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Sobre a ignorância

Uma das coisas que mais bestifica e impressiona esta ignorante que vos fala é o conhecimento dos meus amigos e parentes sobre todas as coisas. Todas. Não só no sentido acadêmico, mas também no empírico e banal, o fato é que todas as pessoas com quem convivo sabem mais do que eu, costumam ter mais experiências do que eu, ler mais do que eu, viajar mais, falar mais idiomas, praticar mais esportes e ter mais histórias pra contar do que eu. Incrível isso. Daí, por que mudança de ano é tempo de cultivar as vocações, eu resolvi investigar qual é a minha.

Não há muita opção. Por exemplo, eu gosto de cinema, mas meu conhecimento cinematográfico é parco, de quem escolhe o filme pelo preço da pipoca e sai da sessão duas ou três vezes para atender o telefone. Adoro informática mas, diante de qualquer problema no computador, basto-me a abrir a torre, olhar para as placas e acenar negativamente com cara de ventilador – gesto que, até hoje, nunca conectou nada à coisa nenhuma. Escrevo mal e porcamente, apedrejo a gramática todos os dias e considero o uso correto da crase um mistério insondável. Fotografo lenta como um daguerreótipo e incorro em enquadramentos poucos ortodoxos graças à minha miopia – sim, eu sou míope e não consigo enxergar isso. Tenho pouca habilidade com crianças, ainda menos com os adultos, nenhum refino para a escolha de vinhos e, mesmo os pratos mais simples do cardápio mais básico do restaurante mais tosco, eu nunca vi nem comi, eu só ouço falar. Gabo-me de dirigir bem, mas é mentira: fui reprovada três vezes no teste de habilitação e autuada em quase todas as infrações disponíveis (velocidade, contra-mão, estacionamento proibido, sinal vermelho, carteira vencida e velocidade de novo), o fim de cada troca de pneus parece um pós-guerra e sempre, em qualquer situação, os meus motores morrem junto com seus 59830 cavalos (se os números não são estes, nenhuma importância). Comento o noticiário com o aprofundamento histórico-político de um samba-enredo: gosto de falar sobre Lula, sobre economia e sobre coerência política no Brasil, ainda que não consiga encaixar as palavras Lula e coerência num mesmo período. Não sei de música, não leio partituras, não toco violão, não toco piano, não bato palmas enquanto canto parabéns, entendo pouco de composições, sei que Beethoven era surdo, Bach era órfão, Morzart era louco, Chopin era turbeculoso – e eu não vou nada bem. Sou uma cristã confusa: nunca sei se quem fugiu do Egito foi Davi ou Moiséis ou Zacarias ou Malaquias, se Abel era agricultor e Caim era pastor ou virce-versa ou nenhum dos dois era nada disso e disperso-me nas leituras procurando por vestígios de onde Judas perdeu as botas, dos escravos de Jó que jogavam caxangá e de outros fatos e personagens que, para minha surpresa, nunca constaram nas Escrituras. Todos os meus conhecidos exibem alguma medalha ou troféu esportivo, só eu não pratico nada, não jogo basquete, nem golfe, nem ping-pong e só entendo como futebol aquilo que preenche o último quadro do jornal quando não há mais nada importante a ser noticiado: fiquemos agora com as notícias do campo, Galvão.

Daí a pessoa pensa, poxa, ela não é talentosa, mas ao menos é esforçada – nem tanto. Sei que poderia e deveria ser uma boa aluna, mas sempre invento uma desculpa pra trocar a faculdade pelo bar – é que eu ando cansada, ando ocupada, ando estranha, ando deprê, não ando por que me atropelaram – e, quando apareço em classe, sou facilmente distraível: uma mosca no ombro do professor é o suficiente para este gênio da raça passar a tarde divagando e sair da aula sem saber da missa um terço. E ainda há os passeios. Todos que viajam comigo são capazes de discorrer durante horas sobre cada monumento, praça, avenida, pedra no meio do caminho com uma intimidade de velhos conhecidos enquanto eu olho a tudo com a mesma cara embasbacada de quem descobriu a póvora purpurinada: não entendo de mapas, rotas, não sei a distância de Salvador para o Rio de Janeiro e sou capaz de me surpreender mil vezes com as mesmas paisagens graças à mesma amnésia que me faz rir várias vezes das mesmas piadas. Também sobre o mundo financeiro meu conhecimento é parco. Costumo aplicar meu salário na bolsa, mas a minha nunca me rendeu nada além de chicletes, clips e os meus próprios documentos. Suponho que as baixas do dólar, do euro e da libra não estejam vinculadas às leis da gravidade, mas não posso dizer que sei o motivo e estou certa de que esta confusão numérica compromete a minha vida financeira – mas não falemos de dinheiro, por que não se fala de corda em casa de enforcado. Aí a pessoa, por benevolência e boa vontade, pode pensar, poxa, ela não tem conhecimento formal mas deve saber tudo sobre amenidades – piorou. No campo da moda, nunca desvendei o que faz um acessório A não combinar com acessório B,  a menos que este venha seguido do acessório C e por que raios a ordem dos fatores pode alterar o produto. Sempre durmo durante as novelas e não entendo de celebridades, sei que uma atriz tal casou com o apresentador de TV, que a modelo casou com o jogador de futebol e que o cantor casou com a dançarina, mas se alguém misturar os elementos e oferecer-me uma nova combinação, irei aceitar pacificamente como se não houvesse opção anterior. Sobre programas de auditório, a minha única curiosidade é: por que as pessoas vão pra lá se poderiam assistir a tudo pela televisão? Não sei de maquiagem, nem de decoração, nem de costura, nem de nenhuma dessas atividades que tenham como princípio básico o bom gosto por quê, como a gente sabe, gosto é que nem braço: tem gente que nasce sem. Mas me sinto próxima das ciências, considero o mundo da biologia fascinante, adoro os vegetais (palmito), os animais (bife) e os minerais (ouro). Empatizo também com a medicina alternativa, com a sociedade alternativa e com os blocos alternativos, sou adepta de diversas filosofias e simpatizo com muitas atividades, mas entendo pouco sobre elas. Conheço muito pouco sobre muita coisa. E não sei qual a minha vocação.

Daí, depois de tantas hipóteses levantadas, opções descartadas e talentos inexistentes, eu nunca chego à conclusão nenhuma, além do óbvio: que eu não sei nada de nada sobre coisa alguma. E que, talvez por isso mesmo, a única atividade  que pode restar à vida de uma pessoa desinformada de todos os fatos seja justamente essa: falar sobre eles. Por quê? Por que é mais fácil. Destino de peixe que nasceu dentro d’água é não reconhecer a água, ninguém se pergunta sobre o que sempre existiu. Só o iniciante possui um olhar desacostumado, perguntas desconcertantes, cara de turista deslumbrado na rua onde os outros sempre moraram, mania de falar do óbvio como se não fosse óbvio – às vezes, não é mesmo. Quem compôs a Quinta Sinfonia foi um surdo, quem escreveu Sampa foi um baiano, só alguém inadaptado chegaria à sua mais completa tradução. Só o novato segura o banal com as duas mãos. E, dentro da ostra, vê a pérola.

É isso. Suponho que a desinformação também possa ser um dom. Às vezes eu acho que a única coisa útil que eu posso fazer da minha ignorância é contar histórias.

Primeiramente, antes de te falar sobre o que interessa, eu vou contar uma história. Mais uma história. É sobre uma notícia que eu li outro dia no jornal, o caso da rede de supermercados Jumbo, famosa por aqui, que proibiu a venda do livro A Casa dos Budas Ditosos em suas lojas. O argumento era simples: eles não consideravam o conteúdo adulto do romance apropriado para as prateleiras de um mercado de família e resolveram não vendê-lo.

Acontece que o autor do livro é o João Ubaldo Ribeiro e a censura pegou mal. A mídia considerou o veto abusivo, os consumidores acusaram o supermercado de tirania, escritores protestaram contra a censura, os ânimos se exaltaram e a Casa dos Budas virou casa da mãe joana. Em vão. Por que não adiantou de nada e o carregamento da publicação voltou fechado e selado para a editora.

Eu, que já havia lido o livro, nem vou entrar aqui numa de aprovar ou desaprovar o conteúdo, por que essa não é a questão. A questão é que vivemos numa democracia. E tirania seria obrigar um supermercado a vender um livro, correto? Até onde eu sei, o Jumbo é uma propriedade privada e pode colocar ou retirar de suas prateleiras o que bem entender: o mercado não quer vender o livro? Tudo bem. O mercado não quer vender cadernos? Tudo bem. O mercado não quer vender arroz, sabonete, banana nem abacaxi? Tudo bem, tudo ótimo, ele tem todo o direito de não vender o que quiser. E a concorrência tem todo o direito de tirar proveito disso.

Mas o que me intrigou mesmo foi o fato desse desgaste de imagem ser completamente desnecessário para o Jumbo. Imagino que o supermercado teria milhões de formas de evitar a polêmica, de não vender o livro sem censurar o livro: era só aceitar o carregamento e deixá-lo no depósito. Ou trazer do depósito e deixar no fundo da prateleira. Ou colocar na prateleira que fica depois da sessão de jardinagem – enfim, há mil maneiras de boicotar um produto sem levá-lo às manchetes de jornal. Mas o Jumbo fez a censura publicamente e, depois disso,  A Casa dos Budas Ditosos nunca vendeu tanto. Sorte do Ubaldo.

Pois bem. Eu estou dando essa volta toda para falar sobre o fato de ter sido bloqueada no MSN.

Por motivos diversos, existe uma pessoa que não quer falar comigo. E o caminho mais fácil para qualquer insatisfeito seria este: brigar, gritar, fazer estardalhaço, mas não – essa pessoa simplesmente me bloqueou no MSN. Só alguém que estudou marketing faria isso.

Eu sei que estou sendo tratada como um livro rejeitado graças ao meu conteúdo impróprio e estou aqui para reclamar o meu direito à polêmica. Eu compreendo plenamente as razões pelas quais eu estou levando um gelo e por que a minha doce existência está sendo ignorada por tempo indeterminado, mas, para começo de conversa, é preciso esclarecer um detalhe: quem é infantil e estúpida não sou eu. É a minha gêmea má. Todo mundo sabe que eu jamais faria as coisas que eu faço. Minha tentativa de hoje é de esclarecer o óbvio – que eu estou errada, que ele está certo, you know, I’m no good – e mobilizar a solidariedade alheia, afinal, quem nunca na vida se chateou com as atitudes loucas de um amigo sem-noção que atire a primeira pedra. Nele, claro.

Meu pedido é o seguinte: meu caro, por favor, esqueça tudo o que eu fiz e vamos investir na velha fórmula: falta de vergonha + falta de memória que vem dando certo há tantos anos de amizade e brigas e verões passados ao lado desta idiota que só perde o cargo de pessoa mais idiota de todos os tempos por que tem amigos incríveis. E os amigos salvam tudo. Pra eu resgatar a minha dignidade do subsolo e usufruir desta preciosa convivência digital da qual fui privada durante os séculos e séculos deste último mês, eu faço o quê??? Eu preciso mudar de conduta? Ok. Eu preciso te pedir desculpas? Ok. Eu preciso me humilhar publicamente na rede mundial de computadores? Ok, ok, não vamos economizar chibatadas, mas me desbloqueie. Me desbloqueie da droga do MSN por que ser deixada neste depósito empoeirado é uma meerdaaaaaaa.

É isso. Sinto a sua falta. Feliz aniversário.

Babel

Visto da Terra, o céu é azul.
Vista do céu, a Terra e azul.
Será o azul uma cor em si ou uma questão de distância?
Ou uma questão de nostalgia?
O inatingível é sempre azul.
(Clarice Lispector / A Descoberta do Mundo)

 

Há dias em que desvio do caminho de casa, tomo outro bonde e passo pelo Carmo só pra lembrar às minhas pupilas fatigadas o quanto essa cidade é linda. Como a minha. Daqui de cima, às vezes lembro do Pelourinho, da época em que me pagavam pra fotografar os cortejos afro desfilando. Me mandavam pra cima de uma torre de tv ou pra o topo de um casarão e eu ficava lá, esperando. Se o cortejo atrasava, eu ficava lá por horas, tardes inteiras olhando os telhados, os pombos pousando do meu lado e o salitre embaçando a lente da máquina.

Quando se olha um bairro antigo de cima, você perde a noção de momento histórico. Por que, se aquela panorâmica fosse fotografada em preto e branco, ninguém saberia se datava de hoje ou de 1970 ou 1910 ou 1880. Nessas horas você entende que está de passagem, mas que aquelas paredes vão ficar um pouco mais. De cima, tudo parece pequeno, pessoas, carros, problemas, é tudo uma repetição do que sempre existiu, nossos ascendentes e descendentes  passaram e vão passar por aquelas ruas. E as ruas vão ficar. E a proximidade com aquela eternidade de cimento e pedra era sempre o início de uma letargia que me lembrava uma entrevista com um médico da NASA, explicando por que muitos astronautas enlouquecem quando voltam pra casa: “Eles perdem a noção do tempo e ficam sem metas na vida. Depois de ver a Terra do céu, o que mais uma pessoa pode desejar?”. Eu entendia. Eu aceitava. E me deixava ficar no cume do mundo por quê cedia àquela hipnose: quem chega ao topo não quer mais voltar, quem vislumbra um horizonte infinito não quer voltar à um horizonte finito, não quer caber num quadrado restrito no tempo-espaço. Cede à tentação da promessa de eternidade, a maçã de Eva, a Torre de Babel. Depois de algumas horas na torre, eu também não queria voltar.

Até que o chão trepidava forte com os tambores se aproximando e eu acordava do transe, correndo louca pra trocar a lente da máquina, toda embaçada.

O que me mata é o cotidiano.
Eu quero só excessões.
(Clarice Lispector)

 

 

A primeira novidade do dia é que eu continuo tendo aulas. Até onde eu sei, quem frequenta escola em janeiro é o povo da recuperação. Mas eu nunca fiz recuperação e o único ganho que eu tinha nisso era não passar os primeiros dias do ano em sala de aula. Estamos em janeiro e a meta da minha vida é encontrar um outro bom motivo para não ingressar na recuperação, na repetência e nas reprovações em geral. Chego à faculdade e a segunda novidade do dia é que meu querido colega assisti-Glossip-e-lembrei-de-você hoje não sentou do meu lado, não ofereceu drops nem perguntou mais por que eu não quero acompanhá-lo ao cinema – por que eu não estou interessada, por que meu namorado é ciumento, por que você usa moccassim, por que hoje é terça-feira, por que, por que… eu continuaria esta lista indefinidamente, mas costumo resumir num não – só que hoje ele fez diferente. Apareceu na aula de mãos dadas com uma colega e disse que está NAMORANDO. Como assim, meu filho? Você não estava mendigando a minha atenção em troca do céu, da lua e das estrelas diante da faculdade inteira, tipo, anteontem? Hã? Esquizofrenia, a gente vê por aqui. E como já é o segundo caso nessa sala, minha teoria sobre o assunto é:

a) Eu atraio gente precavida. Gente que observa o meu temperamento difícil, prevê poucas chances de êxito e já se aproxima de mim com um plano B. Aí é só eu dar um espirro que eles tiram a carta dourada da manga – a-ha! não contavam com minha astúcia!
b) Eu atraio gente carente. Gente que precisa de um namoro urgentemente na veia em doses verticais sem prescrição médica nem exames de segurança – alguém me diz sim se não eu morrooooo!!!
c) Eu tenho jeito pra cupido. Não, não tenho.
d) Hipótese mais provável: eu tenho um dom! Ciganinha Miranda, trago o seu amor em 3 dias! É só chegar perto que a sua alma gêmea aparece! Ligue-jah!

Enfim, vida acadêmica é assim, a gente não aprende nada, mas se diverte. A aula começa e o professor distribui o calendário do próximo semestre, onde me foi possível antever os feriados que caem em dias de sábado (pânico!) e em dias de domingo (horror!). E o mestre ainda adianta que teremos aulas extras devido as recentes festas de Natal e Ano Novo. Claro. Afinal, estes feriados não poderiam estar previstos no calendário por que não são fixos, aliás, eles podem acontecer a qualquer momento, você está no meio do expediente e sai um comunicado institucional – por determinação do poder público, estão todos liberados a partir das 12h e hoje serão comemorados os festejos de Natal. E pronto. Ou imagino que não poderia ser diferente por uma questão de adaptação, já que meus professores já têm seus cronogramas de trabalho definidos desde o período pré-cristão e essas mudanças estruturais, a gente sabe, são lentas mesmo. Mas os alunos não concordaram e reclamaram muito. Meu colegas são assim mesmo, incompreensivos.

Aproveito o tumulto pra escapar da aula, dar uma volta no pátio e encontro por lá a aluna de Letras que me apresentaram outro dia. É um ser humano exótico que usa um óculos laranja e só veste preto com uma meia-calça lilás, fato que, por si só, já era o suficiente pra eu querer ser amiga da figura de graça, mas, além disso, ela escreve artigos sobre um tal Francisco Buarque de Holanda (quem? quem?) e eu realmente acho que a humanidade deve esticar um tapete vermelho pra gente assim. Tento alguma aproximação:
 
– Oi, tudo bem?
– Tudo.
– Aula vaga?
– Pois é, o professor não veio.
– Sei como é. O meu também não. (Mentira)
– Pois é.
– …
– …
– Mas sabe que eu bem imaginava?
– O quê?
– Que não era pra eu vir. Antes de sair de casa, tinha um gnominho no meu ombro me dizendo que hoje não ia ter aula.
– Sei…
 
(Gnominho? De onde eu tirei isso? Tudo bem que eu sou aluna de Comunicação e devo estar apta a ver gnomos, duendes e unicórnios, mas daí falar pra uma pessoa que eu mal conheço que tem um gnominho no meu ombro?)
 
– E você, escrevendo muito?
– Sim. Tinha um artigo pra apresentar hoje, pois, mas o professor não veio.
– Poxa, que pena.
– É…
– …
– …
 
(Não deixe o samba morreeeeeer, não deixe o samba acabaaaaaaar)
 
– Bom, eu acho que vou pra casa.
– E eu vou pra aula. Quer dizer, ver se vai ter aula.
– Certo, até mais.
– Até.
 
E a cada dia eu me convenço mais da minha pouca habilidade pra me relacionar com as pessoas. Tudo bem que eu não saiba lidar bem com silêncios nos diálogos e que eu também não saiba lidar bem com as palavras nos diálogos, mas, o que é isso, minha gente? Precisava chegar à lisergia onírica de um gnominho no ombro? Não, não precisava. Volto pra aula. Lá acontece um debate sobre o movimento separatista ibérico, que ocasionou a fundação de Portugal, depois a discussão resvala para o movimento que separou o Brasil de Portugal e outro que, agora, quer separar o Sudoeste e o Sul do resto do país. Participo ativamente do debate por que sou grande simpatizante dos movimentos separatistas. Se eu morasse em Portugal naquela época, também ia querer que o país se separasse da Espanha. E ia querer que a minha cidade se separasse do resto de Portugal. E que o meu bairro se separasse da minha cidade e que o meu prédio se separasse do meu bairro e que o meu apartamento se separasse do meu prédio. Claro. Os separatistas estão certos: o ser humano precisa é de espaço! Para comprovar a minha tese eu poderia renunciar à proximidade física com os meus colegas, pegar minha mochila e ir mais cedo pra casa exercer o meu direito à individualidade geográfica, mas fiquei para assistir à briga no fim do debate. Até por que são momentos como este que me fazem investir em matrícula de faculdade: seis meses de entretenimento garantido ou seu dinheiro de volta! Eu paguei inteira e quero ver até o final!

Daí voltei pra casa repensando aquela história de que eu só vivo aos fins-de-semana e que nos dias úteis eu morro de tédio. Não é verdade. Mas é quase verdade. Olhando para o meu dia de hoje, eu realmente acho que só 2/7 do meu tempo é interessante. Os dias comuns é que me matam.

Saga Lusa

“Casaco, cachecol, um camisetão pro caso de eu ter que passar a noite no hospital, o encarnado, que é mais bonito, e o perfume, claro, que não estou morta, ainda. Cartão de crédito, carregador de celular é importante, batom, para alguma emergência, caramba, como sou prática, se tem alguém em quem posso confiar é em mim mesma. Flores para Tania. (…) Flores para Tania é uma piada interna. Quando faço uma coisa muito legal, Susana diz Flores para Tania! Tania é a minha psicanalista, coitada. Mas, às vezes, dependendo do que eu tenha feito, Susana manda uma cruz de ferro para Tania. Algumas vezes mandou flores em corbeilles com os dizeres Saudades de Tania. Mas nunca achei justo.”

(Trecho de Saga Lusa, de Adriana Calcanhotto. No livro, a cantora narra os problemas psicológicos que sofreu durante uma turnê em Portugal, aonde cancelou shows e entrevistas)

 

– Quer dizer que este rapazinho já conheceu o Brasil?
– Sim.
– E você gostou de lá?
– Gostei.
– E o que você mais gostou no Brasil?
– Lá, o assento dos vasos sanitários é acolchoado.
– Ah…

O quinto andar

– Mariana, o chefe pediu pra perguntar se você se importa que de que a diretoria tenha acesso irrestrito aos seus dados. É que a empresa está implantando um novo sistema de segurança, onde ele terá acesso aos seus e-mails, telefonemas, agenda e também será instalada uma câmera em cada sala para acompanhar o movimento durante o horário expediente, mas ele precisa  do ok de todos os funcionários. Por você, tudo bem?

Por algum motivo essa pergunta hoje de manhã me lembrou a época em que eu cheguei aqui em Portugal. Fazia muito frio, eu não conhecia ninguém, não entendia nada que os portugueses falavam e a minha única chance de conversar com alguém era o msn. Graças ao horário de verão, a diferença de fuso era de 4 horas, ou seja, quando todos os meus contatos do Brasil chegavam do trabalho e acessavam o computador, aqui já era madrugada. Nesse período eu morava num albergue, num prédio muito antigo, meu quarto era no quinto andar e a sala de informática era no térreo. Fui avisada que as luzes e os elevadores eram desligados sempre à meia-noite. Quando meus contatos estariam entrando no msn.

Eu tinha três alternativas:

a) Não entrar no msn e morrer de solidão;
b) Dormir na sala de informática e morrer de frio;
c) Ficar no msn e depois, no meio da madrugada, subir as escadas de madeira de um prédio centenário até o quinto andar. No escuro.

Acrescentando um detalhe ao enredo: eu tenho medo do escuro. Sério. Eu não tenho medo de barata, nem rato, nem de fantasma, nem de ladrão, nem do Roberto Justus, nem do imposto de renda, mas tenho medo do escuro. Muito. Fobia. Eu sei, eu sei, maluquice pouca é bobagem.

No primeiro dia eu deixei o computador de lado, fui para o meu quarto à meia-noite e virei um verme no chão do fundo do poço da depressão. No segundo dia eu dormi na sala de informática abraçada a um aquecedor portátil batendo o queixo feito um cortador de grama e quase morri de hipodermia. No terceiro dia, eu não tinha outra alternativa. Eu tinha que subir as malditas escadas. Já disse que eu tenho pânico do escuro? Pois é. Já disse que eu tenho pânico, agonia, desespero, terror do escuro? Pois é. Não me pergunte como eu cheguei lá em cima.

Daí a pessoa sobe correndo, entra ofegante no próprio quarto, bate a porta e pensa: o pior já passou. Mas o pior não tinha passado. Por que no dia seguinte eu teria que subir as escadas de novo. E no outro dia também e na semana seguinte também, no mês seguinte, todo dia eu ia ter que passar pelos cinco andares daquela espiral dentada das trevas SOZINHAAAA!! SOZINHA, MEU DEUS!!! Era o mundo se acabando em fogo, pranto e ranger de dentes TODO SANTO DIAAAA!!! Mas eu não tinha outra alternativa.

Até que, um dia, eu consegui um quarto em outro endereço. E comprei um notebook. E fui embora do albergue. E a imagem da felicidade platinada era este ser humano acessando o msn de qualquer lugar, no quarto, na sala, no banheiro, na rua, na chuva, na fazenda e teclando na mesa, no chão, no colo e passando a noite on-line e dormindo com o computador no travesseiro, babando em cima e chamando de meu bem. História linda. Final feliz. Mas isso faz algum tempo. E eu nunca mais tinha pensado nesse assunto, até hoje de manhã, na reunião. Acho que toda vez que alguém me fizer uma pergunta que não me dá nenhuma liberdade de resposta, nenhuma opção, nenhuma outra alternativa, eu vou sentir esse frio na espinha de quem vai subir uma escada no escuro.

Top 10

Respeitável público de meia dúzia de leitores,

blog fez um ano e era pra eu comemorar com um post de avaliação, mas… enfim, não postei. Como ao longo do ano rolaram algumas perguntas (por scrap, por e-mail e ao vivo), daí eu fiz um top 10 das dúvidas mais frequentes e respondi, pra não passar em branco. Daí, se aparecer qualquer outra dúvida, é só mandar que eu respondo. No aniversário de 2010.

1 – Por que o blog não tem galeria de seguidores, banners e outros adereços? Por que o wordpress é meio pobrinho. Pensei em mudar para o blogger, mas não sei se vale a pena perder esse endereço. Não sei o que fazer, não sei o que fazer…

2 – Por que demora tanto de atualizar? Por que a idéia inicial era de um post por semana (é que eu tinha aula de jornalismo digital uma vez por semana). Sugestões?

3 – Por que o layout é tão feio? Por que… fui eu que fiz! Hahaha! Ok, vou trocar.

4 – Por que você não responde aos comentários? Por que isso é contra a minha religião. Adoro todos os comentários comédia, mas se eu respondesse perderia a graça. Talvez por isso tanta gente comente por e-mail. (Vocês alegam privacidade, mas eu sei o que o povo quer é feedback).

5 – Por quê meu nome não apareceu naquele texto? Bem, eu tento não citar nomes por por que tem muito psicopata na Internet (coloquei meu endereço aqui e vi no que deu). Mas você é esperto e vai perceber quando eu estiver falando de você.

6 – Por quê você não escreve mais sobre os temas políticos? Bem, eu até cometo esse pecado às vezes, mas é que essa não é a proposta. A proposta é reclamar da vida! Preciso manter o foco no meu umbigo, entende?

7 – Por quê não temos mais aqueles longos textos dor-de-cotovelo por aqui? Por quê quando eu publicava sobre a minha vida sentimental na Net tudo dava absolutamente errado pra mim. Daí parei de publicar, apaguei alguns posts e tudo passou a dar absolutamente certo! Logo, concluo: de quem era a culpa por todos os infortúnios-azares-desprazeres da minha vida particular? Do blog, claro! Daí agora esses textos vão para a gaveta dos impublicáveis – lugar seguro, tranquilo, com cachorro na porta, essas coisas.

8 – Por quê você não escreve mais contando das viagens? Por que eu sou facilmente impressionável, por que os textos viriam cobertos de açúcar, por que eu acho que vocês iriam odiar! E também por que a proposta do blog é reclamar da vida. Não podemos perder o foco, galera! Lamentar, implicar e maldizer! Deixa os relatos de viagem lá, na gaveta dos impublicáveis.

9 – Por que você escreveu Funtana com O? Por que eu sou meio burra. Sério. Se der pra mandar uma mensagem sugerindo a correção, ótimo. A boa gramática agradece.

10 – Por que você apagou aquele comentário? Eu não apago comentários. E tenho até uma curiosidade sobre eles: por que o número de comentários de um post é sempre inversamente proporcional ao de visitas? O texto aparece lá, abandonado, ninguém comenta o coitado, mas é sempre nele que as visitas estão bombando! Por que quando eu conto algo estritamente pessoal a audiência aumenta? Por que os visitantes anônimos insistem em continuar anônimos? Por que o céu é azul, os pássaros cantam e as crianças rolam na relva? Por que, meu Deus, por que?

É isso, espero que tenha ajudado, galera. Aquele abraço.

Se existe uma coisa em comum entre minha avó paterna e eu é o fato de sermos impulsivas, passionais, mas facilmente distraíveis. Tipo: ela pode estar arrasada, na fossa, na pior, em prantos cataclíticos, daí toca o telefone – alô? – pronto, já esqueceu. Eu posso estar enfurecida, fora de mim, pronta para esganar, matar, destruir, com instintos assassinos XXL – mas, menina, que gravata feia é essa do Lula? – pronto, passou. Ela sempre foi assim, eu sempre fui assim e acho que só não temos casos de homicídio na família graças a isso.

O fato é que, estes dias, fui vítima de um roubo. Eu estava entrando num bonde quando um gajo resolveu pegar a carteira do meu bolso e sair correndo. Ninguém merece. Mesmo. É que já passei por sequestro em Salvador, apedrejamento no Rio, golpe em Barcelona, furto em Viena e tudo o que me acontece reforça a minha teoria de que, basta eu pisar numa cidade, para o alerta marginal circular: OTÁRIA NA ÁREA, OTÁRIA NA ÁREA, FAÇAM FILA, UM DE CADA VEZ!!! Pulo do bonde atrás do ladrão ladeira abaixo xingando o cara de todos os nomes, gente na rua, confusão, ele na frente, eu atrás, ele correndo, eu morrendo, vergonhosamente ofegante, até abdicar de vez do troféu São Silvestre e ir logo para o banco pra cancelar os cartões. É que minha larga experiência no assunto me diz que essas coisas devem ser feitas com urgência: ligo para o Brasil pra cancelar mais cartões, ligo para o Sef para cancelar os documentos, ligo para a escolta para procurar o safado, ligo pra minha mãe pra reclamar da vida, ligo para a Carris pra cancelar o meu passe, saio correndo em direção à delegacia para prestar queixa formal e, no meio do caminho… paro para olhar as vitrines. Sério. Viaturas em busca, gente de plantão, o mundo se acabando e eu entretida com uma vitrine!!! Por que eu faço isso? Nao sei. Condicionamento genético, suponho.

Enfim, chego à delegacia – Boa tarde, eu gostaria de prestar queixa de um roubo – Hum? – Queixa de um roubo – três policiais se aproximam, depois mais outro, depois uns curiosos e eu lá, posando de animal exótico. E eles – Um roubo? Como aconteceu isso? Aceita um copo d’água com açúcar? – Não entendi nada. Acho que, na minha costumeira delegacia da Avenida Sete, para alguém me oferecer um copo d’água com aquela cara de espanto eu teria que ir lá prestar queixa por ter sido abduzida por ET’s. Passei a tarde inteira repetindo o que aconteceu, dizendo que eu estava bem e imaginando o por quê daquela comoção toda, já que em Lisboa deve haver assaltos – talvez não naquele bairro, talvez não àquela hora, talvez não em datas ímpares, sei lá – e acho que não me liberaram logo por uma questão de entretenimento, enquanto eu continuava sentada no banquinho do Forrest Gump contando a minha história para sempre. Fui liberada já de noite, com livrinhos de telefones de emergência, conselhos e recomendações à família, quando o meu telefone toca – Olá, amiga, como você tá? – Tô ótima! – O que fez hoje? – Nada, e você? – Nada também – e saio falando sobre qualquer banalidade. Eu sei que é absurdo, eu sei que é loucura, mas quem sou eu pra contrariar a genética humana?? Ninguém, cara, ninguém…

O dia do fico

– Acho que você vai perder o seu avião, baby…
– Eu sei.
(Richard Linklater / Antes do Pôr-do-Sol)

Hoje, às 19:30, eu vou perder o avião. Passei a semana inteira pensando nisso. Até então, eu vivia aqui com a passagem de volta comprada. Ou seja, eu poderia ir para o Brasil quando quisesse: era só chegar no aeroporto, pagar uma taxa no balcão e pedir para me acomodorem em qualquer poltrona vaga no vôo da TAP. Simples assim. Tão simples que bastava eu ter um problema qualquer por aqui (não foram poucos) pra eu dar um chilique, pegar meu passaporte, dizer que ia embora para casa e sair arrastando a mala pela rua maldizendo o frio, as pessoas, a cidade, o país e a Europa inteira até alguém ir correndo atrás pra me lembrar da faculdade, do trabalho, do aluguel e do fato de eu não ter mais 12 anos de idade. Enfim. Não que eu desistisse, eu adiava. E nunca terminei de desarrumar a mala.

Só que a passagem expira hoje. E, de amanhã em diante, voltar pra casa significa consultar os vôos, escolher uma nova data e comprar uma nova passagem. Decisões que exigem vontade, algum dinheiro, organização, planejamento e maturidade. Na falta do resto, fica só a vontade.