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Ontem:
– Moço, bom dia. Pediram para eu vir assinar as autorizações de uso de imagem da campanha do Governo e também as autorizações da Secretaria da Cultura que…
– Entendido, dona. Aqui diz que este documento deve ser assinado pelo responsável… afro.
– É, responsável pelos editoriais afro. Sou eu mesma.
– Afro?
– É.
– Afro?
– …
– Não é branca??
– Morena clara, moço. Olha, eu só faço as fotos, já faz sete anos, você é novo aqui?
– …
– Posso assinar?
– Não, espera. A chefe chega em meia hora, aí ela decide.
– Decide o quê?
– Se a senhora é afro ou não. Pode esperar ali na recepção, dona. Isso aqui está muito estranho.
– …
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😦
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Preparo. Inteligência. Profissionalismo.
Choro tijolos, Brasil.
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(Campanhas oficiais do Carnaval da Bahia since 1997)
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(Secrets/OneRepublic)
Existe também esta versão sinfônica interpretada pela The Piano Guys junto à 5ª Sinfonia de Beethoven.
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Durante muitos anos, o maior ícone da política moderna no planeta foi um edifício da cidade de Budapeste. Era o maior parlamento do mundo. Ficava à beira do Danúbio e era enorme: tinha 700 salas e 27 entradas de puro luxo e ostentação. Hoje, lá também funciona um museu e a peça mais visitada do prédio inteiro é um pedacinho de metal. Um porta-charutos.
Devo acrescentar que o objeto é numerado, fica num canto desimportante e parece meio gasto. Dizem que ele se tornou relevante por que cada senador tinha direito a um número. No intervalo entre as sessões, eles fumavam um pouco na varanda, depois deixavam seus charutos lá, cada um no seu lugar certo, para terminarem de fumar nos dias seguintes. Era uma tradição.
O cargo no parlamento era vitalício e, às vezes, quando um senador falecia, os outros precisavam escolher um substituto para a vaga. Depois da eleição, o novato tomava posse da cadeira e de todas as obrigações da função: as pastas, os livros, os processos, quase tudo era imediato. Só o direito ao uso do porta-charutos era conquistado depois, com o passar dos anos. Quando ele se mostrasse à altura do cargo. Se o eleito honrasse o seu antecessor, demonstrando honestidade e empenho. E isso não acontecia no momento da ascensão. Era a coroação de um resultado.
Até hoje, na Hungria, um momento importante dentro do cenário político é o fim de um mandato. É quando se agitam bandeiras e se fazem discursos e acontecem estas manifestações que, aqui, estão associadas a uma vitória nas eleições. Nos baixos trópicos, pouco falamos sobre políticos em fim de gestão. O balanço de um governo consta basicamente na prestação de contas ao Ministério Público, que nem vale uma nota na imprensa, ocupada com novas pesquisas de intenção de votos. Aqui, sinônimo de aprovação popular é o empoderamento de um sucessor ou uma reeleição. Vivemos uma espécie de banquete sem digestão, de prelúdio sem ópera: no dia em que passam a faixa, homens e mulheres mergulham no anonimato sem nenhum rito de passagem, seja de aprovação ou de repúdio. Não se guarda, ao menos nos arquivos da mídia de massa, nenhuma memória exata sobre o que fizeram. Eles só voltam aos palanques caso embarquem em outra escalada por mais um cargo público – num círculo interminável que vem formando ótimos marketeiros e péssimos gestores. Num país realmente preocupado com resultados, nenhuma preparação seria mais importante do que o desfecho.
É certo que os tempos mudaram, que os governos evoluíram, mas talvez a democracia nunca tenha sido tão performática. Na maioria dos países, o período de campanha eleitoral se converteu numa corrida baseada na repetição, na persuasão, no discurso. E é curioso como os eleitores ignoram os índices dos últimos quatro anos, como preferem debater sobre promessas ainda abstratas. Se pensarmos pela lógica húngara, aonde estão os dados? O que temos a dizer sobre os que estão deixando a mesa? Nas últimas décadas, quantos eleitos já tomaram posse no nosso parlamento? Por fim, quantos realmente mereceriam espaço num porta-charutos hipotético por seus resultados?
Provavelmente, não sabemos. Desconhecemos os números. Mas sabemos qual é o slogan e qual o jingle do próximo candidato. Em 2014, voltaremos todos às urnas, cheios de fé e esperança num país melhor e mais justo. Que vença, outra vez, o melhor publicitário.
(Budapeste, 09 de julho de 2009)
Artigo publicado no Jornal Público, de Portugal. Confira aqui.
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Boa noite, meu nome é Mariana, tenho 31 anos, possuo três empregos, sou professora universitária e baldeio as minhas obrigações em horário de expediente para brincar no estúdio.
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“Caro Monsieur Germain, deixei que passasse um pouco o movimento que me envolveu todos esses dias antes de vir-lhe falar de coração aberto. Acaba de me ser feita uma grande honra que não busquei, nem solicitei. Mas, quando eu soube da novidade, meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para você. Sem você, sem essa mão afetuosa que você estendeu ao menino pobre que eu era, sem seu ensino, sem seu exemplo, nada disso teria acontecido. Eu não faço questão dessa espécie de honra. Mas essa é ao menos uma ocasião para dizer-lhe o que você foi e é sempre para mim, e para assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que você coloca em tudo que faz, sempre de maneira viva com relação a um de seus pequenos discípulos que, não obstante a idade, não cessou jamais de ser seu aluno. Eu o abraço com todas as minhas forças.”
(Albert Camus, romancista nascido na Argélia, em carta ao seu antigo professor após ser nomeado ao prêmio Nobel, em 1957)
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Acho que não é bem isso. Mas é quase isso.
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Desde o ano passado, eu tenho ganho muita comida. Fruta, sequilho, lasanha. Ganho de gente que eu mal conheço. Não sei exatamente o motivo do fenômeno, mas suponho que esteja ligado àquele episódio de 2013 (que eu contei aqui) em que eu causei um estouro no microondas.
(Motivo: estava ao telefone entretida em alguma resenha tão aterradora que digitei a minha senha de banco no teclado e o prato foi esquentando e…).
Enfim.
Na ocasião, achei prudente me apresentar ao síndico me responsabilizando pela explosão, explicando que não sei cozinhar e que aquele microondas era a luz da minha vida, mas que, felizmente, não houve nenhum prejuízo ao condomínio depois daquela Hiroshima toda. E a informação foi repassada aos vizinhos. Não sei com que palavras.
E este foi o início de uma nova era no distante castelo dos Hogwarts.
De repente, eu passei a ganhar bolos. E frango assado. E pão caseiro recheado com uma imoralidade de catupiry. E doces repletos de chocolate belga no seu estado mais endemoniado e eu poderia dizer que sou uma pessoa que tem sorte na vida se não tivesse que conviver, simultaneamente, com o desconforto de tanta popularidade. Desconfiei que meus vizinhos estivessem com pena de mim, uma comoção coletiva, um mutirão em torno da minha cara de cachorro sem dono. Devo ilustrar esta conclusão citando o episódio em que fui comprar frutas lá na rua e o verdureiro, inexplicavelmente, sabia o meu nome e só me ofereceu um abacaxi depois de lavar. E descascar. E fatiar. Em cortar em cubinhos. E finalizar toda a preparação pedindo: minha filha, não se machuque, cuidado com os acidentes domésticos.
Aí essa fama de retardada começou a me irritar um pouco.
De fato, eu não faço ideia de como se descasca um abacaxi. Estou certa que a empreitada me custaria dois ou três dedos da mão, mas, meus caros, por que tanta preocupação já que A DROGA DA CASA É MINHA E EU ME FACULTO O DIREITO DE EXPLODIR, ESTOURAR E QUEIMAR NA FOGUEIRA DE SATÃ QUANTOS ELETRODOMÉSTICOS EU BEM ENTENDER, POR QUE É TUDO MEEEEU.
Resultado: tomei raiva. Passei a me desapegar daquela mordomia toda. E a distribuir comida. Até por que não dava conta de consumir tudo mesmo, comecei a levar para a agência. Partilhava entre os colegas de trabalho e todo mundo elogiava e me chamava de Ofélia e, curiosamente, ninguém nunca perguntou a receita de nada. NADA. Nunca fui tão popular no escritório.
Aí, enfim, a minha implicância passou. Devo confessar que ainda me irrito um pouco com as demonstrações de misericórdia dos condôminos, mas aceito as ofertas e entendo que a culpa é minha mesmo, sei lá. Me surpreendo com o fato de que é possível ficar muito conhecida, ao mesmo tempo, em dois ambientes próximos, por rótulos exatamente opostos – de vira-latas desnutrida e de super chef gourmet – mesmo que nenhum dos dois seja real. Como definir o que é real?
Imagem pública é um conceito absolutamente abstrato.
Cada vez que me chega outro bolo, eu concluo que eu não entendo mesmo nada de gastronomia. Eu só entendo de publicidade.
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