– Mas você precisa conhecer Porto Seguro, ele ia falando enquanto puxava a cadeira, distraído, agitado, pedindo um cardápio ao garçom, aquele bar lotado, aquelas mesas, tudo bem. Mais por ritual do que por gosto ela freqüentava lugares assim – copos batendo, tumulto, som alto – talvez por que aquele encontro numa mesa apertada num boteco da moda numa esquina qualquer fosse tudo o que restasse a duas pessoas urbanas, adultas, sozinhas e que há algum tempo tentavam se conhecer melhor. Ela senta, respira, bolsa no colo, sorri – É? E o que é que tem lá?
Era um bar mexicano ou indiano ou algo assim – Buda de gesso, maraca, leque oriental, chapéu de touro, tudo pendurado nas paredes mais por caracterização do que por decoração, gente falando muito e rindo e gesticulando e ele dizendo ainda – Porto tem o melhor caldo de sururu que eu já experimentei, olha, é sério, você precisa conhecer aquela praia. E era verdade. Ela precisava de tanta coisa, de tantas praias, de tantos mares, de tantos desertos de areia e silêncio que, naquele bar lotado, ele não poderia mesmo suspeitar. Mão sob o queixo, um suspiro fundo, ouvidos para uma história longa sobre peixes, drinks, hotéis, barracas de praia e pontos turísticos enquanto a outra mão desenhava num guardanapo uns círculos lentos, anéis de Tlaloc, o deus do tempo, espera. Nas mesas tão próximas – mas isso merece um brinde! Não, batata frita engorda. Como assim eles voltaram? Seu troco, senhor – uma multidão alheia, satélites barulhentos girando em volta, náusea, excesso. E sobre esse nó no peito, como é que se fala? E sobre isso doendo aqui dentro? – Vou pedir outra bebida, você quer? Não, obrigada.
– Você devia ter conhecido também a ilha da Pedra Furada. Onde fica? Mais ao norte, bem antes de Ilhéus. Ah, sei. Mas ela não existe mais, acho que afundou. E uma ilha afundada não pode emergir de novo? Acho que não, desaparece mesmo. Ah, eu queria ir para lá. – Ele sorri sem entender, pede um copo com gelo, uns burritos. Ruído de garrafa quebrando no chão, música entrecortada: existimos, a que será que se destina? O garçom retorna, mais gelo, mais gelo. – Boiando na água, não parece a tal ilha? Hum? Esta pedra de gelo, não parece a tal ilha afundando? Ah, é mesmo.
E ela coloca a mão direita sobre a mesa. Tão fácil, tão perto. Quem sabe ele a tome. Quem sabe ele a guie, a conduza para fora do poço, para longe desta noite vã naquele boteco confuso. E lhe diga – vamos embora deste lugar estúpido esquecer essa gente vazia e essa cidade suja, o mundo é tão grande e tão bom e tão lindo e a gente é tão jovem e a gente se quer tanto olha vem comigo pra um lugar novo e não solta a minha mão nunca mais, nunca mais. Quem sabe ele intua, pressinta, entenda, quem sabe ele veja a mão dela estendida.
– O nome desta música é Cajuína. É, eu conheço. Caetano a compôs para Torquato Neto depois que ele morreu. Foi mesmo? O garçom traz o pedido, o ventilador girando e dizendo que não, o pêndulo do relógio dizendo que não, nove placas de gesso no teto, treze parafusos na janela. A mão ainda em cima da mesa, estátua de sal, de bronze, de carne, castelo de areia, Tróia, ilusão, jeito de lágrima querendo rolar e agora esse nó apertando no peito, meu Deus, enfim, de quem é a culpa quando todas as coisas nos gritam que não? Pois se aquele moço quisesse fugir num barco, ela faria um barco, se ele quisesse um balão, faria um balão, faria trenó, moto, foguete, teceria com os próprios cabelos um tapete enorme pra aquele moço voar até por que a vida, ela lhe diria, até por que a vida é a arte do encontro embora, você sabe, é claro que você sabe, olha, não deixe isso se perder.
– É uma canção bonita, né? Sim, é linda. Pois é. Eu não sei, nem você e talvez ninguém saiba, enfim: a que será que se destina? E destino é coisa incerta, você traça um, a vida te desvia, não tem jeito. Mas talvez nem importe o destino, mas a viagem em si, talvez. É mesmo, é tanto caminho, a gente escolhe um e nunca sabe dos outros, onde iriam dar. Mas um dia eles se encontram, depois, no fim, eu acho. É, talvez, um dia.
MINHA THUTHUQUINHA!!!!
ESSE SEU TEXTO É UMA VIAJEM.
DEU VONTADE DE ABANDONAR O POSTO E ENTRAR NA TORALMENTE DE FÉRIAS.
GOLPE BAIXO.
BEIJINHO CHUCHUCA 😉
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Mari, dizer parabéns é pouco. Pq vc sabe q desde q li seu conto do vestido me tornei sua fã. Seus textos são maravilhosos. Vc é realmente muito talentosa.
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Menina…
Passando por aqui, em algum momento já devo ter dito isso, mas lá vai:
Adoro seus textos. Escreve assim… De um jeito assim… Que me prende e entontece.
Mais uma vez: Parabéns!
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