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Posts Tagged ‘mariana miranda’

Sweet Child O’ Mine

Quatro da manhã, ninguém olhando, permitam-me o momento retrô.

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Chega um momento na vida em que você descobre que ficou velho demais para ser pobre. Um dia, você descobre – e esse momento chega pra todo mundo. Mas como ter certeza? Ou você amarga uma restrição orçamentária franciscana ou enfrenta os limites da senilidade. Ou velho ou pobre. Não se pode ter tudo nessa vida.

Esta escolha, este rito de passagem, pode acontecer com o auxílio de uma entidade turística conhecida como “albergue”. Albergue é uma espécie de estabelecimento hoteleiro tosco e de baixíssimo custo, você já deve ter ouvido falar. Sei de peregrinos que viajaram o mundo inteiro em busca desta resposta – e só a encontraram com a ajuda de um albergue. Ah, um albergue. Nunca duvide do poder revelador de um albergue.

Você se hospeda lá e descobre. Desvenda, de repente: meu Deus, meu Deus, como eu estou velho.

Um dia, no albergue, você acorda e descobre que ficou velho demais para subir os cinco andares de escada com sua mala, sua comida e seus pertences de viagem. E percebe que está cansado demais para carregar os baldes de água do seu próprio banho. Que está moído demais para lavar, no tanque, o seu próprio edredom. Idoso demais para, depois disso tudo, ainda ousar fazer turismo.

Mas as evidências do passar dos anos não se encerram apenas no esgotamento físico, envelhecer é uma experiência completa, é um estado de corpo e de espírito. Velho gosta é de RECLAMAR! Devemos citar, é claro, a nossa rabugice emergente que revela-se no interior destes estabelecimentos quando as portas não fecham, quando as janelas não abrem, quando nada funciona. E o nosso descontrole emocional frente aos banheiros compartilhados, os corredores lotados, os adolescentes bêbados, os rádios ligados todos ao mesmo tempo quando tudo o que você queria, depois de uma longa viagem, era o benefício, o luxo, a dádiva de uma noite de sono para que seu corpo descanse (em paz).

Ah, dormir! Na sua casa você era feliz e não sabia, certo? Errado. Na sua casa você apenas desconhecia a sua verdadeira idade. Acredite, houve um tempo em que nada disso te incomodaria. Hoje, essa verdade emerge como uma força vulcânica e você descobre que, sim, dormir no chão é ofício para os jovens! – essa raça longínqua, esse animal selvagem. Qualquer pessoa com mais de 12 anos de idade sabe que deitar naquele tatame é um ato bárbaro, uma transgressão, uma violência contra as vértebras da sua espécie – homo sapiens no topo da cadeia evolutiva, ereto, inteligente e reumático. Há séculos a sua permanência neste planeta precede a existência de um alfabeto, de uma constituição e, pasmem, de um colchão. De mola. Ortopédico! Não sei aonde está a Organização Mundial de Saúde que não vê isso.

Mas albergue não é só anatomia, é também geopolítica! É o pleno exercício da democracia: tem fila pra tudo. Fila tomar banho, fila para lavar a roupa, pra acessar a internet e pra escovar os dentes num balde. E democracia é liberdade de expressão: também tem briga, tem faxina rotativa, tem festa estranha, tem seringas no chão, tem corredor interrompido por que os muçulmanos estão de joelhos rezando para Alá. Vai ter indiano horrorizado se você tentar comer um hambúrguer e judeu horrorizado se você ousar comer um hot dog. Isso é cozinha comunitária: as pessoas fazem auditoria sobre a sua comida e ainda consomem o iogurte que você guardou na geladeira, consomem o queijo que você guardou na geladeira, consomem até o salmão que custou TRINTA E CINCO DINHEIROS e que você CAMUFLOU SOB FOLHAS DE ALFACE na maldita geladeira – sem o mais longínquo constrangimento, afinal, somos todos milionários.

Já falei que velho adora reclamar?

E ainda há os banheiros. Na maioria dos albergues, as instalações sanitárias são antigas. Mais exatamente da Roma Antiga. As rachaduras são do tempo de Nero, os vazamentos do tempo de Augusto, os vasos sanitários foram moldados ao gosto dos doze Cézares. Quanta honra. Melhor do que isso, só se o estabelecimento promovesse orgias públicas e leões engolindo cristãos – procedimentos que, devemos concordar, nos criariam problemas conjugais e de Direitos Humanos, contentemo-nos com menos. Vasos sanitários épicos já são o máximo e qualquer albergue é mesmo assim, é puro aprendizado. É arte, é história, é desapego. É o neo socialismo hippie compulsório. É a sociedade alternativa de baixo orçamento. É puro amoooooor.

Como não ansiar pela presença reveladora dos albergues na minha vida?

Então: se você também procura por essa resposta dentro do seu coração, experimente. Oportunize ao seu corpo descobrir a idade da sua alma, permita à sua alma descobrir a idade dos seus joelhos, das suas vértebras, da sua lombar. Viagem é pesquisa, é autoconhecimento: eu estou velho demais para ser pobre ou estou pobre demais para ser velho? Sem dúvidas, este é um momento de decisão. Ou velho ou pobre. Não se pode ter tudo nessa vida.

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Foi a primeira vez em que eu ouvi falar sobre o “dourado vago de Istambul”. Eu sabia que, depois daquele livro, iria procurar pela “Cabeça de Calcário”.

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“Apaixonara-se, na juventude, por uma pequena cabeça de pedra calcária branca. Tinha um nariz inteiro e uma coroa alta, intacta. / A cabeça parecia trazer, do muito remoto, o rumor de pequenos pés descalços em pisos decorados e noites de silêncio à margem de um rio esquecido. / Agora que comprara a cabeça, tinha algumas dúvidas dentro da sua, dormia menos e não sabia onde colocar aquela coisa que perturbava a mente com pensamentos novos. /

/ Era moço e tinha medo, recém-casado. A vida ia mudar e precisava enterrar o que não viria mais do lado oculto do acaso. Encerrar a cabeça numa caixa fora o modo de guardar as possibilidades intactas, e seria o modo de preservar os dias de volta de esperança do oásis da juventude: ali, o vazio com o objeto no meio da serragem seria a parte oculta daquele lado, escondida entre as dobras dos dois atos: encontrar e guardar, ou guardar e esperar pelo dia em que tudo lhe parecesse mais vazio que o tanque de peixes do parque abandonado. / Tudo era como aquilo: a ausência, numa caixa.”

(A Cabeça de Calcário / Fernando Monteiro)

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Refazendo, por terra, a rota das cidades de Noé, Abraão, Sansão, Dalila, Cleópatra, Virgem Maria, São João, São Paulo, Colossenses, Gálatas, Efésios e de um monte de gente fina, elegante e sincera que fez história por aqui.

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(Izmir, Turquia, 15/12/2012, -3 graus)

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#31

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“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

(Fernando Pessoa)

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Fotos de Ara Guler

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“É a resignação que alimenta a alma introspectiva de Istambul. Para ver a cidade em preto e branco, para ver o nevoeiro que paira sobre ela e inspira a melancolia que seus habitantes adotaram como seu destino comum, você só precisa chegar de avião de alguma rica cidade ocidental e rumar diretamente para as ruas lotadas. Se for inverno, todo homem que passar pela ponte de Gálata estará usando as mesmas roupas surradas, sombrias. Os istambullus da minha era abandonaram os vermelhos, verdes e alaranjados brilhantes de seus ancestrais ricos e orgulhosos. Para os visitantes estrangeiros, parece que fazem de propósito. (…) É assim que se veste uma cidade em preto e branco, parecem dizer. É assim que se veste o luto por uma cidade que vem declinando há 150 anos.” (pg. 51-52)

“Aqui, no ponto em que a melancolia se mistura ao prazer, é que percebo as pequenas descontinuidades que são só perceptíveis para aqueles que conhecem o Bósforo muito bem. Quando chega o momento de deixar aquele paraíso perdido para retornar à minha vida atual, o efeito também opera na direção oposta. É uma espécie de escuridão. Só alguém que tenha vivido aqui pelo menos dez anos poderia saber que essa escuridão é do tipo que vem de dentro.” (pg. 78)

(Orhan Pamuk / Istambul, Memória e Cidade)

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“Pois o que dá valor à viagem é o medo. Ele quebra em nós uma espécie de cenário interior. Não é mais possível trapacear – ocultar-se por trás do horário do escritório e do canteiro de obras (esses horários contra os quais protestamos tão alto e que nos defendem com tanta segurança do sentimento de estar só). Assim é que sempre tive vontade de escrever romances em que meus personagens diriam: “Que seria de mim sem meu horário do escritório?” ou, ainda: “Minha mulher morreu, mas, por sorte, tenho um monte de expedientes para redigir amanhã.” A viagem nos tira este refúgio. Longe dos nossos, da nossa língua, arrancados de todos os nossos apoios, privados de nossas máscaras (pois não se conhece o preço da passagem de bonde e tudo é assim), estamos totalmente na superfície de nós mesmos.”

(Albert Camus / O Avesso e o Direito)

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#30

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Ontem tive a primeira aula do doutorado. Cheguei pontualmente, por que eu sou phina. Me inscrevi numa disciplina só, por que sou sensata. Entrei sem nem saber o nome da disciplina escolhida, por que eu não mudei tanto assim.

Na sala, quarenta alunos num silêncio contemplativo, com uma média de idade em torno dos 25 anos – o que me leva a crer que todos ingressaram na graduação aos 13. Depois de entrar e dizer boa tarde, a primeira iniciativa do professor foi informar que as apostilas já estavam na xerox, que eram em língua(s) estrangeira(s) e que, em parte, as aulas também o seriam. Inclusive a de hoje. Uma coleguinha interrompe o silêncio:

– Em que idioma, professor?
– Francês.
– Ufa. Pensei que era alemão.

Aí, então, eu tive um devaneio. Né? Voltei no tempo uns três anos. Lembrei da primeira aula do mestrado de Edição de Texto – de quando eu era louca, fazia dois mestrados e apanhava miseravelmente nos dois – em que o professor perguntou à turma: vocês preferem a bibliografia em francês, italiano ou alemão? – E a turma respondeu – Tanto faz.

Eu era imatura e, na época, saí da sala sem ar. Branca. Com uns olhos petrificados de quem descobre que a luz no fim do túnel é um trem-bala no sentido contrário.

Acho que, dessa vez, nem houve susto por que, com o tempo, nossos parâmetros de sucesso vão mudando. No ginásio, eu bradava para ser a melhor do colégio. Na graduação, eu nem era a melhor da turma. No mestrado eu rastejava de costas para ser aprovada e, agora, se a UFBa não me jubilar aos chutes, já estamos no lucro. Permaneci impassível ao comentário.

A aula começou e eu saquei da mochila meu caderno. Cada um dos meus colegas sacou da mochila um Ipad. TODOS. Por que tablet é para os fracos, o povo tem que anotar a aula num Ipad. Neste momento, eis que rolou uma nostalgia geral da época em que os humanos usavam lápis e caneta e tinteiro e papiro e creio que houve flashs do Egito, da Roma Antiga e de Moisés talhando os Dez Mandamentos na pedra bruta. Guardei o meu caderno.

Então, um colega pediu uma caneta emprestada (pra quê, filho??), depois projetaram um vídeo em francês. E a aula prosseguiu: um professor grisalho sentado numa cadeirinha, muito calmo, falando por 4 horas seguidas sobre um assunto, ainda não sei exatamente qual. Ar condicionado, luz baixa e aquela voz uniforme explicando a diferença entre “a teoria da coisa em si, a coisa enquanto representação e a coisa enquanto essência, o estudo da epistemologia e semiótica das coisas”, numa divagação longa e abstrata capaz de induzir ao sono pessoas, animais e objetos. Na terceira hora, esperei que algum colega levantasse por qualquer motivo – céus, ninguém ia sair pra tomar um ar? Iniciei os trabalhos e fui tirar uma xerox. Qualquer xerox. A moça explicou:

– Esta apostila tem 100 páginas e a gente só tem autorização para tirar 30 xerox por vez, para evitar filas.
– Certo. Mas só há eu aqui, tá todo mundo na aula.
– Só 30.

Incrédula, percebi que ela esperava que eu contasse as páginas. Ninguém no pátio, o andar deserto. Acho deselegante. A apostila se chamava “A Coisa dos Homens” e eu pensei seriamente em presenteá-la com uma cópia, por que só pode estar faltando isso na vida dessa pessoa. Seria um presente útil, que já viria impresso em 50 tons de cinza, posto que a xerox colorida está pela hora da morte. Mas, divago.

Quando voltei à sala, a aula estava acabando, o povo saindo e eu fui buscar minha caneta de volta. O colega que pegou emprestado era barbudo de camisa quadriculada e isso não queria dizer nada, por que TODOS os rapazes da sala eram barbudos de camisas quadriculadas e TODAS as moças com cabelos curtinhos e a faculdade inteira era uma confusão de Marcelos Camelos e Marias Gadú andando numa casa de espelhos replicados ao infinito e eu não sabia mais se procurava pelo hermano ou se aguardava a devolução ali mesmo no pátio com “A Coisa dos Homens” na mão ou se eu ia embora abandonando a minha Bic para sempre e morram todos.

Fui embora.

A má notícia é que estas aulas estão agendadas para todo o verão. O VERÃO INTEIRO, MEODEOSDOCÉU.

A boa notícia é que o mundo se acaba em 21 de dezembro. Salva pelo gongo? Estamos na torcida, Brasil.

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(Restaurante Casa de Tereza, Rio Vermelho, 28 de novembro de 2012)

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