Mal entro na loja e derrubo uma caixa no chão. Não sei por que faço isso. Não sei por que entro nesses lugares cheios de objetos merecidamente mais caros do que a minha vida. Minha colega queria comprar um perfume e agora estava eu lá, com cara de susto. Nada se quebrou. O funcionário se aproxima, coloca a caixa de volta na vitrine e não diz nada. Sorrio sem graça. Ele não sorri. Saio de fininho constrangida e disfarço ajudando ela a decidir entre um Kenzo e um Chanel fazendo uso dos meus infalíveis critérios de compras – o preço e a cor da embalagem – já que não entendo nada de perfumes. O funcionário continua olhando. Desconfiado.
O problema é que vendedor sabe tudo. Eu mesma já trabalhei em balcão e qualquer vendedor sabe em segundos tudo sobre o cliente: quem entrou pra comprar, quem entrou só para olhar, quem compra ali toda semana, quem economizou o mês inteiro para levar aquele objeto, quem nunca vai comprar nada daquela loja e só está ali pra acompanhar a amiga perfumada. Ele já sabia. E observava de longe só pra testar o desembaraço da pobre estudante brasileira-não-praticante naquele oásis de requinte e etiqueta, é claro. Ainda tento me desviar da vigilância ostensiva e o meu braço esbarra. E derruba. Um sachê de sais de banho. No meio do meu desespero, o rapaz aproxima-se muito formal: as senhoras precisam de ajuda?
Minha amiga pede duas unidades de Chanel em embalagem para presente enquanto eu, humilhada, sorrio. Num pedido de desculpas discreto, sincero, sorrio muito, sorrio demais. O funcionário ignora. Vamos lá, amigo, sorria de volta. Não faça eu me sentir mais insignificante do que esses frascos de vidro que você vende. Sorria e já não haverá maldades no mundo, nem desigualdades, nem pobres nem ricos, seremos todos iguais entre litros de perfumes caríssimos. Nada. O desgraçado não sorri. Antes de virar de costas, me olha sério e diz: com licença, vou preparar as embalagens.
Suponho que “preparar as embalagens” seja o código para “fique quieta, sua maluca”. Passo os próximos cinco minutos estática, a dez palmos de qualquer prateleira ou objeto quebrável, esperando a hora de ir embora. Calada e absolutamente ciente da minha inadequação ao ambiente, pedindo desculpas por existir. É claro que uma loja daquelas não era lugar pra mim. O pedido é entregue, pago, acompanho minha amiga até a porta e, enquanto ela chama um taxi, o rapaz se dirige a mim. Meu coração gela. Pronto, ele vai cobrar algum prejuízo, meu Deus. Nossa Senhora dos Desastrados, socorro. Sorrio em pânico, em desespero, céus, por que eu tinha de entrar nessa maldita loja?? Ele não sorri, só estende um papel com um número de telefone anotado e fala muito, muito sério – eu também gostei muito da senhora.
Já passei por isso amigaaaa,
Não pelo desastre, mas já trabalhei em loja e sei o que é isso: as pobretonas, sem dinheiro, que só vão pra olhar e por fim, ainda derrubam as coisas…Essas são as com caras de pobre…
As com caras de ricas, que pedem pra abrir todas as caixas, faz o teste de todos os brinquedos, ver como funciona e depois diz que vai comprar nas Americanas por ser mais barato…
Vida de vendedor é foda!!!
E de pobre sem dinheiro em loja de rico, é ao dobro….
Bjs
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kkkkkkkkkkkkkkkk
Só vc amiga p escrever desse jeito. Q delícia é apreciar o seus textos. Amoooooooo mt.
Bjs!
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kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk muito bom!
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São nesses domingos cinzentos, cheios de saudade, que Amália fica sussurrando uns fados no meu not, enquanto abro o Hello Stranger numa apoteose ensolarada. É recompensa certeira, porque não tem Polanski, Daldry ou Almodóvar que desarrolhe esse misto de risos e choros miúdos que só a admiração e o amor podem causar.
Parabéns, Lourinha!
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A-do-rei!
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