Não por acaso. O gosto por um mesmo filme, um ideal em comum. A mesma capa de caderno futurista ou o desejo gêmeo de viajar para conhecer aquela terra distante que quase ninguém ouviu falar, sim, duas ou três conversas e sabe-se. Entende-se. Sem querer, a gente descobre a afinidade.
A afinidade é um laço discreto, silencioso. É estar longe e seguir pensando parecido a respeito dos fatos do mundo que impressionam, comovem ou mobilizam, é ferver ao mesmo grau. É não ter que explicar uma idéia, justificar uma atitude, é aceitar antes de compreender as razões do outro – por que a razão é quase sempre supérflua mesmo ou por que, como traduziu Quintana, quem não compreende um olhar não vai compreender uma longa explicação.
Uma resposta adivinhada antes da pergunta e você se transfigura num ser humano compreendido, uma frase dita ao mesmo tempo e pronto: se está menos sozinho no mundo. A incompreensão é o exílio das minorias – só que todas as pessoas fazem parte da minoria em algum aspecto. Até que aparece alguém que não estranha a sua mania de roer as unhas, que usa a mesma boina listrada, que também é fã daquele ótimo saxofonista pop do sul do Paquistão. E a alma se acalma. Num planeta estrangeiro e ininteligível, você encontrou um ser humano como você, falando exatamente o seu idioma e com um sotaque igualzinho. O que pode ser mais acolhedor?
Só que falar de afinidade é também quebrar o pacto da afinidade, por que ela é silenciosa mesmo, mora nas entrelinhas. Por que a gente quase nunca diz a essas pessoas o quanto foi bom encontrá-las, o quanto o nosso mundo se fez menos árido e desértico depois da chegada delas. Com cuidado, a gente disfarça o nosso medo íntimo de que este encontro raro não resista à rotina atribulada, às impossibilidades da distância ou à chegada de outras amizades. Nos bastamos em agradecer baixinho a Deus por essa delicadeza do destino, essa sorte, essa dádiva que a gente vive junto mas não fala, talvez por que não saiba, talvez por que não precise. Entende?
Sim, você entende.