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Posts Tagged ‘mariana miranda’

“Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.”

(Clarice Lispector / Felicidade Clandestina)

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A primeira aula da faculdade começa às sete da manhã e já é preciso ligar para a enfermaria por que um dos meninos subiu na cadeira pra mexer no ar condicionado e despencou. Desminto que a professora da noite está tendo um caso com o bibliotecário, distribuo a correção das provas e garanto que não há nada de sobrenatural no fato do novo papa se parecer com o Mestre dos Magos, de Caverna do Dragão. Uma das moças se exaspera ao ouvir que o garoto propaganda da Bombril morreu e recolho a rifa para o sorteio do diário roubado de uma das colegas. Um dos alunos me pergunta, muito sério: pró, será que vai chover?

Reflito.

bombril

(E eu ainda tenho que ir para o expediente do escritório. E tenho que entrevistar um deputado – de novo. Ele mudou de opinião e quer dar outra entrevista. E tenho que sair de lá às duas para assistir a matéria especial do doutorado sobre “o estudo do objeto, da essência e da coisa”. E, depois, ir à outra faculdade para dar uma aula na graduação de Direito, depois tem orientação de tese com quatro equipes de formandos que estão em desespero e choram, choram, choram e, no fim da noite, tem outra aula na graduação de Jornalismo e três na graduação de Publicidade, onde tudo o que eu digo/faço/ensino em sala vira jingle com coreografia no Youtube).

Mas ainda são sete da amanhã. E tem esse rapaz me perguntando, afinal de contas, se vai chover.

Respondo, sorrindo, que existe uma possibilidade de 32,5% de que chova. No máximo, de 33%. Especialmente entre às treze horas e às quinze e quarenta e cinco.

Bombril (1)

É isso.
Desafetos variados, não me roguem nenhuma praga hoje. Porque, acreditem em mim, não precisa.

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O novo vizinho do andar de cima é barulhento. Ou vizinha, sei lá, nunca vi. Só conheço os eletros da casa: o liquidificador das 6h00, o microondas das 6h15, o aspirador de pó das 7h30 e o relógio cuco das 7h59. Relógio cuco. Depois das 8h00 ele desliga os eletros todos e vai ouvir música. A mesma música. Todo dia.

A música é Nuvem de Lágrimas.

Aí eu não consigo odiar essa pessoa.

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Este livro, do João Correia Filho, é um guia turístico-literário que conta a história de cada bairro de Lisboa através de poemas, músicas e trechos de romances. Há, por exemplo, fotos e mapas de como chegar às casas citadas por Eça de Queiroz. Ou onde fica o bar do livro do Baptista-Bastos, o miradouro do poema de Bocage ou a esplanada descrita por Inês Pedrosa. E aonde comer as sardinhas fritas da história do Saramago. E todos os cafés e esquinas e estradas de Fernando Pessoa.

Olha, os lusitanos que me perdoem, mas eu não quero mais ir à Lisboa.
Eu quero morar dentro desse livro.

sintra com efeito

“Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me esforço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir
Se não parar, mas seguir?
Vou passar a noite em Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena
De não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito,
Sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre
Esta angústia excessiva do espírito
Por coisa nenhuma
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho,
Ou na estrada da vida…”

(Álvaro de Campos, Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra)

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“E o policial perguntou para a criança:
– De onde és?
– De Lisboa.
– Sim, mas de onde, de que sítio?
– De toda.”

(Baptista-Bastos, Lisboa Contada pelos Dedos)

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“Se, na manhã seguinte, Lisboa não estivesse mergulhada naquela luz deslumbrante, pensou Gregorius mais tarde, as coisas talvez tivessem tomado outro rumo. Talvez tivesse seguido diretamente para o aeroporto e tomado o primeiro avião para casa. Mas aquela luz impedia qualquer movimento de retorno. Seu brilho transformava tudo o que pertencesse ao passado em algo extremamente distante, quase irreal.”

(Pascal Mercier / Comboio Noturno para Lisboa)

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(Fotos feitas de janeiro de 2013)

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trecho drummond

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garrafa com vela

Meus amigos resolveram promover uma festinha veneziana e eu fiquei responsável por levar umas garrafas de vinho vazias para a decoração. Consegui umas sessenta. A festa aconteceu e, depois, era preciso jogar as tais garrafas no lixo.

Antes de ir trabalhar, todo dia eu levo três ou quatro garrafas para jogar no tonel do meu condomínio. Todo dia. Sob a audiência atenta de porteiros, zeladores e vizinhos.

Desde então, a minha caixa postal está bombando de auto-ajuda e mensagens bíblicas.

Fim.

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Juno

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– Seus pais devem estar preocupados, provavelmente querendo saber onde você está.
– Acho que não. Quer dizer, eu já estou grávida, que outro tipo de preocupação eles poderiam ter?

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– Eu pensei que você fosse o tipo de garota que sabia o que dizer e quando dizer.
– Hum? Eu não sei que tipo de garota eu sou.

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– Pai, eu estou perdendo minha fé na humanidade…
– Você já pensou em restringi-la a mim?

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– Acho que eu estou gostando de você.
– Você quer dizer, como amigos?
– Não, eu quero dizer, de verdade. Você é a pessoa mais legal que eu conheço e nem precisa se esforçar para ser assim…
– Talvez eu me esforce. Ou até tenha me dedicado muito a isso.

(Juno / Jason Reitman)

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Hoje, ao chegar em casa e abrir o meu armário, felizmente, reencontrei o meu guarda-chuva. Achei que tinha perdido. E já estava supondo que, a esta hora, ele estaria esquecido debaixo de alguma mesa de bar, seguindo sozinho num taxi ou sendo gentilmente oferecido por um manobrista para o dono errado. Por sorte, ele estava bem aqui, entre os livros da última prateleira. E, como disse, foi mesmo bom encontrá-lo de novo.

Esse guarda-chuva foi comprado numa viagem, na última que fiz, para a Turquia. Uma odisseia meio improvisada, com direito à mochila, estrada, graus negativos e gente inusitada. Não faltaram pratos exóticos pegando fogo, jipes atolados, dromedários em fuga e aviões perdidos. E noites dormidas no chão. Molhado. De uma caverna. Um passeio com aventura o suficiente para me fazer questionar a veracidade dos filmes de aventura – onde, necessariamente, tudo sempre dá certo e, no intervalo, ainda se pode levantar do sofá para buscar mais pipoca.

Logo no início da viagem, quando ainda estávamos decidindo entre enfrentar um nevoeiro em Éfesos ou a ressaca do Bósforo ou um levante armado em Akcakale, começou a chover. Era uma tromba d’água. Todos os outros casais correram para debaixo das marquises e nós entramos numa loja de guarda-chuvas. Havia dezenas na vitrine. De todos os tipos. Agarrei um de plástico incolor, sem estampa, só por que me pareceu familiar. Talvez por causa daqueles versos infantis sobre “uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada” ou dos provérbios antigos em que “só não joga pedra quem tem telhado de vidro”. Talvez estivéssemos protegidos sob aquela coisa transparente, como se protege um objeto frágil com plástico bolha. Enfim, deu-se a compra do guarda-chuva e fomos embora.

Nos dias seguintes, o roteiro foi dividido entre escaladas sobre-humanas, cidades subterrâneas claustrofóbicas, deslizamentos de terra e balões aterrissando desgovernados, derrapando na grama e arremessando os passageiros no chão. Quer transformar a sua viagem romântica numa saga de suspense selvagem? Pergunte-me como. Já no meio da peregrinação, houve uma noite em que nos perdemos. Plena madrugada, alto da montanha, nenhuma comida e aí começou a chover. Um frio de encolher catedrais. E, talvez por que não houvesse mesmo mais nada a fazer naquela hora dramática – céu fechado, nuvens de chumbo, trombetas anunciando o Apocalipse – eu desisti de procurar o caminho certo e abri o guarda-chuva. Mas aquilo não era chuva. Era neve branca.

Foi uma surpresa bonita. Nunca tínhamos visto neve. E seria impossível perceber se a cobertura não fosse transparente. Sentamos ali mesmo, no alto daquela pedra, pra ver o plástico ir ficando alvo. Em silêncio. Encostados um no outro. Com aquela paisagem lunar brilhando lá embaixo.

Isso já faz algum tempo e, mesmo assim, tantos meses e quilômetros depois, eu gostava de reencontrar o velho guarda-chuva no armário. Ele me fazia lembrar daquela noite, da neve, daquele instante em que eu percebi que tinha feito a escolha certa. Foi bom saber que o meu guarda-chuva não estava rodando sozinho num banco de taxi, que não se perdeu, que sempre esteve ali. No fundo, é estranho pensar que a maioria das nossas coisas – pedacinhos nossos, partes da nossa vida – podem simplesmente se dissipar no meio do caminho. Que quase tudo está de passagem. Mas o que tem que ficar, fica.

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#36

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