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Posts Tagged ‘mariana miranda’

Quando a gente desembarcou no aeroporto era tanto carpete, veludo, vitrine dourada e lustre de cristal que eu poderia dizer que fiquei desconcertada com tanta opulência, que não me senti à vontade dentro daquele luxo ostensivo. Mas seria uma mentira descarada. Eu tava era adorando tudo aquilo. Eu no meio daquele lugar bonito, com tanta gente bonita, com tanto tapete vermelho, com tanto comissário alto-fino-luvas-brancas sorrindo e abrindo portas e estendendo a mão – you are wellcome, lady Mariana Miranda – ah, isso afeta gravemente o coração de uma moça criada em Brotas, gente. Eu queria era ligar dali mesmo pra minhas tias lá da Bahia: tia Anaaaaa, eu cheguei láááá, eu tô no topooo, conta pros primoooo.

Chovia em Amsterdam, aliás, sempre chove em Amsterdam, o que eu considero muito justo. Por que, bem, não se pode ter tudo na vida. Uma cidade não pode ser bonita + rica + bem-humorada + ícone da liberdade de comportamento no mundo inteiro e ainda ter um sol tropical. Não pode. Seria contra as regras da natureza, as leis da compensação, onde fica a justiça divina? Foi lá que nasceu Van Gogh, foi lá que nasceu Rembrandt, foi lá que começou tanta coisa bacana que o justo mesmo é que chovesse. Granizo. Três vezes ao dia.

A gente deu uma primeira volta pelo bairro e havia barco-casa flutuando com rede na varanda, jardim de foto de calendário, tudo tão doce que nem dava para imaginar aquele cenário virando do avesso durante a noite. Mas vira. Vira uma multidão doida andando no escuro, música, festa, carrossel de neon, gente louca abraçando desconhecidos na rua e pulando na chuva e subindo na mesa e fica fácil perceber que essa fama de que os holandeses vendem cigarro de maconha em todo lugar é uma grande besteira. Não é verdade. Eles vendem picolé de maconha, pirulito de haxixe, chiclete de cogumelo, sorvete de lisérgico, esse negócio de cigarro já saiu de moda há muuuito tempo.  

E eis que a pessoa segue no meio daquela festa, daquela turba, daquela cidade onde você pode andar pelado, tatuar a testa, subir na mesa, mas se atravessar a rua fora da faixa de pedestre, vai preso. Gente, eu só queria passar para a outra calçada! Ser fichada por transgressão e desordem em plena Sodoma européia, meu Deus, é agora que eu vou ligar pra Salvador: vóóó, eu tô dando trabalho na Holandaaaa, maginaaaa!

Sobrevivi. A minha mala, não. Na confusão, molhou a roupa toda, minha mãe já tinha me dito pra comprar outra mala desde sempre e eu pensei: tudo bem, vou comprar agora, uma mochila holandesa deve ser muito mais duradora, confiável, até por que eu não consigo imaginar toda essa gente loira fina-elegante-e-sincera que fala essa língua difícil cheia de consoante e cedilha e trema, de repente, gritando:

– Jeez, neuken ittou de rugzak en klopte alle spullen op de vloer!

(- Eita, porra, a mochila pocou e a tralha foi toda na chom!)

Claro que não, eles são phinos. Mas, gente, quem consegue entrar em loja nenhuma com tanta música tocando lá fora, hein? Com tanta ponte abrindo no meio, com tanta gente dançando naquela Disneylândia para maiores de 18 anos que faz com que qualquer outro ambiente pareça meio sem graça, acho que eu não comprei mochila nenhuma por quê, no fundo, eu não queria fazer as malas. Ah, eu queria era ficar. Nunca mais sair daquele oásis colorido, daquela ilha purpurinada, meu Deus, eu precisava ir embora – eu estou sempre indo embora – e o fato de estar naquela cidade fabulosa nem era mais o problema. O problema era o resto do mundo! Era o resto do mundo que precisava parecer um pouco mais com Amsterdam.

Embarquei sem mala nenhuma, com as coisas caindo do saco. Deixando um pedaço de mim para, quem sabe um dia, ir buscar.

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“Se você sentir saudade,
por favor, não dê na vista.
Bate palmas com vontade,
faz de conta que é turista.”

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Emprego novo + engarrafamento de freelas + mês de entrega da tese + outras ocupações  que eu arranjei para essa minha vida não são o real motivo pelo qual eu praticamente não vou postar em Setembro. O motivo é que eu vou viajar e só volto no final do mês, mas eu costumo colocar a culpa no resto.

Aliás, é pelo bem de todo o resto que ninguém precisa perceber que eu não estou aqui: os próximos posts estarão com publicações pré-agendadas e os comentários terão aprovação livre. Comportem-se.

(Só estou avisando agora por que não conheço melhor forma de evitar polêmicas do que dar uma notícia no final do expediente. Você despeja a bomba e fecha a porta atrás de você. Todo mundo vai te odiar por umas horas mas, até o dia seguinte, aquela vontade coletiva de te MATAR, provavelmente, já passou).

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Adaptação

Acho que uma das minhas vaidades mais sinceras é receber boas indicações. Tipo, numa conversa, alguém bate no seu ombro e diz: leia o livro tal, é a sua cara. Ou ouça aquele disco. Ou visite àquele local. É claro que uma boa indicação pode ter diversas motivações (as preferências do interlocutor, o tipo de relação entre vocês, algum fato isolado), mas gosto de pensar que tem a ver com identidade. Com quem você é. (Ou pensam que você é).

Estes dias me indicaram o filme Adaptação e eu achei genial. Há diálogos ótimos:

– Para escrever sobre uma flor, mostrarei sua trajetória, algo que remonte aos primórdios da vida. Como a flor chegou aqui? Deduzo que todos os seres orgânicos que já viveram até hoje neste planeta são descendentes de uma mesma forma ancestral que adiquiriu vida num processo de evolução e adaptação. Uma jornada que todos empreedemos e que nos une a todos. Segundo Darwin, viemos todos do primeiro protozoário. E aqui estou eu. E estão o Laroche, a Orlean, a orquídea fantasma… todos presos em nossos corpos, presos em momentos da história. (…) Nós partilhamos o mesmo DNA. Meu Deus, e existe coisa mais solitária do que isso?

***

– Darwin escreveu sobre essa orquídea.
– Charles Darwin, o cara da evolução?
– Sim. Segundo Darwin, uma mariposa com um bico de 30 centímetros a polinizava. Todos o chamaram de louco, até que acharam uma mariposa com uma probóscide de 30 centímetros. Quer dizer, bico.
– Eu sei o que quer dizer.
– Não mude de assunto. Não é disputa de quem mija mais longe. O que é maravilhoso é que essas flores têm uma relação especial com o inseto que as poliniza. Cada orquídea se parece com um tipo de inseto que é atraído por ela. Seu duplo, sua alma gêmea. Tudo que ele quer é encontrá-la. Daí ele voa, a avista e a poliniza. Nem a flor nem o inseto jamais percebem a importância deste ato, como saberiam que a sua dança dá vida ao mundo? E dá. Fazendo o que foram programados pra fazer, algo magnífico acontece. Eles nos ensinam a viver. É isso. Quando vir a sua flor, não deixe que nada se interponha no seu caminho.

***

– Sabe por que gosto de plantas? Por serem tão mutáveis. A adaptação é um processo profundo. Temos de descobrir como sobreviver no mundo.
– Mas é mais fácil para as plantas, elas não têm memória. Apenas passam para a fase seguinte. Mas para as pessoas adaptar-se é quase vergonhoso, é como fugir!

***

– Existem idéias, coisas e pessoas demais. Caminhos demais a seguir. Comecei a achar que é importante gostar de algo com paixão, pois isso reduz o mundo a um tamanho administrável.

 

A verdade é que a gente nunca sabe exatamente qual foi o ponto da trama que o interlocutor achou que seria “a sua cara” – pode ter sido a narrativa (confusa) ou a cronologia (invertida) ou algum dos protagonistas (o agricultor megalomaníaco ou o roteirista depressivo ou a escritora prolixa) – mas isso não importa. Importa é que algo num bom filme lembrou a mim. Não é uma vaidade justa? Cada vez que alguém me indica uma obra inteligente, eu ganho uma nova razão pra me tornar uma pessoa insuportável.

 

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Coordenador (em inglês): Pois bem, vamos encerrar esta reunião do Conselho de Ética Jornalística Anglo-Saxónico do TS. Gostaria de agradecer a presença de todos, especialmente dos nossos dois representantes do Jornalismo de língua portuguesa.

Colega (em inglês): Obrigado.

Coordenador (em inglês): Sendo assim, vamos todos ficar de pé para pronunciar o juramento de ética. Os senhores podem puxar a jura? Talvez a sua colega, ela parece tímida.

Secretária (em inglês): Mas, senhor, não sabemos se o juramento é prática na universidade deles.

Professor americano (em inglês): É costume, sim, a academia portuguesa é uma das mais tradicionais do mundo.

Coordenador (em inglês): Pois então. Uma ótima referência!

Colega (em inglês): Talvez eu possa fazê-lo, acredito que minha colega ainda não esteja muito à vontade com o idioma estrangeiro.

Coordenador (em inglês): Ela pode jurar em português, de acordo com a cultura de vocês. Será um prazer para nós.

Professor americano (em inglês): Que ótimo! Português!

Secretária (em inglês): Senhor, talvez não seja boa idéia.

Colega (em português): Olha, você não precisa…

Eu (em português): ok, ok, não faz mal…

Todos erguem a mão sobre o livro para iniciar o juramento.

Eu (em português, com voz solene): Somos da turma tricolor, somos a voz do campeão, somos do povo o clamor, ninguém nos vence em vibração, vamos avante esquadrão, vamos serás o vencedor, vamos conquistar mais um tento, Bahia, Bahia, Bahia.

Coordenador (em inglês): Excelente. Preciso conhecer as universidades portuguesas.

Professor americano (em inglês): Eu também. Muito bonito.

Colega (em português): Nunca mais trago você, rs.

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Inspirado em A Cabeça de Calcário, de Fernando Monteiro.

Era 2009. Fim de tarde, um dia banal, quarta, quinta-feira. Já havia uma cidade definhando – uma Lisboa de casarões abandonados e estatuas cobertas de limo, num luxo saudosista onde as casas envelheciam numa decadência adiada de quem ainda preferia pisar os trapos de veludo do tapete do que experimentar a realidade de um chão completamente nú. As guerras coloniais estavam perdidas, os navios já haviam voltado com seus combatentes mutilados e alguns ainda esperavam pela volta do salazarismo. Tudo era ausência à beira do Tejo. E foi num destes dias que eu conheci um homem chamado Baltazar.

Era um desses senhores portugueses de formação clássica, extremamente educados, que me pediu informações sobre as prateleiras do segundo andar da Biblioteca Municipal. Depois de duas ou três perguntas objetivas, abriu um dos livros que trazia, lendo com muita calma: “Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje, nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta” e sorriu, fechando a página. Eu sorri de volta. Ele se apresentou, muito sério, e disse: “Eu lamento pelas coisas que não existem mais”.

Estava procurando por publicações antigas. Buscava uma informação sobre os folhetins da década de 50 e explicou: preciso de um daqueles jornais velhos que vocês arquivam, daqueles que não usaram pra enrolar peixe um dia depois de publicados. Fisicamente, lembrava o velho Afonso – talvez por que todos os homens e mulheres cultos da península ibérica se pareçam um pouco com os descendentes perdidos da família Maia – e tinha a expressão grave de uma geração que viveu esta mudança de século acompanhando a chegada da modernidade com alguma distância e terror. Na ocasião, contou-me uma história – que talvez não tenha acontecido exatamente da maneira como iria narrar, alertou ele, garantindo que já se sentia traído pelo terreno movediço da memória, capaz de embelezar ou empalidecer os fatos ao sabor do tempo e da quilometragem – mas que, se não estava enganado, aconteceu no outono do ano de 1755.

Numa espécie de Atlas ilustrado, mostrou-me a reprodução do Grande Sismo, feita em óleo. Um mar pintado de azul escuro recuando numa onda gigante. O quadro lembrava-lhe o destino de todo lusitano, nascido com uma espada sobre a cabeça: o antigo terremoto, que foi sucedido pelo maremoto, que foi sucedido pelo incêndio – num elencar impressionante de desgraças ocorridas numa mesma manhã de novembro que alertava a todas as gerações portuguesas que, diante da força do inexorável, pesar nenhum era demais.

Disse que, depois da tragédia, a geologia da época – ciência nova, filha do pânico – garantiu que o terremoto se repetiria. Previsão que a ciência moderna confirma até hoje – e eles esperam há mais de 200 anos. Um dado histórico que influenciou profundamente a formação da cultura lusitana: dura, resignada, carregando o peso secular que alguns chamam de sina. Eles chamam de fado.

“Não existe mais nada, quase tudo desapareceu”, disse ele, fechando o livro de história do império. Falava sobre os anos de reinado, do qual nem foi contemporâneo. Um passado a que também os jovens lusitanos, hoje, preservam e enaltecem de maneira obsessiva, como alguém que herdasse, nos dias atuais, uma fortuna em moedas de Escudo – um tesouro do passado que, graças a um tropeço do tempo, já não vale mais nada. A nova geração, possuidora de muitos títulos e nenhum vintém, foi feita de um material inquebrantável – gente austera, indignada, que parece ter vivido toda uma era de vitórias e opulência que terminou para todo o sempre uns cinco minutos antes de você adentrar as fronteiras do país. Já nascem com esta melancolia vaga nos olhos – Fernões e Cabrais de farol, aguardando, aguardando – “Tudo era ausência à beira do Tejo”, ele disse, “ainda hoje é assim”.

Mas não era dos jovens que Baltazar falava. Não. Era daquela tristeza toda. Talvez fosse um mal do continente, plantado no trigo, bebido na água. Uma nostalgia crônica que aprisiona pessoas e nações aos seus dias de glória, marcados por um orgulho tardio, meio caduco. Como a nova Roma, que não enterra seus Cézares. Ou a Grécia, ensimesmada nas ruínas de sua antiguidade helênica, ou a França, estagnada até hoje no intervalo dourado da Art Nouveau – o fato é que quase todo homem europeu tem sua alma cativa a algum período áureo do seu passado, avessos às novas modas, músicas, invenções. Baltazar estava cativo daquele livro.

Na biblioteca, sentado com o Atlas nas mãos, sentia uma inquietação silenciosa, a claridade da janela rondando o gramofone, a mesa de madeira escura, os pratos pintados na parede e, agora, empurrando-o para a porta da rua, onde a luz era demais para os olhos e não se podia ver mais nada. Quase todos os objetos do segundo andar redesenhavam as sombras de um planeta extinto, quando a Índia e o Paquistão ainda não tinham feito a guerra, não havia Revolução Islâmica, os russos não haviam invadido o Afeganistão e, sobre o Oriente, pairava a mesma aura soturna de hoje, só que em preto e branco. O mundo pouco mudou, pensou. Assim, olhando bem, quase nada mudou – ele diria, convencido, pragmático, se não trouxesse aquele relógio fatal consigo, ali dentro, batendo, batendo.

Abandonou o Atlas e abriu outro livro, um de história. Numa das páginas, a imagem de um homem de pé, fardado. Era D. Sebastião, tinha certeza. Não era a pintura de um outro soldado que, regresso da guerra de Marrocos, fosse recebido e condecorado em seus trajes de combate. Nem era de um artista de circo que, de passagem pelas estradas empoeiradas do Minho, interpretasse um capitão heróico nos folhetins encenados do teatro de rua itinerante. Não era. Os ombros muito largos, dividindo o Oriente do Ocidente, eram de D. Sebastião, o herdeiro assassinado, início da dinastia dourada de um futuro que nunca veio. Do que poderia ter sido. Era jovem. E, mesmo Baltazar, em suas próprias fotografias, não era o velho de agora. Nos seus álbuns, eram evidentes os arranhões feitos pelo passar galopante dos anos – os amigos mortos, as cidades deixadas para trás e as oportunidades intactas desperdiçadas quando todos a sua volta tinham força, vigor e tempo – e não sabiam o que fazer com nada disso.

Quem era o jovem na gravura do livro? Talvez fosse de D. Afonso VI de Leão e Castela, varrendo a sombra espanhola do Condado Portucalense ou de algum rei católico ou algum guerreiro mouro filho de Alá. E, mesmo as páginas que ele folheava, de que parte do reino viriam? De que cedro, eucalipto, carvalho nascido sobre o chão verde da planície de que cemitério, onde pastavam as ovelhas alvas cobertas de lã, de onde teceriam as bandeiras, as fardas e as capas flexíveis de livros como aquele? A verdade é que o homem ilustre retratado sem identificação lembrava aos mortais leitores que tudo sobre a terra seria engolido pela onda branca e larga do esquecimento – “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” – e pesava sobre Baltazar a promessa do anonimato sem memória, foto perdida no baú mais antigo da última casa fechada numa vila abandonada. Para ele, tudo era abandono. Não importa o que fizesse, que méritos ou crimes acumulasse em seus dias de existência, não poderia salvar a sua própria imagem de ser encontrada, um dia, num desses livros de história sem legenda, ou no lixo, ou num dos tabuleiros da feira da Ladra, exposta aos colecionadores, ao lado de antiguidades, velharias inúteis e outras fotografias de gente morta.

Baltazar era um homem inviável. Exasperado por quê, para a vida, não havia um fim, a justiça de um fim sobre a coroa do reconhecimento dos outros, mas apenas um desaparecer vulgar que não distingue o sepulcro digno da vala comum da existência ordinária – e seus anos não passariam de um intervalo ligeiro na história de uma cidade dentro de um país dentro de um planeta girando no espaço prestes a ser engolido pelo vácuo do nada. Morrer era desaparecer. Ele não estava preparado. Ocidental, racional, apalpava no escuro os caminhos para a transcendência, essa busca secular e tão humana de tentar ultrapassar os limites da mortalidade, não importa que nome lhe damos – Deus, Brahma, Nirvana – esta experiência que arrebata tanto os sentidos, como quando estamos diante de uma música extraordinária, de uma paisagem fabulosa ou da visão do sagrado. E caminhar para a biblioteca, guardar fotografias, falar sobre o império, tudo era uma busca ancestral pela perenidade roubada, o mito universal do paraíso perdido – ventre materno abandonado, terra prometida, alma gêmea, Éden, Meca – desde o princípio a humanidade tenta voltar. Mas, para aonde?

Do lado de fora da janela, a luz da tarde amarela fazia chegar-lhe à mente os dias em que ele era muito jovem e não existiam as marcas, essas marcas deixadas pelos que desistiram, fugiram, enlouqueceram, morreram – enquanto dentro da alma dele alguma coisa também ia desistindo, fugindo, enlouquecendo e morrendo. O futuro ainda tinha alguma importância. Ler os grandes autores era conversar com homens mortos, os vivos não lhe interessavam. As prateleiras, o silêncio das poltronas, a paz daquela sala sem pessoas enquanto a vida explodia em fomes, crimes e dores do outro lado do muro – viver não é preciso. Fechem um pouco mais as cortinas.

E ele baixou os olhos, voltou a ler. Eu continuei sentada na janela. Lá fora, a chuva começava a cair fina, cortante, alfinetando o asfalto. O centro da cidade, os carros, cimento, descargas, monóxido de carbono, o velho Palacete do Campo Pequeno, o telhado vermelho no meio do cinza. Ilhado. E foi, então, que eu entendi. Do segundo andar da biblioteca, olhando para o Palacete, para o Baltazar e até para mim mesma, ali, parada na janela: tudo aquilo era Portugal. Portugal de 2009: assustado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão e saudade. Guardando na estante mais alta a fragilidade da própria história, resistindo ao palpitar dos relógios que corrói os calcanhares dos monumentos e arrasta tudo de volta ao pó. E eu senti um amor imenso por tudo aquilo. Como num ritual de fé, fui fechando as cortinas, acendendo as luzes e entregando a ele os últimos livros.  Tudo vale a pena, se a alma… quanta bobagem. Não havia saída para Baltazar. O peso dos anos, aquela saudade, tudo nele queria voltar. E, ainda que não fosse ele, mas um outro, sem ancoras tão submersas naquele chão, ainda que conhecesse outros povos, nações maiores, mais ricas e cheias de vida e o mundo inteiro se abrisse numa explosão interminável de novidades, não importa onde estivesse, mesmo que o passar do tempo ganhasse sentidos diferentes e as lembranças do Tejo e do Campo Pequeno se tornassem cada vez mais vagas, haveria ainda nele – no ato banal de fechar cortinas, no gesto involuntário de suspirar fundo sem motivo ou de olhar para o mar como quem divaga – sempre nítida, como uma marca, como uma cicatriz na cara, a sentença irrevogável, o fado de todo lusitano – de estar sempre voltando pra casa.

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Mas eles estão lá … e eu estou aqui!
(Bukowski)

Quando a gente está se preparando para uma viagem, pensa em tudo: nos lugares que vai visitar, nas pessoas que vai conhecer, no mundo novo que vai se descortinar para nós. E só. Você nem imagina que, enquanto você vai, uma cidade que ficou para trás não pára pra te esperar. Tudo continua. Sem você.

E o Orkut é o inferno de toda pessoa que não estava lá. Seja por que viajou, se mudou, adoeceu ou por que não quis ir mesmo, não importa, o fato é que você não estava lá. Entro na internet e vejo as fotos do encontro onde todos os meus amigos se divertiram – sem mim. O aniversário do meu primo, a família toda reunida – sem mim. Meus colegas de sala num passeio de barco pelo Forte – sem mim. Casamentos, formaturas, encontros onde todo mundo se viu dançou, brindou – sem mim. E nem adianta me olhar com essa cara por que eu sei que você também foi aquela festinha ótima onde todos estavam – menos eu.

Pois é, nada como um orkut na vida de um viajante para dar a ele uma dimensão exata de quão dispensável é a sua existência sobre a Terra.

Nada contra o programa em si, ou quase nada. Enquanto estrutura, considero o Orkut uma espécie de vitrine da alma, um currículo inteligente dividido em 4 campos: o que você diz sobre você, o que seus amigos dizem sobre você, sobre o que você se interessa e quem te interessa. Em alguns casos, há também vídeos caseiros, fotos em trajes de banho, diploma scaneado, exames de raio-x, tudo o que uma pessoa quiser mostrar sobre si mesma. Pensando sobre este curioso invento, uma primeira questão é que me ocorre: a profissão de escritor biógrafo está com seus dias contados. Segunda questão: por quê razão infame a gente precisa de um programa assim?

Por que ficou impossível fazer sem ele amigos. Por exemplo: você conheceu um zé mané qualquer, bateu um papo e simpatizou. Pronto, no dia seguinte é só procurar uma criatura no Orkut, adicionar, dar uma lida sobre a vida do indivíduo para ver se aquela primeira impressão estava de acordo com uma realidade, saber aonde mora, o que faz, do que gosta, copiar o endereço de e-mail da criança e escrever marcando para assistir um filme que curte ele, no horário que ele pode, no cimena perto da casa dele. E, se for o caso, aproveitar para convidar os amigos que vocês têm em comum para irem junto. Fácil, né?

Acontece que os europeus não tem Orkut. E, cada vez que conheço alguém por aqui, me vejo na obrigação de fazer perguntas, sondar gostos, descobrir passados, anotar telefones e tomar outras iniciativas intuitivas e ultrapassadas  que dependem inteiramente da minha sensibilidade e percepção para acontecer. Ou seja: um desastre. Estamos no século XXI, o homem já foi à Lua, criou uma tv de plasma e desintegrou o átomo em milhões de infinitas micropartículas, por que raios esse povo não faz Orkut e acaba com essa vida social pré-histórica? A tecnologia nunca está aonde se precisa dela.

Pois é, uma iluminação nunca vem para todos. E se você também não conhece o programa, vai uma dica: o melhor dele não é a descrição dos perfis, são as comunidades. Não há forma conhecer melhor as preferências de alguém. Hoje, se eu fosse criar uma comunidade, ela seria assim:

Nome: Orkuteiros Anti-Sociais
Descrição: Se você entra no Orkut, responde seus scraps, sai do Orkut e volta aos seus afazeres sem nenhuma curiosidade pelas páginas alheias, se você não quer saber da vida dos outros, se você ignora solenemente os álbuns que publicam seus amigos, aqui é o seu lugar!

Esta comunidade, é claro, estaria inaugurando o meu novo comportamento virtual e seria recomendada também a todos os viajantes que tenham o mínimo de amor próprio. Unidos, teríamos um acordo de solidariedade mútua. A comunidade poderia até marcar um encontro entre os viajantes solidários em algum lugar do mundo. Todos juntos! Seria divertido. E tiraríamos ótimas fotos para publicar no Orkut.

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“Yo adivino el parpadeo
De las luces que a lo lejos
Van marcando mi retorno.”
(Carlos Gardel / Volver)

Portugal, 26 de março de 2009,

Faz tanto tempo, mas eu me lembro. No início do ginásio, eu era a única aluna da minha classe que sabia andar de ônibus. Em parte por que eu gostava, em parte por força das diferenças econômicas mesmo: a maioria dos colegas tinha motorista, um luxo que eu, definitivamente, não dispunha. Mas dispunha daquela liberdade rara. Como esquecer o olhar dos colegas, nariz contra o vidro, cada um dentro do seu carro. Todos seguindo-me de longe pegar o meu próprio ônibus, com o meu próprio arbítrio, com as minhas próprias pernas. Se, aos 11 anos, eu tinha alguma vaidade na vida, era esta. Mochila nas costas, passe no bolso e um ar de quem sabe como, onde e de que jeito. Dona da rua e dona do mundo. Até que chegou o inverno.

Um dilúvio bíblico. Eu não esperava. As meias encharcadas dentro do tênis, o uniforme cheio de barro e eu escorregando sobre as poças enquanto veículos caros levantavam ondas de lama. Ensopada e suja, a dona da rua era agora um pavão molhado, uma criatura miúda com jeito de cachorro sem dono procurando abrigo sob qualquer marquise. Enquanto os colegas passavam mudos, nariz contra o vidro, cada um dentro do seu carro.

Lembro de entrar revoltada na cozinha do velho edifício Lisboa, casa de minha avó materna, preguejando contra tudo: a meteorologia louca do Nordeste, o transporte público lotado, as ruas sem calçamento, sem esgoto, sem guarida, e, principalmente, contra a minha infeliz condição de proletária andarilha naquela maldita cidade tropical onde eu precisava andar trezentos milhões de metros para chegar a qualquer lugar. E minha avó, serena, trazendo uma toalha e perguntando – mas, minha filha, me diga, isso não era tudo o que você queria?

E era. Eu havia passado as férias inteiras pedindo, suplicando, usando todo tipo de argumento emocional e financeiro para convencer minha mãe a me deixar andar sozinha de ônibus. Dizendo que era a ordem natural das coisas, um degrau, uma sina biológica e inevitável, uma casca de ovo quebrada. E lá estava agora, um semestre depois, tentando remendar os pedacinhos daquela cápsula onde eu, certamente, já não caberia mais.

Não sei se por isso ou por alguma outra razão – há tantas razões possíveis para o inexplicável – mas, desde então, a cada dia de chuva me invade um sentimento ancestral de desamparo. Uma certeza dura e corrosiva de ser a responsável por mim mesma, por cada degrau vencido, por cada queda na lama. Bicho adulto andando sozinho, mesmo que perdido, mesmo que ensopado. É quando chove que me vem essa vontade urgente de entrar pela mesma cozinha, de praguejar de novo, de pedir abrigo. De ouvir outra vez qualquer coisa que me acalme o peito ainda machucado. De não ter crescido. De voltar.

Agora chove. E eu acho que, no fundo, eu sempre soube que voltaria para Lisboa.

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– E já pode falar de Natal?
– Neste caso, acho que sim, por que esta pauta…
– Ô chefe! Vem cá. Já pode falar de Natal?
– Como assim? Natal? Ora, depende. Quando é mesmo que os shoppings começam a decoração?
– Em novembro.
– Então, eu acho que…
– …Quer dizer, em outubro os supermercados já estão vendendo guirlandas, luzinhas e aquela parafernalha toda…
– Pois é.
– …Se bem que, em setembro já se pode falar sobre as contratações nas indústrias, para atender ao aumento de vendas de fim de ano. E, em agosto, já há os cheques pré-datados para o ano seguinte… Enfim, chefe, estamos em julho e nosso colega falou algo sobre Natal, daí…
– Mas eu estava tentando explicar o agendamento de pautas de dezembro!
– Hum?
– Vai falar de Natal em dezembro?
– É.
– Esquece, cara, aí já esfriou.
– Meu jovem, em dezembro ninguém agüenta mais ouvir falar de Natal. Que tal copa do mundo?

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O Passado

“O passado nunca conhece o seu lugar
O passado está sempre presente.”
(Mário Quintana)

 
Precisava lembrar de comprar fósforos. Empurrando o carrinho de compras, ela se perguntava por que sempre esquecia as coisas. Pensava também no jantar daquela noite, não poderia pedir pizza novamente, que sempre chegava fria e desarrumada. Hoje faria um filé com creme de queijo, receita sofisticada para alguém que jantaria sozinha num dia comum.

A dispensa vazia denunciava: nunca lembrava de fazer as compras. O delivery quase sempre salvando a noite, a pizza fria – mas não dessa vez. Seria um filé especial, porção bem apanhada, queijo mussarela, muito molho. Toalha de renda, talheres à mesa, guardanapo de pano. Tudo de primeira. Só pra ela.

Passando pela gôndola de frios, suspeitou: talvez não fosse culpa sua. Talvez esquecer das coisas de vez em quando tivesse sido seu escape para sobreviver a um passado que não conseguia enterrar. Pois sempre soube: não se pode fazer nada pelo passado. Mentalmente, foi enumerando episódios, circunstâncias, causas diversas. Mas, enfim, quando foi mesmo que começou a abandonar as próprias lembranças? Primeiro foram se apagando os fatos tristes, as más recordações. Era a memória se despoluindo, abrindo espaço no meio do lixo. Depois foram números de telefones, nomes de ruas e aquela receita que só ela sabia fazer. Tudo bem. Até que deu para perder as chaves de casa.
Chamava um chaveiro, arrombava a porta, entrava e quando ia buscar o pagamento do rapaz, onde é mesmo que estava a carteira? Os médicos garantiam que não havia nada de errado – talvez a vida moderna, tanto trabalho, tanto stress. Aceitou. Até aquele dia.
Nem comida nem fósforos em casa. Já era demais. No caminho para o mercado, decidiu: tomaria complementos de cálcio. Faria ioga, meditação, qualquer coisa que a centrasse sobre o próprio eixo. Teria cópias das chaves, agendas e mapas. E nesta nova fase não caberia mais o delivery, a pizza fria, a vida de improvisos que estava levando – atrasos, trapalhadas, anotações perdidas. Altiva, deslizava o carrinho pelos corredores – e assim iria conduzir a sua mente. Sem erro. Se seu passado confuso ressurgisse? Faria análise, terapia, regressão. Iria enfrentá-lo. E pronto.

Enquanto a moça do caixa passava as compras, concluiu – o jantar era só o começo.

– Carne, alho, queijo, extrato. Doze reais. Algo mais, senhora?
– Não, obrigada.

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