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10 minutos

Pausa de 10 minutos numa lan house para reclamar da vida: o problema que aflige o meu espírito nesse momento é como lavar a minha roupa.

O incrível de qualquer viagem tosca é que todos os seus problemas existenciais perdem espaço para as questões básicas da vida – comer, dormir, vestir – e não deve haver nada mais motivador para o ser humano do que tentar resolver problemas que podem ser resolvidos. Se eu estivesse num hotel estaria focando minhas atenções em quê? Em de onde vim e para aonde vou? E se o mundo acabar? E, se Deus não existe, co-mo-faz? Enfim, nas questões de sempre.

E o meu problema do dia é esse. Quando você passa cada noite numa espelunca diferente sob uma primavera de 12 graus, lavar roupas é um problema. Se eu estivesse habitando uma pensão razoável, ela teria máquina de lavar, secadora, essas coisas. Se houvesse a pretensão de passar 48 horas no mesmo lugar, um varal resolvia. Se houvesse sol, um varal também resolvia. Se eu andasse de taxi, teria uma mala com muitas roupas e seria feliz. Se…

Tempo esgotado.

I Gotta Feeling

O que acontece quando o primeiro semestre da graduação de Comunicação precisa fazer um curta-metragem sem cortes? E sem roteiro? E sem verba? Adorei o resultado dessa turma aí.

Miranda’s Tur

Esqueça aquele seu mapa turístico clichê e vamos ao roteiro que interessa:

Bar O Pardieiro (Graça) - local peculiar, público peculiar, nome peculiar. Mas qualquer semelhança...

 

Bar O Magriço (bairro do Lumiar) - o dono bigodudo já foi magro, suponho. Morei perto, mas frequentei mais o concorrente.

Bar O Difícil (Lumiar) - concorrente do Magriço do outro lado da rua. Difícil era eu sair de lá.

Larchonete Otário (Chiado) - otário é quem dá 4,50 naquele churros ou no pastel-morte-súbita, meu Deus! Mas é um local muito frequentado, às vezes por gente pouco esperta, mas frequentado.

Café Tina (Olivais) - mercearia frequentada por donas de casa distintas.

Restaurante Tromba Rija (Santos) - caríssimo, chic, super tradicional. Pode?

Boite Tacão Grande (Bairro Alto) - a boite baixo-astral aonde esta que vos fala bate cartão aos sábados ao som de I can't geeet nooOOo satisfactiooOOoon...

Restaurante Cova Funda (Olivais) - enfim, o lugar certo para você pode comprar a original e revigorante e única e inconfundível Água Pé na Cova.

Ficam faltando aqui o café Rolete dos Putos (Lumiar), por que não fui lá essa semana, e o bar O Gordo (Bairro Alto), por que eu esqueci de levar a máquina fotográfica. Atualizo depois. Mas, e aí? Ganhei a vaga de guia de vocês ou não?

O momento mais triste do meu dia é acordar às 5 da manhã para trabalhar. Sempre imagino o Chacrinha aparecendo no meu quarto num daqueles jogos de auditório onde o cara fica num aquário de isolamento acústico e o apresentador dispara parguntas absurdas – você trocaria todo o seu dinheiro por mais uma hora de sono? Simmm!!! Você trocaria a sua hora de sono por um cruzeiro na Grécia? Nãoooo!!! Você trocaria uma viagem, um carro, uma casa, uma barra de ouro e um chiclete Bigbig pra continuar dormindo a manhã inteira??? SIMMMMMMM!!! – bem alto. Mesmo que o isolamento acústico não fizesse parte da brincadeira.

Mas o Chacrinha nunca me apareceu e a distribuição de jornais no semáforo começa cedo. Chego eu, depois o pessoal do meu jornal, depois o pessoal do jornal Destak, do jornal Global, a galera dos bombeiros voluntários e, por fim, o sr. Antônio, o pedinte mais popular do mundo. Trata-se de um trabalho que, definitivamente, não é entediante: são 3 minutos de sinal aberto, 2 de sinal fechado e um dia inteiro de pessoas loucas transitando. Eu e meus coleguinhas prediletos (o brasileiro, o sueco, a portuguesa e o cabo-verdiano) estávamos falando sobre isso e eu resolvi fazer o top of crazy do nosso semáforo. Nossos tipos de motoristas cativos são:

O Chato – Esse jornal está amassado.

O Analfabeto – Qual é a manchete de hoje?

O Religioso – Bom dia, minha filha, que Jesus te abençoe, ilumine seu dia, te proteja das motocicletas, da chuva, dos carros, que o anjo da guarda guie o seu caminho e obrigada pelo jornal, fique com Deus.

O Cego – Bem, a gente trabalha fardado: uma camisa com o nome do jornal, um colete com o nome do jornal, um boné com o nome do jornal e, como se não fosse o bastante, uma placa de acrilico amarrada nas costas que faz um grande círculo acima das nossas cabeças com o nome do jornal. Mas vai ter sempre um motorista cego pra perguntar – que jornal você tem?

O Guloso – Estudantes que colocam o tronco para fora da janela do carro em alta velocidade, pontam para o círculo de acrílico em cima das nossas cabeças e gritam: PIRULITOOOOO!!!

O Solidário – Hoje eu vou levar dois jornais pra você poder voltar mais cedo pra casa.

O Leitor – Ele precisa muito de um jornal. Muito. O sinal mal fechou e ele já está no final da fila de carros buzinando e pedindo e gritando – aquiiii, por favoooor, um jornaaaal, por favoooor!

O Pára-Motô – Caminhões com caçamba aberta. Sempre um ferro gruda na placa de acrílico e, quando o sinal abre, arrasta um de nós pendurado pelas costas, preso, desesperado, até um colega correr atrás e gritar para o motorista: pára motô, pára motô!!!

O Curioso – Qual é o seu nome?

O expediente termina, a pessoa troca de farda, sobe no salto e vai para o turno de promotora no shopping, um ambiente tão ou mais propício à aparições inusitadas, eu poderia passar o dia inteiro aqui fazendo uma lista de PESSOAS LOUCAS QUE SURGEM. Fim da noite, os meninos sentados na calçada resenhando as melhores. Outro top of crazy. A gente ganha pouco, mas se diverte.

Com que roupa?

Atendendo a pedidos, mudei a aparência do blog. Vocês viram, né? E o primeiro comentário sobre o assunto foi: é um blog infantil? Massa. Daí eu me dei conta de que a ilustração ficou mesmo meio infantil, mas, poxa, fui eu mesma que fiz a montagem, deve haver alguma identificação com, sei lá, a minha idade mental. E isso de idade mental é curioso: estamos falando de uma pessoa que, a um ano atrás, só entrava pela porta de um supermercado em dia de sábado à noite para comprar snacks, bebidas e maquiagem, mas que, agora, vai ao supermercado dia de terça-feira pra comprar sabão em pó. Ou seja, uma jovem senhora. E como se comporta, o que faz e do que gosta uma jovem senhora quando não está indo ao supermercado comprar sabão em pó? Não faço idéia.

Enfim, o que eu quero dizer é que não estou segura sobre essa decisão importantíssima para o curso da humanidade: a aparência do blog. E tive uma idéia: eu estava querendo um pretexto pra testar o recurso de enquete do sistema wordpress – ele é anônimo, seguro e pode ser útil para discutir questões mais relevantes na posteridade. Então vamos votar:

Na Internet eu poderia acessar o msn, o blog, o orkut, o twitter, o google e acho que não deve haver coisa mais ultrapassada no mundo virtual que passar 80% do meu tempo on-line lendo e respondendo e-mail: o primo mais novo das neolíticas cartas de correio. Mas é isso que sempre acontece e, no fundo, é o que eu mais gosto de fazer na Internet. Principalmente depois que o povo passou a me escrever pedindo, digamos, opiniões sobre as coisas. Conselhos sobre a vida prática, financeira, profissional, mas, especialmente, sobre a vida afetiva. E você deve estar se perguntando: como alguém com uma vida afetiva absolutamente instável pode estar apta a dar orientações deste grau a quem quer que seja? A resposta é: não está. Sinceramente, acho que os amigos que me escrevem não estão esperando de mim um conselho sábio. Sabe reunião do AA onde todo mundo se coloca em círculo contando seus problemas, onde você pratica esta mera função fática da linguagem para se sentir integrado a um grupo de pessoas tão ou mais perdidas que você? Então, é isso.

Sendo assim, nunca me senti na obrigação de dar opiniões compromissadas com a sabedoria – em outras palavras, eu costumo ser bem sincera. E essa assessoria sentimental, apesar de já ser de conhecimento de vocês, fez parte de uma esfera privada da minha rotina até que, ontem, eu estava estudando para a tese e descobri que a Clarice Lispector começou a carreira dela escrevendo para colunas de (contos? crônicas? epopéias?) aconselhamento. Sério! Pronto, perdi completamente o pudor pelo assunto. Literatura-passional-e-brega-de-auto-ajuda é o futuro! Paulo Coelho está rico, Augusto Cury está rico, eu estou pobre e este post de hoje terá o resumo dos e-mails de resposta da semana. Nomes e detalhes serão omitidos para evitar a fadiga e, se o seu problema ainda não se resolveu, pode trazer o banquinho e continuar contando o seu dilema que a tia mari vai te ajudar. Quanto ao respeitável público de dez pessoas que acompanham esse blog, bem, senta que lá vem a história.

Caso 01 – Meu caro colega, deixa ver se eu entendi o seu e-mail: ela é bem-humorada, bom papo, atraente, está interessada em você e te chamou pra sair. Você está se dando ao trabalho de me escrever pra perguntar o que mesmo, filho?

Caso 02 – Sobre esse episódio, eu vou ser sincera: toda vez que te vejo contando sobre suas brigas com sua ex me lembro de um texto que li uma vez comentando um capítulo de Seinfeld: a amizade entre dois ex-namorados é um encontro entre dois mágicos que tentam entreter um ao outro. Ela já conhece os seus truques e não vai cair neles, você já conhece os truques dela e não vai cair neles. Ou não deveria, né? O problema de conversar com uma pessoa que te conhece muito bem é que não dá pra maquiar nada: quando você conta uma história é natural que acabe omitindo alguma coisa, não porque quer camuflar de propósito, mas porque quer muito a aprovação do seu interlocutor. Mas tem gente que te conhece bem demais pra não perceber isso. Daí você me diz que ela gritou com você e eu pergunto: enquanto ela gritava você fazia oque? Ioga? Pense bem. Ex- namorados, mães e dicionários: você pode brigar, espernear, discordar de tudo o que eles dizem, mas, no fundo, sabe que eles estão corretos.

Caso 03 – Pois bem, você está solteira. Com a intenção de te conhecer melhor, um moço bem intencionado te convidou pra jantar. Vocês foram para um restaurante ótimo que ele conhecia, quando vocês chegaram ele escolheu uma mesa pra vocês, ele chamou o garçom, ele pediu o cardápio, ele sugeriu uma bebida e, pior, foi ele quem experimentou o vinho antes de autorizar o garçom a servir as taças. Depois ele puxou um assunto qualquer enquanto você continuava com a bolsa no colo, calada, sorrindo, com cara de Hello Kitty. Eu sei, eu sei, ninguém merece. E também sei que este jantar só teria sido sucesso de público e de crítica se o homem do outro lado da mesa fosse o seu pai e você tivesse, sei lá, 9 anos de idade, mas, acredite, os homens machistas realmente acreditam que estão sendo… cavalheiros. Ah! Concordo que você não deve perder tempo com ele, mas, se possível, dispense com carinho. Dê um abraço, agradeça pelo jantar, diga que foi tudo ótimo, peça pra ele deixar a porta aberta quando for saindo e daí você chama: o próximooooooo!!!

Caso 04 – Sobre a palestra no congresso de odontologia, eu também não sei por que isso deu tão certo, mas certamente tem haver com o fato de que os rapazes adoram uma especialista. Não importa o assunto, deve ser o eterno fetiche pela professora, se você souber ensinar a um homem tudo sobre, sei lá, o fenômeno da piracema, está feita. Antes de você chegar na parte dos peixinhos alcançarem a foz, a figura já pediu seu telefone, endereço e o número do sapatinho de cristal. Detalhe: eu fiz duas graduações e nunca viajei num congresso acadêmico, ah! Eu me odeio. Mas a dica é essa: se especialize. Não importa sobre qual seja a banalidade, se especialize.

Caso 05 – Amigo, sobre a moça que você falou, cliquei no link, dei uma olhada no orkut dela e, apesar de vocês serem colegas de trabalho e tal, eu achei o perfil um pouco… hum… “migucha”. A diferença entre uma mulher e uma migucha é que a primeira sabe o que quer e a segunda  é mais bobinha, tipo, que não consegue largar as amiguchas, que tem álbum com mil fotos com grupos enormes, sempre sorrindo, sempre festejando, enfim, essas coisas que são normais aos 15. Fora as comunidades, essa mania retardada de amar todas as coisas coletiva e incondicionalmente, “eu amo viajar”, “eu amo música”, “eu amo praia”, meu Deus, mas que praia? Que horas? Com quem? Tenha medo. O que salvou tudo foi aquela descrição do quem sou eu: comparar a própria rotina aos capítulos da obra de Salinger foi genial. Mande pra mim outros links, vou precisar de mais material de pesquisa antes de emitir uma opinião melhor sobre a candidata. 

Caso 06 – Minha sugestão sobre aquele rapaz lindo e loiro que te dispensou antes do Carnaval e agora que voltar? Que besteira, menina, volte. O amor é lindo. Por que guardar rancor se você pode começar de novo e fazer as coisas de uma maneira, tipo assim, diferente? Meu conselho é o mesmo da semana passada:


(tradução: mantenha a calma e seja uma puta)

 

 

Se você também tem dilemas, dúvidas, críticas, sugestões, ameaças, escreva para maripublic@yahoo.com.br contando a sua história ou mande a sua cartinha para a rua Carlos Ramos, n.13, ap. 2c, Quinta do Morgado, Olivais Norte, 1800-052, Lisboa. Hoje ficamos por aqui, foi um prazer estar com vocês, tenham uma ótima semana, fiquem agora com a nossa programação musical, uma boa noite a todos e até mais.

Para ouvir:

Help, The Beatles

A vida é dinâmica

De acordo com a minha previsão astrológica, dentro de alguns dias o meu mapa astral, o meu signo, o meu ascendente, a minha vida acadêmica e a minha conta bancária estarão conspirando para um propósito em comum: a compra da minha passagem de volta!! Um fenômeno raro que pode não se repetir nos próximos séculos e deverá interferir decisivamente no curso da humanidade, mas implica num grande dilema: a volta seria em setembro e eu teria de comprar a passagem agora, com seis meses de antecedência. Minha gente, seis meses é uma eternidade. Quantas guerras começarão e terminarão, quantos edifícios serão levantados, quantas vezes eu vou mudar de idéia sobre o rumo da minha existência nos próximos seis meses?? Milhares!! Bipolaridade, um direito de todos: seis meses é tempo demais.

Não sei se faço a reserva como qualquer pessoa normal ou relaxo e deixo para a última hora ao sabor do meu humor futuro ou consulto um agente de viagens ou compro uma bicicleta. Mas eu vou. Não ter ido no Natal foi uma decisão racional, lúcida e frustrante. Só que a minha quota de lucidez já estourou e, mesmo sabendo que essa viagem é dispendiosa e desnecessária, mesmo sabendo que terei que estar novamente em Lisboa em 2011, mesmo sabendo que todos em Salvador estarão empenhados em seus afazeres enquanto eu estarei desocupada mendigando a atenção de vocês de maneira ostensiva e impertinente com uma grande placa de ME TELEFONA, ME LIGA, ME CHAMAAAAAA pendurada no pescoço, gente, eu vou.

A questão é que minhas experiências com compras antecipadas são negativas: inventei de comprar as passagens da viagem de maio dois meses antes e já tive que reagendar para junho, depois tive que reagendar para abril e só não reagendei de novo por quê, bem, as taxas de reagendamento são um preço caro que se paga pela própria esquizofrenia. A verdade é que eu sou pobre demais pra ter uma vida tão, digamos, dinâmica. Sempre começo na dúvida e termino na dívida.

Mas, sim, a vida é dinâmica, meus caros. Não sei se alguém lembra, mas eu comecei o ano de 2009 pronta para ingressar num emprego novo e com um projeto de vida A, mas na semana seguinte eu não queria mais por que descobri que a razão da minha existência era o projeto de vida B, na semana seguinte eu estava me formando e desistindo dos planos anteriores por que os projetos C e o D haviam surgido, na semana seguinte estava vendendo o carro, na outra dando uma festa e na outra, bem, eu já estava do lado de cá do planeta decidindo entre os projetos de vida X, Y e Z. Planejamento? O que é isso?

Eu poderia fazer aqui uma retrospectiva mais detalhada para vocês entenderem melhor os fatos e as razões, mas não é recomendado ficar abrindo caixão que os zumbis levantam da tumba tudo com cabeça debaixo do braço e, tipo assim, terror. O que eu quero dizer é que os amiguinhos Organização, Ponderação e Foco não foram convidados para a festa e ninguém ficou sem par. Meu Deus, em um mês tudo pode mudar! E quem sabe exatamente o que quer da vida que atire a primeira pedra e o primeiro talão de previdência privada. Viu? Você também não sabe.

Bem, é isso, de qualquer forma, com pré-agendamento ou não, devo chegar em agosto/setembro. Não sei se esse papo de apelidar “desorganização” de “dinamismo” está sendo convincente, mas certamente não está sendo uma novidade, né? Quem me conhece (e quem não me conhece) já percebeu que dispersão faz parte do pacote. É só olhar pra esse post: eu começo escrevendo sobre astrologia, depois passagem de avião, depois zumbis, depois previdência privada e agora… agora eu estava falando do que mesmo?

Eu poderia escrever muitas coisas interessantes nesse blog se eu não perdesse tanto tempo ficando chocada. Leio o jornal e passo o dia tendo crises. De novo. É fato que esse costume de ler notícias já deveria ter sido cortado da minha dieta a muito tempo e acho que só não o faço por certa ressaca moral, afinal, se não me falha a memória, um dia na minha vida eu me formei em Jornalismo e a idéia de ignorar as notícias do mundo para sempre poderia pegar mal, suponho. Daí eu leio os jornais. Mesmo sabendo que o melhor para a minha saúde mental seria ler, sei lá, revista Cláudia.

Houve um terremoto na Turquia, houve um terremoto no Chile, houve uma inundação na Madeira e, cada vez que este ser humano lê uma notícia assim, se convence de que o mundo está acabando e deprime. Enquando os amigos transformam informação jornalística em solidariedade, angariam donativos, viajam como voluntários, mobilizam as pessoas, eu faço a minha parte para mudar o mundo: me tranco no quarto e choro. Muito útil.

O problema das notícias não são os desastres naturais, o problema são as pessoas. Houve um terremoto no Haiti? Tudo bem, essas coisas acontecem, malditas placas tectônicas. Está havendo mais fome no Haiti do que já havia antes? Uma tragédia sobre outra tragédia, mas, vamos lá, todo mundo pode ajudar a mudar isso. Estão ROUBANDO OS REMÉDIOS DOS HAITIANOS PARA TROCAR POR GASOLINA??? Bem, aí já é demais pra minha sanidade. Choro baldes.

Surto, grito, me tranco no quarto, digo que não quero sair, não quero jantar, NÃO QUERO MAIS IR PRA MADRID 4 HORAS ANTES DO VÔO, não quero mais viver, o mundo não presta, me deixem em paz, eu quero morreeeeerrr!!! Sou arrastada para o aeroporto em prantos cataclíticos. Durmo. E, no dia seguinte, acordo normal, saltitante, falando as banalidades de sempre. Medo.

O pior é saber que isso não é recente, gente, quem não lembra das minhas milhares de cartas insanas para o jornal A Tarde depois do tsunami de 2004?? E os textos alucinados que eu grudava nas paredes da faculdade sobre o trabalho infantil na China?? Ainda que eu tivesse a esperança insólita de estar ajudando à distância, bem, a gente sabe: distância é para os fracos. Quem quer mesmo ajudar pega um avião pra lá e pronto, não fica em casa tendo surtos. Essa é a diferença abissal entre uma pessoa que é realmente solidária e uma pessoa que é, simplesmente, louca! Quem é do tipo que grita, baba, rasga dinheiro, ameaça raspar a cabeça mas nunca faz nada levanta a mão:  o/

Aí chega o terremoto da Turquia – dois dias sem trabalhar, sem estudar, sem sair de casa – e, agora, este momento de consternação: sentar no sofá e calcular o prejuízo prático e financeiro da minha última crise (nem vamos falar do prejuízo moral, por que não trabalhamos com números negativos). Vou ter que trabalhar no fim de semana pra compensar, vou ter que fazer um e-mail de retratação por não ter enviado as matérias da revista, vou ter que negociar as faltas na faculdade e vou ter que passar a cem mil metros de distância de qualquer banca de jornal nos próximos 15 dias. Por isso, desculpem a interrupção, já estamos de volta, seguimos agora com a nossa programação, uma boa noite a todos.
   
(Pronto, terminei o post. Podem chamar o psiquiatra.)

– Passa a pipoca?
– Hum?
– Me passa a pipoca. E acorda, é feio ficar dormindo no meio do filme.
– Hum.
– Não tá gostando?
– Não.
– Por quê?
– Achei esse filme muito doido.
– Como assim?
– Esse filme não tem nada a ver com a história original.
– Não?
– Nada. Eu li o romance, li vários clássicos infantis, mas esse filme não tem nada em comum com o livro. Se eu tivesse filhos, não traria pra assistir histórias adaptadas, elas devem fazer uma confusão danada na cabeça do povo, por isso que a meninada de hoje em dia é meio doida.
– Verdade.
– Esses diretores de cinema sempre deformam a história pra fazer o roteiro, um absurdo. Por exemplo, esse castelo aí não existe no romance e estão faltando personagens super importantes, como o Leão e o Homem de Lata. Gosto do Tim Burton, mas acho que nesse filme ele viajou demais.
– Homem de Lata?
– É.
– Peraí, o Homem de Lata não é do Mágico de Oz?
– Não.
– É sim, é do Mágico de Oz.
– Que seja, mas quem vai contar as histórias infantis às minhas crianças sou eu, tudo igual ao original, gente, desde quando o príncipe tem cabelo laranja? Cadê o grilo que não aparece? Hein? Sério, esses diretores de cinema usam drogas.
– Que grilo?
– O que dá conselhos.
– O Grilo Falante é do Pinóquio! Esse conto nem tem príncipe nenhum, o de cabelo laranja é o Chapeleiro Maluco e quem usa drogas é você!!!
– Hum. Você está defendendo o Tim Burton. Devolve a pipoca.
– …
– …
– Coitados.
– Dos diretores?
– Não. Dos seus filhos.

My pledge of love

Eu gosto de vinis. Eu gosto de promessas. Eu adoro sexta-feiras.

https://www.youtube.com/watch?v=y7j6rNVWx2g