E, por fim, ela me disse que achou a cidade feia. Feia? Feia. Eu não soube o que responder. Aquilo me surpreendeu como se fosse um tapa, como se tivessem ofendido à uma mãe ou a uma irmã – como assim feia? Quase comecei uma defesa contrariada, por que aquela opinião me parecia absurda, mas então olhei novamente para as fotos de viagem dela, que mostravam um cruzamento do centro antigo, aquelas ruas que eu amava e, como se o afeto fosse mesmo uma cegueira burra e passageira, pude reparar agora na imagem do lixo nas ruas e até mesmo em alguns pedintes mais ao fundo, como se a pobreza fosse um elemento novo na paisagem, encaixado discretamente entre uma casa e outra, entre uma praça e um parque – e, sim, aquilo podia ser considerado feio. A pobreza. Principalmente, se relacionada a tantas outras capitais ricas que tanta gente já conhece e fica difícil evitar comparações. Em nenhuma das fotos anteriores eu havia reparado nisso. A gente só vê com o coração.
E a conversa perdeu a graça e tudo o que eu queria agora era ir embora para casa, arranjei uma desculpa para me recolher ridiculamente ofendida – feio é o resto do mundo, ia pensando. Mas a verdade é que, nas fotos, a cidade brilhava menos que na lembrança e, de repente, me deu vontade de ir até lá e me deu medo de ir até lá. Lembrei de uma frase de Machado: “As coisas valem pelas ideias que nos sugerem”.
Que seja. Talvez se ame mais a um lugar pelo que se viveu nele do que por suas características e, às pessoas, mais pelo que nos fazem sentir e menos pelo que são, objetivamente. E a verdade é que Lisboa, antes de materializar-se num chão de aeroporto, já era um amontoado de símbolos dispersos no meu imaginário – era o último cais para as Américas, era a “praia ocidental” de Camões, era o solo selado com óleo de baleia das histórias de meu avô. E eu já a amava. O estrago já estava feito.
E, depois, os dias de juventude e intensidade vividos lá transformariam mesmo qualquer endereço num ponto dourado do meu mapa pessoal. Podia ser qualquer lugar. Mesmo hoje, quase dois anos depois, ainda me pego falando de determinada esquina, fazendo comentários sem motivo sobre algum edifício e me assombrando com o fato de já não lembrar o nome de uma rua secundária, de uma taberna ou de uma loja de bairro. Mas eu falo muito sobre Lisboa. E a verdade é que não faltam curiosos ocasionais dispostos a ouvir sobre as suas escadarias intermináveis, sobre os seus cafés subterrâneos, sobre suas casas mais velhas do que os mais velhos seres e elementos sobre a terra e sob as águas.
Lisboa é assunto meu. E é certo que, hoje, as minhas narrativas são verdadeiras. Tudo o que falo é constatável por qualquer um, mas algo me diz que, por força do tempo ou por uma predisposição natural ao eufemismo e à hipérbole, talvez, um dia, estas minhas histórias se modifiquem. Especialmente na velhice, quando falta-nos testemunhas e sobra-nos imaginação, o fato é que já me vejo numa grande cadeira de balanço contando longamente sobre a cidade fabulosa que marcou os dias da minha juventude.
Talvez os filhos perguntem pelas avenidas, talvez os netos perguntem pelos parques d’água e será um prazer acrescentar metros à muralha dos Mouros, quilômetros à estrada de Algés e torres gigantescas ao Castelo de São Jorge. Mentindo descaradamente, já me vejo derramando adjetivos sobre as águas profundíssimas do Tejo, sobre as cúpulas de mármore do Paço, sobre os labirintos encantados de Alfama. Falando de uma cidade linda. Linda. Por que essa foi a cidade que eu conheci.
Só me dói um pouco pensar que, fatalmente, ao visitarem Lisboa, eles ficarão decepcionados. E vão descobrir que nada disso é real. Talvez, então, eu atenue dizendo que, no meu tempo, era tudo diferente, que a cidade mudou. Ou, sorrindo, confesse que, nessa vida, as coisas só valem mesmo pelas ideias que nos sugerem.
Cidade linda, linda, linda…. Cada um com os seus, né? Eu fico com a minha história, com a minha riqueza cultural e com as minhas raízes lá enterradas que tornam tudo ali mágico. ..
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Hoje mesmo escrevi no verso de uma foto que um amigo me presenteou de uma viagem que fizemos: se mutáveis fossem minhas retinas, um mosaico dentro dos olhos eu teria.
Se as tuas também mutáveis fossem Mariana, Lisboa seria um mosaico dos mais lindos! E quem lá for, não importa o que venham a ver ou a sentir, será impossível não lembrar como o mosaico dos teus olhos tinham cores tão vivas ao falar desse lugar.
Digo isso, mesmo não vendo teus olhos ao falar de Lisboa, porque tuas palavras nesse texto também brilham.
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