Platão acreditava que a escrita era uma invenção do Demônio. Como a maioria das pessoas do seu tempo, ele defendia a oralidade e dizia que os homens que aprendessem a escrever certamente perderiam a memória e ficariam dementes. Segundo um estudioso da cultura grega, a sociedade da época dividia a arte em dois status: as Artes da Presença e as Artes da Ausência. As presenciais eram as que exigiam a presença do artista para a sua apreciação – o teatro, a dança, a música – e as artes ligadas à ausência podiam ser conhecidas sem a presença do autor – como a gravura, a escultura e a escrita.
As Artes da Presença eram para os destemidos, os fracos se esconderiam atrás da própria ausência. A oralidade era um mérito por sua exposição. A escrita, uma fuga.
Eu lembro quando Carlos cruzou o limite entre uma coisa e outra, no verão de 1995, no dia da encenação de uma peça grega: Antígona, de Sófocles. Era um dia de festa no colégio, com peças teatrais e famílias na platéia. Carlos faria um dos protagonistas. E ele também tocava piano.
Tocava piano em aulas particulares em casa. E, apesar do teatro, era para o piano que Carlos vivia. Ele me contava por horas sobre as partituras e as escalas cromáticas e sobre como aquelas aulas o faziam esquecer dos problemas de casa: as brigas com o pai, as queixas da mãe, os absurdos do irmão mais velho com quem ele já não falava há três anos, mesmo morando debaixo do mesmo teto. Um tempo antes, no intervalo da escola, Carlos me confessou que era apaixonado pela professora de piano e que nem entendia tanto de música, mas era pra ela que ele estudava. E lia partituras e decorava cifras: para esperar pela próxima aula. Pra fazer bonito pra ela. E que este afeto certamente seria recíproco – se ele não fosse dez anos mais novo que a tal professora.
Se há uma coisa que a gente aprende no colégio, é que todos os nossos colegas têm dores de amor parecidas – dramas, dúvidas, o fim do mundo todos os dias. Mas as narrativas de Carlos eram especialmente interessantes por que incluíam Beethoven, Mozart e Bach. Nenhum de nós imaginou que aquele dia mudaria tudo. Depois da apresentação de teatro, quando as luzes se acenderam, ele não conseguiu disfarçar o susto. Estava o irmão dele, na platéia, de mãos dadas com uma moça. Ela acenava. A moça era a professora de piano.
E tudo desmoronou.
Não falamos sobre isso no dia seguinte e, depois, nunca tocamos no assunto. Nunca soube como as coisas terminaram. Aos treze anos, todo meu conhecimento sobre tragédias gregas era Antígona e a triste história do meu amigo Carlos.
Os anos passaram. E eu adoraria dizer que, depois deste desgosto, ele cresceu, ficou famoso, ganhou o Grammy e voltou para sapatear na cara de todo mundo, mas esse é o problema das histórias reais, tão insensíveis ao nosso lirismo. Carlos largou o teatro e música e se tornou um rapaz inteligente, calado e distraído. Nos anos seguintes, enquanto era eu quem narrava os desmoronamentos da minha vida, a vida dele era um retiro dedicado à leitura. Trocamos muitos livros. Nos tornamos, ambos, jornalistas e fotógrafos. E distraídos.
Ano passado, o encontrei sentado no velho janelão do prédio onde trabalho – Tem um minuto? Precisamos conversar – e ele me falou sobre a profissão, sobre o futuro e eu o ouvia pensando na teoria de Platão, nas Artes da Presença e nas Artes da Ausência. No fato curioso dele ter trocado a música/teatro pela escrita/gravura. E lembrei da professora de piano. Ele já era outro, mais velho, mais esperto, tatuado e com todas as incertezas de quem, como eu, chegou à casa dos trinta sem ganhar um Grammy. Como no colégio, todos os colegas têm dores parecidas – dramas, dúvidas, o fim do mundo todos os dias. Aí, eu falei desse concurso de fotografia. E ele se inscreveu. E venceu o concurso.
Ontem, no meio daquela chuva, enquanto eu dirigia a caminho da exposição, cheguei à conclusão de que talvez a escrita seja mesmo uma invenção do Demônio para apagar o passado. E Carlos havia finalmente apagado o dele. Talvez as pessoas que escrevem percam mesmo a memória e a gravura seja, enfim, uma das Artes da Ausência. Talvez os gregos tenham inventado a fórmula do esquecimento. Era nisso que eu pensava quando cheguei lá. Mas Platão estava errado.
A foto vencedora era a imagem de um piano.
Mariana, quando você estava saindo da empresa em que trabalhava eu estava entrando nela. Tivemos pouquíssimas oportunidades de nos falar pessoalmente. Lembro de ter encontrado com você poucas vezes pelos corredores, e acho que você lembra menos de mim ainda. No entanto, é como sempre tivesse conhecido você. Porque você não é simplesmente Mariana. E o termo ‘simplemente’ aqui não carrega qualquer conotação menor. É a referência de comparação – com a qual você se iguala e, por vezes, supera – é que muito maior. Quando escreve, é como se você fosse a soma de cada um de nós. Com sua lente de aumento, você nos amplia, sem nos deformar. Pois, apesar de nossas imperfeições, com a mágica de seu texto, você nos transforma em criaturas mais sublimes. Você escreve com a força da alma de quem parece ter vivido cada riso, cada lágrima, cada dor de seus personagens, sejam eles reais ou imaginários. E, mesmo quando nos fala de dores, perdas e frustrações você nos faz ver, de alguma maneira, que a vida vale a pena ser vivida. Ler um texto seu é uma experiência quase inigualável. Além da perfeição estética e formal, e do monumental conhecimento que você exibe, cada texto seu é uma viagem para dentro daquilo que nos faz ser o que somos. Seja em apenas duas ou três linhas ou em alguns parágrafos, ler um texto seu pode ser arrepiante, como a disse a moça acima. Pode nos fazer ver o mundo de maneira sombriamente cinzenta. Pode ser triste. Pode nos fazer chorar. Mas também pode ser divertido, pode nos fazer ver o mundo em alegres tonalidades coloridas. Pode nos fazer rir, até gargalhar. Ler um texto seu nos faz lembrar de que, apesar de tudo, a vida vale a pena ser vivida. Ler um texto seu nos faz lembrar que é muito bom ser humano. Um grande beijo no seu coração!
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Sabe, há uns três anos mais ou menos, encontrei seu blog por acaso… Na época, estava apaixonada pelo filme Closer e, por pura brincadeira, ou talvez para que o tempo passasse mais depressa, num domingo daqueles que não sabemos mais o que fazer para que o dia acabe, escrevi, no google, a fala de Natalie Portman, Hello, Stranger. Acabei encontrando a sua página.
O bizarro da vida é que muitas vezes nos identificamos com algo, embora não saibamos exatamente sua razão, e foi pelas desventuras vividas aqui e ali, narradas por uma estranha, que eu acabei me tornando sua leitora assídua (e completamente estranha para vc).
Sempre tive o prazer de ler blogs, mas nunca tive o costume de comentá-los. A motivação que me fez fugir à regra foi essa crônica.Quem sabe eu tenha me identificado com o drama de Carlos e “os desmoronamentos da vida”, quem sabe eu esteja imersa em meu fim de mundo particular o que me fez arrepiar, literalmente, ao fim da leitura de seu texto… quem sabe? nem eu sei.. só sei que tive a necessidade de escrever, de te escrever, para praticar talvez a Arte da Ausência. Mas, sabe, o engraçado é que na ausência é que as coisas se tornam mais presentes, uma vez que, se escrevemos é porque sentimos falta de algo, e esse se torna um exercício eficaz para externalizar a falta que sentimos. Fico pensando se nao fosse melhor a Arte da Ausencia ser chamada a Arte da Saudade, mas quem tem coragem de retrucar Platão, não é mesmo!? Sei la, obrigada. Continue escrevendo, pois continuarei lendo. Beijos.
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