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Posts Tagged ‘mariana miranda’

E, por fim, ela me disse que achou a cidade feia. Feia? Feia. Eu não soube o que responder. Aquilo me surpreendeu como se fosse um tapa, como se tivessem ofendido à uma mãe ou a uma irmã – como assim feia? Quase comecei uma defesa contrariada, por que aquela opinião me parecia absurda, mas então olhei novamente para as fotos de viagem dela, que mostravam um cruzamento do centro antigo, aquelas ruas que eu amava e, como se o afeto fosse mesmo uma cegueira burra e passageira, pude reparar agora na imagem do lixo nas ruas e até mesmo em alguns pedintes mais ao fundo, como se a pobreza fosse um elemento novo na paisagem, encaixado discretamente entre uma casa e outra, entre uma praça e um parque – e, sim, aquilo podia ser considerado feio. A pobreza. Principalmente, se relacionada a tantas outras capitais ricas que tanta gente já conhece e fica difícil evitar comparações. Em nenhuma das fotos anteriores eu havia reparado nisso. A gente só vê com o coração.

E a conversa perdeu a graça e tudo o que eu queria agora era ir embora para casa, arranjei uma desculpa para me recolher ridiculamente ofendida – feio é o resto do mundo, ia pensando. Mas a verdade é que, nas fotos, a cidade brilhava menos que na lembrança e, de repente, me deu vontade de ir até lá e me deu medo de ir até lá. Lembrei de uma frase de Machado: “As coisas valem pelas ideias que nos sugerem”.

Que seja. Talvez se ame mais a um lugar pelo que se viveu nele do que por suas características e, às pessoas, mais pelo que nos fazem sentir e menos pelo que são, objetivamente. E a verdade é que Lisboa, antes de materializar-se num chão de aeroporto, já era um amontoado de símbolos dispersos no meu imaginário – era o último cais para as Américas, era a “praia ocidental” de Camões, era o solo selado com óleo de baleia das histórias de meu avô. E eu já a amava. O estrago já estava feito.

E, depois, os dias de juventude e intensidade vividos lá transformariam mesmo qualquer endereço num ponto dourado do meu mapa pessoal. Podia ser qualquer lugar. Mesmo hoje, quase dois anos depois, ainda me pego falando de determinada esquina, fazendo comentários sem motivo sobre algum edifício e me assombrando com o fato de já não lembrar o nome de uma rua secundária, de uma taberna ou de uma loja de bairro. Mas eu falo muito sobre Lisboa. E a verdade é que não faltam curiosos ocasionais dispostos a ouvir sobre as suas escadarias intermináveis, sobre os seus cafés subterrâneos, sobre suas casas mais velhas do que os mais velhos seres e elementos sobre a terra e sob as águas.

Lisboa é assunto meu. E é certo que, hoje, as minhas narrativas são verdadeiras. Tudo o que falo é constatável por qualquer um, mas algo me diz que, por força do tempo ou por uma predisposição natural ao eufemismo e à hipérbole, talvez, um dia, estas minhas histórias se modifiquem. Especialmente na velhice, quando falta-nos testemunhas e sobra-nos imaginação, o fato é que já me vejo numa grande cadeira de balanço contando longamente sobre a cidade fabulosa que marcou os dias da minha juventude.

Talvez os filhos perguntem pelas avenidas, talvez os netos perguntem pelos parques d’água e será um prazer acrescentar metros à muralha dos Mouros, quilômetros à estrada de Algés e torres gigantescas ao Castelo de São Jorge. Mentindo descaradamente, já me vejo derramando adjetivos sobre as águas profundíssimas do Tejo, sobre as cúpulas de mármore do Paço, sobre os labirintos encantados de Alfama. Falando de uma cidade linda. Linda. Por que essa foi a cidade que eu conheci.

Só me dói um pouco pensar que, fatalmente, ao visitarem Lisboa, eles ficarão decepcionados. E vão descobrir que nada disso é real. Talvez, então, eu atenue dizendo que, no meu tempo, era tudo diferente, que a cidade mudou. Ou, sorrindo, confesse que, nessa vida, as coisas só valem mesmo pelas ideias que nos sugerem.

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“E, por fim, há ele. As pessoas se sentem enaltecidas, crescidas em sua presença. Ele não é um daqueles egotistas que miniaturizam os outros. É o tipo oposto, impelido pela grandiosidade, e se insiste numa versão sua mais engraçada e estranha, mais excêntrica e profunda do que você imagina, fica quase impossível não acreditar, pelo menos na presença dele, que ele é o único que enxerga a verdadeira essência, que pesa as verdadeiras qualidades e que aprecia você de uma forma muito mais completa do que qualquer outra pessoa jamais o fez. É só depois de conhecê-lo melhor que se começa a perceber que, para ele, você é uma personagem essencialmente fictícia, alguém por ele investido de capacidades quase ilimitadas, não porque essa seja sua verdadeira natureza, mas sim porque ele precisa viver num mundo povoado por figuras extremas e poderosas. Algumas pessoas romperam relações com ele para não ter de continuar como figurantes do poema épico que ele não para de compor na cabeça. Outros, no entanto, sentem prazer no sentido de hipérbole que ele traz para suas vidas, acabam dependendo dela, da mesma forma como dependem de café para acordá-las de manhã e de um ou dois drinques para adormecer à noite.”

(Virgínia Woolf / As Horas)

(Foto: 15 de setembro de 2009)

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(Santa Apolônia, Lisboa, 04 de janeiro de 2011)

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“Todos compartilhavam uma sensação fantástica de que estávamos fazendo algo correto, mesmo sem saber o que era. Sentíamos que estávamos vencendo. E acho que essa foi a armadilha – essa sensação de vitória inevitável sobre as forças do antigo e do maligno. Não num sentido cruel ou militar: não precisávamos disso. Nossa energia simplesmente prevaleceria. Lutar não fazia sentido – tanto no nosso lado como no deles. Aquela era a nossa hora. Estávamos na crista de uma onda imensa e linda. E agora, menos de cinco anos mais tarde, basta subir um morro íngreme em Las Vegas e olhar para o Oeste com a predisposição adequada para quase enxergar a marca da maré – o lugar onde aquela onda enfim quebrou e se retraiu.”

(Hunter Thompson / Medo e Delírio em Las Vegas)

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Eu tentei. Eu só queria estudar e fazer uma pesquisa e ser uma boa menina dedicada ao conhecimento acadêmico através das bibliotecas digitais disponíveis na rede mundial de computadores – mas, meus caros, o demônio não descansa. Eu pesquisava sobre Umberto Eco e suas Teorias da Comunicação e eis que brilha na tela uma daquelas questões oriundas do Yahoo Respostas – “Dá pra colar sola do tênis com Corega?” – na qual eu, obviamente, cliquei e nunca mais retornei ao meu artigo inicial, ao estudo acadêmico, à vida.

Me chicoteia, Senhooor!

Vamos à lama do dia:

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Por que eu não tenho rabo?

Huahuahuahua! Como não? Todo burro tem.

Se eu arrancar um dente, quanto tempo leva pra nascer outro?

Dois dias. Eles nascem de dois em dois dias.

Pode abrir o tubo de pasta de dente p usar a pasta que fica no final?

Rs. Antes de ser blogueira, eu também era pobre.

Eu tenho perdas de memoria meu colega diseme para comer flores e é o o que eu tenho feito, acham q faz bem ou esta so gozando cmg?

Bem, eu acho que essa perda de memória é que… hum… oi? tudo bom?

Usar talheres nas refeições é coisa de mulherzinha ou homem também pode sem ferir a sua masculinidade?

Pode, sim. Tenta hoje, no intervalo da obra, quando a marmita chegar.

Sabe se posso substituir o meu desodorante por uma rodela de limão?

Sabe amor ao próximo?

Sonhei que matava meu chefe com marteladas na kabeça. É normal?

Huahuahuahua! Quem nunca, não é mesmo?

É verdade que lucifer escolhe as pessoas pra fazer o mal? Uma moça me avisou no orkut que ele me escolheu e agora?

Ele me falou que vai te acontecer algo hoje de madrugada. É sério.

Gosto dum cara mas ele eh meio cachorrao descarado, mas é gato, ele mee acha perua, mas ker fikar comig. Fiko com ele?Meajudem!!!

Não percam, hoje, no Animal Planet.

Eu converso com a minha TV, mas só às vezes, estou ficando maluco? Eu sou louco? Esquizofrenia é isso? Hein? Alguém sabe o que é isso???

Morre deaboo.

Como botar o imbigo pra dentru?

Sirugia.
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Imbigo, meu Deus, imbigo. E como diria o grande literato Umberto Eco: sirurgia na cabeça. Contra as dorgas, pra todo mundo. Né? Me deixem.

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(Celebração do Dia do Motociclista, Salvador, 27 de julho de 2012)

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#24

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Eu estou esperando pela minha irmã mais velha. Olho a rua pela janela e resisto ao impulso de ligar para alguém no meio da noite só por que estou sozinha em casa. Em dias assim, sou capaz de desorganizar um apartamento como se ele abrigasse mais 38 pessoas: acendo luzes, abro armários, aumento o volume, disfarço solidão com baderna. Me encontrar sozinha em casa é sempre chegar a uma grande festa um minuto depois dela acabar. Faz um tempo que estou só no apartamento – sozinha na cidade, no país, no planeta – minha irmã caçula está morando fora, o outro irmão estudando em Madrid, meu pai no Rio, minha mãe em Istambul – minha casa é um parque de diversões desativado e vazio. E eu não sei lidar com isso. Manejo sem habilidade esse deserto mobiliado.

Talvez por isso, hoje, eu decidi esperar por ela na janela. E, na verdade, eu nem tenho uma irmã mais velha. Sem nenhum motivo aparente (maluco não precisa de motivo), escrevo uma carta para ela avisando que a casa está um bagunça e que eu estou dormindo no tapete desde segunda-feira. Que ela vai se irritar com isso, mas que eu comi todos os biscoitos da dispensa. E que joguei fora papéis, extratos, tanta coisa guardada.

Escrevo, escrevo, escrevo. Carta, bilhete, diário. Tudo por que, talvez, um dia, as minhas memórias venham a simplesmente desaparecer. Aquelas miúdas, que pai e mãe desconhecem. Eu sou a filha mais velha e lembro de cada brinquedo de meus irmãos, do medo de palhaços, das coisas engraçadas que eles fizeram no recreio da escola, mas, sobre a minha primeira infância, como eles iriam saber? Eu preciso contar para que alguém saiba. Do meu amiguinho da creche, do desenho animado, da lancheira que se abriu e derramou tudo no meio da rua. Eu preciso registrar, guardar, documentar – e eu me conto, me escrevo, me narro, me repito. É isso mesmo, meus caros. Se minha irmã mais velha estivesse aqui, eu estaria ocupada em viver e não em escrever essas bobagens.

Eu queria ter alguém que contasse para mim todas as maravilhas e desgraças de ser quem eu sou desde o começo. Alguém que teve tudo o que eu tive, só que um pouco antes – seria tão mais fácil repetir do que abrir caminho. Eu tenho muitos amigos, eu tenho tios e primos, mas a primeira criança de uma casa sempre chega sozinha ao mundo. E, não adianta, eu sou ridiculamente sozinha nessa vida. Minha memória não tem backup. Eu só queria ter essa infância segura em outro coração.

Obviamente, minha irmã mais velha seria mais forte e mais esperta do que eu. Contaria mentiras mirabolantes, histórias de terror com uma lanterna na cara, faria troça dos meus medos. Talvez seja essa a dor de todo primogênito, sem ninguém que lhe proteja, sem ninguém que lhe faça justiça no recreio dos moleques, aos bofetes e pontapés. Quem vai defender o irmão mais velho? Quem vai consolar o irmão mais velho? Eu, que aprendi a brigar e arrancar com os dentes tudo o que me fosse de direito, hoje penso na irmã que não tive e me inclino indefesa como se me faltasse um braço, uma perna, um colo, um ombro. Alguém que me salvasse do mundo cão. Que me pegasse pela mão e me levasse de volta pra casa.

Se ela estivesse aqui agora, eu iria lhe contar como foi o meu dia. Ia dizer que eu ando com o coração apertado, com um pouco de medo da vida adulta, ia perguntar a ela como é a vida adulta. Talvez eu confessasse que, no fundo, meu sangue ainda ferve de amor e ódio pelos mesmos motivos, mas que eu cresci e me tornei uma mulher bacana, que já não resolve os desafetos na porrada. Que aprendi a jogar outros jogos, mas que algumas coisas nunca mudam. E que já sei administrar quase tudo – o dinheiro, a raiva, o tempo, a dúvida. Quase tudo nessa vida. Só não sei mesmo como lidar com essa casa desabitada.

Eu diria isso a ela, se ela estivesse aqui. Se eu tivesse uma irmã mais velha. Sobrou pra você, caro leitor.

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