A gente não devia estar tão perto. Devia? Estamos conversando faz tanto tempo, eu não tenho mais nenhuma noção de por quantos labirintos já passou o nosso assunto – literatura, história, comportamento, urbanidades, impressões, a minha vida, a sua vida e até sobre este céu enorme em cima da gente numa composição de astros que não acontecerá amanhã, porque uma noite nunca é igual à outra, sabia? Li num romance europeu. Você sorri numa compreensão fluida, momento nenhum se repete, eu sei, você sabe, aperto de leve os olhos antes que o instante se perca ou que nenhum dos dois saiba reconhecer o dia em que estaremos prontos, mesmo sem fazer idéia do que queira dizer ‘estarmos prontos’. Movimento-me lento para não quebrar a fina aura de vidro do agora, sua mão inerte ao lado da minha, qualquer movimento casual e o risco do toque, respiro fundo, denso demais, perto demais. Por favor, não faça nada. Se você soltar seus cabelos agora eu desmorono. Se você sorrir outra vez eu confesso tudo. Pronto, você sorriu de novo – eu todo imóvel, pássaro empalhado antes do vôo, é claro que eu não vou dizer nada, eu sei, você sabe. E, como toda mulher, talvez adivinhe mais – minhas madrugadas abrindo e fechando a geladeira, telefonando para números imaginários, carregando contra o peito correspondências de contas de luz como se fossem cartas suas. Bobo que arde sem se ver, queimando sozinho eu sou todo setembro antes da primavera e quase esqueço que não devia, que não devíamos, que somos adultos o suficiente para a inconseqüência completa e justamente isso tornaria qualquer transgressão banal e clichê. Não me movo. Ancestrais, petrificados, somos dois fósseis sorridentes sentados sobre o mesmo muro aguardando a invenção das portas. Sozinhos nesta noite alta, nesta conversa sem fim, neste paraíso sem Dante. É, a gente é meio antigo mesmo…
Antes que amanheça, me conta de novo a sua história. Me fala outra vez do circo da sua cidade, das suas tranças cortadas, das velhas bibliotecas de cedro. Me fala dos clássicos. Repete e repete de novo os teus casos até eu confundir as suas lembranças às minhas, até reconhecer no meu corpo as suas cicatrizes mais antigas. Este encontro bem agora, profecia pura, conta-gotas de sertão que será mar. Talvez se houvesse festa, talvez se houvesse brinde, talvez se houvesse mentiras fosse mais fácil diluir da boca este veneno doce de impossibilidade, esta fome de maçã vermelha. Por que tudo dói mais quando só há nós dois e é necessário fingir – fingir pra quem mesmo? – que não faz diferença, que eu não faria qualquer coisa para continuarmos dividindo os mesmos metros quadrados de chão e de prosa enquanto o resto do mundo, enfim, o resto do mundo não importa. Viver não é preciso. Cantarola qualquer coisa antes que eu prefira a morte a esta espera por outro destino, outra salvação para Romeu que não morreu de amor. Haverá? Somos só duas pessoas e o planeta está repleto delas, as pessoas. Helena palaciana, não se perca de mim. Ruído de passos ao longe, tudo parece mesmo tão distante. Você me olha, me pesquisa, ronda a concha fechada e não pergunta o por quê do meu silêncio, eu sei, você sabe, ser ou não ser nem é mais a questão. Como quem foge das tragédias inglesas, como quem nega todas as líricas do norte, a gente sobrevive. E o dia ameaça nascer lento sobre nossas cabeças. Sobre os meus dedos imóveis, frios, nenhum toque – só as linhas da minha mão, obstinadas, entrelaçam forte as linhas da sua. Promessa improvável, estanque e latente, quase nós, ah, quase nada. Só há um prefácio traçado e você não se afasta de mim – por quê?
Talvez este final – felizes para quando? – antiquadamente espere pela gente.
Marianinha querida do coração:
O que é isso?
Enfiar a faca já é sacanagem – mas até aí, tudo bem -, agora, girá-la dentro do corpo é crueldade muita.
Parabéns, querida amiga, você está, a cada texto, mais visceral, mais “nojenta”… srsrsrsrsrs
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é Mariana, esse entrou para a minha lista de favoritos…do dia 13 para cá, a cada dia que abri a página, li como se fosse a primeira vez, sempre a procura de qualquer detalhe que tenha perdido. E Como disse seu amigo Anderson, por favor, não esqueça de me avisar sobre a noite de autógrafos!! bjo
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Tá, ok. Consolo à base de Lispector funciona 🙂
E quem é Márcia para deixar esse comentário lindo ?!? Como essa pessoa ousa não deixar o endereço do próprio blog. Isso sim é maldade (risos).
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Bem, já te falei pessoalmente, mas quero deixar registrado. Outro dia, no elevador, uma colega comentava com outra a respeito do que esta última tinha feito no cabelo: “Eu não sou mulher assim, não. Eu só sou meia mulher, eu não teria essa coragem toda.”
Ao ler só esta primeira crônica, eu me deslumbrei: Mariana, vc é isso tudo?!? Como pode se esconder de nós desta maneira?
Mari, você é tudibom, obrigada!
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Caramba, menina. Nesse vc se superou. Seu eu te falar q chorei, vc acreditaria….. “”””””””” bjs.
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Ok, ok, você conseguiu mais uma vez, já reli esse umas 20 vezes. Promete que você me avisa da noite de autógrafos?
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