Ironicamente, tudo o que eu sei hoje sobre política começou na escola, numa aula sobre as crueldades da ditadura militar. Eu fiquei impressionada. Meu avô foi me buscar no colégio e eu fui logo perguntando sobre onde ele esteve em 64: como eram as passeatas, se ele também correu da polícia, se algum amigo dele tinha desaparecido. Mas meu avô sorriu e explicou que tinha sido um simpatizante dos militares: naquela época, a economia prosperava. O Brasil era o país do futuro. Que tinha sido um tempo bom.
Eu fiquei perplexa como só uma criança poderia ficar.
Meu avô era uma boa pessoa. Ele pensava como a maioria das pessoas da geração dele. Ele não percebeu que a geração dele estava errada.
A gente precisa desconfiar o tempo inteiro de tudo o que é considerado normal pela nossa geração.
Hoje, acho que eu faço política só por quê, daqui a 50 anos, as crianças podem me perguntar se eu participei de algum movimento de vanguarda. Se eu lutei por algo, se perdi amigos. Se eu corri da polícia em alguma passeata. Talvez elas perguntem se eu fiz campanha pela igualdade racial ou aonde eu estava no dia do Orgulho Gay. Podem perguntar se eu também fui chamada de feminazi na internet, se também me mandaram pilotar fogão, se eu conheci o spray pimenta ou se só assisti pela televisão. Vão querer saber se eu fazia coleta seletiva, se andava de bicicleta, se apoiei o movimento antimanicomial, se tive amigos travestis. Talvez questionem se fui contra a criminalização do aborto, se fui doadora de sangue, se apoiei o estado laico, se namorei algum cadeirante. Vão perguntar se eu sabia da escravidão na China, no Estado Islâmico, aonde eu estava nos dias de guerra. Se alguém se tornou meu inimigo por causa disso. Em quem eu votei em 2018.
As crianças vão perguntar por conquistas que parecerão óbvias para a geração delas, mas que não parecem óbvias agora.
É bom estar preparada. Não basta ser uma boa pessoa.

Encaminhei esse texto quando recebi na newsletter pra várias pessoas. Acho que contribuí com os 1500 acessos. 🙂
Muito bom! Beijos.
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Jura, Ana?? Pois nesse jantar hipotético, faria um brinde a você em Paris! 🙂
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Como sempre vc com brilhantes associações! Vc me representa…. na maioria das vezes (hehehehehe). Bjus
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…parabéns pelo texto!
Tenha um ótimo sábado, beijos!
https://viciolicito.wordpress.com/
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Muito bom, incisivo, contundente, desconcertante!
Somos quem podemos ser, sonhos que queremos ter!
Parabéns pelo post!
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ótimo!!
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