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Posts Tagged ‘mariana miranda’

A gente não devia estar tão perto. Devia? Estamos conversando faz tanto tempo, eu não tenho mais nenhuma noção de por quantos labirintos já passou o nosso assunto – literatura, história, comportamento, urbanidades, impressões, a minha vida, a sua vida e até sobre este céu enorme em cima da gente numa composição de astros que não acontecerá amanhã, porque uma noite nunca é igual à outra, sabia? Li num romance europeu. Você sorri numa compreensão fluida, momento nenhum se repete, eu sei, você sabe, aperto de leve os olhos antes que o instante se perca ou que nenhum dos dois saiba reconhecer o dia em que estaremos prontos, mesmo sem fazer idéia do que queira dizer ‘estarmos prontos’. Movimento-me lento para não quebrar a fina aura de vidro do agora, sua mão inerte ao lado da minha, qualquer movimento casual e o risco do toque, respiro fundo, denso demais, perto demais. Por favor, não faça nada. Se você soltar seus cabelos agora eu desmorono. Se você sorrir outra vez eu confesso tudo. Pronto, você sorriu de novo – eu todo imóvel, pássaro empalhado antes do vôo, é claro que eu não vou dizer nada, eu sei, você sabe. E, como toda mulher, talvez adivinhe mais – minhas madrugadas abrindo e fechando a geladeira, telefonando para números imaginários, carregando contra o peito correspondências de contas de luz como se fossem cartas suas. Bobo que arde sem se ver, queimando sozinho eu sou todo setembro antes da primavera e quase esqueço que não devia, que não devíamos, que somos adultos o suficiente para a inconseqüência completa e justamente isso tornaria qualquer transgressão banal e clichê. Não me movo. Ancestrais, petrificados, somos dois fósseis sorridentes sentados sobre o mesmo muro aguardando a invenção das portas. Sozinhos nesta noite alta, nesta conversa sem fim, neste paraíso sem Dante. É, a gente é meio antigo mesmo…

Antes que amanheça, me conta de novo a sua história. Me fala outra vez do circo da sua cidade, das suas tranças cortadas, das velhas bibliotecas de cedro. Me fala dos clássicos. Repete e repete de novo os teus casos até eu confundir as suas lembranças às minhas, até reconhecer no meu corpo as suas cicatrizes mais antigas. Este encontro bem agora, profecia pura, conta-gotas de sertão que será mar. Talvez se houvesse festa, talvez se houvesse brinde, talvez se houvesse mentiras fosse mais fácil diluir da boca este veneno doce de impossibilidade, esta fome de maçã vermelha. Por que tudo dói mais quando só há nós dois e é necessário fingir – fingir pra quem mesmo? – que não faz diferença, que eu não faria qualquer coisa para continuarmos dividindo os mesmos metros quadrados de chão e de prosa enquanto o resto do mundo, enfim, o resto do mundo não importa. Viver não é preciso. Cantarola qualquer coisa antes que eu prefira a morte a esta espera por outro destino, outra salvação para Romeu que não morreu de amor. Haverá? Somos só duas pessoas e o planeta está repleto delas, as pessoas. Helena palaciana, não se perca de mim. Ruído de passos ao longe, tudo parece mesmo tão distante. Você me olha, me pesquisa, ronda a concha fechada e não pergunta o por quê do meu silêncio, eu sei, você sabe, ser ou não ser nem é mais a questão. Como quem foge das tragédias inglesas, como quem nega todas as líricas do norte, a gente sobrevive. E o dia ameaça nascer lento sobre nossas cabeças. Sobre os meus dedos imóveis, frios, nenhum toque – só as linhas da minha mão, obstinadas, entrelaçam forte as linhas da sua.  Promessa improvável, estanque e latente, quase nós, ah, quase nada. Só há um prefácio traçado e você não se afasta de mim – por quê?

Talvez este final – felizes para quando? – antiquadamente espere pela gente.

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Ele tinha momentos eventuais de silêncio que tornavam sua conversa um prazer. Não que sua atenção se perdesse num ponto qualquer ou ensimesmasse em introspecção – não era um homem de fugas. Quando falava sobre determinado assunto, desmanchava-se em adjetivos até não lhe sobrar nenhum, para, então, deixar-se estar reticente, como se o discurso continuasse em cavalgada própria, sem as suas palavras.
– As casas de Lisboa são sabiamente firmes, de uma engenharia robusta, altiva, arrojada… – silenciava fixo nela, libertando o subtexto para prosseguir mudo, paralelo, infinito. Como se seus olhos, então, pudessem guiá-la pelas muralhas seculares da cidade, pelas escadarias sinuosas esmaltadas com óleo de baleia, pelas ruas místicas e ruidosas ou por tantos outros pormenores que não seriam compreendidos pela cognição. Até onde iriam? Não há centímetro no mundo que não seja interessante – concluía.
Ele que, por ironia, nunca havia saído da terra onde nasceu, oferecia a ela o que não possuía: as lembranças de suas viagens futuras que, de fato, talvez nunca chegassem a atravessar a rua. Sem saber, entregava o mapa de um tesouro difícil, uma beleza que ela não reconheceria em lugar nenhum. Mas o roteiro já estava traçado. E ela cruzaria trópicos, continentes e oceanos, percorreria ilhas, campos e metrópoles, mas lugar nenhum lhe bastaria e ela sabia disso. Por que ouvi-lo falar de Lisboa era melhor do que Lisboa. Por que o mundo era ainda mais belo pelos olhos dele.

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Não sei como deu nisso, nunca fui de enfeitar pavão de ninguém, mas o certo é que a lagoa tá secando pra você, man, você sabe. Não tinha nada que dar uma de joão-sem-braço, fugir da raia, ficar na moita, isso não. Olha, todo dia de manhã eu fico aqui no espelho, você olha pra minha cara, eu olho pra tua, tu escova os dentes, tal e nada. Vai embora. Me olhar aqui dentro do espelho te deixa cabreiro, man, você tem medo de mim, tem medo de você, sei lá. Não faz nada. Você fica assim por que tem esse bicho te comendo por dentro, essa coisa, você não se perdoa, cara, é isso, você sabe que sua gente não é essa, que teu canto sempre foi outro, tu faz que não sabe mas sabe: você odiava tudo isso aqui, essa babaquice toda. Só que agora é diferente. Agora tu tá aqui. Esse mundo dá é volta, né, man? Pois é. Daí fica nessa pose de pinto pelado, rei-da-cocada-preta-e-podre como se seu pessoal não existisse. Nem mais, nem nunca. Qualquer dia esse povo vai embora, essa gente morre, sabia, man? Todo mundo. Vem um carro ou um tiro ou um tijolo que cai do nada e acabou, você abotoa o paletó e aí já era, danou-se tudo e, quer saber? Né ruim morrer não, man, ruim é quando morre alguém da gente. Por que quem vai não sente nada não, só dói pra quem fica aqui nessa miséria, cara, você vai ficar na maior nóia se alguém seu morrer agora, ninguém tá livre disso não, ó, eu nem quero ver quando você cair na real e a real desabar em cima de você, moleque. Eu sei que tu pira cada vez que eu digo essas coisas e que tu só não me quebra todo por que acha que dá azar, mas é tudo mentira, pilha, isso de azar não existe, só existe sina, sina de palma da mão marcada, tá tudo traçado desde o comecinho e você não se toca: tu anda, anda e não sai de onde veio. Isso não desaparta. Tu pode correr, chiar, pode bancar o menestrel e se acabar todo. Pode até fazer isso que tu tá fazendo, pode fugir. Mas tua gente fica no espelho, man, todo dia.

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Zion

E ele que não sabe nada, ele que não nasceu na Bahia, por acaso, por destino, perdido no nosso ensaio, show de suor e sodomia, o moço não sabe onde está, nêgo, na Babel miscigenada, Xanadú de purpurina, galera de navio negreiro em alto mar e à deriva que canta mais alto e mais forte e mais lindo e mais perto do céu e agora a gente dançando sobre a Zion vermelha, batucada, galhardia, multidão, massa, alvoroço, maré revolta que balança alucinada e o moço que se perde pra nunca mais, abraça, ri, chora, gargalha da festa mesmo que tardia, da febre coletiva e farta, inaugurada, descoberta, ele não nos conhecia, ele não se conhecia na Babilônia ritmada que ferve a cinqüenta graus e o chama a cada tambor feito sereia em cantoria, chão, caos e Carnavália, ele que não sabe nada, ele que não nasceu na Bahia.

Cena do fime Matrix III, cidade de Zion – do hebraico, Sião, a terra prometida.

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Sim, cansei. Não adianta. Ainda mais depois de sábado. Convenhamos, a gente leva anos para se tornar uma pessoa interessante. Decora poema de Vinícius, usa roupa da moda, aprende tudo sobre astronomia, política externa e o raio que o parta. Tudo para atrair dois ou três olhares entre os próximos mais próximos. E até alcança o intento. Até aparecer alguém como a minha amiga Vera.

Implacável. Inclemente. Acabando com a festa de todas as damas do recinto. Alguém capaz de reunir as atenções e os elogios masculinos sem nenhuma fraternidade pela nossa existência. Uma afronta.

Se Vera é bonita? Na verdade, não. Aliás, desde menina, Verinha sempre foi especialmente feia. Mas, bastava ela aparecer em qualquer evento com sua camisa da seleção e seu violãozinho debaixo do braço, que a roda se abria. Incrível isso. E era só dedilhar duas ou três notas para despertar a comoção geral: era o hino do Ypiranga Futebol Clube. E a tragédia estava instalada. Depois do terceiro hino de torcida organizada, a criatura já era preferência nacional, diva, unanimidade – e viva a Verinhaaaa!!! Os rapazes não se continham. À volta da privilegiada crescia o coro de “uma vez flamengo, sempre flamengo” ou “sou fluminense de coraçãããooo” que seguia sempre até alta madrugada sem dó nem piedade de nós, espalhadas pelo salão, indignadas. Já disse que a Verinha era feia feito a fome? Este mundo não é justo.

Era uma cantoria sem fim. E, no final da noite, lá estava ela bem acompanhada com um dos convivas, sempre cuidadosamente selecionado, enquanto os outros disputavam sua atenção contando, emocionadíssimos, as proezas de Sócrates, Pelé, Garrincha e outros indispensáveis do campo. Todos gesticulando muito por comoção e saudades de um futebol do qual, infelizmente, não foram contemporâneos – ah, não se faz mais um time como aquele, Verinha, não se faz não… – lamentavam juntos, doloridos, órfãos, pedintes. E nós, abandonadas em algum sofá de canto, já descalças e sem maquiagem, só lamentávamos a Nasa ter levado apenas um homem para a lua. Ao invés de ter levado to-dos.

Mas a melhor foi neste sábado. Era uma reunião na beira da piscina, música, tudo ótimo. E, como sempre, no melhor da festa, chega ela, para nosso susto, pânico, terror e desespero. Já disse que a Verinha era feia feito a guerra? Mas nem preciso contar o que aconteceu o resto da madrugada. Já na saída, arrasada, esbarrei com a própria no estacionamento. Engoli meu orgulho e a cumprimentei, puxando qualquer assunto só por puxar: e aí, Verinha, tem jogo no estádio amanhã, você vai? – e a contemplada responde distraída, sincera – Para o estádio? Fazer o que lá?

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“Toca meu ombro, olha nos meus olhos,
como nas canções de rádio.
Depois me diz – vamos embora para um lugar limpo.
Deixe tudo como está. Feche as portas, não pague as contas
nem conte a ninguém.” 
(Caio F. / Anotações sobre um Amor Urbano)

 

 Agora toca Nando Reis, toca Hermanos, toca Bethânia e qualquer coisa que toque neste maldito rádio só me mata mais devagar, mas deixa, me deixa sangrar um pouco mais repetindo, ai, onde eu estava com a cabeça? Eu nem sei quanto tempo faz. Esse futuro-do-pretérito ainda gira na minha sala com o que poderia ter sido, com as palavras lindas que não foram ditas, com tanto amor desperdiçado, você nem conhece esta história, mas te ver remar contra a maré do óbvio me ajuda a não sentir vergonha de mim, vergonha por insistir no erro de ainda trazer o peito aberto, pensando bem, a gente teima por ingenuidade ou é ingênuo por teimosia? Os inocentes do Leblon não sabem de você. Nem vão saber.

Giro o botão do volume como quem gira o do gás, hoje eu vou afundar até o fim com o meu navio, hoje eu não quero escapar disso que é tão inevitável para quem escolheu a intensidade e você sabe do que eu falo, esta intensidade absoluta e nítida de sangue denso, braços castos, você que se guarda como num conto e era uma vez num castelo distante onde a gente talvez se perguntasse sobre esse gelo nas mãos e a história mudasse de rumo tão naturalmente quanto isso de se olhar e se entender e ser inteiro numa conversa que nunca precisou de uma vírgula para acontecer, olha, não deixe que isso se perca mesmo que sua honestidade seja um dom que o mundo não merece, mesmo que o sonho não aconteça, é certo que a redenção vai vir com o Renato voltando do céu com um coro de anjos anunciando que vem chegando a primavera e o nosso futuro recomeça ou com os pianos de Noturno ou com o Alceu que já escuta os teus sinais ou com qualquer canção que faça tremer os lustres das sacristias e tome de arroubo as pessoas da sua rua tão estrangeiras ao seu modo de ser. Não, não precisa entender. Aumenta o rádio, me dê a mão, eu vou pagar a minha promessa de não deixar dor nenhuma pela metade, é o meu troféu, é o que restou: uma ou duas fotografias e a trilha sonora para uma década, os anos dourados que eu não vivi regidos pela filarmônica do improvável, como o refrão de um bolero, como cinema sem movimento. Você me pergunta pela minha paixão e eu não sei em que hora dizer, deixo assim ficar subentendido. A freqüência mais devotada ao sofrimento não vale este meu silêncio, não vale as ruas que ladrilhei para você passar, olha, este rádio ainda me mata. Apesar de tudo há um encantamento enorme nestes meus olhos rebeldes contra todos os males do mundo. Apesar de tudo. É uma noite longa para uma vida curta. Sim. Mas você pode ter certeza de que o seu telefone irá tocar.

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Antigas

Perdi o bonde da esperança.
Volto pálido pra casa.
(Drummond / Soneto da Perdida Esperança)

Não vá lá não, maninha, nem vá. Tira esse brilho dos olhos, aquieta teus pés. Guarda tua maquiagem na gaveta que hoje a noite é triste, que amanhã será mais, olha, eu preciso te dizer: do lado de lá do portão não há nada. Nos enganaram com histórias antigas, as nuvens são de chumbo, ninguém vai salvar ninguém do dragão. Nem de si mesmo. Larga essa tv, presta atenção, você não sabe de nada, esse fogo ilumina mas não aquece, é néon barato, pirotecnia besta, a luz no fim do túnel é só um trem no sentido contrário. Se o telefone tocar, não atenda. Se o correio bater, ignore. Se a tristeza invadir, ponha a mesa para três. Tantos livros na estante e felicidade ainda é palavra sem tradução, olha, abraçe a sua loucura antes que ela te escape, nossa causa perdida não está mais perdida do que nós, maninha, a gente não tem para onde ir, fica, vai lá não.

Desliga esse rádio e reza baixinho pelo nosso futuro que pulou da janela, o dia vai nascer daqui a pouco, espera, deixa ficar essa dor de noite escura. Inevitável. Como os impostos. A gente perdeu o bonde da esperança e só nos resta este chão de estação suja, vem, senta aqui, mas não fica assim, não chora. Coloca teu pijama, esquenta um chá para nós. Se guarda disso tudo, por que teu peito é frágil e o mundo dói demais. Tenta esquecer, por favor, tenta esquecer. Mas não chora assim, maninha, não precisa. Que eu já chorei um mar por mim e por você.

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Continuar

Deus há de escutar. Por que a vida que a gente leva, essa vidinha aqui, deve valer a as cicatrizes que deixa, apesar do cansaço, da mentira, do meu coração fatiado sobre a mesa, por que há a oportunidade de revanche de toda uma biografia, o éden prometido e chegado antes da hora, meu Deus, qual o preço do meu pedido? Eu quero tanto. No meu olhar de terra arrasada essa esperança insistente: de que, um dia, eu possa ser avó. Que Deus me conceda uma família com a dádiva dos netos – esses cristais que coroam a vida de uma mulher para sempre, esta promessa do milagre adiado que é tudo o que eu preciso para continuar.

Que venha a primavera do meu DNA espalhando-se em sapatinhos minúsculos, em cheiro de talco e brinquedos pelo chão, por que eles chegarão quase de repente, não demoram a invadir o lar que já é deles e serão donos de cada centímetro de mim. Enquanto meus filhos – terei-os também – ocuparem-se com os bons modos e a educação dos pequeninos, eu terei espaço para o incorrigível, por que ser avó é a experiência única do bem-querer sem exigências, gratuito, a minha vocação para a queda-livre, o meu destino para a avalanche irresponsável do amor incondicional. É claro que eu nasci para isso, podem ir trabalhar tranqüilos. Podem cuidar de suas vidas. Me deixem em paz com as crianças.

Delas serão as cantigas mais lindas, os caprichos mais banais e eu já posso ver Freud se retorcendo no túmulo, Piaget tendo convulsões, danem-se todos os estudiosos da pedagogia, por que meus infantes vão desenhar todas as paredes da casa e nem o teto será o limite. Os heróis de todos os contos terão seus nomes, nenhum lugar será longe demais e eu contarei a eles as histórias fantásticas do meu tempo – as que eu não lembrar, invento. Se eu souber fazer bolo, farei bolo, se eu souber fazer pipa, farei pipa, se eu não souber fazer nada, melhor, nos restará a curiosidade sobre a mesa da sala infestada e nós aprendendo juntos um mundo inédito, viscoso, complexo, ovos, trigo, manteiga, papel e esse fermento da alma que infla-se em questões impensáveis – eu também não sei como o pintinho respira dentro do ovo, querida, boa pergunta. As mãozinhas sujas tatuadas em mim e a surpresa infantil diante do esperado. Não batam na porta, não telefonem. Me deixem em paz com as crianças.

Elas virão – em cada bebê me chega um postal do futuro, em cada parque um tapete se estende e, apesar dos males de agora, eu devo, eu quero, eu posso continuar. Devo colar meus cacos outra vez e me guardar com mais cuidado na cristaleira mais alta, estarei pronta para esta valsa com a minha descendência como Evita estava pronta para a Argentina, como Elizabeth estava pronta para a Inglaterra. Neles, a minha nação. Enquanto o planeta gira sem rumo, florestas incendeiam e icebergs derretem, eu planto um jardim frondoso num pedaço do meu mundo e guardo cada pássaro com as duas mãos. Sobrevivo por que, um dia, Deus me dará a bênção dos netos. A bênção do envelhecimento maravilhado, da infância revisitada, da alegria prometida. A herança do amor para os que ficarão. Até o fim dos tempos. Amém.

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Baby, baby

– 2º Lugar no Concurso de Crônicas FDJ 2007.2 
– Texto selecionado para o roteiro da peça ‘Crônicas in Cena’, encenada em 2008

 

Eu tinha muito medo do fundo do poço. Medo de mergulhar na depressão profunda dos escritores amargurados, dos poetas niilistas, dos suicidas do romantismo. No íntimo, todo mundo sabe que a sanidade humana é bonde que vai e pode não voltar nunca mais, todo mundo tem medo dessa maré vermelha que, quando se aproxima, lota as salas de terapia, yoga, esoterismo, de qualquer coisa que possa salvar as pessoas de si mesmas. Salvar-nos do último degrau do subsolo. Eu tinha tanto medo. Mas não pude escapar.

O fundo do poço é só uma etapa. Isso de agora eu nem sei o que é. Depois de você, toda essa cidade maldita também se parece com o seu mosaico de fotografia mal colada, cartão-postal remendado: prédio, rua, carro, gente, tudo amontoado e feio. Tenho feito tanto esforço para não enlouquecer. Para não por mais uma vez o fogo sobre Roma, a peste sobre a Colômbia, o mar sobre a Indonésia, para não destruir tudo como se nada nunca houvesse existido. Tragédia nenhuma seria muito. Sangue nenhum seria demais.

É que, na miséria, todo mundo se parece. Chorando escondido no chão do banheiro somos todos iguais, baby, precários, bicho assustado que nasceu sozinho, vai morrer sozinho e, no intervalo entre uma coisa e outra, agarra-se à mão de outro por puro desespero. Não seja idiota, você também está só, toma a minha mão, há tão pouco tempo para nós.  Mesmo te odiando um pouco está tudo bem e eu acordo e tomo banho e escovo os dentes e tudo continua, acredite, eu não estou perdida, não mais do que ontem ou anteontem ou durante todos estes dias que têm se amontoado sobre as minhas costas.

A verdade é que, depois de apostar todas as minhas fichas, eu apostei os meus olhos, os meus pés, o meu coração, tudo. Eu tinha tanta certeza de que, quando estivéssemos aqui, você me abraçaria em silêncio, colocaria a mão sobre minha testa, me devolveria a fé, essa fé que é tudo o que eu preciso para me converter num ser humano iluminado. Talvez eu descobrisse essas coisas antigas de esperança e inocência que, eu sei, ainda restaram em algum lugar aqui dentro, e eu seria feliz te escutando dizer que este meu inferno não foi em vão.

Mas nada. Você aparece e fica me olhando com esses olhos mudos, com essas mãos no bolso, com essa cara de quem assiste a um filme russo sem legenda, ah, você não entende nada mesmo, baby. E nem adianta eu tentar explicar que foi por você que eu queimei meus navios e agora estou presa nessa ilha com a água até o pescoço ou te dizer que pensar com raiva que posso esbarrar com você em qualquer esquina a qualquer hora é a motivação que tem me arrancado da cama todos os dias. Amor é pretexto para falta de inteligência, eu não vou tentar explicar nada.

E fico aqui, acorrentada sobre o trilho do trem, cética com meus fones de ouvido em volume suficiente para me manter surda do mundo, escrevendo com força sobre o papel como escreveria sobre o mármore de uma lápide. Pra dizer o que? Que eu tive uma alma inteira pra dar. Que me arrancaram uma metade e o vácuo que ficou pode subtrair a outra. Pra você saber que eu te amei tanto, mas tanto, que sempre eu disser isso no tempo pretérito será uma farsa. É que isso não passa, ou é ou nunca foi. Não há próximo degrau, baby. A morte e o amor – eles não têm etapas.

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Afins

Não por acaso. O gosto por um mesmo filme, um ideal em comum. A mesma capa de caderno futurista ou o desejo gêmeo de viajar para conhecer aquela terra distante que quase ninguém ouviu falar, sim, duas ou três conversas e sabe-se. Entende-se. Sem querer, a gente descobre a afinidade.

A afinidade é um laço discreto, silencioso. É estar longe e seguir pensando parecido a respeito dos fatos do mundo que impressionam, comovem ou mobilizam, é ferver ao mesmo grau. É não ter que explicar uma idéia, justificar uma atitude, é aceitar antes de compreender as razões do outro – por que a razão é quase sempre supérflua mesmo ou por que, como traduziu Quintana, quem não compreende um olhar não vai compreender uma longa explicação.

Uma resposta adivinhada antes da pergunta e você se transfigura num ser humano compreendido, uma frase dita ao mesmo tempo e pronto: se está menos sozinho no mundo. A incompreensão é o exílio das minorias – só que todas as pessoas fazem parte da minoria em algum aspecto. Até que aparece alguém que não estranha a sua mania de roer as unhas, que usa a mesma boina listrada, que também é fã daquele ótimo saxofonista pop do sul do Paquistão. E a alma se acalma. Num planeta estrangeiro e ininteligível, você encontrou um ser humano como você, falando exatamente o seu idioma e com um sotaque igualzinho. O que pode ser mais acolhedor?

Só que falar de afinidade é também quebrar o pacto da afinidade, por que ela é silenciosa mesmo, mora nas entrelinhas. Por que a gente quase nunca diz a essas pessoas o quanto foi bom encontrá-las, o quanto o nosso mundo se fez menos árido e desértico depois da chegada delas. Com cuidado, a gente disfarça o nosso medo íntimo de que este encontro raro não resista à rotina atribulada, às impossibilidades da distância ou à chegada de outras amizades. Nos bastamos em agradecer baixinho a Deus por essa delicadeza do destino, essa sorte, essa dádiva que a gente vive junto mas não fala, talvez por que não saiba, talvez por que não precise. Entende?

Sim, você entende.

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