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Archive for the ‘books on the table (literatura)’ Category

Na introdução de O Jogo da Amarelinha, Cortázar oferece um roteiro de leitura informando os capítulos que devem ser saltados para, depois, serem lidos em retrospectiva. Uma dinâmica de digressões que lembra mesmo um jogo de amarelinha. Aqui, alguns trechos do livro:

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“E repare que acabávamos de travar conhecimento e a vida já tramava o necessário para que nos desencontrássemos minuciosamente.”
Pág. 14

“Assim, tinham começado a andar por uma Paris fabulosa, deixando-se levar pelos signos da noite, adotando itinerários sugeridos por uma frase de chockard, por uma água furtada iluminada numa rua escura, detendo-se nas pracinhas muito íntimas para beijarem-se nos bancos, ou para olharem o jogo da amarelinha, os rituais infantis da pedrinha e o salto sobre um pé para entrar no céu.”
Pág. 33

“Em Milão, em Buenos Aires, em Genebra, no mundo inteiro, é inevitável, é a chuva e o pão e o sal, algo absolutamente indiferente aos ritos nacionais, às tradições invioláveis, ao idioma e ao folclore: uma nuvem sem fronteiras, um espião do ar e da água, uma forma arquetípica, algo de antigamente, de baixo, que reconcilia mexicanos e noruegueses e russos e espanhóis, que nos reincorpora ao obscuro fogo central já esquecido, que os devolve mal e precariamente a uma origem atraiçoada, indicando-lhe que talvez houvesse outros caminhos e que aquele que escolheram não era o único.”
Pág. 87

“Depois dos quarenta anos nós temos o verdadeiro rosto na nunca, olhando desesperadamente para trás.”
Pág. 112

“Eram contatos de galhos e folhas que se cruzam e acariciam de árvore para árvore, enquanto os troncos erguem desdenhosos as suas paralelas inconciliáveis.”
Pág. 121

“Em Paris, qualquer menção a alguma coisa que esteja além de Viena soa a literatura.”
Pág. 176

“Eu não me dei conta, fiquei para trás como os velhos que ouvem falar de cibernética e sacodem devagarzinho a cabeça, pensando que já está na hora da sopa de massinha.”
Pág. 324

“Tudo o que se escreve atualmente, e que vale a pena ler, está voltado para a nostalgia. Complexo de Arcádia, regresso ao grande útero, volta a Adão, o bom selvagem.”
Pág. 429

“Sinto, no máximo, a melancolia de uma vida demasiado curta para tantas bibliotecas. A falta de experiência é inevitável, quando estou lendo Joyce, estou sacrificando automaticamente outro livro e vice-versa.”
Pág. 459

“Aquilo a que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Como se pudesse escolher no amor, como se o amor não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio.”
Pág. 483

“Quando nos despedimos, éramos como duas crianças que tinham se tornado estrepitosamente amigas numa festa de aniversário e que continuavam olhando uma para a outra enquanto os pais as puxavam pela mão, arrastando-as para a rua.”
Pág. 485

(Julio Cortázar / O Jogo da Amarelinha)

Por fim, uma canção da banda Gotan Project lançada em homenagem ao romance. Letra da música feita com trechos do livro + tango eletrônico com coral de crianças = o melhor dos dois mundos.

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Portrai

“Quando você chegar em um lugar apertado e tudo for contra você, mesmo quando parecer que não pode aguentar nem mais um minuto, não desista. Então, essa será a hora e o lugar em que a maré vai virar.”

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(Harriet Beecher Stowe, abolicionista americana no livro Life Hack, 1851)

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O Ciúme (La Jealouise) - Philippe Garrel, 2013

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Trechos da obra O Spleen de Paris:

“Já viu alguma vez essas viúvas nesses bancos solitários, essas viúvas pobres? De luto ou não, é fácil reconhecê-las. Aliás, há sempre no luto do pobre algo que falta, uma ausência de harmonia que o torna mais pungente. É obrigado a economizar na dor. O rico ostenta a sua em grande estilo.” (pág. 44)

“Diga-me, minha alma, pobre alma arrefecida, que acharia de morar em Lisboa?” (pág. 48)

“Aquele que olha de fora através de uma janela aberta não vê nunca tantas coisas quanto aquele que olha uma janela fechada. Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais radiante do que uma janela iluminada por uma vela. O que se pode ver à luz do sol é sempre menos interessante do que o que se passa por detrás de uma vidraça. Neste buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.” (pág. 115)

(Charles Baudelaire / O Spleen de Paris)

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“Nunca, jamais diga o que sente.
Por mais que te doa, por mais que te faça feliz.
Quando sentir algo muito forte, peça um drink.”

(Caio F. / O Ovo Apunhalado)

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meme não entendo o que diz mas concordo com tudo

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nelson rodrigues frase

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Duas ou três aspas da coletânea (ou o que foi possível resumir, diante do impulso natural de querer transcrever a obra inteira).

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“Dá-me mais vinho, por que a vida é nada.” (Pág. 21)

“Às vezes, ponho-me a olhar uma pedra. Não me ponho a pensar se ela sente. Não me perco a chamar-lhe minha irmã. Mas gosto dela por ela ser uma pedra, gosto dela por que ela não sente nada. Gosto dela por que não tem parentesco nenhum comigo. Outras vezes ouço passar o vento. E acho que só de ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.” (Pág. 29)

“Quando vier a primavera, se eu já estiver morto, as flores florirão da mesma maneira e as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. (…) Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando não puder ter preferências. O que for, quando for, é o que será.” (Pág. 31)

“Os deuses são deuses por que não pensam.” (Pág. 37)

“Não só quem nos odeia e inveja nos limita e oprime. Quem nos ama não menos nos limita.” (Pág. 39)

“Se, em certa altura, tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita. Se, em certo momento, tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim. Se, em certa conversa, tivesse dito as frases que, só agora, no meio-sono, elaboro – se tudo isso tivesse sido assim, seria outro hoje e talvez o universo inteiro fosse insensivelmente levado a ser outro também.” (Pág. 65)

“O automóvel, que parecia a pouco dar-me liberdade, é agora uma coisa onde estou fechado, que só posso conduzir se nele estiver fechado. Que só domino se me incluir nele, se ele incluir a mim.” (Pág. 65)

“Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar e ao volante. Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação. Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra. Cada vez menos perto de mim.” (Pág. 69)

“Quem quer dizer o que sente não sabe o que há de dizer. Fala, parece que mente. Cala, parece esquecer.” (Pág. 92)

“Não sabemos da alma, senão da nossa. As dos outros são olhares, são gestos, são palavras com a suposição de qualquer semelhança no fundo.” (Pág. 105)

“Se alguém bater um dia à sua porta dizendo que é um emissário meu, não acredites. Nem que seja eu. Pois o meu vaidoso orgulho não comporta bater sequer à porta irreal do céu. Mas se, naturalmente, e sem ouvir ninguém bater, fores abrir a porta e encontrares alguém como que à espera de ousar bater, medita um pouco. Esse era meu emissário. E eu. E o que comporta o meu orgulho do que desespera. Abre a quem não bater à tua porta.” (Pág. 106)

(Fernando Pessoa / Tabacaria e Outros Poemas)

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Há clássicos que teriam sido os livros das nossas vidas se a gente apenas tivesse tido o prazer de conhecer dez anos antes. Esse vai entrar na lista dos amores retardatários junto com O Apanhador no Campo de Centeio, Franny and Zooey, On the Road, Espuma dos Dias e outros juvenis que causariam muito mais estrago se tivessem chagado à minha estante antes do manual de instruções da máquina de lavar.

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“Rústico, eu teria feito a viagem à Terra Santa. Tenho na imaginação as planícies do Danúbio, as vistas de Bizâncio, as muralhas de Solimão. O culto à Maria, o enternecimento sobre o crucificado se erguem em mim entre mil magias profanas. Estou sentado, leproso, entre vasos quebrados e urtigas, ao pé de uma parede descascada pelo sol. (…) A gente não parte, retoma o caminho.” (Pág. 21-23)

“De manhã, tinha o olhar tão perdido e um aspecto tão morto que os que me encontraram poderiam simplesmente não ter me visto.” (Pág. 25)

“Vou ser arrebatado como uma criança para brincar no paraíso, esquecido de toda a desgraça. Me digam, existem outras vidas?”
(Pág. 28)

“Sonhava com as Cruzadas, viagens de descobertas de que não existem relatos, repúblicas sem história, guerras de religiões esmagadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes: acreditava em todas as magias.” (Pág. 50)

“Amava o deserto, os pomares queimados, as vendinhas descoloridas, as bebidas quentes. Arrastava-me por ruelas mal-cheirosas e, de olhos fechados, me oferecia ao sol, deus do fogo.” (Pág. 55)

“A moral é a fraqueza do cérebro.” (Pág. 58)

“Tive de viajar, distrair os suplícios reunidos no meu cérebro. No mar, que eu amava como se ele me fosse salvar de uma sujeira, erguia-se a cruz consoladora. Tinha sido condenado pelo arco-íris. A ventura era a minha fatalidade, meu remorso, meu verme. (…) Volto ao Oriente, à sabedoria primeira e eterna.” (Pág. 63)

(Arthur Rimbaud / Uma Temporada no Inferno)

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“Sentia-me à vontade em tudo, isso é verdade, mas ao mesmo tempo nada me satisfazia. Cada alegria fazia-me desejar outra. Ia de festa em festa. Acontecia-me dançar noites a fio, cada vez mais louco com os seres e com a vida. Por vezes, já bastante tarde, nessas noites em que a dança, o álcool leve, o meu desenfrear, o violento abandono de cada qual, me lançavam para um arroubo ao mesmo tempo lasso e pleno, parecia-me, no extremo da fadiga e no lapso de um segundo, compreender, enfim, o segredo dos seres e do mundo. Mas a fadiga desaparecia no dia seguinte e, com ela, o segredo. E eu atirava-me outra vez.”

(Albert Camus / A Queda)

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