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Posts Tagged ‘mariana miranda’

Clarice

A verdade é que a gente sempre esperou os grandes males. Estávamos prontos para os homens-bomba, para os idealistas torturados, para os famintos desfigurados, para os roqueiros quebrando guitarras nos festivais. No fundo, a gente sabia dos ecologistas apocalípticos, dos religiosos fanáticos, dos românticos suicidas, considerávamos as possibilidades mais drásticas, solenes, grandiosas, por que, acredite, a gente nunca esperou pouco da nossa própria história. Mas ninguém estava pronto pra você, Clarice. Para essa dor miúda de língua mordida, de sapato apertado, para essa irracionalidade besta de cachorro que late para os carros da rua. Para essa leve febre que não passa, essa vontade de voltar, de não ter crescido, ninguém, ninguém estava pronto.

Depois de você, mudou tudo. E isso de existir tornou-se tarefa perigosa, irresponsabilidade, pelo menos para nós, que, se não me falha a memória, morreremos. Só você vai ficar. Você que não tinha profissão, que não era escritora, nem jornalista, nem colunista, nem historiadora, nem nada, você que só escrevia por sina – e sina não tira carteira de trabalho. Você que veio de longe, de uma pesada ancestralidade. Seus rascunhos resumiam as virtudes secretas de muitas mulheres – e o deslumbramento explícito de todos os homens do mundo. Cada um de nós sangrou na sua frente, você não vê?

Mas a verdade, Clarice, é que a gente vivia bem sem você. Éramos tranqüilos com nossas almas desavisadas, nossas senhoras eram doces e sensatas até Ana levá-las àquele jardim pestilento. E tudo se perdeu. Até Loreley entrar no mar em fúria ou Joana fugir de casa sem medo e a menina ruiva, você sabe o que você fez? São Paulo nunca se recuperou de Macabéa. Felicidade Clandestina não foi um conto, foi um vírus.

Você não deveria ter vindo. Que ficasse lá na Ucrânia, não foi lá que você nasceu? Que escrevesse suas insanidades naquela língua outra, tão fria, difícil, para que nunca nos dominasse com a nossa própria gramática. Deveríamos ter fechado os portos, alterado as rotas, descarrilhado trens, derrubado aviões, interditado ruas, expulsado imigrantes, recusado embaixadores, queimado bibliotecas, fechado as janelas e as portas de casa, tapado os olhos e os ouvidos contra a sua chegada. Mas ninguém imaginou, ninguém suspeitou. Era só um bebê, e, depois, era só uma mulher. Entende? O problema é justamente esse, Clarice, exatamente esse. Por que, depois de você, nunca mais uma mulher foi uma mulher.

À Clarice Lispector

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1º lugar no Concurso de Crônicas F2J

Algumas verdades me encantam mais que outras. Aqui, lendo uma pilha de revistas de recepção de consultório médico – que devem estar aqui desde a formatura do senil doutor em questão – encontrei-me diante dos escritos de ninguém menos que Luís Fernando Veríssimo. Sim, não é de hoje que esse homem das letras publica-se por aí. Entre notícias, descobertas e previsões econômicas feitas a cinco ou dez anos atrás, pergunto-me quais daquelas matérias realmente fez diferença na vida das pessoas. Sem querer, folheio outra crônica dele. Outro parêntese lúdico, desta vez entre a divulgação do Plano Real e de uma guerra no Oriente Médio. Meu Deus, aquele texto era uma ilha, um oásis.

Não falo de apologia à alienação. Falo de leveza. Falo da roupagem trágica que damos aos fatos – sejam eles de ordem pública ou privada. E desse oxigênio que nos salva quando o caos parece submergir o mundo. Das horas sufocantes que se arrastam quando as pessoas são intransigentes, os computadores não fazem <i>backup<i> automático e os <i>shoppings<i> não têm vagas de estacionamento. Dos dias em que você gostaria de não estar lá. Destas horas em que você se dá conta de que a terra está girando o tempo todo e isso te causa náuseas. É preciso respirar fundo, ter paciência. Se tolerar a fumaça de cigarro do cidadão ao lado for mesmo impossível, você pode reservar um túmulo na ala dos não-fumantes. Ou pode tirar o crachá de chato e assumir outro papel – por puro instinto de sobrevivência.

“Muitas vezes o que nos salva não é nem mesmo o amor. É o humor”, revela Veríssimo, encabeçando o time dos que, já que não podem tornar o fardo mais leve, o tornam colorido. E eu, no limite da exaustão, aguardando que um médico gástrico cure todos os males causados pelo stress dos meus dias, encontro um bálsamo bem aqui, na sala de espera. Encontro alguém pra me lembrar de não levar a vida tão a sério, já que o número de pessoas presentes no meu velório vai depender muito mais da meteorologia do dia fatídico do que dos meus êxitos ou fracassos sobre a terra.

E aí a gente se depara com um texto desses e ri um pouco de si mesmo. E se recosta na cadeira, folga o nó da gravata e segue um pouco mais leve. Um pouco mais brando. Até que o próximo sinal de trânsito se feche. Até que o amor decepcione ou caia catchup na camisa para que a gente volte ao nosso flagelo costumeiro. Outra vez.

Por que, Veríssimo? Por que prescrever a alegria das coisas simples quando a maioria opta voluntariamente pelo pessimismo? Se a gente prefere lotar os consultórios e acreditar que a fórmula do bem-estar está mesmo nas farmácias, por que ainda falar de bom-humor e esperança?

Os anos passam e você insiste em suas crônicas. Em seus convites ao bom humor. Talvez porque já inventaram remédio pra tudo, menos pra teimosia.
Nem para nossa, nem para sua.

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Tudo que não nos mata nos torna mais fortes. Quase sempre é assim. Mas há também o que nos mate aos poucos, lentamente, feito ferrugem consumindo os dedos das estátuas. A gente sabe que está morrendo um pouco mais e se conforma. E se entrega. Abandona-se como num banho de chuva envenenada, deixando-se encharcar por todos os poros, pressentindo o mal infiltrando-se no corpo inteiro. Para, um dia, deixá-lo escapar assim, de repente, pelo canto dos olhos.

A gente morre um pouco quando viaja calado, olhando a paisagem, completamente distante. Ou no caminho solitário para o trabalho. Ou no silêncio da TV desligada. Toda vez em que corpo e alma não ocupam o mesmo lugar a gente morre um pouco – por saudade.

Se lembrança é uma fotografia que guardamos num álbum empoeirado, saudade é uma 3×4 que carregamos no bolso da camisa todos os dias. Faz as horas e os espaços maiores, intermináveis. Deixa-nos vazios, feito um pátio de escola durante as férias de verão. Saudade é quando não encontramos em nosso próprio vocabulário palavras maiores que o silêncio. E, por isso, mantemos o silêncio.

Ela está no desamparo que nos abate quando temos tempo livre e não sabemos o que fazer com o fim de tarde ocioso. Está na chuva fazendo desenhos estranhos no vidro da janela. Na tecla repeat do seu aparelho de som. No saguão dos aeroportos. Na sua caixa de e-mails cheia de mensagens inúteis. Na solidão costumeira do seu dia-a-dia, em qualquer espaço vazio dentro da sua alma – a saudade vai estar lá.

Nestes momentos, sem querer, você vai se pegar imaginando a sua vida se você não tivesse tomado o rumo que tomou. E vai se perguntar como foi parar no lugar onde está. E vai fazer de conta que não se importa em colecionar sonhos desfeitos, que não se perfuma todos os dias para este encontro com o passado. Que, às vezes, não se sente de pé, estendendo um presente enfeitado entre as mãos sem ter a que entregá-lo, por que o amor ficou, mas a pessoa amada não.

Depois, em alguns momentos, você irá se pressionar a decidir se continua sofrendo, se esquece tudo pra tentar ser feliz ou se compra uma bicicleta. E acabará sofrendo um pouco mais, por causa da dúvida. Sem opção, vai tocar a vida pra frente. Sim, você construirá novos sonhos, fará planos, até se sentir seguro e confiante. Para, um dia, ouvir certa música tocar novamente. E estremecer. E descobrir que não passou.

Saudade é uma promessa que não dá mais pra cumprir. É o inferno de quem não aprendeu a esquecer. É esta vontade louca de morar dentro daquela fotografia, é não saber se somos lembrados e, mesmo assim, não conseguir acomodar a lembrança do outro dentro do baú. Saudade é morrer um pouco a semana inteira e, no final, não saber se vivemos sete dias ou o mesmo dia sete vezes. É morrer vagarosamente, e, ainda assim, permanecer sólido. E grande, como as estátuas. Por que morrer de saudade também é uma forma de morrer por amor.

Pensando bem, aquilo que nos mata também pode nos tornar mais fortes.

 

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