“Até o último momento
esperei que você me chamasse pelo telefone.
Que você fosse ao aeroporto.
Casablanca, última cena.”
(Caio F. \ Carta)
Mais do que nunca este cheiro de cola, selo e tinta me lembra o rumo dos destinos extraviados. No fundo, eu sempre soube: se desencontro tivesse forma, seria uma folha de papel manuscrita, num envelope selado e, certamente, com o meu endereço. Tantos quilômetros depois você me escreve uma carta. Só agora. E como espera que eu te responda? Com um mapa mundi? Nem abro. Deixo num canto, nego, ignoro. Esqueço.
Não, não esqueço.
Penso em você. No vão de outra tarde vazia, olho da varanda e procuro, procuro qualquer coisa que nunca esteve lá. Me perco pelos quatro cantos dessa casa cheia de cantos, por livros que me prendem o suficiente pra me lembrar o quanto a minha vida não me prende. O fim de mais um dia ártico, esta lembrança preenchendo todos os cômodos como se ainda fosse você tocando sobre o piano, sobre esta nota grave e lenta, você que me sorri, que me estende a mão, que desenha com giz branco sobre o asfalto preto: olha, o mundo começa aqui. Aceito. Quase toco esta ausência plana, a parte que me falta é a que mais me dói, me vejo outra vez dentro da mesma cena – do que você tem medo? – eu não vou, eu não quero – por favor, hoje, agora – não adianta insistir – atenção passageiros com destino a Lisboa, última chamada, última chamada.
Tempo, tempo. Os dias novos na cidade antiga, madrugadas densas, multidões confusas. Sebos noturnos, pub’s lotados, guetos de jazz, guitarras distorcidas, jovens andrógenos vestidos de preto, anúncios luminosos entrecortados, angolanos cuspindo fogo, franceses equilibristas, a urbe ebulindo abaixo de zero e eu cruzando tantas avenidas, sangue e veias da metrópole difusa, buzina, brinde, batida de tambor, olho para o céu procurando por Vênus, procurando por Marte, Cruzeiro do Sul, Ursa Maior, bússola, guia, norte, porto, satélite escuro, navego por longe, vou longe demais, mas longe de quê? Longe de mim mesma.
É quase dia. Sei por que o trânsito recomeça lento, cães reviram o lixo e pessoas se dispersam ágeis como baratas quando se acende a luz. Outra vez. Outra vez passar a mão pela testa quente, arder a mesma febre antiga, desço correndo as escadas da Justa, estação da Baixa, vagão vazio, linha expressa que avança em fuga e que não vai me levar a você. Canto de sereia convidando Ulisses, pedir de novo como quem pede pão, prometer as torres de pedra de Sintra, os peixes do Tejo, o céu de Cascais, te mendigar sem dignidade por qualquer migalha de sim, corrigir tuas frases de novo dizendo: não é talvez, talvez é sim.
Dane-se. Em casa, os discos no chão, os pratos na pia, hoje eu quero afundar neste sofá até ele me cuspir no andar de baixo. Fecho os olhos. Cada manhã sob o céu de Camões, ferida que dói e não se sente. Preciso tanto te dizer agora que preciso tanto de você agora, quase telefono, mas é madrugada – e há outro jeito de entrar no teu sonho? Mente confusa, coração rasgado, nenhuma esperança, tudo bem, tudo bem, abro o envelope contrariada, mensagem curta onde você diz – chego terça-feira, às seis e dez. Aonde você for, meu mundo começa aí.
Tão breve, a transfiguração.
CurtirCurtir
calma loira q terça tá chegando…
bjao pra vcs!
CurtirCurtir
“Hoje é sábado e amanhã é domingo”.
CurtirCurtir
Só posso lhe dizer…. TENHA UMA ÓTIMA TERÇA FEIRA!!!!
Pena não poder estar ai. Te amo!
CurtirCurtir
Lindo. Só o que tenho a dizer. Depois de tanta angústia, uma simples frase acalma tudo e tranquiliza até quem estava angustiado com essas letras.
CurtirCurtir
Mari quanta sensibilidade.
Adorei. Na verdade gosto de tudo q vc escreve.
P q será q às vezes, quer dizer (dois pontos. rs) milhares de vezes tb me sinto assim?
CurtirCurtir
Passo por aqui e me perco!
Sempre sempre boas surpresas.
Parabéns, Mari!
CurtirCurtir