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Duas ou três aspas da coletânea (ou o que foi possível resumir, diante do impulso natural de querer transcrever a obra inteira).
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“Dá-me mais vinho, por que a vida é nada.” (Pág. 21)
“Às vezes, ponho-me a olhar uma pedra. Não me ponho a pensar se ela sente. Não me perco a chamar-lhe minha irmã. Mas gosto dela por ela ser uma pedra, gosto dela por que ela não sente nada. Gosto dela por que não tem parentesco nenhum comigo. Outras vezes ouço passar o vento. E acho que só de ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.” (Pág. 29)
“Quando vier a primavera, se eu já estiver morto, as flores florirão da mesma maneira e as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. (…) Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando não puder ter preferências. O que for, quando for, é o que será.” (Pág. 31)
“Os deuses são deuses por que não pensam.” (Pág. 37)
“Não só quem nos odeia e inveja nos limita e oprime. Quem nos ama não menos nos limita.” (Pág. 39)
“Se, em certa altura, tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita. Se, em certo momento, tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim. Se, em certa conversa, tivesse dito as frases que, só agora, no meio-sono, elaboro – se tudo isso tivesse sido assim, seria outro hoje e talvez o universo inteiro fosse insensivelmente levado a ser outro também.” (Pág. 65)
“O automóvel, que parecia a pouco dar-me liberdade, é agora uma coisa onde estou fechado, que só posso conduzir se nele estiver fechado. Que só domino se me incluir nele, se ele incluir a mim.” (Pág. 65)
“Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar e ao volante. Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação. Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra. Cada vez menos perto de mim.” (Pág. 69)
“Quem quer dizer o que sente não sabe o que há de dizer. Fala, parece que mente. Cala, parece esquecer.” (Pág. 92)
“Não sabemos da alma, senão da nossa. As dos outros são olhares, são gestos, são palavras com a suposição de qualquer semelhança no fundo.” (Pág. 105)
“Se alguém bater um dia à sua porta dizendo que é um emissário meu, não acredites. Nem que seja eu. Pois o meu vaidoso orgulho não comporta bater sequer à porta irreal do céu. Mas se, naturalmente, e sem ouvir ninguém bater, fores abrir a porta e encontrares alguém como que à espera de ousar bater, medita um pouco. Esse era meu emissário. E eu. E o que comporta o meu orgulho do que desespera. Abre a quem não bater à tua porta.” (Pág. 106)
(Fernando Pessoa / Tabacaria e Outros Poemas)
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Há clássicos que teriam sido os livros das nossas vidas se a gente apenas tivesse tido o prazer de conhecer dez anos antes. Esse vai entrar na lista dos amores retardatários junto com O Apanhador no Campo de Centeio, Franny and Zooey, On the Road, Espuma dos Dias e outros juvenis que causariam muito mais estrago se tivessem chagado à minha estante antes do manual de instruções da máquina de lavar.
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“Rústico, eu teria feito a viagem à Terra Santa. Tenho na imaginação as planícies do Danúbio, as vistas de Bizâncio, as muralhas de Solimão. O culto à Maria, o enternecimento sobre o crucificado se erguem em mim entre mil magias profanas. Estou sentado, leproso, entre vasos quebrados e urtigas, ao pé de uma parede descascada pelo sol. (…) A gente não parte, retoma o caminho.” (Pág. 21-23)
“De manhã, tinha o olhar tão perdido e um aspecto tão morto que os que me encontraram poderiam simplesmente não ter me visto.” (Pág. 25)
“Vou ser arrebatado como uma criança para brincar no paraíso, esquecido de toda a desgraça. Me digam, existem outras vidas?”
(Pág. 28)
“Sonhava com as Cruzadas, viagens de descobertas de que não existem relatos, repúblicas sem história, guerras de religiões esmagadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes: acreditava em todas as magias.” (Pág. 50)
“Amava o deserto, os pomares queimados, as vendinhas descoloridas, as bebidas quentes. Arrastava-me por ruelas mal-cheirosas e, de olhos fechados, me oferecia ao sol, deus do fogo.” (Pág. 55)
“A moral é a fraqueza do cérebro.” (Pág. 58)
“Tive de viajar, distrair os suplícios reunidos no meu cérebro. No mar, que eu amava como se ele me fosse salvar de uma sujeira, erguia-se a cruz consoladora. Tinha sido condenado pelo arco-íris. A ventura era a minha fatalidade, meu remorso, meu verme. (…) Volto ao Oriente, à sabedoria primeira e eterna.” (Pág. 63)
(Arthur Rimbaud / Uma Temporada no Inferno)
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Semana passada, no prédio onde eu trabalho:
– E aí, tudo bem?
– Tudo.
– As coisas estão melhores?
Eu não sabia quem era ele. Nunca vi na vida. Mas certamente era alguém conhecido e a quem eu devia ter feito algum tipo de queixa, por que ele perguntou se as coisas estavam melhores. Muita gente fala comigo na rua, do nada, conversa de elevador, sabe como é. Do que eu posso ter reclamado? Do trânsito? Da política? Eu costumo reclamar das coisas. Faço trocadinhos infames, ironias terríveis. Não sei o que ia mal na ocasião. Eu estava doente? Chorando? Discutindo ao telefone? Devendo? Bêbada? Que aflição. Fiquei sorrindo sem saber o que dizer. Não lembrava mais qual era o problema.
– Sim, as coisas melhoraram.
– Que bom. Manda um abraço para a Manuela.
Eu não conheço nenhuma Manuela. Ele me confundiu com outra pessoa.
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Garçom, uma dose de cianureto e a conta.
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“Sentia-me à vontade em tudo, isso é verdade, mas ao mesmo tempo nada me satisfazia. Cada alegria fazia-me desejar outra. Ia de festa em festa. Acontecia-me dançar noites a fio, cada vez mais louco com os seres e com a vida. Por vezes, já bastante tarde, nessas noites em que a dança, o álcool leve, o meu desenfrear, o violento abandono de cada qual, me lançavam para um arroubo ao mesmo tempo lasso e pleno, parecia-me, no extremo da fadiga e no lapso de um segundo, compreender, enfim, o segredo dos seres e do mundo. Mas a fadiga desaparecia no dia seguinte e, com ela, o segredo. E eu atirava-me outra vez.”
(Albert Camus / A Queda)
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Saúde. Segurança. Fartura. Na sacristia, cada fiel costuma depositar um pedido ao pé da imagem. É a figura de um Cristo crucificado, numa expressão magra e imóvel que não parece inspirar ares de muita saúde. Ou segurança. Ou vida farta.
Ao lado, uma pintura da Santa Ceia. O cenário aonde os doze se reuniram antes de cada um tomar um rumo. Judas se matou logo depois. Os outros saíram levando aquela ideologia pelo mundo.
Eu soube que Mateus não quis negar a própria fé e morreu decapitado na Etiópia. Tomé foi esfaqueado pela mesma razão. João foi cozido em óleo. André morreu numa cruz. Paulo foi apedrejado. Jogaram Tiago do penhasco e, como ele sobreviveu, tiveram que espancar até a morte. Mas ninguém negou a fé. Todos foram até o fim.
Às vezes, me parece uma incoerência pedir proteção, saúde ou prosperidade aos pés da imagem de um homem crucificado. Por que, se a gente pensar bem, talvez essa nunca tenha sido a proposta.
Acho que, em oração, a gente devia pedir só coragem.
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