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Romance

Depois do velório de Orfélia, Hamlet envolve-se num duelo de espadas onde uma das lâminas está envenenada. No corpo-a-corpo da luta, os dois trocam de espadas e Hamlet fere o rei, que não desiste e continua a enfrentá-lo, mas acaba por beber a taça de vinho também envenenada. Hamlet também a bebe e morre dizendo “o resto é silêncio”. Fórtinbras invade o castelo com seu exército e ordena que “quatro capitães conduzam Hamlet como um soldado para o catafalco”. Os soldados carregam o corpo do príncipe, soa a marcha fúnebre, depois uma salva de canhões.

As luzes se apagam, as cortinas se fecham, o público levanta em aplausos calorosos, os atores voltam ao palco, agradecem e as luzes se acendem. Depois as pessoas vão deixando o auditório, fazendo comentários, indo embora. Eu fico conversando um pouco mais e, na saída, encontro o tal Hamlet. No ponto de ônibus. Cansado. De calça jeans, sem maquiagem e com a coroa num saco plástico. Putz.

O problema de assistir às apresentações culturais da faculdade é que, quando elas acabam, elas realmente acabam. Os personagens que alimentaram nosso imaginário durante uma ou duas horas não continuam lá, no costumeiro limbo dourado hollywoodyano, voltam pra realidade num segundo. Consequentemente, a gente também. E me fazem lembrar de Wagner Moura, em Romance, dizendo a frase mais dura do filme: “isso é só uma história e ninguém vai morrer por causa disso”.

Todo dia vejo Otelo fumando na cantina, Julieta no balcão da biblioteca, o Rei Lear imprimindo apostilas na sala de informática e é como se o destino os perguntasse: você tem noção da grandeza daquela história para a sua pequenice? Semana que vem eles voltam a duelar com espadas, jurar bravura, beber veneno, até que a cortina se feche e volte cada desgraçado para o seu canto. Eu para o meu, eles para o deles. Afinal, isso é só uma história e ninguém vai morrer por causa disso.  

Pra que não viu o filme, segue o trailer.

Reunião II

Coordenador (em inglês): Pois bem, vamos encerrar esta reunião do Conselho de Ética Jornalística Anglo-Saxónico do TS. Gostaria de agradecer a presença de todos, especialmente dos nossos dois representantes do Jornalismo de língua portuguesa.

Colega (em inglês): Obrigado.

Coordenador (em inglês): Sendo assim, vamos todos ficar de pé para pronunciar o juramento de ética. Os senhores podem puxar a jura? Talvez a sua colega, ela parece tímida.

Secretária (em inglês): Mas, senhor, não sabemos se o juramento é prática na universidade deles.

Professor americano (em inglês): É costume, sim, a academia portuguesa é uma das mais tradicionais do mundo.

Coordenador (em inglês): Pois então. Uma ótima referência!

Colega (em inglês): Talvez eu possa fazê-lo, acredito que minha colega ainda não esteja muito à vontade com o idioma estrangeiro.

Coordenador (em inglês): Ela pode jurar em português, de acordo com a cultura de vocês. Será um prazer para nós.

Professor americano (em inglês): Que ótimo! Português!

Secretária (em inglês): Senhor, talvez não seja boa idéia.

Colega (em português): Olha, você não precisa…

Eu (em português): ok, ok, não faz mal…

Todos erguem a mão sobre o livro para iniciar o juramento.

Eu (em português, com voz solene): Somos da turma tricolor, somos a voz do campeão, somos do povo o clamor, ninguém nos vence em vibração, vamos avante esquadrão, vamos serás o vencedor, vamos conquistar mais um tento, Bahia, Bahia, Bahia.

Coordenador (em inglês): Excelente. Preciso conhecer as universidades portuguesas.

Professor americano (em inglês): Eu também. Muito bonito.

Colega (em português): Nunca mais trago você, rs.

Depois que choveu a cidade inteira era meio lama, meio esgoto, meio água e eu pensando numa maneira de perguntar e sem saber como, não por que me faltassem palavras, mas por que, às vezes, a gente carrega as perguntas sem despejá-las por que não está disposto, pronto, preparado, desesperado o suficiente pra querer saber as respostas. Ou por que já sabe as respostas. Ou por que as respostas não interessam. Nesta tarde chuvosa  foi que me bateu essa irresponsabilidade, essa vontade de jogar com a última ficha, uma dessas coisas que a pessoa faz quando acha que não tem mais nada a perder. Mesmo que tenha.  Depois que o assunto acabou e a gente ia seguindo sem dizer nada, eu parei de andar de repente, numa pausa calculada, meio cruel, meio dramática: perguntei. Silêncio. Dava pra cada um ouvir o sangue circulando no próprio corpo, a água correndo no meio-fio, outro temporal se aproximando. Um respirar fundo antes de responder: não. Um tranquilo não. Um seguro não. Um não simples e seco que não deixaria lugar a nenhuma outra pergunta depois dele, só um eco duro que se debatia em todos os muros até se despedaçar no final da rua. Não. Só isso. E, se eu seguisse o fluxo irresponsável que havia me levado até ali, estaria agora bradando ofensas, insultos, palavrões, disfarçando decepção com agressividade, mas eu nem fiz nada disso. Nem disse nada. Agora eu era só dois olhos que baixaram até o chão e não levantaram mais de lá.

Depois? Depois não soube mais notícias. Por que fugi, sumi, mergulhei fundo num emaranhado de dias tumultuados, muitos lugares novos com cheiros de incenso e perfume e cigarro, trazendo pilhas de livros nos bondes lotados, no trânsito, na rua, falando sobre arte e política e literatura e parando em qualquer bar, em qualquer esquina, eu sou mais forte, eu sou mais eu, eu não preciso de ninguém, cruzando as estações e vendo pessoas, placas, vitrines, um cego cantando na escadaria uma música conhecida: há uma luz no túnel dos desesperados, há um cais no porto pra quem precisa chegar. E eu olhando para aquilo, para o cego falando de luz no fim do túnel, meu Deus, como pode?  Não pode. Desmorono. E penso em tudo o que houve, ainda que eu não entenda exatamente o que houve – imaginação, maluquice, carência, ilusão platônica? – seja o que for, aquilo existiu. Era real e eu pude tocá-lo por um momento, mesmo que, depois, tenha se desfeito em pó, mas você sabe quando tocou algo: conhece o cheiro, o tato. Mesmo que não exista mais. Ou que exista apenas neste instante, quando você se pega outra vez desse jeito, em outro dia de chuva que também termina assim, contigo no último degrau, ao lado de um homem que não lhe enxerga, sentindo a tarde cair entre poças de lama, água, esgoto, quando os olhos não desgrudam mais do chão, quando chega a noite e você pode chorar.

Muita pólvora na bomba

Todos os fatos que me aconteceram esta senama só reforçam a minha teoria sobre o perigo dos relacionamentos antigos. Quanto mais passado existir, mais pólvora na bomba. Digamos que você marca um compromisso com um desconhecido e ele atrasa. Quando ele chegar, você pode reclamar, dizer o quanto ficou esperando e a discussão de vocês vai ser sobre o atraso em si. Mas se um conhecido de longa data te deixa de molho, inevitavelmente a conversa vai descambar para questões anteriores: de quantas vezes a pessoa já falhou com você, citar dois ou três exemplos disso, falar das suas mágoas passadas e outras histórias que nada tem haver com o próprio atraso e, por isso mesmo, a discussão tem muito menos chances de terminar bem.

Um histórico longo faz com que as pessoas percam a capacidade de analisar os episódios de maneira isolada em detrimento do contexto inteiro. Nada contra relacionamentos antigos. Até por que esta teoria tem dois lados: natural que os afetos de muito tempo também explodam com muito mais densidade do que os recentes. Digamos que, sei lá, alguém te dá um presente. Quanto mais antiga a relação, menos a satisfação vai girar em torno do presente em si – mas em torno do laço construído, da história em comum, do contexto. Será mais intenso. Quanto mais passado existir, mais pólvora na bomba.

Penso nisso com algum arrependimento quando lembro que escolhi Portugal como destino de viagem. Nada contra Portugal, mas é que há passado demais nessa relação. Os séculos de brigas, acordos, encontros e desencontros entre essas duas nações lhes tiraram a capacidade de analisar os episódios de maneira isolada. E o episódio isolado em questão, no momento, sou eu! Se eu tivesse ido morar, sei lá, na Polônia, seria mais fácil, por que eu tenho uma noção vaga do que sejam os poloneses, imagino eles tenham uma noção vaga do que sejam os brasileiros e suponho que o tratamento que eles me dariam estaria muito mais condicionado às minhas características pessoais do que ao meu passaporte. E virce-versa. Assim, nós nos adoraríamos ou nos detestaríamos graças à nossa relação em si e não a uma série de fatos históricos de um passado que nenhum dos dois pode mudar.  

É certo que, se Brasil e Portugal não tivessem uma história em comum, não haveria essa sensação de reencontro: os livros de Machado na prateleira deles, os livros de Pessoa na nossa cabeceira, nem tantas músicas em comum, nem essa arquitetura que nos faz subir Alfama como quem volta pra casa, nem um Atlântico inteiro de amor e ódio entre duas culturas que já não sabem bem onde termina uma e começa a outra. Não haveria nada disso. Mas haveria certa curiosidade desarmada, o deslumbramento pelo exótico, coisas que só existe entre duas pessoas que acabaram de se conhecer.

Just a game

Quando eu digo neste blog que a minha vida conspira para o improvável, eu estou sendo eufemista. Não é bem assim. Na verdade, a minha vida conspira para o impossível, para o absurdo, para o realismo fantástico. Vamos visualizar a cena: domingo, enfim, eu fui chamada para a vaga de vendedora de jornais. Aprovada em último lugar da segunda lista – bem, qual seria mesmo o meu mérito se eu passasse em primeiro lugar entre os jornaleiros? Nenhum. Mas eu fui aprovada em último. Sem comentários. 

Primeiro dia de trabalho: o semáforo fecha, vamos ao primeiro carro, depois ao segundo, escapamos da tentativa de assassinato da primeira motocicleta enlouquecida, vamos ao terceiro carro, ao quarto, nos jogamos em cima do quinto para escapar da outra moto, sexto carro, sétimo, o sinal vai abrir, oitavo carro, o sinal abriu, o nono carro quer jornal, você vai até lá, os outros carros aceleram e o décimo fica buzinando pra você sair da frente, você corre da pista e pronto. Agora é só andar cem metros de volta para o semáforo e começar tudo de novo. Algo semelhante aos jogos do Nitendo: o Sonic precisa pular os obstáculos, fazer pontos, completar o percurso e, se possível, sobreviver até a próxima fase onde, com sorte, chegará ao final do jogo para, então, receber o grande prêmio: um bauzinho com cinco moedinhas. Um resumo ilustrado da minha existência.

Mas eis que, no meu primeiro dia de serviço, começa a esfriar de repente. Mas eis que, no meu primeiro dia de serviço, começa a escurecer. Mas eis que, ainda no meu primeiro dia de serviço, cai um dilúvio bíblico. Só que ficar ensopada e moribunda num semáforo gelado o dia inteiro é improvável, mas não é impossível. Impossível seria se São Pedro, ao invés de mandar chuva, jogasse pedra lá de cima, correto? Não bastava chover. Tinha que chover granizo.

Um barulho ensurdecedor, o povo louco na rua, carro batendo, uma gritaria, eu correndo pra debaixo de um viaduto, gente fugindo para o metrô, para as lojas, pra dentro dos ônibus e a minha pessoa, que nunca tinha visto nada parecido, com a mochila na cabeça, desesperada: o mundo vai se acabar agora e eu vou entrar no Armagedom com o uniforme do jornal?? Socorro!!!

Mas amanhã não vai chover pedra. Amanhã vai chover, sei lá, chave de fenda, colher de pau, centenas de torradeiras elétricas. Depois de amanhã, pianos de cauda. Games eletrônicos, educação de crianças e a minha vida: a próxima fase é sempre a mais difícil.

Lost in translation

Eu não perdi outro avião. Aleluia, Senhor! Acreditem: uma viagem inteira onde todas as passagens compradas foram utilizadas, onde não houve nenhum carimbo errado no passaporte, nenhuma mala autónoma que decidisse seguir seu rumo sozinha para além do horizonte, nenhum roubo que nos obrigasse a seguir sem lenço nem documento sobre o calçadão dos exilados para sempre! Sério, eu acredito em milagres. Vale acrescentar um detalhe: quem sempre fica responsável pelas compras de viagem sou eu. Eu sei, as pessoas são loucas, eu também não entregaria uma responsabilidade dessas a mim mesma, mas as pessoas entregam, o que eu posso fazer? Da última vez tive que  administrar 12 passagens de avião em destinos diferentes, 2 de trem, 8 hospedagens em locais distintos, ingressos para as atrações de cada cidade e a documentação de todos. Numa situação dessas você até imagina que alguma coisa dê errado, mas você não imagina que TUDO dê errado. Mas não vamos ficar aqui resgatando essas manifestações de Murphy em nossas vidas.
 
Dessa vez eu nem precisei dormir no aeroporto e imagino que deixei saudades. Interrompo um longo histórico de estadias por aeroportos em geral e, depois de algumas noites ao relento, você desenvolve certa fraternidade mútua e todos os habitantes dos corredores de check-in do mundo viram seus amigos de infância. Você está lá, sujo, cansado, desacreditado da vida e fica inevitável rolar certa comoção: todo mundo junto, trocando experiências, dando tapinha na omoplata, senta aqui, me conta o seu problema, eu vou te ajudar, dá a mão. A capacidade de coesão das minorias subestima as leis da física. E esta fiel assistente social in translation não vai abandonar as raízes – seja você quem for, pode vir, senta aqui e conta a sua história que a tia mari vai dar algumas dicas para os irmãos de estrada, viajantes pobres deste mundão de meu Deus:

1 – Dormir no aeroporto não é vergonha. Vergonha é ficar em casa vendo tv. 
2 – A sua mala conhece mais países que você? Não fique inibido, bem-vindo ao time, pode sentar, compartilhar o seu trauma e que venham as dinâmicas de grupo.
3 – Depois da meia-noite, toda praça de alimentação de aeroporto se desfaz dos biscoitos e enlatados com prazos de validade vencidos. Nada grave, coisa de um mês. E o que é um mês nesta estrada longa da vida? Aproveite.
4 – Para facilitar a comunicação, o ideal é adotar um volcabulário globalizado. Por exemplo, se você está conversando com um grupo de etnias variadas e vai falar do preço de algo, não adianta dizer que custa 3 reais ou 1 euro ou 2 dólares. Melhor adotar medidas internacionais: o produto X custa o mesmo que uma lata de Coca-Cola ou que um lanche McDonald’s ou que uma diária no Ibis e por aí vai.
5 – A sua dignidade depende de um banho? Nos aeroportos há chuveiros! Ficam no bloco dos funcionários. Andei, andei, andei até encontrar.
6 – A limpeza do chão dos aeroportos não tem nenhum compromisso com a higiene: a faxina só acontece de hora em hora durante a madrugada inteira para obrigar a nós, desabrigados, a acordar o tempo todo e levantar. Ou você conhece algum metro quadrado do mundo que realmente precise ser varrido cem mil vezes no meio da madrugada?
7 – Se as pessoas te pedirem cigarros, dinheiro, drogas, pasta de dente emprestada, desconverse. Mentira, as pessoas não vão te pedir nada, as pessoas só pedem coisas loucas a mim, só a mim, que nasci com essa placa enorme de TOME OSADIA pendurada no pescoço.
8 – Alguns aeroportos são famosos por abrigar também moradores de rua. Não dispute espaço com eles e não interfira quando eles resolvem brigar entre si, por que voa de tudo: é mala, é roupa, é pau, é pedra, é o fim do caminho.
9 – Travesseiro de Ouro é um prêmio que escolhe, através de uma enquete internacional, o melhor aeroporto do mundo para se dormir. O último vencedor é o de Singapura: banheiros limpos, restaurantes 24 horas, Internet, chuveiros, sauna e serviços de massagem. Estava pensando em me mudar pra lá.

Se você vai viajar e não sabe se o aeroporto em questão está mais próximo do céu, do inferno ou de uma longa noite sobre o purgatório de um chão gelado, visite o www.sleepinginairports.net, onde os mochileiros já dão a ficha completa de todos. E, quando estiver por lá, faça amigos. E aproveite pra dizer que me conhece, mandar lembranças minhas ao povo, recomendações à família, votos de saúde, aquele abraço.

Sub-raça

Hoje foi um dia produtivo: primeiro eu fui recusada para uma vaga de operadora de telemarketing, depois para uma vaga num trabalho voluntário (isso mesmo, eles não me quiseram nem de graça) e, no fim da tarde, fui recusada numa seleção para distribuição de jornais. Não, não estamos falando de um cargo no setor de logística num veículo impresso, estamos falando de VENDER JORNAL NO SEMÁFORO. E eu não fui aceita. Mesmo já sabendo a resposta, sempre me dou ao trabalho de perguntar:

– Qual dos critérios de seleção foi responsável pela minha eliminação?
– Nacionalidade, pá.

Solução? Nascer de novo. Em outro planeta, se possível. A cada dia que passa eu estou mais convencida de que aquele método de limpeza étnica dos alemães está mesmo ultrapassado. Por que matar com gás se você pode matar de fome? É muito mais limpinho!

Tenho especial apreço pelos métodos requintados utilizados pelo SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras). A maioria dos imigrantes, ao chegar, recebe um visto temporário. Este visto não te permite trabalhar – e só deixa de ser temporário acaso alguma empresa queira te contratar e redija uma declaração de interesse.  Pronto, você sai de lá e vai direto para uma agência de recrutamento, claro, por que tudo o que você precisa é encontrar uma empresa que te queira. Mas a sua candidatura é negada. Por quê? Por que seu visto é temporário! Essa documetação não te permite nem fazer o cadastro, quanto mais concorrer a uma vaga! Com visto temporário você não trabalha, sem trabalho você continua com visto temporário. Tostines vende mais por que é fresquinho ou é fresquinho por que vende mais?? Socorro!!!

Enquanto o SEF e as agências de recrutamento discutem se quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, fica você dançando no meio dessa quadrilha-do-sem-fim muito contente, desempregado, desesperado, feliz, tirando as calças pela cabeça. É uma experiência única. Eu (bem) sei.

Com tantas boas notícias, hoje voltei pra casa refletindo se não foi uma atitude precipitada ter deixado a vaga de fotógrafa na agência de modelos. Por que eu me demiti? Pelos motivos de sempre. Graças à filosofia romântica e pouco prática de que os seres humanos devem trabalhar por paixão. Seu emprego não te faz feliz? Pedra nele. Princípio válido para tudo mais: suas pessoas, sua rotina, suas escolhas não te fazem feliz? Pedra em todo mundo, largue tudo e vá começar do zero fazendo outra coisa – tipo, vendendo jornal num semáforo. E pronto. Prática exaustivamente testada e aprovada com 100% de êxito até o dia de hoje – eu REALMENTE não esperava não estar à altura dos semáforos portugueses.

Entro em casa, abro a geladeira, fecho a geladeira, sento no sofá. A imagem da derrota. Não sei de onde veio essa lenda de que brasileiro, depois que vai pra Europa, fica metido. Fica nada. Fica é humilde. E muito mais tolerante. Nada como passar uma temporada sendo tratado como sub-raça pra entender o poder corrosivo de um preconceito.

Memórias do subsolo

A reunião era sempre numa sala em Santos, um subsolo mal iluminado, mas com uma lareira, livros empilhados no chão, poeira, umas vinte pessoas. Eu chegava no início da noite e ficava na esteira, quase não falava nada, olhando as sombras na parede, ouvindo o que eles diziam e eles diziam muitas coisas. O rapaz de óculos acendia uma vela pra conseguir ler no escuro: “Por que onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eis que estarei no meio deles”, a moça de cachecol tocava flauta, a senhora de véu cantava baixinho, acho que eu nunca decorei as feições de ninguém por causa daquele breu. Eu não era a única estrangeira do grupo, mas não saberia dizer quantos havia e nem de onde vieram. Cada quarta-feira alguém trazia uma leitura nova e, quando o frio apertava, jogavam cadeiras quebradas no fogo. E rezavam de mãos dadas.     

Houve um dia em que chegou um convite dos inacianos para, quem estivesse interessado, integrar uma equipe de voluntários com destino a uma comunidade em Koroli. Convite que eu recebi meio cética, por um motivo simples: eu achava aquele gesto bem intencionado, mas pouco útil. Segundo os meus cálculos na época, só o que eles gastariam para transportar um de nós pra lá equivalia a 130 sacos de feijão. Pedi a palavra e argumentei que, ainda que fôssemos voluntários esforçados, a presença de nenhum de nós era mais necessária do que aqueles 3 meses de comida para aquela gente que não tinha nada. Era um desperdício.

E, nessa hora, a moça da flauta respondeu lenta, com sua voz baixa: mas eles não nos mandam pra lá por que as pessoas precisam da gente. Aquelas pessoas não precisam da gente pra nada. E o grupo virou-se pra ela, esperando que explicasse melhor: é a gente que precisa disso. Por que a gente precisa ver, precisa ver – e qualquer coisa no que ela falava me lembrava Caio F. dizendo que você não pode voltar atrás no que vê: você pode se recusar a ver, o tempo que quiser, até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. E ela dizendo: é a gente que precisa deste empurrão pra fora do cercadinho, por que depois, depois é diferente. Você pode negar, mentir se quiser, pode afundar a cabeça no chão e arrancar os dois olhos, mas não consegue mudar o que viu lá. Mesmo que, depois, você ignore. E que faça o que quiser da sua vida: arranje um emprego, plante uma árvore, escreva um livro, tenha um filho, crie gatos, não importa. Toda vez que você tiver que decidir algo, toda vez que tiver que escolher entre um verbo no plural e um verbo no singular, entre o melhor pra você e o melhor para todos, você vai lembrar do que viu. Você vai lembrar das pessoas do deserto de Koroli e é assim que o planeta vai se transformando. Nem mil sacos de feijão mudam o mundo sozinhos.

A árvore do cenário

Acho que um dos aspectos mais despropositados da vida é a capacidade de algumas pessoas nos magoarem sem nenhuma intenção de nos fazer sofrer. É algo que se aproxima do meu terrível medo de morrer atropelada: tipo, que morte mais estúpida, o cara nem queria te fazer mal, você era só um obstáculo na pista. Eu ficaria conformada de ser boicotada por alguém que tivesse qualquer tipo de ódio, antipatia, inveja, instintos assassinos por mim. Que me quisesse mal por que eu sou especial, possuo um dom, nasci com uma cicatriz em forma de holograma no braço direito e posso interferir no curso da humanidade. Mas é difícil explicar para o próprio ego que alguém só molhou os seus fósforos por que estava distraído. A vida real não tem nenhum glamour.

A minha, principalmente. Mesmo que eu não seja uma pessoa facilmente decepcionável. Não por altruísmo, mas por desatenção, é preciso o carro já ter perdido o controle, ter saído da estrada e estar despencando precipício abaixo há muito tempo pra eu tirar os fones de ouvido e perguntar: como assim? Seu cão morreu, você está demitida, sua casa pegou fogo, eu quero o divórcio, sou travesti – e eu com cara de monalisa: como assim? Tragédia pouca é bobagem. No fundo, a gente cresce sendo preparado para as epopéias gregas, já espera por situacões inusitadas, roteiros apocalípticos. Mas não cogita ficar invisível no filme só por que o resto do mundo estava olhando para o outro lado.

Não devia doer, mas dói. E, antes de eu me conformar com o papel de árvore de cenário atrás do último coadjuvante mudo de uma história ruim, uma musiquinha bonita para salvar a vida dos seres humanos que passaram a semana inteira fazendo sombra na sombra.

Gente, pára tudo. Alguém lembra qual foi o dia em que eu peguei o avião e fui embora da Bahia? Lembra? Pois é, foi na quarta-feira de cinzas. Não é segredo pra ninguém que eu gosto de Carnaval  e que não iria a lugar nenhum antes de ver o Ilê passar. É verdade que eu também não me lembro qual foi o último Carnaval em que eu não trabalhei (no meio da avenida), mas isso são outros quinhentos. Ou seiscentos. Ou novecentos. Enfim, esse é um outro assunto.

O fato é que esse é o primeiro ano em que a pessoa vai estar longe do coro de we-are-the-world-of-Carnaval-we-are-Bahia. Triste. Com o consolo apenas de estar participando de forma indireta – minhas fotos estão de novo na campanha da Secretaria de Cultura e na campanha do Irdeb (alguém viu? alguém viu?). E só.

Até que o ser humano, de repente, fica sabendo da novidade: que a sua ilustre participação não se encerra por aí! A notícia do momento é que a minha gabosa figura está aparecendo nos anúncios festivos do SBT e da TV Aratu todo-santo-dia. Não, não estamos falando de uma foto tirada por mim, estamos falando deste rostinho inconfundível que Deus me deu, filmado em momento de crédulo anonimato, se acabando na bagaceira cabulosa de fim-de-festa-e-fim-de-mundo de um Carnaval qualquer do meu obscuro passado. Em close! Em rede nacional! Putz.

Ótima notícia. Ótimo isso da pessoa deixar de ser lembrada por um trabalho sério e louvável para ter seu santo nome associado às imagens de arquivo da marmita do demônio pegando fogo. Decadência é a palavra que você está procurando? Senhoras e senhores, bem-vindos à minha vida.

Para tentar distrair o respeitável público, vou publicar aqui em baixo os outdoors pra ver se alguém se ocupa de reconhecê-los na rua. E de esquecer do resto.