“Por que a vida nos livros é muito mais interessante que a vida real”, lembro de ter respondido ingenuamente para uma professora que me perguntou por quê eu gostava de ler. Essa frase certamente não era minha, eu devia ter visto em qualquer lugar e tirei prontamente do bolso na ocasião em que ganhei uma medalhinha de aluna que mais consumiu livros da biblioteca durante o ano letivo. Era um desses concursos que envolvia todas as turmas do colégio. Detalhe: eu estava na quinta série.
Em outras palavras, eu diria hoje que os livros nos prendem por que a nossa vida não nos prende. Ontem mesmo li na Internet um trecho da obra de Proust em que ele explica que é muito natural que os livros sejam mais instigantes que as experiências reais, mesmo que os romances narrem episódios semelhantes aos que vivenciamos em nossa rotina. A diferença está em 1) na vida cotidiana, não temos acesso aos pensamentos e anseios das pessoas à nossa volta. Somos obrigados a deduzi-los através de gestos, palavras, pistas inexatas que nos dão uma participação reduzida em suas emoções, enquanto, nos romances, essas tormentas interiores estão quase sempre explícitas para o leitor de dentro pra fora. Mesmo que o personagem do livro seja uma pessoa comum, possível de encontrar no seu dia-a-dia, seu contato com ela será mais visceral por que você pode ler os seus pensamentos. E pelo motivo 2) nos livros, mesmo que as histórias de vida sejam semelhantes às nossas, elas parecem mais intensas por que estão resumidas. Segundo o próprio Proust, a Literatura “desencadeia em nós, durante uma hora, todas as venturas e todas as desgraças possíveis, algumas das quais levaríamos anos para conhecer na vida, e outras, as mais intensas dentre elas, jamais nos seriam reveladas pois a lentidão com que se processam nos impede de as perceber (…) porque na realidade o coração se transforma do mesmo modo que se produzem certos fenômenos da natureza, isto é, com tamanho vagar que, embora possamos ver cada um de seus diferentes estados sucessivos, por outro lado escapa-nos a própria sensação da mudança”.
Ou seja: a nossa vida é superficial e lenta demais para ser emocionante. Fato que me lembrou também a ótima Susan Sarandon, no filme Dança Comigo? (2004), quando o detetive pergunta a ela por quê as pessoas se casam. E ela responde: “as pessoas não se casam por amor. Elas poderiam se amar e não necessariamente se casarem. As pessoas se casam por que precisam de uma testemunha para suas vidas, por que somos insignificantes no contexto da humanidade e, se o mundo não notar em você durante a sua existência, haverá uma pessoa que vai notar. Alguém para testemunhar todos os seus dias”.
Pode não ser a definição mais romântica e apaixonada sobre o casamento, mas não deixa de fazer sentido. Principalmente se você extender este princípio a todas as suas relações ou a todas as suas conversas banais. Como quando você está com alguém (esposa, parente, amigo) e a pessoa vai contar um episódio qualquer do passado em que você participou. Geralmente, para contextualizar melhor o interlocutor, a pessoa vai fazer um apanhado rápido do momento histórico que vocês viviam naquela época – narrar características, cenários, personagens – para contar o caso em si. Vai fazer uma enumeração distraída de fatos relevantes, acontecimentos tristes e alegres (que levaram anos pra acontecer) em poucas palavras. E, quem resume uma história, aumenta a sua densidade. Esse, provavelmente, vai ser o momento em que a sua vida mais se aproxima da Literatura. Quando ela é resumida e contada por um narrador íntimo envolvido.
Talvez por isso que eu acredite tanto que as pessoas precisem ter relações estáveis umas com as outras. Por que a rotatividade de contatos interpessoais é a forma mais fácil de dispersar capítulos inteiros da sua história, que nunca voltarão pra você em forma de depoimentos, casos, relatos de anos mais tarde. Preservar relações de amizade, estreitar laços de família, testemunhar e reunir testemunhas talvez seja a nossa única chance de fugir do anonimato e da trivialidade, de não mergulhar na sucessão morna dos dias, porque, cada dia nosso, se analisado de maneira isolada, é quase sempre banal. Dias são peças de um jogo que só fazem sentido em conjunto. Peças que estão dispersas entre parentes e amigos – se você os perder de vista, nunca vai ter uma história de vida que valha um romance.
Que bom constatar o que fez com os talentos que o Senhor te deu!!!
Bjos,
Anna
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Nossa Mari,
Você é minha filósofa preferida! que profundidade (artigo raro hj!)neste texto.. às vezes me surpreendo com alguma amiga “trestemunhando” algo sobre mim, “pô você continua fazendo assim!?” e eu nem lembrava que fazia daquele modo sempre etc.. Nós existimos a partir do outro…enfim… fantástico texto ,parabéns!
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Que bom que você existe! (2)
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Que bom que você existe!
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