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Uprising

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Protesto político + MTV + drogas pesadas = ursinhos de pelúcia do mau.

Metas


– A minha meta é ganhar um milhão de dólares.
– E a minha é gastar um milhão de dólares.

(Mauro Lima/Meu nome não é Johnny)

Atualmente, devido a deveres profissionais, sou obrigada a ler superficialmente uns dez jornais toda manhã. O que não é grande coisa, se a gente levar em conta que vários publicam mais ou menos os mesmos assuntos e que, depois de algum tempo, é possível identificar certa repetição diária de fatos – acidentes, inaugurações, crimes, descobertas científicas – que me fazem pensar sobre a irrelevância da existência humana sobre a terra. Enfim. É o mundo se repetindo, assim como a minha vida pessoal se repete: saio para o horário de almoço, sendo na poltrona do café Grão de Ouro, abro o jornal e fico rabiscando notícias aleatórias todo santo dia. Às vezes, com alguma empolgação. Quase sempre, sofrendo de um misto de tédio e solidão devastadores.

Nesta quinta chovia canivetes em Salvador, eu afundava numa das poltronas do café, girava a colherinha dentro da xícara e aguardava. Nada, nada. O peito apertado, apertado, doía tão fundo. Ainda que, objetivamente, não houvesse motivo para isso, visto que a minha vida, nos aspectos mais diversos, caminhe lentamente numa direção aceitável, numa marcha branda de êxitos pequenos de quem só pode viver um dia de cada vez. Tudo ia bem, nada de novo sob o sol. E aquilo ainda ardendo, ardendo louco dentro do peito.

Foi então que eu arrastei os olhos desinteressados sobre a página do Estadão e um título falava de Atlântida, o continente perdido. A notícia contava que, depois do terremoto no Japão e das mudanças geológicas que ele causou, está emergindo do fundo do mar o território de Atlântida. Reza a lenda, confirmada por Platão, de que este foi um lugar paradísíaco aonde uma civilização muitíssimo avançada viveu até o século 9000 a.C., quando a ilha foi engolida por um maremoto. Assim, como se, por exemplo, esse último abalo tivesse liquidado todo o Japão. Ninguém sobreviveu. Desde então, no mundo inteiro, viajantes descendentes enlutaram pela pátria perdida, obras de arte homenagearam a sua prosperidade, foram construídos mapas para reencontrar os tesouros perdidos no mar e, vários séculos depois, ninguém sabia mais a localização exata do continente. Pior: já não se sabia se o continente realmente existiu ou se era fruto da imaginação dos antepassados, tão dados a mitologias.

E Atlântida foi virando ficção. Virou nome de filme em Hollywood, de boite em Milão, de parque aquático em Fortaleza. Virou tema de festa à fantasia. Virou piada.

Até esta quinta-feira. E eu me emocionei lendo sobre o continente redescoberto, depois de quase três mil anos de descrédito. Estava ali, há alguns quilômetros do sul da Espanha, sempre esteve ali. Nas fotos no jornal – escadarias debaixo d’água, pontes submersas – estava a ilha de prosperidade, o paraíso perdido, a pátria que deixou órfãos no mundo inteiro, em embarcações sem ter para onde voltar. E me comoveu a alegria dos geógrafos e dos cientistas dizendo – I’ve always believed, always believed!

Foi, então, que eu recostei enrolada no moleton, respirando fundo depois da chuva. E fechei o jornal. E, fosse o que fosse aquele nó no peito, – aperto, dor, sede – ele ia se desfazendo como um laço frouxo, pronto para desatar. Por um momento, sabe-se lá por quê – já que tudo que vem sem motivo, também vai sem razão – eu fiquei bem. Repetindo a frase dos cientistas, pensando no povo de Atlântida, nos viajantes regressos, em tanta gente que já tentou voltar para um lugar que não existia mais. Naquela gente que navegou, navegou à deriva, buscando na memória o caminho de casa, mas não havia nada lá. E ficou esfregando os olhos, duvidando da própria sanidade. Por que, às vezes, a resposta certa é a mais absurda – meu Deus, as escadarias debaixo d’água! – eles estavam no lugar exato, mas bússula nenhuma poderia mostrar.

E aquela notícia me acalmou o peito. Pelas tantas vezes em que olhei em volta e não havia nada, nada, nada. Por que era preciso mergulhar mais fundo. A resposta existia. Ela sempre esteve lá.

Baldio

Vira-lata, baldio, surrado. Acho que só quem também anda meio perdido na vida reconheçe esse olhar, assim, fácil… rs.

Ontem eu tive a sorte de reencontrar um bom e velho amigo. E, como amigo antigo é uma espécie de HD externo das nossas piores memórias, ele fez questão de me lembrar de uma história ocorrida lá em mil-quinhentos-e-verão-de-95. Faz tempo.

Eu era adolescente e tinha um grupo grande de amigos no bairro, um grupo enorme. Dentre eles, um amigo bem chegado que vamos chamar de Chiquinho. Chiquinho vivia indo com o pessoal lá em casa, todo mundo se dava bem e a galera se encontrava dia sim, dia também. Afinidade mesmo. Aí teve umas férias em que eu precisei viajar e passei um mês fora. Mal desembarquei de volta em Salvador, saí pelo quarteirão pra ver se reencontrava alguém.

Aí eu encontrei Chiquinho. Assim, vestido diferente, todo gaboso, andando com uns amigos novos. Não me contive, claro. Banquei a baixo-astral-de-Brotas e atravessei a rua gritando, fazendo festa, levantando as mãos e esperando um abraço apertado depois do exílio. Foi então que Chiquinho me avistou, levantou as sobrancelhas e disse: olá, tudo bem? Assim, GELADO. Indiferente como uma cadeira. Com uma cara de Monalisa, como se não me conhecesse. E os novos amigos dele ali, parados, me olhando.

Eu. queria. sumir.

Nem sei como não errei o caminho de volta pra casa. Não entendi nada, fiquei mal, primeiro eu queria compreender a reação de Chiquinho, depois eu queria MATAAAR Chiquinho. Aí comecei a conjecturar sobre o que poderia ter acontecido na minha ausência, sei lá, como ele cultivou novas amizades, assim, em apenas um mês? Plantou com feijão no algodãozinho? A gente se conhecia há tanto tempo, ele tinha bancado a Greta Garbo comigo e aquilo não ia sair barato. Ah, não ia não.

A verdade é que um dos aspectos mais banalizantes da vida é essa capacidade que algumas pessoas têm de nos mostrar o quanto nós somos substituíveis. E, no fundo, todo mundo é. Acho que eu até aceitaria bem se alguém me evitasse por que eu sou especial, possuo uma característica negativa e sou alvo de desafetos específicos. Mas é difícil explicar para o próprio ego que alguém só te desprezou por que conheceu uma galera mais legal jogando vídeo-game.

No dia seguinte, eu estava andando na rua e avistei o próprio no portão da casa dele. Céus, eu queria ver o capeta chupando manga de ceroula, mas não queria ver Chiquinho na minha frente. Antes que eu pudesse dar meia volta, ele veio correndo – Mirandaaaa!!! – numa demonstração de afeto tardia e despropositada que só piorou tudo – Ué, garoto, agora você me conhece??

Diante da cara de desentendido do mancebo, desatei a falar. Tenho uma memória vaga dos adjetivos que lhe emprestei, passando do A, de antipático, até o Z, de zé mané. Oh, complacentes leitores, entendam: eu estava magoada, ofendida e perigosamente munida de razão. Não tive piedade. E a cara de bobo do rapaz foi se convertendo num semblante conformado de quem sabia que a coisa havia degringolado de vez e que não adiantava se defender. Nem tentou. Ouviu tudo calado, cabeça baixa, a face do consternamento talhado em bronze e remorsos. Um réu confesso. Toda punição era pouca, castigo nenhum era demais.

Só quando eu terminei, Chiquinho levantou os olhos, abriu o portão devagar e disse:

– Agora entra aí, eu vou te apresentar o Alvinho, meu irmão gêmeo.

Hoje eu estava pensando: o Orkut está sendo sucateado e, se ele for mesmo substituído pelo Facebook, eu terei que migrar pra lá e serei obrigada a abandonar todas as minhas comunidades – tenho preocupações muito relevantes, vejam bem.

É que, no Facebook, não há comunidades. E ainda não inventaram forma mais prática de identificar afinidades entre recém-conhecidos. Por exemplo, eu sou apresentada a uma média de cinco pessoas por semana – no meu mundo ideal, todo mundo teria suas comunidades descritas no RG!

Enquanto o número de spams no Orkut avança para a demência, o êxodo galopa para o irreversível e eu começo a me sentir sozinha por que o povo está guardando seus brinquedos e indo embora do play, decidi reunir as dez comunidades mais legais da rede para apresentar para vocês – um desses louváveis trabalhos de biólogo que cataloga as espécies antes da extinção:

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   1. Ar de violonista decadente – De quem já tocou a última música e agora agoniza esperando o cortejo fúnebre de sua morte ser embalado por outro violino sussurando aos prantos a dor da perda.

   2. Comunidade do eu sozinho – Essa comunidade é só minha. Saia por favor.

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 3. Pessoas loucas que sugem – Do. na. da.

 

4. Discutindo com classe – Só queria te dizer que eu te odeio, que sua presença me faz mal, você é repulsivo, irritante, metido e arrogante…  Se me ver novamente me ignore, não dirija a palavra a minha pessoa, estamos entendidos? – EU VOU MATAR VOCÊ!!!!! – Ok, mas agora preciso ir, beijosmeliga.

 5. Estado civil: desinteressado – bode das pessoas, preguiça de conversinhas sem nenhuma capacidade mental e/ou intelectual, indiferença, tanto faz, apatia, não tô em casa nem tenho celular: não quero.

6. Amigos que confundem os pais – Qual o nome daquele seu amigo que eu vi ontem com você? – Aquela era a Dô, namorada do Ronald. – Hummm, e quem era aquela loira com com vocês? – Era o Ronald.  – (Medo de fazer mais perguntas…)

  7. Não tô em casa – Hey… você ta ai? Tereza? eu sei que você tá aí… o porteiro falou… vai Tereza… tô vendo sua sombra por de baixo da porta, idiota… Tereza… abre logo… acabou a graça… tô vendo seu olho no olho mágico, porra… TEREZA!! ok… então não abre… me deixa aqui fora. Abre logo… porra, Tereza, abre, tô com frio… CARALEO!! – (Mãe, fala que eu não tô).

  8. Abandono crianças no supermercado – Senhora Claudete, sua filha a aguarda no atendimento ao cliente. (5 minutos depois…) Senhora Claudete, sua filha a aguarda no atendimento ao cliente. (10 minutos depois…) Senhora Claudete, sua filha a aguarda no atendimento ao cliente. (20 minutos depois…) Senhora Claudete, sua filha… –  Se livrando de estorvos e movimentando a economia local.

  9. Hoje eu tô fácil – Aproveite a grande oportunidade da sua vida.

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10. Essa amnésia é que… – que… é… hum… oi, tudo bom?

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Eu também não sei como vou viver sem elas.

Um minuto de silêncio, por favor.

Apocalypse Now

Eu falei ontem que “o fim do mundo estava ligeiramente atrasado”, né?

Esqueçam o que eu disse.

(11/03/2011, Japão)

Pois, pois…

“- Se você não tivesse vindo – ele disse – não teria me visto nunca mais.

Meme sentiu o peso da sua mão no joelho e soube que ambos chegavam naquele instante ao outro lado do desamparo.

– O que me choca em você – sorriu – é que sempre diz exatamente o que não deveria dizer.”

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(Gabriel Garcia Márquez / Cem Anos de Solidão)

Mrs. Dolloway

Esse livro conta sobre um grupo de amigos que se reencontra trinta anos depois. Todos à beira dos sessenta, reunem-se numa festa na casa de uma das senhoras. O narrador vai mudando de personagem como um grilo da consciência que pulasse de ombro em ombro dando voz aos pensamentos de cada um – a amizade, o medo da morte, a sombra do pós-guerra. O nome da anfitriã é Clarissa Dolloway. Os nomes dos convidados… não vem ao caso.

O filme As Horas (2002), inspirado nesse livro, não narra a mesma história. O filme conta o laço fictício entre três mulheres que viveram em épocas diferentes: a escritora (Virgínia Woolf), a personagem protagonista desse romance (Clarissa) e uma leitora (Laura). Cada uma com sua personalidade, suas características.

Já o livro original concentra tudo numa pessoa só. Na personagem completa, a senhora indefectível, a dona da festa. A melhor heroína de Virgínia Woolf. Acho que toda mulher queria ser um pouco Mrs. Dalloway.

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“Importava mesmo que tivesse que desaparecer um dia, inevitavelmente? Tudo aquilo continuaria sem ela. Sentia-o? Ou seria um consolo pensar que a morte acabava com tudo absolutamente? Ou, de qualquer maneira, pelas ruas de Londres, no fluxo e refluxo das coisas, talvez sobrevivesse, Peter sobrevivesse, talvez um no outro, ela fazendo parte, estava certa, das árvores da casa. Daquela casa ali, tão feia, toda caindo em pedaços como estava. Juntando uma parte da gente que nunca havia se encontrado.”

“Tenho alguma coisa em mim, pensou, parado junto a caixa postal, que podia dissolver-se agora em lágrimas.”

“Considerando aquela longa amizade de quase trinta anos, dir-se-ia confirmada a teoria de Clarissa. Por breves que fossem os reais encontros, breves, acidentados, até constrangedores, com todas as suas ausências e interrupções, o efeito que haviam tido na vida dele era, de fato, incomensurável. Havia um mistério naquilo. Clarissa o influenciava mais do que qualquer pessoa conhecida.”

“O jantar, as pessoas, tudo aquilo não era mais do que um cenário para Sally. Mas nada é tão estranho, quando se ama (e que era aquilo senão amor?) como a completa indiferença dos demais.”

“Assim como num dia de verão as ondas se juntam, se levantam e caem; e o mundo inteiro parece estar a dizer “é só isto”, cada vez com mais veemência, até que o próprio coração no interior do corpo deitado ao sol na praia diz também: é só isto. Não tornes a ter medo, diz o coração.”

“- Eu também vou – disse Peter, mas deixou-se ficar sentado, um momento. Mas que terror é esse? Pensou consigo. Que êxtase me vem? Que é que me enche de tão extraordinária excitação? É Clarissa, descobriu. Pois ela ali estava.”

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(A Última Festa / Marleen Gorris, outro filme também inspirado em Mrs. Dolloway)