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 “Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás.”
(Chico Buarque)

 

Depois da quinta noite trancada do lado de fora do albergue por ter chegado depois da meia-noite, decidi: chegou a hora de arrumar as malas. Quer dizer, não foi bem assim. E talvez nenhuma conclusão na vida da gente seja assim, tão repentina, mas um somatório miúdo de conclusões diárias que se amontoam num canto, se espalham no quarto, invadem o corredor e, quando você se dá conta, já te colocaram para fora de um jeito que não dá mais para voltar.

Pois bem, convicta ou não, lá estava eu batendo na porta de novo, em outra madrugada glacial, feito uma das noivas com lâmpadas a óleo, biblicamente falando. E, para meu desespero, nenhum sinal de São Pedro.

Mas, como eu disse, nada começou por aí. Houve primeiro essa história de chuveiros coletivos. Chuveiros não, duchas! A diferença é que ela não é fixa na parede. Você tem que passar o banho inteiro segurando aquela mangueira porque, se soltar, ela vira uma cobra d’água enlouquecida e molha tudo. Ou seja, com uma mão você segura firme a ducha acima da sua cabeça e, com a outra, você abre a embalagem do shampoo, põe ele no cabelo, faz espuma, passa o sabonete, tira o shampoo, coloca o creme, tira o creme, conseguiu imaginar? Nem eu. E como tenho enxugado chão na minha vida.

O segundo problema é que, no meio do banho, você corre o risco de algum hóspede mais distraído desligar o aquecedor. E a água ficar completamente ge-la-da instantaneamente. Nunca me recuperei do susto.

Por fim, e não menos importante, há a interferência dos vizinhos de corredor, sempre muito amigáveis e participativos – Oi, tudo bem? Já vais tomar outro banho? Mas já é o segundo! Estás a sentir calor? Mas faz tanto frio!

Enfim, acho que o lado ruim de um banheiro coletivo é mesmo a falta de privacidade. E qual o lado bom? Não me ocorre nenhum agora.

Não que a hospedaria, de maneira geral, seja má. O edifício europeu, o salão com piano, a lareira, a biblioteca, os sofás de veludo, tudo me traz a lembrança nítida de um tempo que eu não vivi – e já me despeço deles com saudades antigas. Mês que vem parto para outra morada, dividida com colegas da faculdade. Sem o mesmo conforto, mas com alguma autonomia. Numa bagunça enorme, mas sem horário para chegar. E, se Deus quiser, com um chuveiro de verdade.

Na cantina:

– Boa tarde. Qual o cardápio do almoço de hoje? Tem frango?
– Não, senhora. Só temos boi, porco e galinha.
– Pois então. E quanto custa o almoço?
– Depende.
– Depende de que?
– Tu estás a cursar licenciatura, mestrado ou doutorado?
– E o preço varia com a graduação, é?
– Sim, senhora.
– Pois bem, eu sou do mestrado. Quanto fica?
– Depende.
– Depende de que??
– Tu vais comer disposta nas mesas ou de pé no balcão?
– E faz diferença?
– Sim, senhora.
– Oxe! Pois vou comer aqui no balcão, moça, exatamente neste lugar onde estou agora. Deve ser mais barato, né? Imaginei. E quanto ficaria?
– Depende.
– Depende de quêêê???
– De qual for o seu pedido, pá!
– Ah, sim. Eu quero o de frango mesmo.
– Senhora, não insista. Como já disse-lhe, só trabalhamos com boi, porco e galinha, pois. Que queres?

Feira dos Imigrantes

Sabe Osama? Achei...

Sabe Osama? Achei...

Falavam alemão. Eu juro!

Falavam alemão. Eu juro!

E as vendedoras da barraca usando burca preta... oh, desperdício.

E as vendedoras da barraca usando burca preta... oh, desperdício.

E alguém já viu um pinheiro violento?

E alguém já viu algum pinheiro violento?

Sobre Ruas e Filmes

Eu poderia dizer que o que houve foi um destes casos de afinidade à primeira vista, empatia recíproca, conspiração universal ou qualquer outra coisa que desse certa aura dourada a este primeiro encontro, seria bonito dizer, por exemplo, que nos ligamos instantaneamente por determinação cósmica. Mas não. Catando na memória cada gesto de aproximação, cada palavra de hospitalidade, de troca, esta arte delicada e cansativa de conhecer o outro e se fazer conhecido pelo outro, penso  que o laço denso que nos uniu tão imediatamente era outra coisa, não menos nobre que a empatia imediata, mas um outro laço, talvez mais primário e estreito, que é a capacidade de um ser humano identificar no próximo a sua maior lacuna, de reconhecer no outro exatamente o que mais lhe dói. No nosso caso, a solidão.

Por solidão ou por empatia, talvez nem importe, éramos estranhos uns aos outros e ao meio – e quem olhasse de fora saberia, por que os recém-chegados todos do mundo, desde os tempos de Adão, trazem nos olhos esta mesma mistura de encantamento e desamparo diante do comum, esta surpresa eufórica diante do banal – e o brilho dos nossos olhos era o mesmo. Também comuns e banais, falávamos sobre nossas vidas, tateando personalidades, gostos, passados, descobrindo aos poucos trilhas parecidas, histórias quase próximas narradas por sotaques longínquos entre si. Éramos quatro estrangeiros tentando mapear não só as ruas da cidade confusa, mas uma outra rede de caminhos entrecortados –  os nossos. E a esta conhecidência de destinos chamamos, apressadamente, de amizade.

Passávamos pela Baixa, próximos ao Elevador de Santa Justa, numa tarde gelada onde uma multidão dividia espaço: portugueses vendendo doces gigantes, árabes tocando alaúdes, nigerianos enormes em seus casacos de pele e, por fim, os indianos. Sempre em grupos, descendo as ladeiras com suas túnicas, batas e véus, como se não pisassem no chão, aquela revoada de tecidos coloridos e fios de ouro que dá a qualquer ser humano um ar sagrado de entidade mística e inatingível. Paramos para olhar, ofuscados. Depois que os indianos passam, todas as ruas do mundo parecem cinzas e sem graça.

Logo estávamos no Carmo. E, no meio de tanta gente, de tantas vozes, de tantas luzes, por que tudo parecia ter a perfeição do cinema ou por que aquele emaranhado de avenidas foi mesmo o cenário de alguns, surgiu a idéia:

– Um filme para cada rua, ok?
Era fácil. Na primeira rua um casarão anunciava quartos:
– Gand’Hotel!
Os homens conversando nos bancos da praça:
– Forrest Gump!
As ruas de calçamento amarelado:
– O mágico de Oz!

Entrávamos e saíamos por becos, esquinas, atalhos, distraídos em encontrar pistas, símbolos, vestígios de nossa única memória em comum: o cinema. Depois de citar títulos, descrever cenas e lembrar atores, já era noite quando chegamos a uma rua deserta:

– Lost.
– Não tem nada a ver. Ainda mais, esse é seriado, não é filme.
– É sério. Acho que estamos perdidos.

E estávamos. E, como ninguém havia lembrado de jogar pedaços de pão pelo caminho, o que era comédia foi virando suspense. Era inútil pedir informações, todos os pontos de referência nos eram desconhecidos. Uma hora depois já andávamos de metrô, achados e seguros, mas antes, um pouco antes, enquanto ainda estávamos ali, naquele momento, sentados na calçada, perdidos naquela noite fria, falando de nós e do nosso encontro tão casual, dessa sensação dura de sermos assim anônimos num continente estranho, num planeta ao acaso, repleto de tantas gentes, de tantos mares, de tantas terras, diminutos na imensidão, irrelevantes na paisagem, caminhando do pó ao pó absolutamente sozinhos, absolutamente primários, absolutamente humanos, foi que olhei para cima buscando por Deus no mais profundo daqueles céus e me perdi num escuro de mim que até hoje me procuro por lá.

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faculdade-11

Primeiro dia de aula:

– Professor…
– Sim?
– Na minha faculdade, lá no Brasil, os livros que o senhor escreveu faziam parte da bibliografia obrigatória. 
– E tu leste os meus livros, então? Cerca de quantos?
– Três.
– Então, neste caso, posso fazer-te perguntas sobre estas obras, correto?
– Sim, acredito que sim…
– Responda-me, então…. Acaso sou eu mais belo pessoalmente ou na foto disposta no prefácio?
– Como?

Pródiga

E tudo aquilo que eu entendia como saudade, exílio, a falta da minha terra, das minhas ruas, da minha gente, esta dor quase física de membro arrancado que ardia a cada esquina daquela cidade estranha, tudo isso na fala daquela moça era uma certeza mansa, uma sina, um destino simples, duro, pródigo, uma aceitação plena de caber-se inteira em seu lugar a qualquer tempo, hoje, amanhã ou depois, sendo ela mesma o pedaço prometido da terra que a aguardava – não hei de morrer sem voltar aos meus, gaja, ao chão dos meus pais, ao pó do chão natal. E ia tirando do bolso uns papéis, mostrou-me num mapa uma ilhota no Atlântico, São Tomé de Príncipe, perto da Nigéria – é longe daqui, muito longe. Também abri minha bolsa, mostrei-lhe fotos, postais, registros, fósseis de uma civilização inteira que agora vive sem mim, tudo sobre a mesa, a alma exposta. Com a mão negra escolheu um objeto, trouxe a mim e apontou para perguntar:
– Mas, diz-me, e essas chaves? São do teu alojamento?
– Não. São da minha casa.
– Acaso levas em punho as chaves de tua morada no Brasil?
– Pois é, esqueci de guardar.
– Ah, sei. Entendo que leve-as assim, rapariga. A nós, estrangeiros, nunca sabe-se quando há o ponto de regressar. Tens sorte, gaja. Ainda tens as chaves de tua casa.

Chegada

O primeiro problema não é a saudade, nem é o sotaque, nem é a Polícia Federal. O primeiro problema de quem chega aqui, sem dúvida, é o banho. Laguei a mala, peguei minha sacolinha e fui para o banheiro – coletivo. Depois de tirar o primeiro dos 6 casacos, comecei a me perguntar o que foi mesmo que eu vim fazer tão longe de casa.  O frio congelando os meus músculos, nervos e ossos de uma vez só feito um x-man, último episódio – poderes do ártico, avançar! – acho que foi o banho mais demorado da minha vida. Aqui, não tirar a roupa é uma questão de sobrevivência. O que, aliás, me fez refletir: qual é mesmo a dificulade dos cientistas para explicar o decrescimento demográfico nos países europeus? Bom, mas isso já é um outro assunto.
 
No corredor, algumas estudantes conversavam numa linguagem que eu acredito que jamais, em toda a minha vida, vou conseguir compreender. Volto para o meu quarto onde há um guarda-roupas de mogno, um chão de carpete e um bidê –  não, eu não me hospedei num museu – e reforço a armadura anti-poderes-do-ártico até me sentir, mais ou menos, como os astronaltas devem se sentir dentro de suas roupas. E desço para o almoço.

– A que horas sai o almoço?
– Opa, nós não servimos almoço. Só um pequeno almoço e um  jantar.
– Tudo bem, pode ser um pequeno almoço mesmo, não tem problema. Estou com pouca fome – menti.
– Este é servido às 7h, pá. 
– Vocês almoçam às 7h? E a que horas sai o café, às 3 da madrugada?
– Hum? Que disses?
– Nada, eu vou comprar um sanduíche. Obrigada.

Decido escovar os dentes, volto para o meu quarto – esqueci que o quarto não tem banheiro. Volto para o corredor, vou para o banheiro, todas as pias ocupadas. Volto para o quarto. Resolvo entrar na internet, mas no quarto não há tomadas, vou pra sala de informática, acho  um computador vago, conecto, o que é pequeno almoço? Significa café-da-manhã. As pessoas continuam conversando naquele dialeto estranho. Hora de outro estudante conectar, deixo o computador, volto para o quarto. E concluo: num albergue, a questão não é a coletividade. O problema são as pessoas, entende? A coletividade é linda: é politicamente correta, exercita a fraternidade e facilita o surgimento de novas amizades. O que atrapalha tudo isso são os seres humanos. Eles ocupam muito espaço.

Coloco o mochilão nas costas e saio pelo portão. Com uma curiosidade enorme. E uma fome absurda.

Vôo 745

– O passaporte, por favor.
– Pois não.
– Senhorita, essa é a sua carteira de trabalho.
Tudo bem, tudo bem, sem desespero, a Polícia Federal não é o juízo final. Entrego o passaporte, ele sorri, deseja boa viagem e lá vou eu. Nove horas de vôo na classe econômica, o passageiro da frente praticamente sentado no meu colo, 007 passando na tv, James Bond no avião dele, eu no meu. Vamos subindo, as luzes ficando pequenininhas lá em baixo, eu na janela – curiosidade: Salvador é dividida em duas partes, as primeiras luzes são ordenadas, formam retângulos, tipo planilha de excel. O resto é um emaranhado só. Do meu lado, uma cadeira vazia – oh – deitei e dormi. Só acordei com a chegada do jantar, o comissário me perguntando coisas em inglês – hã? – até que, trac, tudo pulou. Turbulência, eu acho. A nave tremendo, as luzes ocilando e aquela ligeira sensação de queda livre, que virou uma grave sensação de queda livre, o comandante no auto-falante: senhores passageiros, apertem os cintos. Não era para ele dizer algo apaziguador, tipo, mantenham a calma, está tudo sob controle? Algumas malas caindo no chão, as crianças chorando e eu tentando comer mas o prato não parava quieto na mesinha. O avião do James Bond pegando fogo e caindo até a hora em que a tv desligou, junto com a luz. E o pior: o meu jantar sumiu! Durou uns cinco minutos, muita gente passou mal. Depois os comissários trouxeram remédios, cobertores, travesseiros e nenhuma comida. – I need comer food. I have fome. I don’t jantei. –  What?  –  Deixa pra lá.
Depois aterrizamos na terra mais fria que meus pés já experimentaram. E eu lá, arrastando aquela mala de 30 quilos pelo aeroporto no melhor estilo Penélope Cruz, em Volver, na cena em que ela passava pela rua com um cadáver inteiro escondido na sacola, de salto, indefectível, meu nome é elegância. Pego a fila para a Polícia Federal novamente, respiro fundo, muito natural, cara de quem faz isso todos os dias:
– Passaporte, por favor.
– Pois não.
– Senhorita…
– Sim???
– Boa estada.
– Obrigado, obrigado.
Nunca tinha chegado sozinha a um lugar onde ninguém me esperava. Ninguém. No saguão, famílias se espalhavam com cartazes, gritinhos, presentes. Faziam festa aos parentes regressos. Nada daquilo era pra mim, eu sei. Mas era como se fosse.

Vocação

Dengue, irregularidades nas eleições, desemprego em 13% e um calor amazônico de 35º. Quem mora em Salvador vai concordar: 2008 foi um ano difícil. Pra quem lê e pra quem faz os jornais. Em outubro, no meio desta confusão, parei para me perguntar se a minha missão era mesmo esta: comunicar. E a resposta não demorou. Estava em João 12:49: “o Pai que me enviou me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre como hei de falar”.

A gente sabe que a principal meta da imprensa é informar. E o cidadão moderno, de maneira geral, está bem informado – mas não sabe opinar sobre o que lê. A maioria das pessoas ignora as causas, as circunstâncias, a influência de cada fato na engrenagem da História. E narrar os fatos já não me bastava. Mas como fazer uma análise mais profunda sobre qualquer assunto numa notícia de 15 centímetros? Era preciso ser subjetiva em uma abordagem objetiva. Mas como? Tudo que se quer na vida é comer o bolo e, ao mesmo tempo, guardar o bolo – e quem souber conciliar as duas coisas, por favor, cartas à redação.

Certa vez, li uma reportagem que narrava uma experiência: quando o cientista colocava um sapo numa panela de água fervente, ele pulava para fora imediatamente. Mas, quando o cientista colocava o mesmo sapo numa panela em temperatura amena e ia esquentando a água aos poucos, ele não notava. Ele se deixava cozinhar. Simplesmente o sapo não percebia a mudança que estava acontecendo no ambiente à sua volta e acabava morrendo. Sem reagir.

Se esta experiência é real eu não sei – e, talvez, nem precise saber. Mas ela me ajudou a entender o que aconteceu comigo. Pois 2008 foi exatamente isso: o ano em que Deus elevou a temperatura do ambiente para o último grau, assim, de repente. E eu, é claro, fui forçada a pular fora. Hoje estou arrumando as malas para estudar longe de casa e acho que estou pronta para esta nova vocação – seja lá o que queira dizer ‘estar pronta’. Vou para aprofundar este tema que talvez seja a tônica da minha caminhada profissional: o jornalismo de opinião. Não dava mais para esperar. Já era hora de aprender como transformar a imprensa em voz de mudança, em ferramenta de Deus, em arma de desenvolvimento social e libertação. Dar poder à palavra. E, quem sabe, transformar o verbo em carne – mais uma vez.

Vou com fé, com esperança e com uma vontade enorme de mudar o mundo. E “orando para que Deus nos abra a porta da palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo.” (Cl 4:3).

* Depoimento publicado no Jornal São Salvador em 03 de fevereiro de 2009.