A verdade é que a gente sempre esperou os grandes males. Estávamos prontos para os homens-bomba, para os idealistas torturados, para os famintos desfigurados, para os roqueiros quebrando guitarras nos festivais. No fundo, a gente sabia dos ecologistas apocalípticos, dos religiosos fanáticos, dos românticos suicidas, considerávamos as possibilidades mais drásticas, solenes, grandiosas, por que, acredite, a gente nunca esperou pouco da nossa própria história. Mas ninguém estava pronto pra você, Clarice. Para essa dor miúda de língua mordida, de sapato apertado, para essa irracionalidade besta de cachorro que late para os carros da rua. Para essa leve febre que não passa, essa vontade de voltar, de não ter crescido, ninguém, ninguém estava pronto.
Depois de você, mudou tudo. E isso de existir tornou-se tarefa perigosa, irresponsabilidade, pelo menos para nós, que, se não me falha a memória, morreremos. Só você vai ficar. Você que não tinha profissão, que não era escritora, nem jornalista, nem colunista, nem historiadora, nem nada, você que só escrevia por sina – e sina não tira carteira de trabalho. Você que veio de longe, de uma pesada ancestralidade. Seus rascunhos resumiam as virtudes secretas de muitas mulheres – e o deslumbramento explícito de todos os homens do mundo. Cada um de nós sangrou na sua frente, você não vê?
Mas a verdade, Clarice, é que a gente vivia bem sem você. Éramos tranqüilos com nossas almas desavisadas, nossas senhoras eram doces e sensatas até Ana levá-las àquele jardim pestilento. E tudo se perdeu. Até Loreley entrar no mar em fúria ou Joana fugir de casa sem medo e a menina ruiva, você sabe o que você fez? São Paulo nunca se recuperou de Macabéa. Felicidade Clandestina não foi um conto, foi um vírus.
Você não deveria ter vindo. Que ficasse lá na Ucrânia, não foi lá que você nasceu? Que escrevesse suas insanidades naquela língua outra, tão fria, difícil, para que nunca nos dominasse com a nossa própria gramática. Deveríamos ter fechado os portos, alterado as rotas, descarrilhado trens, derrubado aviões, interditado ruas, expulsado imigrantes, recusado embaixadores, queimado bibliotecas, fechado as janelas e as portas de casa, tapado os olhos e os ouvidos contra a sua chegada. Mas ninguém imaginou, ninguém suspeitou. Era só um bebê, e, depois, era só uma mulher. Entende? O problema é justamente esse, Clarice, exatamente esse. Por que, depois de você, nunca mais uma mulher foi só uma mulher.
À Clarice Lispector