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Posts Tagged ‘mariana miranda’

Acho que o desafio de fazer um guia turístico nunca é o trabalho em si. É sempre essa vontade de mandar um telegrama para a redação agradecendo a pauta, desejando bons fluidos para todos e avisando que a gente refez os planos e decidiu ficar por aqui indefinidamente…

Algumas dicas sobre o roteiro de hoje: Capão.


Pousada Vila Lagoa das Cores
Diária por R$ 300,00

Circo do Capão
Aula de acrobacia por R$50,00

Restaurante Mirante da Cachoeira
Pastel de jaca por R$1,50

Espaço Lothlorien 
Grupo de meditação diário gratuito

Restaurante Casa das Fadas
Parpadele de espinafre por R$ 38,00

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Viagem a trabalho, uma semana na Chapada. Na Chapada. Uma semana.

E eu ganho para isso.

Ahhhhhh, atirem em mimmm.

 (Itaberaba, Bahia, 06/09/2011, 23 graus)

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Keep Calm and Carry On (mantenha a calma e siga em frente) foi um cartaz produzido pelo governo britânico em 1939, durante o início da Segunda Guerra Mundial, destinado a elevar o moral do país em caso de invasão. Visualize: à beira de uma das maiores catástrofes da História, enquanto o povo inglês estava desesperado, exigindo do governo uma atitude de proteção e segurança, a agência publicitária institucional resolve publicar este comunicado. Algo como “segure a barra”, “aguente firme”, “reze, acenda uma vela, se vire”.

Por sorte, esses cartazes nunca foram distribuídos. Só foram reencontrados num depósito de uma gráfica há dez anos atrás. (Uma ironia da história para lembrar a toda humanidade que, não importa o quanto tudo vai mal, vai ter sempre alguém para falar/escrever/criar uma bobagem capaz de tornar a coisa toda ainda mais absurda, hoho). Atualmente, o anúncio ganhou várias paródias. Uma brincadeira que incita nos ingleses aquele sarcasmo cúmplice de quem já pode rir dos próprios problemas. E eu acho isso muito fofo.

É fofo pensar que, se um dia a gente puder rir assim de todos os impasses de hoje, vai passar o resto da vida gargalhando. Principalmente, das coisas que diz/pensa/escreve nos momentos de crise. São sempre as idéias mais absurdas, né? Eu sempre falo e escrevo sobre elas. Infelizmente, nunca esqueço nada no depósito da gráfica.

Seguem os meus prediletos:

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Mantenha a calma e segure o tchan.

Mantenha a calma e tome um chá.

Mantenha a calma e pegue um bronze.

Mantenha a calma e saia da minha cadeira.

Mantenha a calma e seja uma cadela.

Uma paródia da paródia: capa de cd dos Stereophonics acompanhada de versão brasileira.

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Acho que nada nessa vida me causava mais sono e tédio do que ir aos simpósios de fotografia da Facom ouvir gente de camisa quadriculada dissertar sobre a arte de “congelar o instante”, “registrar a história” ou “capturar algo que, no segundo seguinte, já não existe mais”. Assim, como se todos os outros profissionais do mundo – o padeiro, o médico, anyone – também não estivessem expostos à efemeridade da vida e só o fotógrafo pudesse brincar de Deus aprisionando a alma das pessoas num pedacinho de papel e nono nono nono nono.

Daí que, na semana passada, eu voltei a trabalhar no Pelourinho. Durante seis anos meu ofício sazonal foi fazer retratos por lá, especialmente de apresentações infantis – crianças errando as coreografias, arrancando as fantasias de kami do corpo, chorando por que o coleguinha pisou no pé – trabalho que eu só retomei este ano, depois de uma longa pausa. E eis que sou surpreendida por um fato estarrecedor:

AS MINHAS. CRIANÇAS. NÃO. EXISTEM. MAIS.

Para desconforto geral da nação, os meus meninos agora têm BARBA (!!!), as minhas meninas fazem VESTIBULAR (!!!!!), ninguém errou a coreografia e, tipo assim, eu quero MORREEEEEEER.

\o/

Aquelas crianças só existem nas minhas fotografias. E isso é tão clichê, gente. Isso é tão “congelar o instante” e “registrar a história”. Como é que eu caí nessa cilada, hein? Alguém pode me explicar o que aconteceu? Já posso começar a chorar?

Jo sofro mucho.

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(Pelourinho, 25 de agosto de 2011, 30 graus)

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Por questões de organização administrativa (ou não) só foi decidido na sexta à noite que eu iria mesmo cobrir o evento de segunda-feira na Boa Morte, na cidade de Cachoeira. E eu fui. Chegando lá às 12h, os hotéis estavam lotados e eu fui encaminhada ao único pedaço de chão batido disponível na cidade. Era uma grande casa colonial com cômodos para alugar – banheiro coletivo, decoração de filme de terror e quartos divididos entre si por TAPUMES DE CONSTRUÇÃO CIVIL – cenário que eu achei fino, achei classudo, achei muita idiotice minha não ter ido embora imediatamente. Mas a pauta era boa, não havia outra opção, despachei as malas e fui para a rua.

A procissão já havia começado e acredito que existiam, em média, 538 fotógrafos para cada nativo que desfilava. Suponho que a verdadeira tradição exótica de Cachoeira seja assistir a imprensa baiana acotovelelando-se aos gritos pelas ruas do evento todos os anos. Fazia um lindo dia de sol e posso afirmar, sem o privilégio da metáfora, que era possível fritar um ovo na minha testa. Calooor. Então, neste ambiente de hospitalidade, sou cutucada por um ilustre e caloroso desconhecido:

– Oláááá! Você lembra de mim?
– Não.
– …

Gentileza, teu nome é Mariana.

Dois segundos depois, um lampejo: ele era um dos veteranos dos meus remotos anos de faculdade que me fazia rodar o campus inteiro atrás de papel de carbono pautado, chave de fechar balanço, ENVELOPE REDONDO para correspondência circular, entre outras babaquices.

– Ahh…
– Lembrou de mim?
– Sim, lembrei.
– Mesmo? Como lembrou?
– Ah… você era muito característico.

Eu ia responder o quê? Por que eu te detestava? Por que eu não gostava de você, por que eu queria te matar? Escapei pedindo licença, abandonei o cortejo e aproveitei o fluxo para ir ao prédio da prefeitura.

– Bom dia. Eu sou jornalista e gostaria de entrevistar o secretário responsável pela coordenação da festa.
– Aquele fuleiro? Escafedeu-se, binha. Esse nigrinho resolveu sumir, é brincadeira? Mas já ele aparece.
– Obrigada.

Em seguida, entra na sala um rapaz vestido de baiana com um torso e flores na cabeça. Era o secretário.

– Bom dia, secretário. Meu nome é Mariana e eu gostaria de entrevistá-lo para falar sobre a festa da…
– A FESTAAAA!
– Isso, a festa da Irmandade da Boa Morte. O senhor teria uma previsão de quantos turistas a cidade recebeu este ano durante…
– Quer casar comigo?

Ele. estava. bêbado.

– Seria um prazer, mas antes eu gostaria de ter um depoimento sobre a festa da…
– A FESTAAAA!
– Ok, eu volto amanhã.

Na mesma rua, havia a casa de samba de roda da Dona Dalva, uma matriaca de Cachoeira. Muito simpática, ela me recebeu para a entrevista que, como de costume, foi muito objetiva – começamos falando sobre samba de roda e, duas horas depois, estávamos tendo uma discussão acalourada sobre a existência de discos voadores no Recôncavo baiano – e retornei para o hotel no fim da tarde. Antes de entrar no quarto, tive que voltar para informar à recepção sobre um pequeno problema de ordem prática (o forro de madeira do meu quarto DESABOU EM CIMA DA CAMA E DESTRUIU A LAJE, tipo assim, dava pra ver o CÉU) e descubro que Envelope Redondo está hospedado na mesma birosca que eu:

– Eu cheguei no sábado, peguei um quarto com varanda.
– Eu cheguei hoje, peguei um quarto com teto solar.
– É mesmo??

Só então a recepcionista me transferiu para uma nova acomodação. Uma espécie de calabouço sem janelas, oxigênio ou luz natural – provavelmente uma instalação negreira do século XVIII, afinal, hospedagem também é cultura – onde eu entrei resignada e nem reclamei já que, né, se a coisa continuasse naquele ritmo, eu ia terminar o dia algemada na senzala.

Quando saí novamente, já era noite. Jantei sozinha num bar próximo e depois, bem, não havia muito o que fazer. Era hora de buscar entretenimento noturno realizando o roteiro de turismo típico das cidades do interior baiano – visitar a praça, o coreto, a prefeitura, a delegacia, o Banco do Brasil, a praça, o coreto, a prefeitura, a delegacia – e, em meia hora, eu já estava de volta ao hotel assistindo novela. Envelope Redondo reaparece:

– E aí? Já deu tempo de visitar todas as atrações da cidade?

Fui dormir. De madrugada, em algum lugar do corredor, havia uma torneira aberta gotejando.

Gotejando.

Gotejando.

Gotejando.

Gotejando.

Gotejando.

De forma que eu concluo que não se tratava de um acaso, mas de uma ferramenta de tortura tomabada pelo hotel. Insone, sigo oito da manhã para a porta da prefeitura:

– O secretário já chegou?
– Aquele fuleiro?
– Alguém do gabinete vem hoje?
– Vá pra casa, minha filha.
– …
– Que foi?
– Pra que lado fica a rodoviária?
– No fim desta rua.

O ônibus só saía ao meio-dia, mas eu fui seguindo para lá. Daria para matar o tempo e, sei lá, afogar as mágoas numa empada de frango com Fanta. Se tivesse sorte, até podia me apoiar num balcão de um desses bares com ventilador de teto e cadeiras plásticas – ou seja, curtir a cidade. Chegando ao fim da rua, não havia nada. N.a.d.a. Só um pátio coberto, um ferro velho, tudo deserto. Vários carros desmontados. E eu tinha que aguardar ali.

Aí, né, tive um devaneio.

É um golpe. Só pode ser um golpe. Pior, é uma dessas reportagens de denúncia. Me mandaram para cá, eu entrei num esquema de desmontagem, contrabando e lavagem de dinheiro, vou ser presa a qualquer momento e, domingo, vou aparecer no Fantástico com quadradinhos na cara e voz de pato falando “eu não sei o que aconteceu, eu fui envolvida no esquema. Eu sou inocente, eu só queria uma empada de frango”.

Mas não era um esquema. Para surpresa de toda a nação, o ônibus chegou, parou no meio do nada e eu subi pronta para voltar à civilização. Por fim, o coletivo segue e tudo parece terminar bem – sossego, música de fundo, as letrinhas subindo na tela – a odisséia havia acabado. Eram 11:58 quando, na última esquina da cidade, havia um ponto de ônibus. Quem sobe? Hein?? ENVELOPE REDONDO. E senta ao meu lado dizendo: olááá. O relógio marca 12h. Fim.

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Sabe o que me desespera? Hoje ainda é terça-feira.

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(Cachoeira, Bahia, 15 de agosto de 2011, 35 graus)

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Eu sou paga para conhecer e falar sobre novidades todos os dias. Era para ser perfeito. Acho que o Jornalismo consiste, basicamente, em aprender coisas novas e explicá-las aos outros – uma incubência de contar e recontar histórias que, de fato, já era uma vocação nata (eu sou a Sra. Forrest Gump, bom dia) e talvez a escolha desta profissão seja apenas uma estratégia do Cosmos para me obrigar a falar sobre outros temas e não tão somente sobre a minha ilustre pessoa. Mas é inevitável perceber que há algo errado com o seu ofício quando você, dona da vasta coleção de DOIS ALL STARS SURRADOS, precisa escrever uma coluna sobre a diferença entre mocassins, mules e escarpins.

Compreendam: nenhum trabalho de pesquisa consiste, necessariamente, em vivenciar os fatos, mas em compreendê-los – eu, por exemplo, não conheço nenhum médico que tenha se jogado de um carro em movimento só para entender um pouco mais sobre fraturas ósseas – mas este desconhecimento empírico sempre causa algum constrangimento. Céus, o que pensar de alguém que passa a manhã escrevendo com a propriedade de um diplomata sobre a importância da dedução de impostos para instituições de médio porte, mas, no horário de almoço, mal consegue compreender os números do próprio extrato bancário?

Meu Deus, eu sou uma fraude.

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Esses dias eu li no site do KibeLoco uma resenha de bastidores. O ator que interpretava o Quico admitiu que teve um caso com Dona Florinda, que é casada com o Chaves.

“Não vou negar, foi há muito tempo e durante as gravações”, disse Carlos Villagrán. Florinda Meza é casada com Roberto Gomez Bolaños, que criou o programa e interpretava Chaves e Chapolin. Carlos e Roberto não se falam.

Segundo o site, qual seria o melhor comentário sobre essa notícia?

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a) Esse é um caso de incesto.

b) Esse é um caso de pedofilia.

c) Não contavam com a minha astúcia!

d) Foi sem querer querendo.

e) Pobre professor Girafales.

f) Gentalha, gentalha!

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A sua loja não ficava no meu caminho. Quer dizer, durante aquele primeiro mês, a verdade é que eu não tinha bem um caminho. Eu tinha um punhado de horas vagas entre o trabalho e o estudo com o qual eu não sabia exatamente o que fazer – a cidade nova, a falta de amizades estabelecidas, família ou assuntos a resolver tornavam-se fatais ao fim de trinta dias – por quê um mês é tempo suficiente para você deixar de se sentir como um turista e tempo insuficiente para você passar a se sentir como qualquer outra coisa. Entrei numa rua ao acaso onde havia um bar vazio, um estacionamento e a sua loja. Nesta ordem de importância.

Era inverno. E eu me lembro disso por causa da praça do outro lado da rua: os pinheiros iluminados, os casais patinando no gelo e aqueles grupos de crianças em corais cantando nos tablados, tudo atraente o suficiente para me levar intuitivamente para o lado de lá da calçada, mas eu continuei indo em frente, onde havia a sua vitrine. Era a vitrine de uma loja minúscula. Chapéus antigos, peças de brechó, artigos para colecionadores e uma infinidade de esquisitices que me transportaram para uma dimensão interessantíssima. Eu abri a porta devagar. E ali, dentro de um colete dourado e um par de sapatos roxos, eu descobri que você era uma velhinha.

Não sei quanto tempo durou aquela visita entre cabides de fantasias orientais, pôsters de desenhos animados, postais  em preto e branco e vinis que você colocou para tocar e estavam impecáveis. A conversa fluía tão animada que levei algum tempo para perceber que você não falava português, nem eu falava chinês. E toda a comunicação acontecia entre apontar de objetos, risadinhas e interjeições aleatórias, você me mostrando uma miniatura de roda-gigante – ohhhh! – depois, um dragão fosforescente – uauuu! – e uma série de produtos improváveis que pareciam o cenário de uma ficção. Às vezes, quando eu queria saber para que servia determinado objeto, você erguia os ombros com a expressão impagável de “eu não tenho a menor idéia!”, tinha um acesso de riso e era preciso ligar para os filhos em casa, descrever a peça e perguntar o que se fazia com aquilo. Sempre acenando com os olhos puxados e com um sorriso largo de quem gosta sinceramente das coisas, até de uma estranha que entrou pela porta da loja e nem parecia querer comprar nada. Antes que eu fosse embora, você acenou algo como “volte sempre”. E eu voltei.

Várias vezes. E você me recebia com exclamações de palavras incompreensíveis, abria caixas e apontava as novidades, rindo o tempo todo. E eu me sentia menos deslocada no mundo. Meses depois, no dia em que eu fui me despedir avisando que ia embora para longe, muito longe, você fez uma pausa, foi até os fundos e me trouxe um latinha pequena, contendo algo que parecia ser chocolate. E fez uns gestos com a mão que interpretei como “isso é bom!”. E eu acreditei. Viajei com o embrulho, guardei aqui comigo e o tempo passou. E agora, tão distante, às vezes eu me tranco no quarto, abro sorrateiramente a latinha de metal e, mesmo sem ter idéia do que estou mastigando, guardo esse gosto na boca toda vez em que tudo dá errado. Cada vez em que o acaso falha, cada vez em que as pessoas se desencontram por razões idiotas e definha um pouco mais a minha crença na humanidade. Cada vez em que eu deixo de supor que o universo conspire mesmo ao meu favor, eu lembro que a sua loja nem ficava no meu caminho. Nem os seus sapatinhos roxos, nem as rodas-gigantes, nem os dragões fosforescentes, nem o conto infantil de onde você certamente saiu. E eu me sinto melhor.

Achei que você gostaria de saber, Mrs. Wei.

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Uma semana. Mesmo andando de beje e escolhendo os locais menos frequentados, mais cedo ou mais tarde eu sabia que ia esbarrar com um conhecido que iria, gentilmente, perguntar sobre a minha vida. Desespero.

Compreeendam: nada contra as pessoas. Mas a idéia de ter que racionalizar e verbalizar as diretrizes da minha existência em poucas palavras não só reabre questões antigas como cria problemas que, antes, não existiam. Um simples “e agora, quais sãos os seus planos?” pode ser uma pergunta de elevador para quem faz, mas costuma chegar como uma bofetada para quem ouve.

Vale dizer que nem sempre foi assim. Acho que, sei lá, até os 17 anos, qualquer pergunta que me fizessem envolvendo verbos no tempo futuro descambava numa longa resposta sobre projetos mirabolantes e pretensiosos. Não sei quantas vezes entreti meus interlocutores discursando com chavões de “basta querer”, “desbravar o mundo”, “influenciar o senado” e outras pérolas que só uma jovem pedante poderia soltar. Acho que nunca irritei ninguém a sério por que devia ser até divertido assistir àqueles rompantes megalomaníacos fervorosos. Aliás, acho uma irresponsabilidade isso: deixar a criatura falar o que bem entende até os 20, mesmo sabendo que ela passará o resto da vida pagando a língua. Deviam incluir entre os ritos de passagem juvenis – como as aulas educação moral e cívica, vestibular, auto-escola – também umas lições de coerência-e-auto-imagem. Se alguém tivesse me avisado logo que eu era só uma adolescente típica e banal que não nasceu com uma estrela na testa, eu teria avançado, sei lá, umas dez casinhas no jogo da vida.

O fato é que, na hora de sair do País das Maravilhas, a coisa complica. Depois de ter passado dez anos com cara de sei-fazer-chover-mas-agora-não-quero, você arranja um emprego, uma casa, uma rotina absolutamente ordinária e qualquer pergunta corriqueira de “o que tem feito da vida?” num corredor de shopping termina em gastrites súbitas e horas de divã. Se você virou embaixador da Unicef, é guitarrista profissional e mora num trailler sem endereço fixo, ótimo, a pergunta te cai bem. Mas se você é só um dito cidadão respeitado que ganha quatro mil cruzeiros por mês, pronto, pode vir, dá a mão, a tia mari te entende, pode crer.

Às vezes eu fico me perguntando por que esse tipo de crise existencial atinge, não só a mim, mas à maioria dos meus amigos. A verdade é que quase todo mundo fala mal do emprego, do chefe, do serviço, é tão normal reclamar que eu fico me questionando se os nossos trabalhos são mesmo tão ruins ou se, lá no fundo, a gente acredita que foi predestinado a atividades superiores. Não tem escritório acarpetado que baste para quem tinha a fórmula do sucesso no bolso, gente, tudo seria mais fácil se, lá pelos nossos 15 anos, alguém tivesse sentado num banquinho e avisado logo: “olha, meu bem, sabe isso aí que você tá pensando? Pois é, gata, não vai rolar”.

Se este ato caridoso não salvasse a minha vida, pelo menos me poupava do constrangimento de descobrir sozinha. Ou das frequentes perguntas bem-intencionadas lançadas feito bombas de gás pimenta em recintos fechados que me obrigam a gaguejar qualquer coisa sem sentido até alguém abrir a porta do elevador e eu sair correndo.

Costumo escapar com vida. Embora o meu dia, é claro, esteja perdido.

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