Não achei que esse dia chegaria. Não pra mim. Pensei que era privilégio de gente rica e, acaso acontecesse, certamente seria em outro cenário, numa cobertura em Bangkok onde eu estaria disponível para ler os e-mails mais desbaratados e brindar aos contratempos da fama. A verdade é que eu estou meio decepcionada por ter acumulado haters na internet antes de ter acumulado dinheiro.
Hater é um perfil de internauta que odeia tudo, critica tudo, acha tudo um absurdo. Um tipo de doido que existe desde sempre, só que tinha outro nome: era o chato. Online, ele pode se tornar agressivo, pedante e até criminoso, mas, na maioria das vezes, continua sendo só chato mesmo – persegue as celebridades, diflama os famosos e, em caso de tempo livre, incorpora esse caboclo de Henrique Oitavo também contra anônimos que não são ninguém na fila do pão. Motivo? Insira aqui a patologia da sua preferência.
Ano passado, esse tipo de entidade resolveu se manifestar na minha vida. Eu tinha publicado na minha página pessoal uma lista de restaurantes do meu gosto pessoal, com os pontos positivos e negativos de cada um de acordo com a minha opinião pessoal. Comecei recebendo e-mails de propostas de entrevista e contratos como redatora. Depois, de leitores me acusando de estar recebendo dinheiro daqueles restaurantes para falar sobre eles e Zzzz… Depois, intimações das casas concorrentes ameaçando processar, já que os critérios de escolha não foram divulgados publicamente. E dos próprios restaurantes da lista exigindo retratação pelos pontos negativos que eu apontei no artigo. E de gente ameaçando caçar meu DRT. Por fim, de leitores bradando que eu me desculpasse com a maioria da população brasileira que não frequenta estabelecimentos extorsivos e fazendo ameaças violentas por que eu era uma burguesa elitista capitalista desconectada com a realidade do país em crise cúmplice desta elite corrompida e eles sabiam onde eu morava, iam me pegar e eu ia MORREEEEEEEEERR.
Meses de ameaças.
BITCHS, PLEASE.
(Olha, devo confessar que achei tendência. Né? Tão John Lennon essa história de ser assassinada na porta de casa por um fã revoltado. Fiquei vaidosa. Mentira, eu fiquei preocupada. Sei lá, era um texto sobre restaurantes, respondi concordando com as acusações, mas solicitando um prazo, que só me assassinassem depois que eu escrevesse algo relevante, por questões biográficas e tal. Ninguém mais respondeu. Achei deselegante).
Agora tem gente de São Tomé e Príncipe que acessa as minhas colunas só para dizer que “brasileiro é tudo safado, maconheiro, puta e ladrão”. Tem português se rasgando contra a nova ortografia: “analfabeta, burra, bárbara, ignóbil”. Tem o moço de Macau que perde a linha quando eu falo de cinema: “quem está te pagando para publicizar esses enlatados americanos sua desgraçada vendida???”. Desafetos variados. Por que internet é isso, a democratização intelectual da Cracolândia. Se existisse uma versão Procon para pessoas, eu devolveria vários leitores. Minha única tristeza é pensar que, de fato, nunca recebi nenhum tostão para ser parcial em nada nesta vida. Infelizmente. É que nunca rolou nenhuma proposta realmente milionária. Levando em conta que eu não estou aceitando pressão de patrocinador barato, imagina pressão de internauta maluco que quer mandar na pauta absolutamente de. gra. ça? Desapega, Brasil.
Aí eu recebo os e-mails mais cabulosos e perco a fé na humanidade. Me imagino levantando da poltrona de couro, bradando para o mordomo ligar para o meu advogado imediatamente e, num acesso de fúria, jogando o iPad contra a parede e espatifando tudo em pedaços. Não demora para lembrar que sou pobre, que não posso quebrar nada e fico com essa sensação de que alguma coisa está fora de contexto por que, veja bem, eu tenho haters nos nove países de língua portuguesa, gente. Eu tô ostentando. Tem alguma coisa errada com o resto do roteiro, tem que rever isso aí.
Por isso, esse recado é para você, meu caro. Por hora, na falta de oferta relevante, tudo o que escrevo continua como está e quem manda nesta bosta sou eu, mas, caso você possua uma proposta atrativa, que inclua Bangkok e Chandon, favor entrar em contato, preencher o nosso cadastro e enviar o seu currículo. Caso contrário, pare de me escrever maluquices. Ter leitores é bom, ter muitos leitores é ótimo, ter leitores estrangeiros é fabuloso, mas ser popular na internet é como ser rico no Banco Imobiliário. Depois de acumular curtidas e comentários, eu não sei o que fazer com nada disso e confesso que estou meio decepcionada. Então, acho que já chega, né, companheiro? Troco seus acessos por cartelas de Gardenal. Sua participação por caixas de Rivotril. E, sobre a fama, prefiro a minha parte em dinheiro.