“Para se prevenir das sereias, Ulisses tampa as orelhas com cera e se faz prender no mastro (…) Ele confia totalmente no punhado de cera, nas cordas que o prendiam e no prazer inocente de confrontar as sereias, que possuem uma arma ainda mais poderosa que o seu canto, que é o seu silêncio. Pode-se conceber, embora tal não aconteça, que alguém possa escapar da sua música, mas certamente não de seu silêncio. (…)
E, de fato, quando Ulisses chega, as poderosas sereias param de cantar, seja porque julgavam que só com o silêncio poderiam conseguir alguma coisa deste adversário, seja porque o ar de felicidade no rosto de Ulisses – que não pensava em outra coisa a não ser cera e correntes – as fez esquecer de todo e qualquer canto.
Ulisses, contudo – se é que pode se dizer assim – não escutou o seu silêncio, mas acreditou que elas cantavam e que tão somente ele estava protegido do perigo de escutá-las. Por um momento, viu os movimentos dos pescoços, a respiração funda, os olhos cheios de lágrimas, as bocas semi-abertas, porém achou que tudo isso estava relacionado com as árias que soavam inaudíveis ao seu redor. Logo, no entanto, tudo deslizou do seu olhar dirigido ao além. As sereias literalmente desapareceram diante de sua determinação e, enquanto ele estava no ponto mais próximo delas, já não as considerava.
Mas elas – mais belas do que nunca – esticaram seus corpos e se contorceram, deixando seu cabelo horripilante voar livre no vento e distenderam suas garras dos rochedos. Já não queriam mais seduzir. Desejavam apenas capturar, o mais longamente possível, o brilho do grande par de olhos de Ulisses. (…)
Só Ulisses escapou delas.”
(Franz Kafka, O Silêncio das Sereias, 1988, p. 542-543)
Espetáculo de post. Parabéns. Feliz 2019. Com ou sem Ulisses ou sereia. Barulhentamente ou não.
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Sem correntes ou cera nos ouvidos kkkk. Feliz 2019 para nós!!!
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