Aderindo à campanha por posts musicais sugerida por Pantoja…
Há nele algum tipo de dor. Reconheço por que só canta em italiano quem arde um pouco. E ele arde. No seu caminho vagando de madrugada ou nas minhas madrugadas vagando sobre seu caminho, a canção é esta: Il Mondo Degli Altri. Eu posso ouvir. Pelas avenidas noturnas onde ele dirige cego na contra-mão de si, debaixo da minha janela, tão fora do meu mundo. Il Mondo Degli Altri segue confuso sem saber da minha escolta. Segue por anúncios luminosos, por ruas desertas, não repara nas calçadas onde a sorte, o azar e o perigo pedem carona – já passou, já passou, ele nem viu. E a noite continua. Eu sou tudo que Il Mondo Degli Altri ignora ao passar.
Acelera. E toda velocidade é placebo para uma vida que não anda. Corre sem entender nada sobre distância, esta palavra que pode estar a dois mil quilômetros, que pode estar a dois palmos. Pequeno Príncipe sobre seu planeta particular, Il Mondo Degli Altri não me vê, ele não me sabe e eu sofro um pouco o assistindo nel mondo degli altri che mi chiude fuori. Da minha janela, o acompanho doendo-me a cada esquina, mexo meu café na lenta rotação dos movimentos dele, Il Mondo Degli Altri, do que você precisa? De um relógio, de um foguete, de um café, de um abrigo? Fica. E me conta a sua dor. Todos os tijolos da minha casa reorganizam-se numa nova arquitetura de mil portas abertas. Civilizações antigas reescrevem a História nas cavernas, reinventam o fogo, a roda, recomeçam em novas cidades com ruas desenhadas só para te guiarem até mim, mas você passa sem me ver, sem me ver, você segue per un sogno che non si avvera até onde? É um trabalho solitário este de não-pedir. De não me jogar na frente dos seus caminhos e te dizer: não fujas. De não te seguir como um cachorro sem dono até o último quarteirão do universo, de não tentar mudar os teus rumos para sempre. Você passa e não deixa nenhuma migalha de pão pela estrada – nenhuma pista da sua dor, dessa dor tão gêmea da minha. Ah, Il Mondo Degli Altri, eu te observo tanto. Aqui, da minha janela, eu te observo. E ardo um pouco, também.
Título: Il Mondo Degli Altri (O Mundo dos Outros)
Composição: F. Palmieri/A. Civai
Intérprete: Renato Russo
As vezes é melhor não ver, do que não entender oque se viu, nese sentido o risco é menor.
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Gostei do novo título também…
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Adorei o novo título.
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Na galeria, cada clarão é como um dia depois de outro dia, abrindo o salão, passas em exposição, passas sem ver teu vigia, catando a poesia, que entornas no chão.
Ninguém vai entender nada. E daí? (risos)
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