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Play It Again, Sam

Sempre desencontravam. Era ela entrar numa festa para ficar sabendo: ele acabou de sair e havia perguntado por ela. Era combinarem um encontro para que um, cansado de esperar, fosse embora um minuto antes do outro chegar atrasado, esbaforido. Um telefone chamava, ninguém atendia. O outro telefone chamava e a linha estava ocupada. Os acasos não favoreciam – nenhuma fila de banco em comum, nenhuma coincidência de esquinas, nenhum encontro banal pela rua. Só havia a vontade. E ela não bastava.

Até que foram desistindo. Um por cansaço, outro por desesperança. Desesperança pelo gran finale que não veio. Cansaço por que descontruir o próprio castelo todos os dias dá um trabalho danado mesmo. Derrotados pelo acaso. É, a vida é uma piada sem graça, às vezes.

Janeiros passaram-se. Ela trocou de emprego, ele adotou um cão. Ele filiou-se a um partido político, ela conheceu a Grécia, ele aprendeu a tocar gaita, ela quase bateu o carro. Ambos mudaram um pouco, músicas novas já eram cantaroladas com intimidade e quem os conhecia não encontraria neles nenhum traço de melancolia no olhar distraído. Só um pouco de dispersão mesmo.

E, um dia, numa manhã de muita chuva, entraram na mesma loja de conveniências, ensopados. Em frente ao freezer de sorvete, ao lado do expositor de revistas, lá estavam eles, enfim. Em cumprimentos atabalhoados, os dois riram-se muito – pois é, quanto tempo! – e havia tanto o que dizer. Nem sabiam por onde começar. Ou recomeçar.

Mas, exatamente naquela manhã, por algum motivo, ele trazia um buquê de flores na mão. E, exatamente naquela manhã, por algum motivo, ela protegia-se da chuva com um paletó masculino sobre a cabeça. Baixaram os olhos, resignados. Fazia muito tempo mesmo.

A despedida foi breve, sem graça, com uma promessa vaga de reencontro qualquer dia desses, qualquer dia desses. Partiram sob a chuva mesmo. E, se aquelas flores eram para alguma homenagem na firma ou se aquele paletó era do manobrista do estacionamento, já não fazia sentido pensar no assunto, fazia tanto tempo. A cidade é grande o suficiente para que duas pessoas se percam para sempre, pensaram – um por cansaço, outro por desesperança. Janeiros passaram-se. E, agora, quem os conhecia encontraria neles algum traço de melancolia no olhar distraído. E cada vez mais disperso.

Sebastião Salgado

Luxo

Não que fosse consumista. Muito pelo contrário: a família do interior nunca lhe incutira devaneios econômicos, só um pouco distinção no vestir e pronto.  “Por que uma aparência bem cuidada é sinal de respeito”, diziam. Nunca esquecera. Sapatos limpos, meias alvas, unhas curtas, tudo nela era tão natural que tinha sua graça, o charme tímido da cara lavada sem malícia. E era fácil ser assim, simples. Até conhecer o vestido da vitrine.

Um luxo. Um luxo antes só imaginado, por que, naquela época, roupas assim não circulavam na cidade de onde veio, só existiam em ilustrações de contos infantis. Cinderela, talvez. Traje de gala dourado, longo, suntuoso, exuberante demais para a vida real. Ou para a vida dela. Aquela peça era seu oposto extremo, seu antônimo, seu convexo. Era a outra metade.

Reinando sozinho na vitrine, devia ser caríssimo, pensou. E era. Quanto do seu ordenado? Calculou só por curiosidade: metade do aluguel ou metade da mensalidade ou o custo das compras de supermercado e da conta de energia somados. Tudo por um vestido? Absurdo, absurdo, resmungou baixinho, quem daria isso tudo por uma roupa? Absurdo. Refez o cálculo, afinal, ele tinha saias sobrepostas, majestoso em tudo. Onde usaria um traje desses? Como ela mesma, sua rotina era simples. Não precisava de tanto. Ou precisava? Talvez fosse um caro possível, poderia dividir o pagamento – relativizou sem segurança, procurando outros parâmetros. Sim, poderia fazer aquela compra, com algum sacrifício. Mas, a troco de quê? Era custo demais por um vestido esplendoroso demais. Tudo nele era demais para aquela mulher sem excessos. Encolheu-se, resignada. Deixou a loja, tomou a rua.  Dissipou-se.

Na volta pra casa, a chuva rala de um inverno urbano, cinza, cinza. O guarda-chuva preto, as botas de borracha. O asfalto, o cimento, os edifícios de concreto, o cair da noite escura. Um mundo opaco – como nunca havia notado. Da janela, ruminou sozinha pensamentos dispersos: seu quarto apagado. Depois, o desbotado do quarto ofuscado pelo dourado do vestido. Depois, tudo mais que ele traria consigo: o vermelho do batom, o brilho dos anéis, a pérola dos brincos, pingentes, pulseiras, unhas escarlate, o colorido das festividades que poderia vir a freqüentar só para merecê-lo. Sim, precisava merecê-lo. Precisava de salões amplos, escadarias, lustres barrocos. Precisava de valsa. Orquestra, violino, essas coisas. E também de um cavalheiro de fraque para acompanhá-la na dança, as anáguas balançariam lentas, perfeitas, foram feitas para isso. Eles deslizariam entre os casais e já era possível imaginar o reflexo dos dois multiplicando-se nos espelhos emoldurados, nas taças de cristal, na prata dos castiçais. Dentro de um vestido dourado mulher nenhuma é despretensiosa, riu-se involuntária, irônica – todo grande sonho beira mesmo o ridículo. Descobriu-se perplexa. Riu-se novamente. Abriu os olhos, o quarto escuro à sua volta, impassível. Já não pertencia àquele lugar.

Anda, anda, anda. A manhã fria na cidade louca e a velha bolsa apertada contra o corpo, ela atravessando as ruas apressada, a loja a três quarteirões. As folhas de cheque num envelope pardo, era muito, era demais e sua fome pedia enormidades. Ofegava. Na contra-mão do mar de pedestres sonolentos, ela abria caminho. Eram os primeiros passos na direção contrária das coisas. Sabia que iniciara algo irreversível e corria, corria, por que, às vezes, não há mais volta e só nos resta mesmo seguir em frente até o fim. Ela estava pronta.

Enfim, a rua. A loja, a vitrine, o vestido sozinho em seu reinado, em sua espera. Sob a luz do sol tudo era mais belo e mesmo o manequim de madeira perecia lhe sorrir estático. Sorriu também. O reflexo da própria imagem no vidro sobreposto à do tecido, visão da sua pele matizada em seda dourada. Era o princípio das cores. Aproximou-se com a cerimônia dos grandes encontros e, então, reconheceu nele um detalhe novo. Uma etiqueta discreta: vendido.

A gente não devia estar tão perto. Devia? Estamos conversando faz tanto tempo, eu não tenho mais nenhuma noção de por quantos labirintos já passou o nosso assunto – literatura, história, comportamento, urbanidades, impressões, a minha vida, a sua vida e até sobre este céu enorme em cima da gente numa composição de astros que não acontecerá amanhã, porque uma noite nunca é igual à outra, sabia? Li num romance europeu. Você sorri numa compreensão fluida, momento nenhum se repete, eu sei, você sabe, aperto de leve os olhos antes que o instante se perca ou que nenhum dos dois saiba reconhecer o dia em que estaremos prontos, mesmo sem fazer idéia do que queira dizer ‘estarmos prontos’. Movimento-me lento para não quebrar a fina aura de vidro do agora, sua mão inerte ao lado da minha, qualquer movimento casual e o risco do toque, respiro fundo, denso demais, perto demais. Por favor, não faça nada. Se você soltar seus cabelos agora eu desmorono. Se você sorrir outra vez eu confesso tudo. Pronto, você sorriu de novo – eu todo imóvel, pássaro empalhado antes do vôo, é claro que eu não vou dizer nada, eu sei, você sabe. E, como toda mulher, talvez adivinhe mais – minhas madrugadas abrindo e fechando a geladeira, telefonando para números imaginários, carregando contra o peito correspondências de contas de luz como se fossem cartas suas. Bobo que arde sem se ver, queimando sozinho eu sou todo setembro antes da primavera e quase esqueço que não devia, que não devíamos, que somos adultos o suficiente para a inconseqüência completa e justamente isso tornaria qualquer transgressão banal e clichê. Não me movo. Ancestrais, petrificados, somos dois fósseis sorridentes sentados sobre o mesmo muro aguardando a invenção das portas. Sozinhos nesta noite alta, nesta conversa sem fim, neste paraíso sem Dante. É, a gente é meio antigo mesmo…

Antes que amanheça, me conta de novo a sua história. Me fala outra vez do circo da sua cidade, das suas tranças cortadas, das velhas bibliotecas de cedro. Me fala dos clássicos. Repete e repete de novo os teus casos até eu confundir as suas lembranças às minhas, até reconhecer no meu corpo as suas cicatrizes mais antigas. Este encontro bem agora, profecia pura, conta-gotas de sertão que será mar. Talvez se houvesse festa, talvez se houvesse brinde, talvez se houvesse mentiras fosse mais fácil diluir da boca este veneno doce de impossibilidade, esta fome de maçã vermelha. Por que tudo dói mais quando só há nós dois e é necessário fingir – fingir pra quem mesmo? – que não faz diferença, que eu não faria qualquer coisa para continuarmos dividindo os mesmos metros quadrados de chão e de prosa enquanto o resto do mundo, enfim, o resto do mundo não importa. Viver não é preciso. Cantarola qualquer coisa antes que eu prefira a morte a esta espera por outro destino, outra salvação para Romeu que não morreu de amor. Haverá? Somos só duas pessoas e o planeta está repleto delas, as pessoas. Helena palaciana, não se perca de mim. Ruído de passos ao longe, tudo parece mesmo tão distante. Você me olha, me pesquisa, ronda a concha fechada e não pergunta o por quê do meu silêncio, eu sei, você sabe, ser ou não ser nem é mais a questão. Como quem foge das tragédias inglesas, como quem nega todas as líricas do norte, a gente sobrevive. E o dia ameaça nascer lento sobre nossas cabeças. Sobre os meus dedos imóveis, frios, nenhum toque – só as linhas da minha mão, obstinadas, entrelaçam forte as linhas da sua.  Promessa improvável, estanque e latente, quase nós, ah, quase nada. Só há um prefácio traçado e você não se afasta de mim – por quê?

Talvez este final – felizes para quando? – antiquadamente espere pela gente.

Lisboa

Ele tinha momentos eventuais de silêncio que tornavam sua conversa um prazer. Não que sua atenção se perdesse num ponto qualquer ou ensimesmasse em introspecção – não era um homem de fugas. Quando falava sobre determinado assunto, desmanchava-se em adjetivos até não lhe sobrar nenhum, para, então, deixar-se estar reticente, como se o discurso continuasse em cavalgada própria, sem as suas palavras.
– As casas de Lisboa são sabiamente firmes, de uma engenharia robusta, altiva, arrojada… – silenciava fixo nela, libertando o subtexto para prosseguir mudo, paralelo, infinito. Como se seus olhos, então, pudessem guiá-la pelas muralhas seculares da cidade, pelas escadarias sinuosas esmaltadas com óleo de baleia, pelas ruas místicas e ruidosas ou por tantos outros pormenores que não seriam compreendidos pela cognição. Até onde iriam? Não há centímetro no mundo que não seja interessante – concluía.
Ele que, por ironia, nunca havia saído da terra onde nasceu, oferecia a ela o que não possuía: as lembranças de suas viagens futuras que, de fato, talvez nunca chegassem a atravessar a rua. Sem saber, entregava o mapa de um tesouro difícil, uma beleza que ela não reconheceria em lugar nenhum. Mas o roteiro já estava traçado. E ela cruzaria trópicos, continentes e oceanos, percorreria ilhas, campos e metrópoles, mas lugar nenhum lhe bastaria e ela sabia disso. Por que ouvi-lo falar de Lisboa era melhor do que Lisboa. Por que o mundo era ainda mais belo pelos olhos dele.

Ascendência

Não sei como deu nisso, nunca fui de enfeitar pavão de ninguém, mas o certo é que a lagoa tá secando pra você, man, você sabe. Não tinha nada que dar uma de joão-sem-braço, fugir da raia, ficar na moita, isso não. Olha, todo dia de manhã eu fico aqui no espelho, você olha pra minha cara, eu olho pra tua, tu escova os dentes, tal e nada. Vai embora. Me olhar aqui dentro do espelho te deixa cabreiro, man, você tem medo de mim, tem medo de você, sei lá. Não faz nada. Você fica assim por que tem esse bicho te comendo por dentro, essa coisa, você não se perdoa, cara, é isso, você sabe que sua gente não é essa, que teu canto sempre foi outro, tu faz que não sabe mas sabe: você odiava tudo isso aqui, essa babaquice toda. Só que agora é diferente. Agora tu tá aqui. Esse mundo dá é volta, né, man? Pois é. Daí fica nessa pose de pinto pelado, rei-da-cocada-preta-e-podre como se seu pessoal não existisse. Nem mais, nem nunca. Qualquer dia esse povo vai embora, essa gente morre, sabia, man? Todo mundo. Vem um carro ou um tiro ou um tijolo que cai do nada e acabou, você abotoa o paletó e aí já era, danou-se tudo e, quer saber? Né ruim morrer não, man, ruim é quando morre alguém da gente. Por que quem vai não sente nada não, só dói pra quem fica aqui nessa miséria, cara, você vai ficar na maior nóia se alguém seu morrer agora, ninguém tá livre disso não, ó, eu nem quero ver quando você cair na real e a real desabar em cima de você, moleque. Eu sei que tu pira cada vez que eu digo essas coisas e que tu só não me quebra todo por que acha que dá azar, mas é tudo mentira, pilha, isso de azar não existe, só existe sina, sina de palma da mão marcada, tá tudo traçado desde o comecinho e você não se toca: tu anda, anda e não sai de onde veio. Isso não desaparta. Tu pode correr, chiar, pode bancar o menestrel e se acabar todo. Pode até fazer isso que tu tá fazendo, pode fugir. Mas tua gente fica no espelho, man, todo dia.

Zion

E ele que não sabe nada, ele que não nasceu na Bahia, por acaso, por destino, perdido no nosso ensaio, show de suor e sodomia, o moço não sabe onde está, nêgo, na Babel miscigenada, Xanadú de purpurina, galera de navio negreiro em alto mar e à deriva que canta mais alto e mais forte e mais lindo e mais perto do céu e agora a gente dançando sobre a Zion vermelha, batucada, galhardia, multidão, massa, alvoroço, maré revolta que balança alucinada e o moço que se perde pra nunca mais, abraça, ri, chora, gargalha da festa mesmo que tardia, da febre coletiva e farta, inaugurada, descoberta, ele não nos conhecia, ele não se conhecia na Babilônia ritmada que ferve a cinqüenta graus e o chama a cada tambor feito sereia em cantoria, chão, caos e Carnavália, ele que não sabe nada, ele que não nasceu na Bahia.

Cena do fime Matrix III, cidade de Zion – do hebraico, Sião, a terra prometida.

Cansei de ser sexy

Sim, cansei. Não adianta. Ainda mais depois de sábado. Convenhamos, a gente leva anos para se tornar uma pessoa interessante. Decora poema de Vinícius, usa roupa da moda, aprende tudo sobre astronomia, política externa e o raio que o parta. Tudo para atrair dois ou três olhares entre os próximos mais próximos. E até alcança o intento. Até aparecer alguém como a minha amiga Vera.

Implacável. Inclemente. Acabando com a festa de todas as damas do recinto. Alguém capaz de reunir as atenções e os elogios masculinos sem nenhuma fraternidade pela nossa existência. Uma afronta.

Se Vera é bonita? Na verdade, não. Aliás, desde menina, Verinha sempre foi especialmente feia. Mas, bastava ela aparecer em qualquer evento com sua camisa da seleção e seu violãozinho debaixo do braço, que a roda se abria. Incrível isso. E era só dedilhar duas ou três notas para despertar a comoção geral: era o hino do Ypiranga Futebol Clube. E a tragédia estava instalada. Depois do terceiro hino de torcida organizada, a criatura já era preferência nacional, diva, unanimidade – e viva a Verinhaaaa!!! Os rapazes não se continham. À volta da privilegiada crescia o coro de “uma vez flamengo, sempre flamengo” ou “sou fluminense de coraçãããooo” que seguia sempre até alta madrugada sem dó nem piedade de nós, espalhadas pelo salão, indignadas. Já disse que a Verinha era feia feito a fome? Este mundo não é justo.

Era uma cantoria sem fim. E, no final da noite, lá estava ela bem acompanhada com um dos convivas, sempre cuidadosamente selecionado, enquanto os outros disputavam sua atenção contando, emocionadíssimos, as proezas de Sócrates, Pelé, Garrincha e outros indispensáveis do campo. Todos gesticulando muito por comoção e saudades de um futebol do qual, infelizmente, não foram contemporâneos – ah, não se faz mais um time como aquele, Verinha, não se faz não… – lamentavam juntos, doloridos, órfãos, pedintes. E nós, abandonadas em algum sofá de canto, já descalças e sem maquiagem, só lamentávamos a Nasa ter levado apenas um homem para a lua. Ao invés de ter levado to-dos.

Mas a melhor foi neste sábado. Era uma reunião na beira da piscina, música, tudo ótimo. E, como sempre, no melhor da festa, chega ela, para nosso susto, pânico, terror e desespero. Já disse que a Verinha era feia feito a guerra? Mas nem preciso contar o que aconteceu o resto da madrugada. Já na saída, arrasada, esbarrei com a própria no estacionamento. Engoli meu orgulho e a cumprimentei, puxando qualquer assunto só por puxar: e aí, Verinha, tem jogo no estádio amanhã, você vai? – e a contemplada responde distraída, sincera – Para o estádio? Fazer o que lá?

 
“Toca meu ombro, olha nos meus olhos,
como nas canções de rádio.
Depois me diz – vamos embora para um lugar limpo.
Deixe tudo como está. Feche as portas, não pague as contas
nem conte a ninguém.” 
(Caio F. / Anotações sobre um Amor Urbano)

 

 Agora toca Nando Reis, toca Hermanos, toca Bethânia e qualquer coisa que toque neste maldito rádio só me mata mais devagar, mas deixa, me deixa sangrar um pouco mais repetindo, ai, onde eu estava com a cabeça? Eu nem sei quanto tempo faz. Esse futuro-do-pretérito ainda gira na minha sala com o que poderia ter sido, com as palavras lindas que não foram ditas, com tanto amor desperdiçado, você nem conhece esta história, mas te ver remar contra a maré do óbvio me ajuda a não sentir vergonha de mim, vergonha por insistir no erro de ainda trazer o peito aberto, pensando bem, a gente teima por ingenuidade ou é ingênuo por teimosia? Os inocentes do Leblon não sabem de você. Nem vão saber.

Giro o botão do volume como quem gira o do gás, hoje eu vou afundar até o fim com o meu navio, hoje eu não quero escapar disso que é tão inevitável para quem escolheu a intensidade e você sabe do que eu falo, esta intensidade absoluta e nítida de sangue denso, braços castos, você que se guarda como num conto e era uma vez num castelo distante onde a gente talvez se perguntasse sobre esse gelo nas mãos e a história mudasse de rumo tão naturalmente quanto isso de se olhar e se entender e ser inteiro numa conversa que nunca precisou de uma vírgula para acontecer, olha, não deixe que isso se perca mesmo que sua honestidade seja um dom que o mundo não merece, mesmo que o sonho não aconteça, é certo que a redenção vai vir com o Renato voltando do céu com um coro de anjos anunciando que vem chegando a primavera e o nosso futuro recomeça ou com os pianos de Noturno ou com o Alceu que já escuta os teus sinais ou com qualquer canção que faça tremer os lustres das sacristias e tome de arroubo as pessoas da sua rua tão estrangeiras ao seu modo de ser. Não, não precisa entender. Aumenta o rádio, me dê a mão, eu vou pagar a minha promessa de não deixar dor nenhuma pela metade, é o meu troféu, é o que restou: uma ou duas fotografias e a trilha sonora para uma década, os anos dourados que eu não vivi regidos pela filarmônica do improvável, como o refrão de um bolero, como cinema sem movimento. Você me pergunta pela minha paixão e eu não sei em que hora dizer, deixo assim ficar subentendido. A freqüência mais devotada ao sofrimento não vale este meu silêncio, não vale as ruas que ladrilhei para você passar, olha, este rádio ainda me mata. Apesar de tudo há um encantamento enorme nestes meus olhos rebeldes contra todos os males do mundo. Apesar de tudo. É uma noite longa para uma vida curta. Sim. Mas você pode ter certeza de que o seu telefone irá tocar.