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Posts Tagged ‘mariana miranda’

Entre postais e cartinhas, hoje me chegou pelo correio um cd com um vídeo de Natal. Um vídeo que seria muito simpático e amável, se não tivesse sido editado pela minha própria pessoa há dois anos atrás – quando eu estava solitária sob o insano inverno europeu e queria convencer meus parentes a me visitar, utilizando uma das estratégias mais baixas, apelativas e imorais que conheço: musiquinha do Wham. Com piano. E coral infantil. (E um par de giletes, uma para cada pulso).

Hoje, o mesmo vídeo chegou ao Brasil endereçado à minha humilde residência com o título: vingança.

Eu só tenho amigo malévolo nessa vida.

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o A foto que melhor define 2011 é esta aí acima, da Maryann Gromit. A melhor frase do ano foi da Dilma: “É verdade, eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos”. A música que mais tocou foi da Adele: Rolling in the Deep. E a melhor notícia foi eu ter passado no doutorado só quando já não fazia sentido nenhum passar no doutorado – o divino tem senso de humor, cabe reconhecer.

Acho que tentar definir o que está acontecendo é sempre como abrir o liquidificador enquanto a vitamina está sendo feita – voa abacate pra todo lado. O ano ainda nem acabou, mas o balanço já pôde concluir que… ele não vai acabar mesmo. 2011 foi a véspera de alguma outra coisa. Só pode ser isso.

Este ano, eu abandonei quase por completo o uso de redes sociais (aplausos, gente) e abandonei também algumas apostas afetivas que já estavam meio perdidas mesmo. Ah, foi o ano do desapego. Se ele se arrastasse por mais duas ou três semanas, ia terminar comigo me desapegando da roupa do corpo e rasgando dinheiro em nome de Alá.

Durante o período, não trabalhamos com foco, obstinação, perseverança e demais conceitos caros ao RH. Telefones não tocaram, projetos não se concretizaram, diálogos necessários se diluíram em – oi? como vai? será que vai chover? – de uma forma tão demente que Freud não explica. Tomates em mim.

Por isso, para o próximo, eu desejo de todo coração que o universo conspire para dias mais conclusivos. E eu pretendo ler mais, por que tem um momento na vida em que você decide que não quer ser uma fraude. Eu poderia mentalizar também promessas que incluíssem rotinas de estudos acadêmicos (não possuímos) e exercícios físicos (não trabalhamos), mas decidi focar nos desejos possíveis. Um celular que funcione, por exemplo. Decorar o número do próprio RG. Pedir desculpas. Usar meias de algodão. Nada como ter metas na vida, veja bem.

A verdade é que a gente espera por um ano mais generoso – exije, implora – por que 2011 foi cinza demais. Chega dessa feijoada de soja, não é mesmo? É mais que justo que todos os palpites/promessas/previsões para este novo ano se concretizem, depois de tanto tempo sendo anunciados: que o nosso poder de compra se eleve em 12%, que Salvador finalmente ganhe um metrô e que o mundo se acabe. Ou não. Mas ficar batendo neste liquidificador interminável por mais doze meses está fora de cogitação.

2012, não vacile. Ou você se resolve por bem, ou vai voar abacate para a década inteira, meu caro.

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Depois que Fernando Monteiro ganhou o prêmio de Literatura da revista Bravo, eu passei a respeitar um pouco mais a Bravo. Entendem? O conto mais bonito que eu li este ano é dele.  São dez páginas de filosofia que se passam entre o Egito e a Turquia, entre os “Alexandres da Alexandria” e o “dourado vago de Istambul”. Tinha mesmo a obrigação de ser perfeito.

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“A geração desses homens da passagem do século dezenove para o vinte conheceu uma modernidade trazida pelo senso de passado, de modo que as suas ações – e mesmo alegrias – eram toldadas por uma sombra sem idade e alguma porção daquela melancolia dos que esperam a morte, porém não a desejam, é claro.”

 “E ele também já não era jovem, não podia agradar às mulheres, que recuavam do seu amor sem forças, afastadas pela mágica do inferno que torna um homem mais idoso que um pai já morto, na meia idade, quando se faz contas com o tempo, com as cidades deixadas para trás, com os amigos mortos e com o silêncio que nos cerca.”

“Lembrava a tarde pintada na sua memória de velho: era moço e tinha medo, recém-casado. A vida ia mudar e precisava encerrar o que não viria mais do lado oculto do acaso. Encerrar a cabeça numa caixa fora o modo de guardar as possibilidades intactas e seria a oportunidade de preservar os dias de volta de esperança do oásis da juventude: ali, o vazio como o objeto no meio da serragem seria a parte oculta daquele lado, escondida entre as dobras dos dois atos: encontrar e guardar, ou guardar e esperar pelo dia em que tudo lhe parecesse mais vazio do que o tanque de peixes do parque abandonado, a piscina invertida, o céu sem limite.”

“Tudo era como aquilo: a ausência, numa caixa. A caixa estava em casa – uma ausência dentro de outra – e a casa estava no planeta que rolava no abismo do Universo sem fim e sem começo cujo oco lhe dava náusea, naquele momento de um dia cujo traço iria desaparecer na noite. Cúpulas, minaretes, muralhas e muros, telhados e toldos, janelas e portas douradas, o lago na sua calma, a lua na sua cisma, tudo se afastava do pai de Abdul-Qadir naquela hora de dor feita do conhecimento de todas as ausências que estavam no lugar das coisas em fuga como a cabeça longe dos ombros pesados que o levaram para o último sono na cama.”

(A Cabeça de Calcário/Fernando Monteiro)

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– Olá, Mariana. Infelizmente, nosso projeto terá que ser revisto. Te explico detalhes. Até lá.

Hoje, esse e-mail me fez lembrar uma história muito, muito antiga. Quando eu era criança, meu pai tinha um sítio. O lugar era a coisa que ele mais gostava nesse mundo. A área era simples: um casarão, um jardim, umas mangueiras – e, mesmo assim, entre construir uma piscina para uso próprio ou transformá-lo numa grande pousada, o fato é que todos os planos que ele tinha pra o futuro incluíam, de alguma forma, o tal sítio.

A gente gostava de lá. Mesmo assim, às vezes, ele repetia que, dentro de alguns anos, nenhum dos filhos ia querer mais ir ao casarão. Quando surgissem as primeiras birras da adolescência, quando seria um tortura se afastar das festas, dos amigos e dos primeiros namoros, ninguém ia querer saber mais da casa na árvore, nem do jardim, nem de nada – ele se ressentia por antecipação, como se o sítio fosse uma extensão de si mesmo. Mesmo assim, o lugar ia crescendo e cada metro quadrado foi sendo ocupado com um pouco mais de atenção. Tudo corria bem. Até que chegou o verão.

Então, um grupo estrangeiro propôs a ele comprar o terreno. Proposta que, é claro, foi negada de imediato e aos berros – Imagina! De jeito nenhum! Essa gente é louca??? – de forma que o grupo precisou dobrar a oferta e ficou de voltar dias depois para fechar negócio, mesmo ele insistindo em antecipar a resposta – O que essa gente queeer?? Por que essa corja não volta pra terra deles, pá???

Ele estava irredutível. Mesmo sendo a proposta financeira, digamos, irrecusável. Era uma quantia que estava totalmente fora da nossa realidade. Não que estivéssemos passando por alguma dificuldade econômica mais séria, mas era dinheiro demais. O problema é que, neste caso, cogitar a venda do sítio não era uma questão de grana, era um ofensa à dignidade do proprietário. Não havia diálogo. E não se falava mais nisso.

O assunto foi esquecido e se passaram semanas. Um dia, na volta para casa, ele observou que o motor do carro estava dando estalos. No outro, comentou que o apartamento estava ficando pequeno para acomodar todo mundo – as panelas empilhadas na cozinha, as camisas amarrotadas nas gavetas. Numa noite, enquanto esticava a rede na varanda do casarão, meu pai começou a olhar em volta com uma tristeza inconformada, falando dos coqueiros que ele mesmo havia plantado e já estavam crescidos, dos cães que já estavam adestrados. Talvez fosse um mal necessário. Se vendesse o sítio, poderia ter uma vida mais confortável. Quem sabe fosse melhor para todo mundo, concluiu.

Como qualquer decisão sempre pesa menos que a dúvida, na segunda-feira ele parecia mais apaziguado. Conversou com um corretor sobre os imóveis disponíveis no centro da cidade e com o gerente do banco sobre como fazer uma aplicação. A venda do lote seria um processo simples. Com o rendimento mensal, poderia investir em qualquer coisa – abrir um negócio, associar-se a um clube, viajar. Precisaria de roupas mais adequadas, se quisesse fazer isso. Poderia enviar os filhos para estudar fora do estado quando estivessem maiores, se eles desejassem. Depois, poderia visitá-los no Rio de Janeiro. Ou alugar um apartamento no Leblon ou perto da Urca. Talvez no Leblon mesmo, por causa da vista. Ou Copacabana. Sim, Copacabana.

Este processo de desapego durou quase um mês – e imagino que, para quem passou tantos anos projetando o futuro dentro daquele pedaço de chão encantado, a mudança até correu bem. Aos poucos, o oásis de tranquilidade foi sendo substituído por um projeto de vida mais urbano e sofisticado. E a gente sabe quando alguém está se dissociando emocionalmente de algo quando a pessoa deixa de investir energia naquilo. Mesmo indo ao sítio com a mesma frequência, ele já não encontrava tempo para comprar as pedras para a reforma do jardim e considerava o preço das sementes, repentinamente, caro demais. Mesmo problemas antigos tornaram-se mais visíveis – a tubulação desgastada do casarão causando vazamentos, a estrada de barro que danificava o amortecedor do carro, aquela nuvem de mosquitos infernais que atormentavam a noite de quem tentava descansar naquele descampado de mato e lama. Loucura mesmo seria envelhecer ali, ora.

Na data marcada, quando o grupo comprador chegou, pairou no ar um certo constrangimento, claro – já que, na última visita, eles foram escorraçados. Como explicar que, de repente, meu pai havia mudado de ideia? Antes de iniciar uma retratação desajeitada, ele foi interrompido por um dos homens: a empresa queria retirar a proposta. Devido a mudanças de mercado, iriam investir no sul do país. Agradeceram a nossa hospitalidade e foram embora.

Até hoje, eu não sei descrever o silêncio que ficou na sala. Desolador. Depois daquele dia, ninguém nunca mais tocou no assunto. Nenhuma palavra. Só uma vez, anos depois, como quem resmunga sozinho, meu pai deixou escapar – “o problema é que, depois daquele dia, eu venderia o sítio por qualquer maldito centavo”.

E o tempo passou. Anos depois, mesmo sem o dinheiro da venda do terreno, todos aqueles projetos, de alguma forma, se concretizaram – o carro foi trocado, o apartamento foi ampliado. O casarão continuou existindo e, durante a adolescência, a gente detestava perder as festas com os amigos para ir para lá – como já estava previsto. Na faculdade, fomos estudar fora da cidade em apartamentos alugados e tudo parecia seguir um fluxo tão natural que ninguém nunca se perguntou sobre o que teria acontecido se os estrangeiros tivessem comprado o lote. Teria sido melhor? Talvez aquilo não precisasse mesmo acontecer.

E eu nunca mais havia pensado neste episódio, que só me veio à mente hoje, depois de um e-mail banal. Por que eu senti o silêncio daquela sala de volta, como se ele nunca tivesse sido interrompido. Acho que toda vez em que alguém me convencer longamente a abandonar a minha rotina para embarcar num projeto-fantástico-que-vai-mudar-a-minha-vida e, depois, me disser que ele não será mais possível, eu vou me bater contra a porta fechada. Por que eu também não consigo mais voltar para o sítio. Eu não caibo mais ali dentro. Mesmo sendo tudo o que eu tenho na vida, meu Deus, eu venderia ele por qualquer maldito centavo.

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“A cor é a música dos olhos”
(Von Goethe)

Gosto do cotidiano sombrio das ilustrações de Dan Park. Ele é um professor de Nova York que ajuda aspirantes a ingressarem em importantes escolas de arte do país. Esses desenhos sempre me sugerem uma espécie de lembrança remota da infância. Não me surpreendi quando, no site profissional dele, a foto do profile era essa:

Como não amar?

Há mais desenho legais dele aqui.

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“— O que foi que pedi para você lembrar? — perguntou.
— Não sei — respondeu Archer.
— Bem, nem eu — devolveu Betty, com humor e simplicidade. E quem pode negar que, nessa perplexidade, quando combinada com efusão, superioridade maternal, superstições de mulheres antigas, maneiras aleatórias e momentos de espantosa audácia, humor e sentimentalismo — quem pode negar que, nesses aspectos, toda mulher é mais agradável do que qualquer homem?”

(Virgínia Woolf / O Quarto de Jacob)

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Para estarrecimento de toda a nação, fui informada de que passei na seleção do Doutorado. Da universidade pública. De Lisboa.

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Posso dizer, sem nenhuma dúvida, que era exatamante isso o que eu MAIS DESEJAVA NESSA MINHA VIDA… há seis meses atrás.

Mas, a.go.ra?

Como faz?

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Sofro. Morrerei em breve.

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FDS

– Alô?
– Nana, você estava ontem na festa do Catussaba, não foi?
– Não…
– Tava, sim. É aqui perto, te vi estacionando na porta. Não minta para seu tio.
– Mas eu estava em casa.
– Fique tranquila, eu não vou contar pra ninguém. Mas aquilo é baixo astral demais, Nana, você tem que ter cuidado! É deserto, tem ladrão! Tá bom? E pode confiar em mim. Se cuide. Beijos.
– …

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E, por fim, Kadafi foi morto. Durante todo o ano de 2011, o mundo inteiro acompanhou a saga da Líbia até este desfecho, especialmente ontem, quando todos os jornais publicaram milhares de fotos sobre o evento. Imagens de tanques de guerra, soldados armados, bombas de gás, rebeldes com metralhadoras, tensão e medo. Daí, entre as notícias, havia a foto de um confronto. Uma que mostrava, no meio do tiroteio, entre os destroços e os soldados, um cidadão desarmado. Um civil, muito apaziguado, tocando um violão. Tipo assim, UM VIOLÃO.

Um VIOLÃO, meu caros.

Não basta ser autista, tem que tocar um VIOLÃO NO MEIO DA GUERRA. Como não amar? Quando eu vi a foto, só conseguia pensar no que se passava na cabeça do cara – está rolando um tiroteio e eu canto uma canção, a cidade está ardendo em chamas e eu canto uma canção, chove tijolos de enxofre sobre a sucursal do inferno e eu vou compor uma música! – eu realmente desejava perguntar: meu bem, assim…

me. explica. o. seu. objetivo?

Nenhum, suponho. E não me contive. Graduada em gerenciamento de crise, doutora em fazer cara de paisagem ao som das trombetas do apocalipse, obviamente, me apaixonei à primeira vista. Preciso falar com esse cara, gente. Como faz, hein? Caro líbio-suicida, qual o seu nomeee? Qual o telefone do violãozinhoooo? Eu também toco, canto e faço dancinha, querido! Mantenha contato, envie os seus dados, preencha o nosso cadastro. Mande um scrap, um convite para o gtalk! Beijosmeligaaa!

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(Folha On Line, 20/10/2011)

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#19

Ninguém, Charlie, ninguém…

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