Rosa era costureira e dona de casa, tinha 42 anos e andava de ônibus. Uma mulher comum, dessas que a gente encontra todos os dias na rua, no supermercado, na fila do banco. Rosa era negra. E, uma dia, viajando de ônibus, recusou-se a levantar do seu assento – reservado para negros – para dar lugar a um homem branco. É que os assentos para brancos estavam ocupados. Acusada de pertubar a ordem pública, foi detida no Alabama, em 1955, voltando os holofotes da mídia para um tema delicado: a segregação racial em veículos públicos.
Era o início. Em resposta à prisão de Rosa Parks, um pastor até então desconhecido chamado Martin Luther King dirigiu protestos às autoridades, fomentando uma onda de reivindicações contra o preconceito e a discriminação. Quando o caso de Rosa Parks chegou ao Supremo Tribunal, a segregação racial em transportes públicos foi considerada inconstitucional – mas já estava desencadeada aquela que seria a maior revolução dos Direitos Civis nos Estados Unidos.
Foi neste cenário, onde os negros não podiam beber água em bebedoro de branco, onde os negros não podiam entrar em banheiro de branco que, no Havaí, nascia uma criança de nome estranho. Obama.
Não faz muito tempo. Faz menos de cinquenta anos. Uma sucessão de fatos que levanta uma questão intrigante para nós, aqui do andar de baixo: como os Estados Unidos, uma nação reconhecidamente racista e conservadora, consegue, em tão pouco tempo, driblar o preconceito e eleger um homem negro para a presidência? Em outras palavras: com quantas Rosas Parks se faz um Barack Obama?
Desde que o IBGE publicou uma pesquisa recente que comprova que o Brasil é um país de maioria negra, o assunto não sai de pauta. É que, nos EUA, eles são apenas 13%. Durante uma entrevista em Londres, o presidente Lula disse que Obama parece um de nós: “Se você encontrar o Obama no Rio de Janeiro, você pensa que ele é carioca. Se encontra na Bahia, pensa que é baiano”, brincou. E fez o convite: “Obama precisa conhecer Salvador, a maior cidade negra fora da África. Ele vai se sentir em casa”, garantiu. Os brasileiros concordaram. Os baianos festejaram. E, mesmo sem promessas, os mais de 2 milhões de afro-descendentes de Salvador já se preparam para receber por aqui um grande líder negro. Importado.
As diferenças históricas explicam. Enquanto os EUA desgastavam-se em políticas de reparação, criação de cotas e campanhas de conscientização, tivemos o privilégio de nascer no Brasil: num oásis de democracia racial que orgulha o povo, encanta o mundo e nos enche de alegria e preguiça. Terra miscigenada e tolerante, abençoada por Deus e bonita por natureza. Mas sem nenhum candidato a presidente negro. Sem nenhum governador negro. Apenas um diplomata negro. Tudo isso por que… porque mesmo?
Acredito que o maior desafio dos ativistas sociais de hoje é vencer a inevitável acusação de que são os negros que estão inventando o racismo na Brasil. Por exemplo, neste mês de setembro, tivemos a aprovação do substitutivo do projeto de lei que cria o Estatuto da Igualdade Racial. Do substitutivo? Pois é. É que o projeto original incluía cotas para a educação, para a aparição de negros na tv e no cinema, para ocupação de empregos públicos e a regularização de terras quilombolas. Medidas que a Câmara considerou desnecessárias. Segundo o deputado Índio da Costa (DEM-RJ), “Buscou-se entendimento retirando todos os excessos do texto. Todas essas aberrações saíram”. Ah, bom. E a gente achando que aberração era o fato da tv brasileira ter mais apresentadores brancos que a tv européia. Bom trabalho, deputado.
A aprovação de um estatuto esvaziado é motivo de festa no Brasil, enquanto, nos EUA, políticas reparatórias consistentes vigoram desde a década de 60 do século passado. Pensando bem, é muito tempo. Tempo suficiente para colocar um homem negro na Casa Branca. O que me faz pensar que, se Rosa Parkes tivesse nascido do lado de cá do Equador, ela não seria detida por lutar contra o racismo. Aqui nada é tão sério, nada é tão grave. Num gesto simples, ela seria considerada desnecessária. E riscada da pauta política junto com “todas essas aberrações que saíram”.
Existem muitas formas de abafar uma crise e manter o sistema vigente, uma delas é o descrédito. Ignorar os protestos e fazer o povo acreditar que já vive de maneira igualitária, sem distinção. Que qualquer um pode estar jantando num restaurante caro ou servindo a mesa, passando fome ou dando banquete, sambando na pista ou no camarote. Que a cor da pele não faz diferença.
Até que chegam as campanhas eleitorais para lembrar a nós, brasileiros distraídos, que a cor da pele faz, sim, muita diferença.
Uau!!! Primeira vez q vejo um texto político-social seu!! Amei!!
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