Posts Tagged ‘mariana miranda’
#43
Posted in gêmea má (maledicências), tagged adele, bob marley, mariana miranda on maio 28, 2013| Leave a Comment »
26 de maio
Posted in choro baldes (arte), tagged mariana miranda, orhan pamuk on maio 26, 2013| Leave a Comment »
“Era o momento mais feliz da minha vida, mas eu não sabia. Se soubesse, se tivesse dado o devido valor a essa dádiva, tudo teria acontecido de outra maneira? Sim, se eu tivesse reconhecido aquele momento de felicidade perfeita, teria agarrado com força e nunca deixaria que me escapasse. Levou alguns segundos, talvez, para aquele estado luminoso tomar conta de mim, mergulhando-me na paz mais profunda, mas ele me pareceu ter durado horas, até mesmo anos. Naquele momento, na tarde de segunda-feira, 26 de maio de 1975, em torno de quinze para as três, assim como nos sentíamos além do pecado e da culpa, o mundo todo parecia ter sido liberado da gravidade e do tempo.”
(Orhan Pamuk / O Museu da Inocência, pág. 03)
#42
Posted in gêmea má (maledicências), tagged chaves, mariana miranda on maio 23, 2013| Leave a Comment »
Os números primos
Posted in raspas e restos (crônicas), tagged mariana miranda, primos on maio 21, 2013| 4 Comments »
Minha prima está lendo um poema para mim. Ela está sentada no tapete da sala, numa tarde silenciosa, no apartamento quieto. Minha prima está lendo um poema longo que fala de barcos e mares e lugares distantes, de paisagens que ficam flutuando na sala até o próximo verso de uma história que não tem mais fim. Lá fora faz um dia azul e nada se parece com a tempestade de ontem. Minha prima foi embora de casa no mesmo ano que eu, também andou por horizontes tão distantes quanto os meus e também voltou para o tapete da sala como um gato volta para os pés do dono. E a gente se reencontrou. O poema que ela está lendo fala de uma busca remota e impossível e, se estivéssemos a quinze anos atrás, minha prima viraria a página para continuar lendo a história. Agora, ela desliza o texto por uma tela. Algumas coisas mudaram. Mas quase tudo está do jeito que a gente deixou.
Minha prima usa um vestido longo, um tom de voz familiar – ela tem o meu sangue e o meu sobrenome. E ela ainda lê poemas pra mim naquela sala mais que conhecida. Um dia, se alguém me perguntasse qual o meu conceito para a palavra “herança”, eu me lembraria da estante daquela sala. Eu, ela e os nossos primos lemos os livros daquela mesma estante. No início: Branca de Neve, O Pequeno Príncipe, O Sítio do Pica-Pau Amarelo. Anos depois: A Moreninha, Capitães de Areia, Noite na Taverna. Por fim, o legado adulto: Os Sertões, Casa Grande e Senzala, Este Lado do Paraíso, Reserve-me a Última Valsa.
Acredito que poucas coisas na vida se equivalem a ter sido jovem junto a alguém – e talvez seja esse o segredo dos consanguíneos, o passado repartido, vibrando e doendo nas mesmas fotografias. Ter um primo é como ter um irmão vivendo em outra casa, com outros pais e outros brinquedos, só pra te contar como seria a sua vida se você não tivesse nascido você. É ver o seu igual crescendo do outro lado do muro. É ter sempre alguém pronto pra te lembrar que você não era tão feio/bonito/brilhante/sozinho quanto você pensa que era.
Eu sou uma pessoa falante, eu tenho colegas e amigos, mas sempre que preciso conversar com alguém sobre as minhas dúvidas, sobre as minhas questões mais pessoais, me vejo tendo de atualizá-los dos últimos trinta anos da minha existência. Sinto falta deste elo mais antigo. De não ter que explicar por que eu prefiro mousse, por que este apelido, por que aquela igreja ou por que aquela música. Um dia, ela toca no rádio. A gente se entreolha. E o universo volta ao seu lugar.
Minha prima está lendo agora um poema tão infinitamente bonito que eu fico pensando em qual vai ser o futuro da gente. E eu não sei o que vai acontecer. Se cada uma vai embora para outra terra distante, se nossos filhos vão se conhecer, se o vento vai soprar para tantas outras direções num mundo tão grande e tão complicado. Na matemática, os números primos são aqueles que estão relativamente próximos, mesmo não estando lado a lado. Passo a mão pelo tapete, num gesto involuntário. Como se segurasse o chão. Para ele não me escapar.
Ela acaba de ler o texto sobre barcos e mares e lugares longínquos. E levanta os olhos e sorri. Minha prima não me pergunta se eu gostei do poema ou se eu não gostei ou se entendi. Por um minuto, na tarde quieta, eu penso nesta dádiva que a gente ganha antes mesmo de saber para que serve. E peço a Deus pelos meus primos, que são tão doces e tão jovens e estão tão perdidos quanto eu sempre que saem por aquela porta. E torço pra que a gente não se disperse, para que a gente se reencontre sempre um no outro. No outro, uma porta de emergência. No outro, um caminho pra casa. Nas fotografias, nos nossos livros em comum. No Sítio do Pica-Pau e na Casa Grande. Nos Sertões e na Taverna. Em qualquer Lado do Paraíso. Até a nossa Última Valsa.
#41
Posted in choro baldes (arte), tagged carlos drummond de andrade, mariana miranda on maio 21, 2013| Leave a Comment »
Seu nome
Posted in choro baldes (arte), tagged fabrício corsaletti, mariana miranda, seu nome on maio 19, 2013| Leave a Comment »
“Se eu tivesse um bar, ele teria o seu nome. Se eu tivesse um barco, ele teria o seu nome. Se eu comprasse uma égua, daria a ela o seu nome. Minha cadela imaginária tem o seu nome. Se eu enlouquecer, passarei as tardes repetindo o seu nome. Se eu morrer velhinho, no suspiro final balbuciarei o seu nome. Se eu for assassinado com a boca cheia de sangue, gritarei o seu nome. Se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome. Se eu me suicidar, ao puxar o gatilho, pensarei no seu nome. A primeira garota que beijei tinha o seu nome. Na sétima série, eu tinha duas amigas com o seu nome. Antes de você, tive três namoradas com o seu nome. Na rua, há mulheres que parecem ter o seu nome. Na locadora que frequento, tem uma moça com o seu nome. Às vezes, as nuvens quase formam o seu nome. Olhando as estrelas, é sempre possível desenhar o seu nome. O último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome. Apollinaire escreveu poemas a Lou porque, na loucura da guerra, não conseguia lembrar o seu nome. Não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome. Se eu fosse um travesti, usaria o seu nome. Se um dia eu mudar de sexo, adotarei o seu nome. Minha mãe me contou que, se eu tivesse nascido menina, teria o seu nome. Se eu tiver uma filha, ela terá o seu nome. Minha senha do e-mail já foi o seu nome. Minha senha do banco é uma variação do seu nome. Tenho pena dos seus filhos porque, em geral, dizem “mãe” em vez do seu nome. Tenho pena dos seus pais porque, em geral, dizem “filha” em vez do seu nome. Tenho muita pena dos seus ex-maridos, porque associam o termo ex-mulher ao seu nome. Tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome. Quando fico bêbado, falo muito o seu nome. Quando estou sóbrio, me controlo para não falar demais o seu nome. É difícil falar de você sem mencionar o seu nome. Uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome. Coelho tinha o seu nome. Xícara tinha o seu nome. Teleférico tinha o seu nome. No índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do seu nome. Na foto de Korda, para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome? Algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome. Detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome. Cabala é uma palavra linda, mas não chega aos pés do seu nome. No cabo da minha bengala gravarei o seu nome. Não posso ser niilista enquanto existir o seu nome. Não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome. Não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome. Não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome. Não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome. Quando saí da casa dos meus pais, fui atrás do seu nome. Morei três anos num bairro que tinha o seu nome. Espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome. Espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome. Espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome. Espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome. A literatura não me interessa tanto quanto o seu nome. Quando a poesia é boa, é como o seu nome. Quando a poesia é ruim, tem algo do seu nome. Estou cansado da vida, mas isso não tem nada a ver com o seu nome. Estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu nome. Talvez eu não seja um poeta a altura do seu nome. Por via das dúvidas, vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome.”
(Fabrício Corsaletti / Seu Nome)
A Companhia das Letras publicou o texto neste vídeo aqui.
#40
Posted in gêmea má (maledicências), tagged charles bukowski, mariana miranda on maio 17, 2013| Leave a Comment »
A história da anêmona
Posted in choro baldes (arte), havaiana de pau (day life), tagged anêmona, mariana miranda on maio 15, 2013| Leave a Comment »
Existe um tipo de anêmona do mar que, a cada geração, precisa cruzar parte do oceano para se fixar numa pedra do litoral. Isso pode levar anos. Desde o seu nascimento, a anêmona tem este objetivo e dedica boa parte da vida ao trajeto.
Algumas conseguem chegar à praia e, quando alcançam uma rocha grande e firme, se fixam com toda força. E, imediatamente, perdem o cérebro.
E pronto.
É assim há uns cinco mil anos.
Eu estou trabalhando demais, é isso que eu acho.
Os Belos e os Malditos
Posted in choro baldes (arte), tagged mariana miranda, scott fitzgerald on maio 14, 2013| Leave a Comment »
Do topo à bancarrota em 400 páginas. Recomendo.
“A felicidade, observou certa vez Maury Noble, é apenas a primeira hora depois de nos livrarmos de um sofrimento particularmente intenso. Mas o rosto de Anthony ao caminhar pelo corredor do décimo andar do Plaza naquela noite! Seus olhos brilhavam, estava mais belo do que nunca, destinado a um daqueles momentos imortais que acontecem de forma tão radiante que sua luz é suficiente para iluminar anos.” (pág. 125)
“Ocorreu-lhe que todas as classes muito distintas, como a classe militar, dividiam os homens em dois gêneros: os que a ela pertenciam e os que estavam de fora. Para os padres, havia sacerdotes e leigos. Para os católicos, os católicos e não-católicos. Para os negros, pretos e brancos. Para os presos, os presos e os livres. Para os doentes, os enfermos e os sãos. Assim, sem jamais ter pensado nisso, fora civil, leigo, não-católico, branco, livre e são.” (Pág. 314)
“Acho que em determinado período eu poderia ter obtido qualquer coisa que quisesse, dentro de limites, mas aquilo era a única coisa que eu já quisera ardentemente. Meu Deus! E isso me ensinou que a gente não pode ter nada, não pode ter nada mesmo. Por que o desejo simplesmente te engana. É como um raio de sol que pula para lá e para cá dentro de um quarto. Quando pára e doura algum objeto sem importância, pobres tolos que somos, tentamos pegá-lo; mas quando conseguimos, o raio muda para outra coisa, e você fica com a parte sem valor, pois o brilho que lhe fez querê-la foi embora.” (Pág. 319)
“- O que foi feito de todos que conhecíamos e que tinham tanto em comum conosco?
– Afastaram-se – disse Muriel, com o olhar devidamente sonhador.
– Mudaram – disse Glória – Todas as qualidades que não são usadas na vida diária acabam se deteriorando.” (Pág. 380)
(F. Scott Fitzgerald / Os Belos e Malditos)
Toy Story
Posted in na minha rolleiflex (fotos), tagged mariana miranda, toys on maio 10, 2013| Leave a Comment »




