O novo apartamento é ótimo. Tem varanda, banheira, mas não tem mesa. Geladeira duplex, fogão digital e nenhuma comida. Tem telão de LCD, internet sem fios, mas não tem cadeira. E cá estou eu, deitada no chão da sala decidindo qual seria o melhor lugar para colocar uma rede. Lar, doce lar.
O problema foi chegar aqui. Saí do albergue ontem, amiguinhos na janela dando adeus, oferecendo ajuda, maior comoção. Passava de 11 da noite, quando o trânsito estava mais ameno e eu poderia dirigir a minha malinha de 30 quilos pela rua com alguma tranqüilidade. O plano era descer o bairro de Santos, pegar o metrô, saltar, pegar um ônibus, saltar outra vez e subir até o condomínio novo. Arrastando a mala. É claro que não ia dar certo.
Primeiro por que ela começou a descer a ladeira mais rápido que eu, me puxando feito um cachorro brabo. Depois foram as rodinhas faiscando no asfalto, o cheiro de borracha queimada e a primeira esquina chegando. Capotamos, é claro. Eu me arranhei um pouco, tudo bem, a mala arranhou muito – eita, meu Deus, minha mãe vai me matar. Levanto e penso na possibilidade de pegar um táxi, luxo que me custaria uns dez euros. Decisão irredutível: nem pensar.
Continuo ladeira abaixo até a estação. A mala entalada na escada rolante. A mala presa no tampo do esgoto. A mala ocupando dois bancos do metrô. Mas o jeito era continuar, mesmo já estando suja e arranhada. Eu ou a mala? As duas.
Na rodoviária, dois lances de escada para descer e nenhuma outra alternativa. Quer dizer, além de sentar e chorar. Resolvi começar do começo: colocando as duas rodinhas no primeiro degrau, depois as duas rodinhas no segundo degrau, depois no terceiro. Depois eu não me lembro de mais nada, só daquele barulho de coisa pesada caindo no chão do andar de baixo. Eu ou a mala? As duas.
Loser again. E o pior de uma queda nem é a queda – é este gesto involuntário que todo desafortunado repete depois do incidente: olhar em volta. Pra quê? Pra não deixar o povo rir? Pra pedir socorro? Pra colocar a culpa em alguém? No meu caso, para catar as moedas que caíram da bolsa. Catando e pensando: quando qualquer moeda faz tanta diferença no orçamento de alguém, a vida fica inviável. Decidi pegar um táxi. E arranjar um emprego.
– O senhor vai até a Ameixoeira por 5 euros?
– Que seja, que seja.
Era um senhor de bigode e suspensório que ficaria melhor num balcão de padaria. No trajeto, contou que nasceu no Porto, mas morava na capital desde menino, conhecia tudo.
– E o senhor sabe onde devo procurar emprego nesta cidade?
– És brasileira? Não tens muitas chances, rapariga. Talvez num atendimento de telefone, telemarketing, trunfos assim, pois.
– Hum. Eu não quero trabalhar num telemarketing.
– Não sejas orgulhosa, gaja. Estar a ser uma boa função para início. És nova. Escuta: conheces o teto da Capela Sistina, disposta na Itália?
– Claro. Quer dizer, de foto, todo mundo conhece.
– Sabes que o Michelangelo não queria pintar o teto da Capela? Para o tal, só a escultura era arte fiche, pintura era arte menor, pois, sem importância. Só pintou esta por insistência do Papa, na época em que se deu. E, hoje, veja-se a obra. Entendes? Não sejas orgulhosa, rapariga.
– Tudo bem, tudo bem. Se o Papa pedir, eu trabalho num telemarketing.
Pendurei uma fitinha do Bonfim no retrovisor antes de sair do carro. Eu sabia qual era o edifício, mas não sabia o andar, impasse fácil de resolver: em que apartamento estaria tocando Rolling Stones naquela altura às duas da manhã? Interfono, confiante. Ao abrir a porta e me ver naquele estado, uma das colegas pergunta se eu andava mendigando e joga uma moeda – rá! – não devolvo.
Adorei o apartamento e já me instalei no meu cantinho. Hoje passei o dia inteiro na rua deixando currículos e todas as empresas de telemarketing do universo já tem os meus dados em seus arquivos. Anoiteceu e ninguém ligou. Deito no chão da sala sem móveis e calculo: com o primeiro salário que eu ganhar, compro uma rede. Com o segundo, uma mala nova. Com o terceiro, quem sabe, a biografia de Michelangelo, o orgulhoso.