Eu poderia dizer que o que houve foi um destes casos de afinidade à primeira vista, empatia recíproca, conspiração universal ou qualquer outra coisa que desse certa aura dourada a este primeiro encontro, seria bonito dizer, por exemplo, que nos ligamos instantaneamente por determinação cósmica. Mas não. Catando na memória cada gesto de aproximação, cada palavra de hospitalidade, de troca, esta arte delicada e cansativa de conhecer o outro e se fazer conhecido pelo outro, penso que o laço denso que nos uniu tão imediatamente era outra coisa, não menos nobre que a empatia imediata, mas um outro laço, talvez mais primário e estreito, que é a capacidade de um ser humano identificar no próximo a sua maior lacuna, de reconhecer no outro exatamente o que mais lhe dói. No nosso caso, a solidão.
Por solidão ou por empatia, talvez nem importe, éramos estranhos uns aos outros e ao meio – e quem olhasse de fora saberia, por que os recém-chegados todos do mundo, desde os tempos de Adão, trazem nos olhos esta mesma mistura de encantamento e desamparo diante do comum, esta surpresa eufórica diante do banal – e o brilho dos nossos olhos era o mesmo. Também comuns e banais, falávamos sobre nossas vidas, tateando personalidades, gostos, passados, descobrindo aos poucos trilhas parecidas, histórias quase próximas narradas por sotaques longínquos entre si. Éramos quatro estrangeiros tentando mapear não só as ruas da cidade confusa, mas uma outra rede de caminhos entrecortados – os nossos. E a esta conhecidência de destinos chamamos, apressadamente, de amizade.
Passávamos pela Baixa, próximos ao Elevador de Santa Justa, numa tarde gelada onde uma multidão dividia espaço: portugueses vendendo doces gigantes, árabes tocando alaúdes, nigerianos enormes em seus casacos de pele e, por fim, os indianos. Sempre em grupos, descendo as ladeiras com suas túnicas, batas e véus, como se não pisassem no chão, aquela revoada de tecidos coloridos e fios de ouro que dá a qualquer ser humano um ar sagrado de entidade mística e inatingível. Paramos para olhar, ofuscados. Depois que os indianos passam, todas as ruas do mundo parecem cinzas e sem graça.
Logo estávamos no Carmo. E, no meio de tanta gente, de tantas vozes, de tantas luzes, por que tudo parecia ter a perfeição do cinema ou por que aquele emaranhado de avenidas foi mesmo o cenário de alguns, surgiu a idéia:
– Um filme para cada rua, ok?
Era fácil. Na primeira rua um casarão anunciava quartos:
– Gand’Hotel!
Os homens conversando nos bancos da praça:
– Forrest Gump!
As ruas de calçamento amarelado:
– O mágico de Oz!
Entrávamos e saíamos por becos, esquinas, atalhos, distraídos em encontrar pistas, símbolos, vestígios de nossa única memória em comum: o cinema. Depois de citar títulos, descrever cenas e lembrar atores, já era noite quando chegamos a uma rua deserta:
– Lost.
– Não tem nada a ver. Ainda mais, esse é seriado, não é filme.
– É sério. Acho que estamos perdidos.
E estávamos. E, como ninguém havia lembrado de jogar pedaços de pão pelo caminho, o que era comédia foi virando suspense. Era inútil pedir informações, todos os pontos de referência nos eram desconhecidos. Uma hora depois já andávamos de metrô, achados e seguros, mas antes, um pouco antes, enquanto ainda estávamos ali, naquele momento, sentados na calçada, perdidos naquela noite fria, falando de nós e do nosso encontro tão casual, dessa sensação dura de sermos assim anônimos num continente estranho, num planeta ao acaso, repleto de tantas gentes, de tantos mares, de tantas terras, diminutos na imensidão, irrelevantes na paisagem, caminhando do pó ao pó absolutamente sozinhos, absolutamente primários, absolutamente humanos, foi que olhei para cima buscando por Deus no mais profundo daqueles céus e me perdi num escuro de mim que até hoje me procuro por lá.
Concordo com Alisson … eu também me senti lá ….
Beijos e saudade
CurtirCurtir
Simplesmente….eu estava lá!
Graças à fidelidade das suas palavras e do sentimento contido em cada uma delas! Estou adorando esta viagem.
Parabéns!!!
CurtirCurtir
É, Baby…
Cada dia que passa, sua maturidade literária fica parecendo cinema.
Parabéns pelo texto.
CurtirCurtir