Não que fosse consumista. Muito pelo contrário: a família do interior nunca lhe incutira devaneios econômicos, só um pouco distinção no vestir e pronto. “Por que uma aparência bem cuidada é sinal de respeito”, diziam. Nunca esquecera. Sapatos limpos, meias alvas, unhas curtas, tudo nela era tão natural que tinha sua graça, o charme tímido da cara lavada sem malícia. E era fácil ser assim, simples. Até conhecer o vestido da vitrine.
Um luxo. Um luxo antes só imaginado, por que, naquela época, roupas assim não circulavam na cidade de onde veio, só existiam em ilustrações de contos infantis. Cinderela, talvez. Traje de gala dourado, longo, suntuoso, exuberante demais para a vida real. Ou para a vida dela. Aquela peça era seu oposto extremo, seu antônimo, seu convexo. Era a outra metade.
Reinando sozinho na vitrine, devia ser caríssimo, pensou. E era. Quanto do seu ordenado? Calculou só por curiosidade: metade do aluguel ou metade da mensalidade ou o custo das compras de supermercado e da conta de energia somados. Tudo por um vestido? Absurdo, absurdo, resmungou baixinho, quem daria isso tudo por uma roupa? Absurdo. Refez o cálculo, afinal, ele tinha saias sobrepostas, majestoso em tudo. Onde usaria um traje desses? Como ela mesma, sua rotina era simples. Não precisava de tanto. Ou precisava? Talvez fosse um caro possível, poderia dividir o pagamento – relativizou sem segurança, procurando outros parâmetros. Sim, poderia fazer aquela compra, com algum sacrifício. Mas, a troco de quê? Era custo demais por um vestido esplendoroso demais. Tudo nele era demais para aquela mulher sem excessos. Encolheu-se, resignada. Deixou a loja, tomou a rua. Dissipou-se.
Na volta pra casa, a chuva rala de um inverno urbano, cinza, cinza. O guarda-chuva preto, as botas de borracha. O asfalto, o cimento, os edifícios de concreto, o cair da noite escura. Um mundo opaco – como nunca havia notado. Da janela, ruminou sozinha pensamentos dispersos: seu quarto apagado. Depois, o desbotado do quarto ofuscado pelo dourado do vestido. Depois, tudo mais que ele traria consigo: o vermelho do batom, o brilho dos anéis, a pérola dos brincos, pingentes, pulseiras, unhas escarlate, o colorido das festividades que poderia vir a freqüentar só para merecê-lo. Sim, precisava merecê-lo. Precisava de salões amplos, escadarias, lustres barrocos. Precisava de valsa. Orquestra, violino, essas coisas. E também de um cavalheiro de fraque para acompanhá-la na dança, as anáguas balançariam lentas, perfeitas, foram feitas para isso. Eles deslizariam entre os casais e já era possível imaginar o reflexo dos dois multiplicando-se nos espelhos emoldurados, nas taças de cristal, na prata dos castiçais. Dentro de um vestido dourado mulher nenhuma é despretensiosa, riu-se involuntária, irônica – todo grande sonho beira mesmo o ridículo. Descobriu-se perplexa. Riu-se novamente. Abriu os olhos, o quarto escuro à sua volta, impassível. Já não pertencia àquele lugar.
Anda, anda, anda. A manhã fria na cidade louca e a velha bolsa apertada contra o corpo, ela atravessando as ruas apressada, a loja a três quarteirões. As folhas de cheque num envelope pardo, era muito, era demais e sua fome pedia enormidades. Ofegava. Na contra-mão do mar de pedestres sonolentos, ela abria caminho. Eram os primeiros passos na direção contrária das coisas. Sabia que iniciara algo irreversível e corria, corria, por que, às vezes, não há mais volta e só nos resta mesmo seguir em frente até o fim. Ela estava pronta.
Enfim, a rua. A loja, a vitrine, o vestido sozinho em seu reinado, em sua espera. Sob a luz do sol tudo era mais belo e mesmo o manequim de madeira perecia lhe sorrir estático. Sorriu também. O reflexo da própria imagem no vidro sobreposto à do tecido, visão da sua pele matizada em seda dourada. Era o princípio das cores. Aproximou-se com a cerimônia dos grandes encontros e, então, reconheceu nele um detalhe novo. Uma etiqueta discreta: vendido.
[…] telefone eram tudo que eu sonhei na vida. Por ironia, o conto em questão nos dois episódios foi o Luxo, uma história que começa bem, fica melhor e termina mal. Logo ele, que é uma paródia sobre as […]
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Eu amei amei amei amei esse texto.
Amei.
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Poooooooooooorraaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Nem sei o que dizer!
Posso dizer que estou surpreso, que seu texto superou minha espectativas.
Posso dizer que me emocionei demais com o que li.
Posso dizer várias coisas, todas elas vãs. Todas elas desnecessárias. Todas elas redundantes.
Todas elas pequenas perto da grandiosidade do que li.
Prefiro calar-me, pois não conseguirei tecercomentário à altura…
Parabéns.
Abração.
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Bem, só me falta perguntar KD O LIVRO? Vc está pronta, na minha ipnião não falta nada. Ainda vou pedir seu autógrafo. Um conselho: Não desista desta bela arte, o mundo precisa de pessoas assim, sensíveis quando ao q é belo. Parabéns!!!!!! A arte quando tocada dentro de qualquer SER, jamais é esquecida…
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Lindo, lindo! Emocionante. “Primeiros passos na direção contrária das coisas”
bj.
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Um dia, vou te ver na TV, dando entrevista pra algum programa sobre literatura, vou virar pra minha filha e dizer: olha filha, quando eu era muleque eu conheci Mariana Miranda…
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Assim você me quebra, negão.
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