Plaquinha na estação de trem.
(Em Marrocos até segunda ordem. A guerra vai muito bem, obrigada.)
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Me pego bebendo água em copinho plástico e me vem a imagem de Oscar Wilde abrindo a porta aos chutes e bradando: mas a vulgaridade da plebe é hedionda, Henry!
Dois ou três grifos meus em O Retrato de Dorian Gray:
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“É absurdo dividir as pessoas em boas ou más. As pessoas ou são encantadoras ou entediantes.”
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“Podemos perdoar um homem que faça uma coisa útil que não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada. Toda arte é completamente inútil.”
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“O intelecto é em si uma forma de exagero e destrói a harmonia de qualquer rosto. Assim que nos sentamos a pensar, ficamos todos nariz, todos testa ou qualquer outra coisa horrenda. Vejam esses homens que triunfam em qualquer profissão intelectual. São completamente hediondos!”
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“Existem momentos, segundo os psicólogos, em que a paixão pelo pecado, ou por aquilo que o mundo chama de pecado, domina de tal modo um temperamento que cada fibra do corpo, assim como cada célula do cérebro, parece estar possuída de impulsos temíveis. Em momentos desses, os homens e mulheres perdem o livre-arbítrio. Encaminha-se, como autômatos, para um fim terrível. É-lhes retirada a possibilidade de escolha e a consciência é morta ou, se conseguir sobreviver, vive unicamente para dar sedução à rebeldia e encanto à desobediência. Pois todos os pecados, como os teólogos não cansam de nos lembrar, são pecados da desobediência. Quando esse espírito supremo, essa estrela da manhã do mal caiu do céu, foi como rebelde que caiu.”
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“- Você está a namorá-lo escandalosamente – comentou Lord Henry para a prima – seria melhor que tivesse cuidado, ele é muito sedutor.
– Se o não fosse, não haveria combate.
– Nesse caso, são gregos contra gregos?
– Estou do lado dos troianos, eles lutaram por uma mulher.
– E foram vencidos.”
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“Havia aventuras amorosas em toda parte. Mas Veneza, tal como Oxford, conservara o cenário romanesco e, para o verdadeiro romântico, o cenário era tudo. Ou quase tudo.”
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“A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe. Se lhe resistirmos, a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. Já se disse que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo.”
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“Todo mundo gosta de esbanjar o que mais necessita.”
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“- O que você é?
– Definir é limitar.
– Dê-me uma pista.
– Os fios partem-se. E você ficaria perdida no labirinto.”
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Não importa qual é a sua dor. Dor de dente, dor de consciência, dor de cotovelo, se você também passou a semana sofreeeeendo por algum motivo e não entende por que o mundo não se solidariza com o seu matírio, seus problemas se acabaram:
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FAÇA UM DRAMA
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1 – Diga que não aguenta mais e que vai morreeeeeeeeeeer. É o marketing do apocalipse, o mais eficaz do nosso tempo: para chamar a atenção sobre alguma coisa, o negócio é dizer que essa coisa vai ser exterminada. Muito antes do aquecimento global virar moda, Veneza já ganhava milhões de turistas assim – desde que nasci, dizem que Veneza vai afundar, implodir, se acabar, se escafeder, sumir do mapa, puf. Todo dia abro o jornal e o resto do mundo inteiro está se acabando. Menos Veneza.
2 – Nunca tenha uma enfermidade média. Daquelas que não matam, mas também não te deixam ser feliz. Se não sangra, não é grave. Dê um jeito de fazer sangrar.
3 – Quando alguém, mecanicamente, perguntar – Como vai você? – faça uma pausa fúnebre, baixe os olhos e responda – Soube não?
4 – Use hipérboles. Se você não garantir que agonizou crucificado de tristeza chorando litros do Nilo na escumalha da sarjeta, ninguém vai ter uma dimensão do seu sofrimento.
5 –Não deixe ninguém te convencer de que o seu problema não é tão grave assim: não é grave para eles por que não é o problema deles! Se alguém te negar algo ou não te der importância ou não compreender o fato de que você é frágil e sofre e merece todas as framboesas de ouro do mun-do, reaja! Sente e chore. Essa é a nossa resposta natural diante da vida.
6 – Pesque de bomba. A sua dor é sincera e merece platéia. Redes sociais seriam entediantes se a gente só publicasse foto de viagem.
7 – Não adianta querer mostrar às pessoas o quanto você é especial. Especiais são as crianças da APAE. Melhor incorporar o insano, louco, perturbado que, se não tiver suas necessidades atendidas, coisas terríveis podem lhe acontecer.
8 – Se for o caso, suma. Não atenda, não responda, não tecle, não sei, não vi, não fui. Se você for um cara popular, bastam alguns dias. Mas se você for apenas um rapaz latinoamericano, pode bancar o Belchior abduzido.
9 – Se os seus amigos não se solidarizarem com o seu calvário, apele para os inimigos. Por exemplo, este ano, a cidade de Valença, no norte de Portugal, queria muito que o governo nacional liberasse uma verba pública para a saúde. Fez protesto, pediu, bradou e nada. Depois de ser solenemente ignorada, toda a população resolveu decorar suas janelas com bandeiras da… Espanha. A verba foi liberada em 24 horas.
10 – Se você sabe o que quer, você terá o que quer. Se ainda não conquistou, é por que não fez drama o suficiente. Caso haja resistência do intelocutor, recomece o processo e volte ao item 1: diga que vai morreeeeeeeer. Sucumbir, empacotar, se acabaaaaar inteiro no fogo das trevas varrendo o chão do inferno para sempreeeeee.
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Êxito certo. Garanto.
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Vamos imaginar o seguinte: estamos no Brasil de 1700. Somos uma colônia. Éramos uma terra livre, fomos invadidos e agora somos explorados pelo nossso colonizador que nos mantém escravos, analfabetos e pobres. Você já conhece essa história, certo? Mas, digamos que o nosso colonizador, um belo dia, resolve abandonar o território. Por uma decisão política qualquer, embarca de repente numa grande caravela de volta para Portugal. O que iria acontecer?
Antes do primeiro movimento para caminhar com as próprias pernas, o Brasil seria invadido. Claro. Por qualquer outro país – sei lá, Argentina, Perú, Chile – por que tudo o que um governo capitalista sonha na vida é ter um vizinho desamparado. E eles invadiriam a casa aos tropeços. Todos de uma vez só, roubando as panelas, o fogão, a geladeira, até começarem a brigar entre si por um lugar no sofá, por uma guloseima da dispensa. E, antes que a briga ficasse mais séria, dividiriam os espaços entre si, um quarto pra um, uma sala para o outro, pronto. Selariam um acordo de paz. E coabitariam com relativa tranquilidade sobre o vasto chão do Brasil.
E os brasileiros? Não sei. Ninguém lembrou do que fazer com eles.
Obviamente essa história não aconteceu conosco, mas aconteceu numa outra colônia: o Saara Ocidental. Em 1975, quando a Espanha abandonou repentinamente a nação sem deixar qualquer infra-estrutura, os vizinhos Marrocos e Mauritânia avançaram sobre o território. Diriam os nativos: “como abutres sobre um moribundo”.
Os sarauís, agora livres da Espanha, queriam a independência. Independência ou morte – a gente também conhece essa história. Trinta e cinco anos depois, dez mil mortos depois, os camelos viraram modernos tanques de guerra e, apesar da retirada da Mauritânia, Marrocos continua lá. Irredutível. Espalhado no sofá da sala, erguendo o controle remoto.
Semana passada o governo de Marrocos incendiou outro acampamento sarauí e, neste sábado, milhares de manifestantes do mundo inteiro protestaram em Madrid com gritos de “Marrocos culpado, Espanha responsável”. O ator Javier Bardem liderou os protestos. Ontem, o governo português pediu para que ninguém cruze a fronteira, já que Marrocos não se voltou apenas contra os espanhóis, mas contra todos os ocidentais. Em comunicado, Marrocos restringe a entrada da imprensa ao Saara e os jornalistas são expulsos: eles acreditam que bloquear a informação é o primeiro passo para a dominação. Um viajante francês é morto gratuitamente. Todos os jornais do mundo passam o domingo se movimentando em torno da polêmica e alguns me perguntam qual a posição do Brasil sobre o tema. Pesquiso. Não encontro quase NADA nos jornais brasileiros sobre o assunto. E ligo para as redações:
– Alguma capa sobre os sarauís?
– O que são sarauís?
– O que diz a capa do A Tarde de hoje?
– Que o Bahia se classificou.
– E o Correio?
– Que o Bahia se classificou também.
– E a Tribuna?
– Idem.
– Nada sobre o Saara?
– Que Saara?
– Ok. Obrigada.
Às vezes eu penso que algumas nações nunca recuperaram o controle remoto.
Publicado em gêmea má (maledicências) | 1 Comment »
Meus caros dois ou três leitores lá da Bahia,
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Tenho prazer em convidá-los para um programa imperdível: a mostra BELEZA PURA, exposição fotográfica comemorativa do Dia Nacional da Consciência Negra, no Salvador Shopping.
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Se você estava pensando num programa divertido para o fim de semana, não perca: são fotos da folia do nosso Carnaval!
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Mas se você tá sem grana pra se divertir, aproveite: é de graça.
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Se você curte mais uma programação cultural, encontrou: são 20 registros espontâneos do nosso folclore.
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Mas se você passou aqui só pra ler uns textos e essa minha ladainha não te convenceu de nada, apareça assim mesmo. Eu ficaria feliz! Aproveita é de graça e que é feito de coração. É só uma homenagem a essa terra que eu amo e a vocês todos, que me matam de saudade.
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Visitas recompensadas com gritinhos, elogios e agradecimentos fervorosos. Eu não perderia essa oportunidade. \o/
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Publicado em havaiana de pau (day life) | Leave a Comment »