando eu estava tendo um dia chato no escritório, via nas redes sociais as atualizações do localizador dela: Vânia está em um Congresso Internacional de Dança, em Viena. Ou: Vânia está num Cruzeiro de Aperfeiçoamento Musical, no Mediterrâneo. Ou: Vânia está em um Festival de Cultura, em Seul. E isso me dava alguma paz de espírito – pensar que, em algum lugar, ao menos uma de nós estava tendo um dia interessante.
Vânia foi minha colega no colégio. Ela era a roqueira sexy, de cabelo vermelho, piercing e tatuagem. Eu era a nerd militante, de óculos e camisão xadrez. Nem sei dizer por que a gente se dava tão bem. Combinamos de nunca perder o contato. E nunca perdemos.
Ano passado ela veio passar férias em Salvador e a gente se reencontrou. E foi uma festa. E ela me contou sobre todos os países, todas as baladas, todos os hotéis. Sobre a beleza da dança de cada lugar. Sobre as viagens de aventura. Depois contou também que nem todos os dias eram bons, por que é duro não ser de lugar nenhum. E que, às vezes, quando a solidão parecia esvaziar tudo em volta de sentido, ela buscava por notícias do Brasil pelo computador. E via as fotos da minha casa cheia de velhos amigos. Do meu Natal cheio de tios e primos. E gostava de pensar que, em algum lugar, pelo menos uma de nós estava levando uma vida rodeada de amor.
E a gente se despediu outra vez. Ela disse que me mandaria notícias logo que chegasse em Abu Dhabi. Que me enviaria um postal quando fosse à Manila. E me prometeu um incenso de Amã.
E ver Vânia indo embora me partiu o coração.
A verdade é que o sonho de toda funcionária é ter uma vida de aventura e arte ao redor do mundo, livre da rotina e da mesmice. E o sonho de toda andarilha é ter uma casa com cachorro e velhos amigos abrindo a geladeira.
Ninguém nesse mundo é feliz.