Minha prima está lendo um poema para mim. Ela está sentada no tapete da sala, numa tarde silenciosa, no apartamento quieto. Minha prima está lendo um poema longo que fala de barcos e mares e lugares distantes, de paisagens que ficam flutuando na sala até o próximo verso de uma história que não tem mais fim. Lá fora faz um dia azul e nada se parece com a tempestade de ontem. Minha prima foi embora de casa no mesmo ano que eu, também andou por horizontes tão distantes quanto os meus e também voltou para o tapete da sala como um gato volta para os pés do dono. E a gente se reencontrou. O poema que ela está lendo fala de uma busca remota e impossível e, se estivéssemos a quinze anos atrás, minha prima viraria a página para continuar lendo a história. Agora, ela desliza o texto por uma tela. Algumas coisas mudaram. Mas quase tudo está do jeito que a gente deixou.
Minha prima usa um vestido longo, um tom de voz familiar – ela tem o meu sangue e o meu sobrenome. E ela ainda lê poemas pra mim naquela sala mais que conhecida. Um dia, se alguém me perguntasse qual o meu conceito para a palavra “herança”, eu me lembraria da estante daquela sala. Eu, ela e os nossos primos lemos os livros daquela mesma estante. No início: Branca de Neve, O Pequeno Príncipe, O Sítio do Pica-Pau Amarelo. Anos depois: A Moreninha, Capitães de Areia, Noite na Taverna. Por fim, o legado adulto: Os Sertões, Casa Grande e Senzala, Este Lado do Paraíso, Reserve-me a Última Valsa.
Acredito que poucas coisas na vida se equivalem a ter sido jovem junto a alguém – e talvez seja esse o segredo dos consanguíneos, o passado repartido, vibrando e doendo nas mesmas fotografias. Ter um primo é como ter um irmão vivendo em outra casa, com outros pais e outros brinquedos, só pra te contar como seria a sua vida se você não tivesse nascido você. É ver o seu igual crescendo do outro lado do muro. É ter sempre alguém pronto pra te lembrar que você não era tão feio/bonito/brilhante/sozinho quanto você pensa que era.
Eu sou uma pessoa falante, eu tenho colegas e amigos, mas sempre que preciso conversar com alguém sobre as minhas dúvidas, sobre as minhas questões mais pessoais, me vejo tendo de atualizá-los dos últimos trinta anos da minha existência. Sinto falta deste elo mais antigo. De não ter que explicar por que eu prefiro mousse, por que este apelido, por que aquela igreja ou por que aquela música. Um dia, ela toca no rádio. A gente se entreolha. E o universo volta ao seu lugar.
Minha prima está lendo agora um poema tão infinitamente bonito que eu fico pensando em qual vai ser o futuro da gente. E eu não sei o que vai acontecer. Se cada uma vai embora para outra terra distante, se nossos filhos vão se conhecer, se o vento vai soprar para tantas outras direções num mundo tão grande e tão complicado. Na matemática, os números primos são aqueles que estão relativamente próximos, mesmo não estando lado a lado. Passo a mão pelo tapete, num gesto involuntário. Como se segurasse o chão. Para ele não me escapar.
Ela acaba de ler o texto sobre barcos e mares e lugares longínquos. E levanta os olhos e sorri. Minha prima não me pergunta se eu gostei do poema ou se eu não gostei ou se entendi. Por um minuto, na tarde quieta, eu penso nesta dádiva que a gente ganha antes mesmo de saber para que serve. E peço a Deus pelos meus primos, que são tão doces e tão jovens e estão tão perdidos quanto eu sempre que saem por aquela porta. E torço pra que a gente não se disperse, para que a gente se reencontre sempre um no outro. No outro, uma porta de emergência. No outro, um caminho pra casa. Nas fotografias, nos nossos livros em comum. No Sítio do Pica-Pau e na Casa Grande. Nos Sertões e na Taverna. Em qualquer Lado do Paraíso. Até a nossa Última Valsa.