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Posts Tagged ‘professor’

Perdoem os meus pedidos ingênuos, mas é que, hoje, faleceu Nelson Traquina. Eu soube por jornais de três países. Americano, ícone da liberdade de imprensa, denunciou ditaduras e a manipulação da mídia internacional. Escreveu alguns clássicos do Jornalismo. Tornou-se doutor na França e catedrático em Portugal. Há livros em sua homenagem. Uma grande perda.

Traquina foi meu orientador de mestrado, em Lisboa. Fui da sua última turma. Ele preocupava-se com as guerras, com a transparência da informação e com a xenofobia contra imigrantes, como eu – estão te tratando bem, filha?

Dizem que, quando morre um ditador, nasce um artista. Não sei o que acontece quando morre um democrata. Só me ocorre que ele não vai estar mais aqui para defender nossos direitos e que isso será missão de outros. Os outros, veja só, sou eu e você. E eu realmente acho que a gente vai ter que se esforçar mais.

Sou agradecida ao professor Traquina por, hoje, viver na era do Jornalismo Investigativo, da denúncia, da apuração, do direito de resposta: é um privilégio. Você deveria ser grato também.

Às demais pessoas que admiro, peço a cortesia gentil de manterem-se vivas. O mundo anda autoritário, truculento e tivemos essa baixa hoje. É uma década difícil. Meu caros amigos, apenas sigam respirando.

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“Caro Monsieur Germain, deixei que passasse um pouco o movimento que me envolveu todos esses dias antes de vir-lhe falar de coração aberto. Acaba de me ser feita uma grande honra que não busquei, nem solicitei. Mas, quando eu soube da novidade, meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para você. Sem você, sem essa mão afetuosa que você estendeu ao menino pobre que eu era, sem seu ensino, sem seu exemplo, nada disso teria acontecido. Eu não faço questão dessa espécie de honra. Mas essa é ao menos uma ocasião para dizer-lhe o que você foi e é sempre para mim, e para assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que você coloca em tudo que faz, sempre de maneira viva com relação a um de seus pequenos discípulos que, não obstante a idade, não cessou jamais de ser seu aluno. Eu o abraço com todas as minhas forças.”

(Albert Camus, romancista nascido na Argélia, em carta ao seu antigo professor após ser nomeado ao prêmio Nobel, em 1957)

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E, então, eu decidi tomar aulas particulares de inglês. Mesmo me gabando de conseguir me comunicar com todo e qualquer bípede com polegar opositor, já era hora de sair do amadorismo e levar esta vocação para a tagarelice mais a sério. Minha amiga indicou um professor:

– E ele é paciente?
– Um monge.

Não demorou mais que algumas semanas para o monge perceber que eu não sabia nada. Que só conseguia me comunicar por que falava absolutamente tudo no tempo presente, como um índio – mariana gostar de praia e andar de bicicleta – e substituía a falta de vocabulário por analogias insólitas – eu ter uma moldura redonda e outra do formato do Bob Esponja.

Juro que tentei acompanhar o áudio das lições – narradas na velocidade 5 do créu – mas Jesus não concedeu. Ficava bovinamente olhando para o papel, balançando a cabeça e ele perguntando:

– Que expressão melhor completa a frase abaixo?
– Help me, God.

E este anjo de doçura e serenidade, em posição de yoga, pedindo reforço aos céus, orando à Nossa Senhora das Portas, questionava:

– Mas, Mariana, a gente já não estudou estes verbos na lição passada?
– Defina estudar.
– Esse conteúdo foi visto na apostila oito…
– Que apostila oito?

Disfarço burrice com Alzamier.

Até que, semana passada, ele perdeu a paciência. No fundo, eu já esperava – como não acredito em aperfeiçoamento, apenas em trocas cármicas de habilidade, fico esperando a hora em que as coisas vão, simplesmente, degringolar. Corrigindo meu exercício, com uma expressão de absoluto descrédito na humanidade, ele aponta para uma das minhas respostas erradas e pergunta: por quê?? E tudo nele me lembrou um daqueles cientistas obcecados que passam anos desenvolvendo um sistema complexo e aprimorado, onde falta apenas colocar o ratinho no labirinto e bicho faz o caminho errado, sempre errado, 548 vezes errado e o cientista sai desesperado, puxando os cabelos, batendo com a testa na parede – por quêêê, meu Deus, por quêêê? – por quê eu não escolhi ser advogado, pasteleiro, adestrador de pulgas, em vez de desperdiçar a minha vida com uma merda de rato estúpido que não consegue entrar no maldito túnel certo nem quando esse é o único caminho possível, hein? Por que raios? Por quêêê?

E eu fiquei olhando para a página do exercício – “complete as lacunas com os verbos” – com aquela cara plácida de about:blank perpétuo e pensando em responder – I don’t know – ou – I’m a creep, I’m a weirdo – ou – Defina completar.

Mas nem respondo nada. E ele respira fundo. Com aquela alma dele de cientista sério, metódico, que coloca o maldito ratinho de volta na gaiola, detendo o impulso natural de esganar o bicho e arrancar a cabeça fora. E recomeça o experimento todo de novo. Assim, com uma paciência oriental. Einstein ficaria comovido. Nilton, segura a minha mão.

Eu realmente não sei por quanto tempo ele vai persistir nisso, mas, por hora, eu certamente tô valendo um Nobel. Ou um diploma de yoga. Ou um lugar no céu.

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