Publicado em gêmea má (maledicências) | Etiquetado desamparados, imigrantes, mariana miranda, pobres | Leave a Comment »
“Se olhares muito tempo para o espelho, acabas por ver um macaco.” (pág. 25)
“Atravessei os mares, deixei cidades ficar para trás e subi os rios ou penetrei pelas florestas e buscava sempre outras cidades. Possuí mulheres e joguei à pancada com os homens. E nunca podia volta atrás, como um disco não pode girar ao contrário. E tudo isso me leva aonde? A este minuto, a este acento, a esta bolha de claridade sussurrante de música: and when you leave me.” (pág. 32)
“Deve ser uma transformação tão grande. Se, um dia, eu fosse fazer uma viagem, acho que tentaria, antes de partir, notar por escrito os menores traços do meu caráter… e, à volta, compararia o que era antes com o que fosse depois. Li que há viajantes que mudam tanto que, ao regressarem, os seus parentes mais próximos não os reconhecem.” (pág. 43)
“Quando se vive, não sucede nada. Os cenários mudam, as pessoas entram e saem. Nunca há princípios. Os dias sucedem aos dias, sem tom nem som, é um alinhamento interminável e monótono. De vez em quando tira-se uma nota parcial, diz-se: há três anos que ando a viajar, há três anos que estou em Bouville. E fins também não há: nunca se deixa uma mulher de uma só vez, nem um amigo, nem uma cidade. E, depois, tudo se parece: Xangai, Moscou, Argel, ao fim de quinze dias, é tudo o mesmo. Em certos momentos – raras vezes – deitam-se contas à vida, percebe-se que estamos ligados a uma mulher, que nos metemos uma boa confusão. Como um clarão, o momento passa. Então o desfile recomeça, voltamos a alinhar as horas e os dias. Segunda, terça, quarta. Abril, maio, junho. 1924, 1925, 1926. Viver é isto.” (pág. 49)
“Dentro de quatro dias voltarei a ver Anny: esta é, por agora, a minha única razão para viver. E depois? Quando Anny me tiver deixado? Vejo bem que, pela calada, vou esperando: vou esperando que ela nunca mais me deixe. Devia saber muito bem, entretanto, que Anny nunca se sujeitará a envelhecer diante de mim. Sou fraco, tenho precisão dela. Gostaria de estar em forma quando a vir: Anny não tem piedade dos destroços.” (pág. 118)
“Tudo o que existe nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por encontro imprevisto.” (pág. 151)
“Tu és um marco – diz ela – um marco à beira duma estrada. Explicas impertubavelmente e explicarás toda a vida que Melun fica a vinte e sete quilômetros e, Montargis, a quarenta e dois. É por isso que preciso de ti. (…) Preciso que existas e que não mudes.” (pág. 155)
(Jean-Paul Sartre / A Náusea)
Publicado em books on the table (literatura) | Etiquetado a náusea, jean-paul sartre, literatura, livro, mariana miranda, trechos | Leave a Comment »
Publicado em gêmea má (maledicências) | Etiquetado louça, mariana miranda, vivo | Leave a Comment »
Comecei tentando abrir a porta de casa com as chaves do escritório e tentando abrir a porta do escritório com o controle remoto do carro. Depois, tentando acessar a caixa do Gmail com a senha do Bol (do Bol, cara, do Bol. Achei que manter um blog na internet seria a coisa mais 1990 que eu poderia fazer na vida, mas eu sempre me supero) e o fundo do poço foi começar a confundir os frascos e passar a me perfumar com repelente (Freud, me abraça).
Às vezes, eu fico olhando a minha volta, acho todo mundo tão inteligente e produtivo e fico pensando se não acontece com eles, no meio do expediente, tipo tocar uma música e eles se dispersarem, olhando para a janela fechada, se não acontece de estarem resolvendo algo realmente importante, mas gérbera é uma planta tão bonita, nossa, que bom que Deus inventou as gérberas.
Ser doido dá tanto trabalho.
Publicado em havaiana de pau (day life) | Etiquetado bol, dia a dia, dispersão, distração, mariana miranda, pensamento | Leave a Comment »
.
.
Claire e Justine são irmãs. E Melancolia é o nome do planeta azul que, segundo evidência científicas, deve se chocar com a Terra e destruir a humanidade em poucos dias. Claire faz de tudo para evitar a catástrofe, tenta fugir, proteger a família, criar um abrigo subterrâneo, convocar as autoridades. Ela procura uma saída. Já Justine respira fundo, olha para o infinito contemplativamente e quer mais é que o mundo se exploda.
Este é o roteiro básico do longa Melancolia (2011), de Lars von Trier. Um filme-catástrofe onde não dá para esperar o óbvio – é, antes de tudo, uma catástrofe familiar mesmo. Uma metáfora sobre como cada um reage diante do inevitável. Lembrando que o apocalipse está disfarçado de planeta azul – em inglês, “to feel blue” é estar triste ou deprimido. E o Melancolia vai atingir a todos. Ninguém pode escapar.
Na cena, o astro desgovernado abre caminho entre as nuvens e a expectativa ganha tons de drama épico, por que toca Wagner num cenário fabuloso. Mas faz pensar também sobre o destino de cada um de nós, onde as tragédias chegam sem tanta apoteose – o planeta azul pode ter qualquer nome, ele é tudo o que não se pode evitar. É uma analogia sobre o vazio dessa vida curta e besta. É isso de nascer para morrer e, ridiculamente, ainda tentar se manter ocupado e útil entre uma coisa e outra.
Do ponto de vista médico, a palavra “melancolia” designa um tipo desesperança patológica. Do ponto de vista psíquico, é uma sensação de impotência generalizada. Do ponto de vista da astrologia, é a nossa nostalgia de Saturno. Do ponto de vista de Lars von Trier, é apenas uma hecatombe sobre a humanidade. Se a gente levar em conta que 350 milhões de pessoas no planeta sofrem de depressão, esta nem é uma definição assim tão dramática.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), esta será a doença mais comum do planeta em 2030. Os deprimidos já representam metade dos suicidas do mundo, são 850 mil mortes por ano – há quem entregue os pontos, como Justine, só 10% procura ajuda, como Claire.
Apesar dos números apocalípticos, a tragédia anunciada por Lars von Trier não foi entendida por todos. O público achou o filme difícil, a crítica achou o roteiro confuso. Talvez seja mesmo. Cheio de subtextos, indireto, complicado – acho que as pessoas mais interessantes também o são. A verdade é que a doença em si também segue incógnita, pouco compreendida e o pior: sem cura. Tudo que temos, hoje, é esta sensação de que uma rápida epidemia cresce, de que estamos à beira de um abismo profundo. De que o planeta azul já faz sombra sobre a Terra. Numa estranha sala de espera para o fim do mundo.
Publicado em Sem categoria | Leave a Comment »
Publicado em na minha rolleiflex (fotos), vasto mundo (viagens) | Etiquetado alpes, bled, Eslovênia, fotos, julianos, lago, viagem | 1 Comment »
While My Guitar Gently Weeps, 2010
Publicado em choro baldes (arte) | Etiquetado beatles, clip, maariana miranda, música, santana, While My Guitar Gently Weeps | Leave a Comment »
“Quem não tem amor no mundo
Não vem neste lugar.”
(Santorini Blues / Herbert Vianna)
.
.

(Oia, Santorini, Grécia, 02 e 06 de junho de 2015, 25 graus)
Publicado em na minha rolleiflex (fotos), vasto mundo (viagens) | Etiquetado fotos, grecia, ilha, mariana miranda, oia, paraíso, praia, santorini, viagem | Leave a Comment »
“Há um pássaro azul no meu coração que quer sair, mas eu sou demasiado duro para ele e digo, fica aí dentro, não vou deixar ninguém ver-te. Há um pássaro azul no meu coração que quer sair, mas eu despejo whisky para cima dele e inalo fumo de cigarros e as putas e os empregados de bar e os funcionários da mercearia nunca saberão que ele se encontra lá dentro. Há um pássaro azul no meu coração que quer sair, mas eu sou demasiado duro para ele e digo, fica escondido, queres arruinar-me? Queres foder-me o meu trabalho? Queres arruinar as minhas vendas de livros na Europa? Há um pássaro azul no meu coração que quer sair, mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite, por vezes quando todos estão a dormir. Digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. Depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar. Mas eu não choro. E tu?”
(Charles Bukowski / O Pássaro Azul)
Publicado em Sem categoria | Leave a Comment »
Publicado em gêmea má (maledicências) | Etiquetado Albert Einstein, calcular, espaço, mariana miranda, tempo | Leave a Comment »


















