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Serviço de utilidade pública. Atendendo a pedidos, o celular novo:

(351) 925066099

Obs: acho que até maio estarei usando o 937551331, aquele que comprei no aeroporto. É que depois fui ler nas letrinhas pequenas do contrato:  “chip de operadora caríssima vendido apenas em aeroportos para fazer turista de otário”. Culpa minha, que nunca leio os contratos. No fim de cada ligação, a maquininha gritando: otária, otária, otária!

O endereço: rua Fernando Gusmão, n. 19, bl.5, ap.3D, CEP 1750-428, Ameixoeira, Lisboa, Portugal, quarto da segunda à direita, cama perto da janela.

O meu e-mail é o mesmo. E se alguém pudesse mandar para MIM alguma foto do MEU bota-fora seria ótimo, por que EU até hoje não tenho NENHUMA foto do MEU bota-fora.

Por hora, sem mais. Grata.

 

“Até o último momento
esperei que você me chamasse pelo telefone.
Que você fosse ao aeroporto.
Casablanca, última cena.”
(Caio F. \ Carta)

 

Mais do que nunca este cheiro de cola, selo e tinta me lembra o rumo dos destinos extraviados. No fundo, eu sempre soube: se desencontro tivesse forma, seria uma folha de papel manuscrita, num envelope selado e, certamente, com o meu endereço. Tantos quilômetros depois você me escreve uma carta.  Só agora. E como espera que eu te responda? Com um mapa mundi? Nem abro. Deixo num canto, nego, ignoro. Esqueço.

Não, não esqueço.

Penso em você. No vão de outra tarde vazia, olho da varanda e procuro, procuro qualquer coisa que nunca esteve lá. Me perco pelos quatro cantos dessa casa cheia de cantos, por livros que me prendem o suficiente pra me lembrar o quanto a minha vida não me prende. O fim de mais um dia ártico, esta lembrança preenchendo todos os cômodos como se ainda fosse você tocando sobre o piano, sobre esta nota grave e lenta, você que me sorri, que me estende a mão, que desenha com giz branco sobre o asfalto preto: olha, o mundo começa aqui. Aceito. Quase toco esta ausência plana, a parte que me falta é a que mais me dói, me vejo outra vez dentro da mesma cena – do que você tem medo? – eu não vou, eu não quero – por favor, hoje, agora – não adianta insistir – atenção passageiros com destino a Lisboa, última chamada, última chamada.

Tempo, tempo. Os dias novos na cidade antiga, madrugadas densas, multidões confusas. Sebos noturnos, pub’s lotados, guetos de jazz, guitarras distorcidas, jovens andrógenos vestidos de preto, anúncios luminosos entrecortados, angolanos cuspindo fogo, franceses equilibristas, a urbe ebulindo abaixo de zero e eu cruzando tantas avenidas, sangue e veias da metrópole difusa, buzina, brinde, batida de tambor, olho para o céu procurando por Vênus, procurando por Marte, Cruzeiro do Sul, Ursa Maior, bússola, guia, norte, porto, satélite escuro, navego por longe, vou longe demais, mas longe de quê? Longe de mim mesma.

É quase dia. Sei por que o trânsito recomeça lento, cães reviram o lixo e pessoas se dispersam ágeis como baratas quando se acende a luz. Outra vez. Outra vez passar a mão pela testa quente, arder a mesma febre antiga, desço correndo as escadas da Justa, estação da Baixa, vagão vazio, linha expressa que avança em fuga e que não vai me levar a você. Canto de sereia convidando Ulisses, pedir de novo como quem pede pão, prometer as torres de pedra de Sintra, os peixes do Tejo, o céu de Cascais, te mendigar sem dignidade por qualquer migalha de sim, corrigir tuas frases de novo dizendo: não é talvez, talvez é sim.

Dane-se. Em casa, os discos no chão, os pratos na pia, hoje eu quero afundar neste sofá até ele me cuspir no andar de baixo. Fecho os olhos. Cada manhã sob o céu de Camões, ferida que dói e não se sente. Preciso tanto te dizer agora que preciso tanto de você agora, quase telefono, mas é madrugada – e há outro jeito de entrar no teu sonho? Mente confusa, coração rasgado, nenhuma esperança, tudo bem, tudo bem, abro o envelope contrariada, mensagem curta onde você diz – chego terça-feira, às seis e dez. Aonde você for, meu mundo começa aí.

 

Diálogo doméstico com minha amiga gaúcha:

 

– A internet está fora do ar de novo. Piooor…
– Mesmo? Pior do que oque?
– Pior de pior, modo de falar. Acho que aquele técnico tá encerando a gente. Vamos ter que chamar ele outra vez.
– Chamar de novo aquele fulêro? Aoooonde…
– Aqui em casa.
– Não, digo, não vamos chamar ele, não. Como era o nome dele? Éder? Liga logo para a central fazendo queixa e deixa ele receber a galinha pulando.
– Que galinha?
– Melhor ainda: vamos lá no balcão de atendimento falar desse mané.
– Pior… Vamos agora, então. Sem internet não dá pra a bola. Fora da casinha.
– Bola fora de quê?
– De nada, esquece esse bibibi. Cadê a nota fiscal?
– Tá aqui. Bom, bora antes que anoiteça. Dureza é ter que sair nesse frio pra ir fazer queixa daquele paspalho. Me deixe, viu, Varela…
– Mas o nome dele não era Éder?

Dei um pulo da cadeira quando vi o e-mail. Mentira: em casa não há cadeiras. Enfim, o fato foi o seguinte: uma editora portuguesa escreveu dizendo que um texto meu foi premiado. Estavam marcando uma reunião. Esta editora procurava um autor para lançar a sua próxima publicação, eu me inscrevi e o meu sortudo nome foi o felizardo. Selecionado para escrever um livro!!! Ensandeci. Surtei. Fiquei doida.

Em pouquíssimo tempo, lá estava eu na porta da editora – óculos, agenda, cara de conteúdo. Levando em conta que o e-mail anterior ao deles era a marcação de uma entrevista de emprego para atendente, estamos falando de um progresso repentino, inesperado, inédito, fantástico, surpreendente – e adjetivos afins que me escapam agora. Nem bem entrei pelo corredor, a equipe de triagem já foi me puxando pelo braço e dando as regras do jogo – você é a Mariana? Parabéns! Escute: a primeira edição terá 500 unidades, você pode estar a opinar na capa, mas a palavra final é do editor, o material deve estar a ser escrito, revisado e aprovado até agosto, o melhor mês para lançamentos é setembro, no fim das férias, você terá que ter disponibilidade para noites de autógrafos e para fazer palestras em outras cidades depois de setembro, a assessoria de imprensa é conosco, a publicidade também, mas você pode estar a dar sugestões, você precisa começar a produzir o mais rápido possível, compreendes? – até que chegamos à sala de reunião, vários livros lançados por eles sobre a mesa, sento e pronuncio a primeira frase:

– Sim, compreendo, acho que entendi. – pronto, bastou que eu abrisse a boca e danou-se tudo.
– Espera, espera. Este sotaque… acaso és brasileira?
– Sim.
– Pois, pois!!! Não sabíamos… Aia!! Acho que estamos a ter um problema, um grande problema. És naturalizada? Quantos anos tens de residência?
– Faz um mês.
– Um mês?? Por Cristo!!! Mas o Fundo de Cultura de Portugal não patrocinaria a obra de uma estrangeira!

Como na canção de Maísa: meu mundo caiu. Nem bem comecei a acreditar que ia ganhar dinheiro, fama, status, conforto, assessores para mediar a minha comunicação com os seres humanos mortais e, não mais que de repente, no meio do caminho me aparece essa pedra aí.  Nunca alguém foi tão pobre, tão rica e tão pobre de novo em apenas 20 minutos.

A reunião foi tumultuada e não deu em nada. Afinal, eu não tenho naturalidade, nem parentes portugueses, nem previsão de casamento com nenhum dono de padaria. Logo, a vaga foi cedida para o segundo lugar, certamente, um português. Agradeci pela preferência, coloquei a minha viola no saco, tirei o meu cavalinho da chuva, fui andando e pensando: meu Deus, porque a minha vida é este amontoado de clichês?

É que esta não foi a primeira vez. Em outubro, este mesmo conto ia ganhar o prêmio nacional de literatura lá da Petrobras. Eu toda confiante, praticamente de malas prontas para ir à premiação, discurso ensaiado, beca escolhida e a comissão julgadora me liga do Rio na véspera da divulgação para dizer que eu fui desclassificada.

– Mas, por quê???
– Por que só premiamos obras inéditas.
– Mas eu nunca publiquei um livro! Tudo o que eu fiz até hoje é inédito!
– Não. De acordo com as nossas fontes, a senhora tem um blog. E o conto está publicado no blog. Logo, não é inédito.

Maldita inclusão digital. Até hoje meus coleguinhas de trabalho tentavam me consolar. Dessa vez, sem tanto consolo disponível, o jeito foi pegar outro metrô e comparecer à tal entrevista para atendente. Nem lembrava mais dela. Mas aí lembrei que um balcão e um telefone para atender eram tudo que eu sonhei na vida. Desde criancinha.

Por ironia, o conto em questão nos dois episódios foi o Luxo, uma história que começa bem, fica melhor e termina mal. Logo ele, que é uma paródia sobre as pessoas que vivem na eminência, no quase. Agora fico pensando: um “quase” luxo significaria o quê? Pobreza?

Qualquer semelhança…

I’m Sorry

 

Nem me lembro como aquilo começou. Estávamos num café em Santos quando meu amigo português implicou que os americanos ao lado estavam falando mal da gente.

– Nos chamaram de idiotas.
– Tem certeza?
– Tenho.

E lá se foi até a mesa deles, indignado. E com seu tosco vocábulo inglês, começou um discurso anti-imperialista, anti-Bush, anti-cinema-enlatado-hollywoodiano, anti qualquer coisa que atingisse em cheio o orgulho e o brio dos forasteiros inoportunos que, pasmos, tentavam contra-argumentar com frases que eu – e nem ele – entendíamos. Até que um deles, o de boné, pediu a palavra em tom de explicação:

– Hey, boy, you don’t understand. We don’t speak stupids, but students.

Resumindo: foi tudo um engano. Um bobo e constrangedor mal-entendido. Sem graça, o portuguesinho tentou pedir desculpas, quis dizer qualquer coisa mas as palavras não vinham. De repente todo o seu léxico britânico sumiu da mente e só lhe restou pedir desculpas em português mesmo. E, como vergonha tem gramática própria, eles entederam e ficou tudo bem.

Só não ficou para mim. É que já me vi nesta cena milhares de vezes: hábil para demonstrar meus desafetos e completamente incompetente para pedir desculpas. Alguém já havia me dito: falar com raiva é a forma mais fácil de fazer um discurso lindo do qual se arrepender depois. E arrependimento não mata, mas deixa uma cicatriz horrível.

E o pior é que eu falo mesmo bonito quando falo pra machucar. Incrível como pula um exu-palestra-pronta de dentro de mim e, num minuto, lá estou eu discursando brilhantemente contra algo ou alguém com o meu melhor vernáculo letal. Um talento nato. Tenho quase certeza de que fui Bocage na encarnação passada. E Diógenes na anterior.

No entanto, reconciliação: dialeto desconhecido. Olho para a pessoa, rumino, guaguejo e nada. Mas não acredito que seja por aminésia ou por toc. Como é mesmo que se chama este lapso que só atinge a pessoa quando ela precisa pedir desculpas? Ah, lembrei… estupidez.

E no meio de tantas farpas ocasionais, de tantos silêncios desnecessários, de tanto afeto desperdiçado, tento preservar os amigos que me sobraram e não sei o que fazer dos que se foram. Por fim, coloco nomes, fotos, vestígios de cada um na parte mais funda do baú, onde eles me doam menos. Tento esquecer de tudo. E morro de medo de que eles façam o mesmo.

E, enquanto eu penso na vida, o portuguesinho volta para a mesa cabisbaixo:

– Mas gaja, que massada! Como pode? Apagou-me a palavra! Não recordo de como pedir desculpas em inglês…
– Nem eu. Nem em inglês, nem em português, nem em mandarim. Nunca aprendi.

O novo apartamento é ótimo. Tem varanda, banheira, mas não tem mesa. Geladeira duplex, fogão digital e nenhuma comida. Tem telão de LCD, internet sem fios, mas não tem cadeira. E cá estou eu, deitada no chão da sala decidindo qual seria o melhor lugar para colocar uma rede. Lar, doce lar.

O problema foi chegar aqui. Saí do albergue ontem, amiguinhos na janela dando adeus, oferecendo ajuda, maior comoção. Passava de 11 da noite, quando o trânsito estava mais ameno e eu poderia dirigir a minha malinha de 30 quilos pela rua com alguma tranqüilidade. O plano era descer o bairro de Santos, pegar o metrô, saltar, pegar um ônibus, saltar outra vez e subir até o condomínio novo. Arrastando a mala. É claro que não ia dar certo.

Primeiro por que ela começou a descer a ladeira mais rápido que eu, me puxando feito um cachorro brabo. Depois foram as rodinhas faiscando no asfalto, o cheiro de borracha queimada e a primeira esquina chegando. Capotamos, é claro. Eu me arranhei um pouco, tudo bem, a mala arranhou muito – eita, meu Deus, minha mãe vai me matar. Levanto e penso na possibilidade de pegar um táxi, luxo que me custaria uns dez euros. Decisão irredutível: nem pensar.

Continuo ladeira abaixo até a estação. A mala entalada na escada rolante. A mala presa no tampo do esgoto. A mala ocupando dois bancos do metrô. Mas o jeito era continuar, mesmo já estando suja e arranhada. Eu ou a mala? As duas.

Na rodoviária, dois lances de escada para descer e nenhuma outra alternativa. Quer dizer, além de sentar e chorar. Resolvi começar do começo: colocando as duas rodinhas no primeiro degrau, depois as duas rodinhas no segundo degrau, depois no terceiro. Depois eu não me lembro de mais nada, só daquele barulho de coisa pesada caindo no chão do andar de baixo.  Eu ou a mala? As duas.

Loser again. E o pior de uma queda nem é a queda – é este gesto involuntário que todo desafortunado repete depois do incidente: olhar em volta. Pra quê? Pra não deixar o povo rir? Pra pedir socorro? Pra colocar a culpa em alguém? No meu caso, para catar as moedas que caíram da bolsa. Catando e pensando: quando qualquer moeda faz tanta diferença no orçamento de alguém, a vida fica inviável. Decidi pegar um táxi. E arranjar um emprego.

– O senhor vai até a Ameixoeira por 5 euros?
– Que seja, que seja.

Era um senhor de bigode e suspensório que ficaria melhor num balcão de padaria. No trajeto, contou que nasceu no Porto, mas morava na capital desde menino, conhecia tudo.

– E o senhor sabe onde devo procurar emprego nesta cidade?
– És brasileira? Não tens muitas chances, rapariga. Talvez num atendimento de telefone, telemarketing, trunfos assim, pois.
– Hum. Eu não quero trabalhar num telemarketing.
– Não sejas orgulhosa, gaja. Estar a ser uma boa função para início. És nova. Escuta: conheces o teto da Capela Sistina, disposta na Itália?
– Claro. Quer dizer, de foto, todo mundo conhece.
– Sabes que o Michelangelo não queria pintar o teto da Capela? Para o tal, só a escultura era arte fiche, pintura era arte menor, pois, sem importância. Só pintou esta por insistência do Papa, na época em que se deu. E, hoje, veja-se a obra. Entendes? Não sejas orgulhosa, rapariga.
– Tudo bem, tudo bem. Se o Papa pedir, eu trabalho num telemarketing.

Pendurei uma fitinha do Bonfim no retrovisor antes de sair do carro. Eu sabia qual era o edifício, mas não sabia o andar, impasse fácil de resolver: em que apartamento estaria tocando Rolling Stones naquela altura às duas da manhã? Interfono, confiante. Ao abrir a porta e me ver naquele estado, uma das colegas pergunta se eu andava mendigando e joga uma moeda – rá! – não devolvo.

Adorei o apartamento e já me instalei no meu cantinho. Hoje passei o dia inteiro na rua deixando currículos e todas as empresas de telemarketing do universo já tem os meus dados em seus arquivos. Anoiteceu e ninguém ligou. Deito no chão da sala sem móveis e calculo: com o primeiro salário que eu ganhar, compro uma rede. Com o segundo, uma mala nova. Com o terceiro, quem sabe, a biografia de Michelangelo, o orgulhoso.

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Todos os brindes loucos que você já ganhou até hoje?

Esqueça. Traga a senha.

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A crise chegou, mas nada é tão mal assim. Quer dizer, ao menos posso ver passeatas como as de antigamente. Sem bozinaço nem showmício.  Com crachá, bandeira e canção de protesto. Greve de verdade deveria ser tombada, patrimônio social da humanidade.

Parece um desfile de festa cívica? Bem, não deixa de ser...

Confira: todo mundo tem os cinco dedos.

Mister Bin também foi? O que é isso companheiro?

Até o Mister Bin veio, companheiro?

xxx

Um dos motivos do protesto? Inflação de 2% ao ano. Ohhhhh...

Eu e Laika

 

– Ah, quer dizer que você é brasileira?
– Sim, sou.
– Oh, mais uma estrangeira em Portugal!
– Pois é.
– Aqui estamos a ter muitos estrangeiros, muitos mesmo. Inclusive brasileiros.
– Hum…
– O Brasil é bonito, pá. E eu pergunto-me: o que tanto os brasileiros vem a fazer em Portugal?
– Você não sabe?
– Não.
– Colônia de exploração.
– …
– Mas você parece legal. Eu não vou te escravizar.

Droga. Odeio quando eu faço isso. Por sorte, o interlocutor em questão deu risada, todos riram também, promoveram brindes aos forasteiros, acharam graça. Depois eu pedi licença para ir ao toilet, a turma continuou conversando na mesa, desviei do toilet, fui para a janela repetindo pra mim mesma: segura o veneeeeno, marianaaa!

Alguma vez eu já disse que era uma pessoa de fácil convívio? Disse? Pois devo ter dito que mentia um pouco também. Depois de quase um mês fora da minha casinha tendo que recomeçar a minha vida social do zero, entendi o abismo entre as expressões ‘ter amigos’ e ‘fazer amigos’.

Quando você chega a um lugar aonde não conhece absolutamente ninguém, 90% dos seus diálogos diários se iniciam com o mesmo roteiro  – Como é o seu nome? Prazer. Você veio de onde? Ah, que bacana! Você faz o que? Que interessante…  –  e se alguém me perguntar de novo sobre o Pelé ou sobre a magia-contagiante-do-Carnaval-brasileiro e vou surtar, insandecer, rasgar dinheiro!!!

Sempre me orgulhei de ter longas amizades. Mês passado, na minha festinha de despedida, contabilizei: praticamente todos convivas à volta do bolo estavam passando pela experiência engrandecedora de desfrutar da minha convivência há, no mínimo, dez anos. Quase metade de nossas existências. Fora a família, este grupo seleto que trocou as suas fraldas e, certamente, te conhece mais do que você mesmo. Dancei quadrilha, cantei seresta, fiz discurso, soltei veneno à vontade e não me perguntei hora nenhuma se aquilo estava bonito. E a essa absoluta falta de senso do ridículo eu costumo chamar, convenientemente, de intimidade.

É como sair de um casamento longo e estável para voltar aos campos de batalha da paquera. Esta etapa da vida aonde valores ancestrais como primeira-impressão, simpatia e política-da-boa-vizinhança valem mais que um bilhete de loteria. Não é exagero: você toparia viver na solidão em troca de um prêmio em dinheiro? Então você entendeu do que eu estou falando.

E eu tenho me esforçado. Sorrisão na cara, ponto batido assiduamente nos encontros da galera e assunto sobre tudo: mídia, culinária, Bush, briga de galo, ginástica para bebês e o que mais ocorrer. Só não consigo segurar a língua. Putz. Pergunta cretina, tolerância zero. E, se a descrição costumeira de que eu “perco o amigo mas não perco a piada” estiver correta, não vai sobrar ninguém. O pior é que, sem uma vida social, eu não vou sobreviver. Eu e Laika. Sozinhas. Pra sempre.

– Sim, continuando, mas você está aqui a quanto tempo?
– Três semanas.
– Mas quer dizer que você veio mesmo do Brasil?
– Pois é.
– Que bacana. E o Pelé, ainda joga?
– Olha, na verdade…

Bem, eu tentei. E, pensando melhor, eu quero a minha parte em dinheiro.

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“Yo adivino el parpadeo
De las luces que a lo lejos
Van marcando mi retorno.”
(Carlos Gardel / Volver)

Portugal, 26 de março de 2009,

Faz tanto tempo, mas eu me lembro. No início do ginásio, eu era a única aluna da minha classe que sabia andar de ônibus. Em parte por que eu gostava, em parte por força das diferenças econômicas mesmo: a maioria dos colegas tinha motorista, um luxo que eu, definitivamente, não dispunha. Mas dispunha daquela liberdade rara. Como esquecer o olhar dos colegas, nariz contra o vidro, cada um dentro do seu carro. Todos seguindo-me de longe pegar o meu próprio ônibus, com o meu próprio arbítrio, com as minhas próprias pernas. Se, aos 11 anos, eu tinha alguma vaidade na vida, era esta. Mochila nas costas, passe no bolso e um ar de quem sabe como, onde e de que jeito. Dona da rua e dona do mundo. Até que chegou o inverno.

Um dilúvio bíblico. Eu não esperava. As meias encharcadas dentro do tênis, o uniforme cheio de barro e eu escorregando sobre as poças enquanto veículos caros levantavam ondas de lama. Ensopada e suja, a dona da rua era agora um pavão molhado, uma criatura miúda com jeito de cachorro sem dono procurando abrigo sob qualquer marquise. Enquanto os colegas passavam mudos, nariz contra o vidro, cada um dentro do seu carro.

Lembro de entrar revoltada na cozinha do velho edifício Lisboa, casa de minha avó materna, preguejando contra tudo: a meteorologia louca do Nordeste, o transporte público lotado, as ruas sem calçamento, sem esgoto, sem guarida, e, principalmente, contra a minha infeliz condição de proletária andarilha naquela maldita cidade tropical onde eu precisava andar trezentos milhões de metros para chegar a qualquer lugar. E minha avó, serena, trazendo uma toalha e perguntando – mas, minha filha, me diga, isso não era tudo o que você queria?

E era. Eu havia passado as férias inteiras pedindo, suplicando, usando todo tipo de argumento emocional e financeiro para convencer minha mãe a me deixar andar sozinha de ônibus. Dizendo que era a ordem natural das coisas, um degrau, uma sina biológica e inevitável, uma casca de ovo quebrada. E lá estava agora, um semestre depois, tentando remendar os pedacinhos daquela cápsula onde eu, certamente, já não caberia mais.

Não sei se por isso ou por alguma outra razão – há tantas razões possíveis para o inexplicável – mas, desde então, a cada dia de chuva me invade um sentimento ancestral de desamparo. Uma certeza dura e corrosiva de ser a responsável por mim mesma, por cada degrau vencido, por cada queda na lama. Bicho adulto andando sozinho, mesmo que perdido, mesmo que ensopado. É quando chove que me vem essa vontade urgente de entrar pela mesma cozinha, de praguejar de novo, de pedir abrigo. De ouvir outra vez qualquer coisa que me acalme o peito ainda machucado. De não ter crescido. De voltar.

Agora chove. E eu acho que, no fundo, eu sempre soube que voltaria para Lisboa.