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01 – O inferno é quente, mas Salvador…

02 – Você nem notava isso, mas o baiano é fofo –  Posso pegar essa cadeira? – Ô, binha, pega! Tem nada não, nega, relaxa.

03 – Gente que você esperava reencontrar correndo em câmera lenta para abraços emocionados nem dá o ar da graça. Gente que você não sabia que lembrava da sua existência te aguarda com festa e bandinha tocando no coreto. Tudo acontece diferente do planejado, tudo é melhor do que o planejado e, em 24 horas, nem você consegue mais lembrar do que tinha planejado.

04 – Te obrigam a contar as mesmas histórias de viagem mil vezes para cada novo grupo que você encontra (e lá vou eu contar de novo do queniano que matou e comeu o cachorro dele na minha frente e da noite em que me trancaram do lado de fora do albergue e blábláblá, gente, pra quê eu tenho um blog, hein?).

05 – Ninguém te avisa que os preços triplicaram. E a pessoa sai de casa com três reais no bolso, disposta a comprar um shampoo na farmácia. E volta em estado de choque, sem shampoo nenhum, seus três reais na mão e a cara de quem ouviu as trombetas do apocalipse.

06 – As crianças que você conheceu viraram adolescentes, os adolescentes que você conheceu viraram adultos e você, que já era adulto antes de viajar, deduz que virou um distinto senhor no auge da senilidade.

07 – Num dado momento, você soma o número de amigos que se formou, se casou, batizou herdeiros ou promoveu festividades aleatórias nos últimos tempos, divide pelo número de dias em que esteve ausente e calcula o quão dispensável é a sua existência neste planeta.

08 – Você descobre que os problemas que você não resolveu continuam lá. Fatos/pessoas/impostos que você ignorou e nem lembrava mais que existiam levantam de seus túmulos com suas cabeças debaixo do braço e, tipo assim, terrorrrr!

09 – Seu telefone toca muito. Metade das pessoas reclama por que você demora de atender, a outra metade reclama porque seu telefone está tocando de novo. E você reclama… sei lá, do calor.

10 – Para cada três restaurantes que você sugere para o jantar, dois não existem mais.

11 – Cada vez que sua família se reúne para conversar banalidades, você se emociona com a cena e tem vontade de chorar.

12 – O apresentador do jornal da TVE está na Globo, o da Globo está na Band e o da Band virou estilista.

13 – Ninguém consegue te explicar o que aconteceu com a Rótula do Abacaxi.

14 – Não fabricam mais nota de dois reais (ohhhhh!).

15 – Você, que pensava em voltar a viajar, já não sabe se consegue, outra vez, viver longe disso tudo.

“E se acaso distraído eu perguntasse ‘para onde estamos indo?’ – não importava que eu alçasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: ‘estamos indo sempre para casa’.”

(Raduan Nassar / Lavoura Arcaica)



Diáspora

Do you like me, do you like me standing there?
Do you notice, do you know?
Do you see me, do you see me?
(The Cranberries / Ode to my Family)

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Eu nasci duas vezes. A primeira, numa cidade litorânea da América do Sul com um costume curioso de sincretismo – o que talvez tenha me desabilitado a racionalizar de maneira objetiva os acontecimentos diários, mas que me ensinou qualquer coisa importante sobre interseções. Sobre o fato de todo grupo, idéia, acontecimento ter um ponto em comum com outro acontecimento, uma boderline, um momento em que se tocam e são iguais. Na minha família, somos quase sempre muito parecidos. E eu acho curioso encontrar tão longe, na sua certidão de nascimento, o meu sobrenome.

Sabe, eu nunca fui tímida. Nunca tive vocação para a alegria contida, para as boas maneiras, para conjunções adversativas depois dos elogios. Eu acredito em abismos, em faltas de ar, em saudades dilaceradas, em pessoas que vibram por dentro e ardem, ardem, ardem em vontades explosivas, em gente que fala olhando nos olhos, em quem nasce de novo, em quem recomeça. Não aceito palavras que não sejam a fratura exposta da verdade ou que me venham com meios termos, com eufemismos de qualquer coisa. Creio em destinos, em sinais, em sangue vermelho correndo nas veias e sou um legado fiel da minha genealogia em traços, maneiras e fé: sou dramática, difícil, impulsiva e quase tudo que eu faço me deixa exausta, por que eu quero muito. Eu nunca quis pouco. Você também não.

E hoje, talvez por quê é o dia de ir embora, talvez por que todo fim de estrada costume ser a esquina para uma outra, depois de quase três décadas de desinteresse pelo assunto, eu me pego pensando em minha ascendência já falecida, avós a muito perdidos, primos em décimo grau ou, no caso de uma família engendrada como a minha, nos encontros e desencontros de genes da mesma raiz ao longo do tempo até aqui, agora, em mim, em você. Por que meios? Não há nada nos livros. Canta, ó Poeta, a mutação recessiva deste cromossomo gêmeo do meu. Canta o florecimento há cinco séculos nas pedras destes três continentes, enquanto as ondas batiam e as vinhas cresciam nas serras do Porto. Canta a sua passagem por dez gerações, acumulando-se invisível na herança mais inconsciente de todos que cresceram à beira do Atlântico, todos os que assistiram ao envio deste legado de sangue em embarcações, em promessas distantes de reencontro, como uma cópia da mesma semente indo sobre o mar até a América e caindo, em meio às chuvas tropicais intermináveis, no solo fértil do útero latino da minha primeira bisavó.

Perdoe-me se, às vezes, eu fico um tanto épica. Isso também é de família.

E o sol. estava. queeeeeente.

(Saara Ocidental, 10:00-19:00)

My day life

(Marrakech, 16:30, 15 graus)

Balanço

Acho que esse foi um ano bom por que eu aprendi a fazer sushis e temakis, apesar de continuar sem saber fritar um ovo (eu sou dada a conhecimentos supérfluos, garante a oposição). Foi bom por que eu terminei o mestrado, escrevi algumas matérias legais e decorei a casa: pintei a parede de amarelo, a estante de rosa e o guarda-roupas de cobalto. Este ano eu conheci umas dez pessoas realmente incríveis e passei mais tempo na estrada do que em casa. Foi um ano bom.

Mas que termina como começou: sem grana, sem emprego, sem carro, sem nenhuma certeza quanto ao destino da minha existência sobre a Terra. E, às vezes, isso me preocupa. Ainda que meus parâmetros de felicidade sejam quase sempre muito acessíveis: meia dúzia de amigos, meia dúzia de livros, um trabalho minimamente remunerado, um relacionamento minimamente recíproco e um pacote de biscoito Bono. Sendo que, na falta do resto, eu costumo me virar relativamente bem com o pacote de Bono.

E, hoje, eu pensei: faltam dez dias pra virar o ano. Foi um ano bom. Estranhamente, meu desejo para 2011 é que ele não seja 2011. Que ele seja um longo e belo 2010 que nunca terminou.

Post censurado

E eis que eu pago cinco dinheiros nessa lan house tosca só por que me deu vontade de publicar um vídeo e o You Tube me diz que não pode. Como não? Os direitos de exibição estão reservados. Imagina!

Ah, achei repressor.

Vou colar um gif só de raiva.

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O vídeo era esse aqui, musiquinha de Natal do Glee. Por que eu tenho 12 anos de idade.

“Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o dia todo repete: “Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!” e isso o faz inchar-se de orgulho. Mas ele não é um homem. É um cogumelo.”

(Antoine de Saint-Exupéry / O Pequeno Príncipe)

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