Tem sempre um momento no ano em que recai sobre mim uma aura fatalista e eu me convenço de que estou perdendo a razão. Assim, ficando louca. E, antes de procurar um acompanhamento psicológico a sério, é claro que eu sempre faço o caminho mais complicado, longo e difícil, percorrendo todas as entidades filantrópicas, universidades, ongs de psicologia e alternativas para lunáticos sem renda que conversam com caixas de sapato no meio da rua – por quê nem quando fico doida eu tiro o escorpião do bolso – e, este ano, acabei conseguindo uma vaga no serviço de psicologia de um hospital público.
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Pois bem. Era até um lugar muito tranquilo. Na sala de espera, três ou quatro pessoas também aguardavam, tocava música clássica no radinho e eu fiquei sentadinha mexendo no celular. Muito pacificada por quê, no fundo, eu já sabia o que tinha de fazer: esperar ser chamada, sentar numa cadeirinha e contar meus problemas para a psicóloga. Só isso. Até que veio uma moça lá de dentro:
– Você está esperando por remédios?
E eu, com minha cara de Monalisa, levanto as sobrancelhas e respondo que não. Acho que não, né? Suponho. Será que eu preciso de remédios? Não que esta fosse uma alternativa completamente descartada, mas é que eu nunca havia cogitado – achava que química só era usada nos casos em que o paciente era perigoso, sei lá, eu sempre fui uma insana inofensiva. E eles nem haviam me consultado ainda, por quê já estavam oferecendo medicamento?
E a moça foi embora. Do meu lado, um senhor fumava na janela, muito sério. Devia estar aguardando por remédios também. Vai ver todo mundo ali tomava algum tipo de tarja preta, né, talvez só atendessem os casos graves. Que tipo de patologia devia ter o cara? Careca, camisa de botão, cara de funcionário público, devia ser um daqueles velhinhos que surtam no escritório e esfaqueiam o colega de trabalho com a espátula de abrir envelope. Ele olhou pra mim. Desviei para o celular. Do outro lado da sala tinha uma mulher toda maquiada, de salto alto, com uma sacola de criança. Mas sem a criança. Talvez depressão pós-parto. Matou o bebê, fugiu do hospital e agora vaga desorientada carregando a tal sacola pelas maternidades afora – não dava pra saber. Ela estava falando alguma coisa para um rapaz que sentou na última cadeira, cabelo espetado, gordinho, cara de bobo. Vítima de bullying, sem dúvidas. Coitado. Acabou viciado em carboidratos. Passou um tempo desaparecido, a família fazendo buscas, os amigos nunca mais ouviram falar, foi encontrado todo esfarrapado morando na Cracolândia com um estoque Negresco debaixo do braço.
Aí, de repente, a moça voltou. Dessa vez nem me perguntou nada e foi me encaminhando para o corredor. E eu fui atrás meio cabisbaixa por que, meu Deus, qual seria o meu destino agora? Receitariam antidepressivos? Estimulantes? Hormônios? Quanto tempo iria levar até me encontrarem babando, revirando os olhos e batendo a cabeça na parede do Ana Nery? Eu só queria uma psicóloga. Uma doutora doce e paciente que me deixasse falar sobre a minha vidinha durante 50 minutos de consulta, anotasse umas coisinhas num bloquinho e me dispensasse dizendo: muito bem, Mariana, você está progredindo. Mesmo que fosse mentira. A verdade é que, até hoje, ninguém nunca tinha sido sincero o bastante pra dizer que eu precisava me dopar. Gente, eu só queria um ombro amigo! Adiantava explicar isso para os médicos? Adiantaria alguma coisa? Quem iria escutar uma louca?
No fim do corredor, o consultório. A moça foi abrindo a porta pra mim, muito educada. E havia uma placa de acrílico no alto na porta onde estava escrito:
“Médica plantonista: Dra. Ana Paula Remédios.”
Amigaaaa
Divino…me acabei de rir.
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